Ponte a Portu-Gal

Muito em breve, de 20 a 23 de abril, o município de Ponte Areias organizará uma semana cultural galego-portuguesa. O mês de abril é mesmo assim, já sabem, carregado de programação e atividades. Ponte Areias é um desses lugares sobre os quais ainda nunca tinha escrito neste blogue, então, sentir que o círculo é cada vez maior é sempre gratificante.

Ponte a Portu-Gal procura exibir as manifestações culturais comuns dos dois lados do Minho.

  • Na quinta, dia 20, Sala Multiusos do Auditório Municipal com a inauguração, às 20:30 h, da exposição fotográfica ‘Aos Olhos de Eduardo’ do fotógrafo Eduardo Teixeira Pinto.
  • Na sexta 21, às 21h (que fácil!) na mesma sala do auditório haverá a projeção do documentário Galegos em Lisboa de Xan Leira. Como eu gostaria de ver isto, ia curtir imenso!
  • No sábado 22, às 20h na sala do auditório temos mais um documentário, Mulheres da raia, de Diana Gonçalves, e a seguir haverá um colóquio com a realizadora.
    • às 22hh há um concerto de Galandum Galundaina (Miranda do Douro, Portugal) e Caxade (Galiza)
  • No domingo 23 temos o encerramento destas atividades. Para acabar à grande e à francesa às 18h30 sairão da Câmara Municipal as bandas Longos Vales (Portugal) e Agarimos da Terra e percorrerão as ruas do lugar até chegarem novamente ao auditório, onde serão recebidos por dois cantores do desafio: Augusto Canário e Luís Caruncho.

Alinhem! Abril sempre!

Uma Galiza em Lisboa

(Este artigo foi publicado hoje em A viagem dos argonautas com motivo do Dia das Letras Galegas. Faço reblog para cá. Muito obrigada a todos e todas as argonautas, nomeadamente a Ernesto Vázquez Sousa)

Talvez por sermos um país pequeno, talvez pelo próprio trauma que as migrações significaram para a Galiza, desde sempre, galegos e galegas tentámos evidenciar quais foram os contributos culturais que por lá deixámos. É muito frequente e até diria que é um tópico folclórico ouvir dois galegos a conversarem e atribuírem uma série de inventos, triunfos ou descobrimentos a diversos compatriotas. Assim sendo, assumimos que os matraquilhos são um invento galego e até temos a teoria de falar de Colombo como possível galego.

Na nossa literatura há imensos escritores e escritoras que trataram o tema dos êxodos: Rosália de Castro, Castelão, Celso Emílio Ferreiro…e mentalmente há para nós um espaço dedicado a países como a Argentina, Uruguai, Cuba, Brasil, Alemanha, França…

Houve um outro movimento migratório, que por ser pouco falado, parece inexistente. Falo da migração galega à região de Lisboa.

Na região de Lisboa a presença de galegos era já antiga por causa da reconquista cristã. Galegos vindos das rias faziam naquelas terras de salineiros.

Como mostra da presença galega, há hoje inúmeros topónimos no Sul de Portugal que rememoram as terras galegas. Um facto curioso aconteceu com o município de Montijo, que antes de 1930 era conhecido como Aldeia Galega do Ribatejo. O nome foi mudado, mas a saudade deveu ficar porque cada setembro fazem o evento Feira Quinhentista de Aldeia Galega, onde fazem uma viagem ao passado.

Depois do sismo de 1755 que destruiu a cidade de Lisboa, era necessária mão de obra para poder reconstruir todas aquelas infraestruturas que faltavam. Em 1800 os galegos os galegos imigrados em Portugal eram 80.000 e na altura, um décimo da população da cidade era galega.

os-aguadeiros-galegosOs galegos dedicavam-se a pequenos trabalhos: venda ambulante, levar e trazer encomendas e fazer mudanças…Dizia-se então que dois galegos e uma corda eram capazes de transportar quase toda a mobília de uma casa num só dia. Disto que no português perdurem hoje expressões idiomáticas como trabalhar como um galego.

Havia uma profissão em destaque onde galegos tinham quase o monopólio: os aguadeiros. Ainda não há muito li num blogue uma frase “Nós fizemos fortuna a vender aos lisboetas a água… que era deles”. Passe a ironia, o ofício de aguadeiro era muito duro porque supunha levar às costas barris pesados até os lugares mais longínquos da capital portuguesa. Não demorou em chegar o lucro e com ele nasceram outro tipo de negócios: tabernas, casas de pasto…estas atividades comerciais exigiam menos esforço físico. Também a canalização da água não ia permitir que o negócio do transporte da água durasse muito mais.

A presença galega era tanta que no Chiado havia um largo chamado Ilha dos galegos. No período colonial muitos portugueses puseram nomes de lugares que eles conheciam a outros que colonizaram. Acontece que a Ilha dos galegos não é conservada no Chiado, mas é hoje o nome de um largo em Maputo, Moçambique.

Culturalmente em Lisboa é facilmente reconhecível a presença árabe, romana…mas é difícil discriminar em quais elementos da identidade lisboeta foi decisivo o fator galego. Como identificar isto quando religião, língua e tradições são as mesmas? Mesmo assim, podemos evidenciar vestígios culturais muito importantes. Lisboa fala também da Galiza, há que saber ouvi-la.

A 15 de janeiro festeja-se na cidade o Santo Amaro, santo padroeiro dos galegos em Portugal. ginja-espinheira-com-elas-07l-ginja-ginjinhaA capela de Santo Amaro, na freguesia de Alcântara, foi mandada construir por uma colónia de marinheiros galegos em cumprimento de uma promessa feita e como proteção perante os naufrágios. Todos os anos a cada 15 de janeiro lá iam os galegos em alegre romaria. Hoje a capela está um bocado degradada e só tem culto no primeiro domingo de cada mês.

Mas há ainda testemunhos vivos que são marcas de identidade até para qualquer alfacinha.

Quem não foi a Lisboa e bebeu lá uma ginjinha? No Largo de São Domingos podemos encontrar a Casa Espinheira, fundada em 1840 pelo galego Francisco Espinheira. Este comerciante soube levar o sabor da ginja às ruas e comercializá-la em grandes quantidades.

Se palmilharmos bem a cidade, poderemos ver as pegadas que deixou Agapito Serra Fernandes. O bairro da Estrela d’Ouro, entre a Graça e Senhora do Monte, é uma vila operária projetada por este comerciante abastado de origem galega.

ip0001162A estrela que dá nome ao bairro é um motivo que aparece em calçadas, capitéis e azulejos.

Serra Fernandes pensou neste empreendimento para alojamento dos trabalhadores das suas confeitarias e as famílias deles. As ruas deste bairro operário, de facto, têm os nomes dos descendentes da família Serra Fernandes e dos empregados. Nenhum pormenor foi esquecido e até dotou de cinema este bairro. O antigo cinema Royal, hoje um Pingo Doce, foi o primeiro cinema português que passou filmes sonoros.

Deixando de parte a Reconquista e o século XIX, a história recente lisboeta também tem páginas onde nomes galegos aparecem. Num processo tão importante para Portugal como o final da ditadura temos lá também a figura de Manuel Durán Clemente, capitão na Revolução dos cravos e atual membro do CDU.

No trabalho prévio de encontrar fontes fiáveis para este artigo, dei com as palavras do historiador Xan Leira que são uma síntese do que eu quero transmitir hoje. Partilho-as convosco: “As pegadas da emigração galega a Lisboa são tão importantes que penso eu que não se poderia compreender o ser lisboeta sem a costela galega”