Grândola na USC

Neste blogue temos falado sobre conexões históricas entre a Galiza e Portugal no 25 de Abril. Celeste Caeiro ou Durán Clemente ocupam muitas linhas dos nossos posts. Uma conexão histórica é também o facto de que o hino da revolução portuguesa fosse estreado na USC no ano 1972, e este é um dado que muitas pessoas desconhecem. Não é por acaso que tenhamos no coração do câmpus compostelano centros sociais e parques com o nome do cantor do Grândola.

Neste 2022 fazem-se 50 anos daquele concerto emblemático e nesta terça às 19h a Faculdade de Filologia da USC organiza uma homenagem. Deixo-vos cá o cartaz com o programa.

O ato tem duas partes. Como abertura haverá um colóquio entre diferentes testemunhas ou responsáveis daquele concerto do Zeca em Compostela. Zélia Afonso (viúva do cantor), Maite Angulo (fez parte do grupo de estudantes que organizou o concerto), Emilio Pérez Touriño (que apresentou aquele evento), Francisco Fanhais (presidente da AJA) e Suso Iglesias, jornalista que conduzirá o colóquio.

A parte mais festiva será apresentada pelo Carlos Blanco e contará com as vozes da Uxía, João Afonso (sobrinho do cantor), Nacho-Faia-Lar, Couple Coffee e Xico de Carinho.

Prémios Nobel da Literatura…brasileiros e brasileiras?

Este artigo é uma otimização de recursos. Faz parte de um trabalho académico de uma disciplina que estou a estudar atualmente.

A professora pediu-nos esta semana, a semana do Nobel, que déssemos quatro nomes. Quatro candidatos e candidatas brasileiros a essa honra e explicássemos os nossos motivos.

Antes sequer de começar as pesquisas para iniciar este trabalho, decidi investigar os requisitos para uma pessoa chegar a ser Prémio Nobel de Literatura. Isto era uma questão incontornável.

Depois disto, veio imediatamente uma outra curiosidade, porque é que o Brasil sendo uma potência literária e um país continental nunca ganhou antes um Prémio Nobel. Aí cheguei a este artigo, que apontou várias questões interessantes sobre hábitos de leitura e deu a pista de vários nomes. Mas não quis ficar só na tona. 

Debrucei-me sobre os apontamentos das aulas, os temas abordados. Graças às explicações consegui ter em conta o fator editorial, o contacto com o livro como produto entre o grande público e o volume de traduções feitas para o exterior como índice de consolidação autoral.

Portanto, as palavras chave que utilizei no Google foram estas e com elas obtive estes resultados:

  • autores-brasileiros-mais-vendidos-atuais (que me levou ao artigo 1 da minha webgrafia)
  • livros-brasileiros-mais-lidos (com estas chaves fui ao artigo 2)
  • brasil-literatura-prémio-nobel (com estas cheguei ao 4 e 5)

Após a leitura destes escritos e algumas visitas na wikipédia para ver as biografias e percursos literários de cada autor nomeadamente, reparei em que os resultados apontavam sempre para o mesmo perfil: homem e branco.

Apurei a pesquisa com estas novas palavras:

  • mulheres-escritoras-mais-lidas-brasil (artigos 6 e 7)
  • mulheres-negras-literatura-brasil (artigo 8)

A continuação apresento a minha nómina de autores e autoras:

Lygia Fagundes Telles

O século XXI é a vez das mulheres, os movimentos sociais assim o confirmam. Se só tivesse que dar um nome, não teria dúvida nenhuma, seria este.

A Lygia Fagundes vai em primeira posição nesta nómina porque, do meu ponto de vista, se uma mulher brasileira de 97 anos recebesse um Nobel a imagem do país e das mulheres brasileiras mudaria radicalmente. E seria vantajoso até para para as duas partes, estando o Prémio Nobel tão masculinizado.

Mas vamos à questão literária, que é que interessa. A Lygia Fagundes já foi indicada ao prémio com anterioridade, isso significa que é uma das escritoras atuais mais conceituadas do Brasil. Fora do país também coletou prémios como o Camões e o Jabuti. Falta é concretizar esse Nobel.

É conhecida como a “dama da literatura brasileira”. Explora temas universais que chegam ao grande público,  mas também focou no assunto feminino num tempo em que havia poucas vozes que o fizessem. 

Se seguirmos os critérios da tradução para exterior, tem obras traduzidas para o alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, polaco, sueco ou tcheco. Também conta com obras adaptadas ao cinema.

As Meninas ou Ciranda de pedra são livros que já têm um espaço no imaginário coletivo brasileiro.

Raduan Nassar

É autor de três livros Lavoura Arcaica, Um Copo de Cólera e Menina a Caminho. Do meu ponto de vista, esta nomeação rompe com o esquema do escritor atual. Nos dias de hoje, parece que um escritor tem de ser um indivíduo muito produtivo, que cada ano tem que ter um lançamento para continuar a lubrificar a máquina do sistema literário. A ideia do livro como produto sacrifica muitas vezes a criatividade e a qualidade.

Além do seu compromisso contra a repressão política, foi também merecedor do Prémio Camões em 2016 e finalista do Man Booker Prize. Isto fez com que a sua obra fosse traduzida para inglês e publicada na Penguin.

Chico Buarque

Multifacetado e comprometido com as causas sociais e a cultura, Chico Buarque pode ser um caso análogo ao de Bob Dylan. As letras das canções são também poesia e este prémio pode ser um impulso para toda a gente chegar a perceber isso. Não há demérito nisso.

Recebeu o Prémio Camões no meio de uma enorme polémica no Brasil e essa decisão foi até contestada por Jair Bolsonaro. 

Ele pôs todo o seu talento literário e artístico na luta pela democratização do país. 

Criou na sua obra um “eu lírico feminino”, muito infrequente na altura. 

Budapeste ou Leite Derramado contribuiram para a formação cultural de muitas pessoas do âmbito lusófono. Este prémio pode ajudar a espalhar a obra deste autor e vê-la no seu conjunto, não só na vertente musical.

É uma ativista feminegra, indicada para outro ramo do Nobel, o da Paz, pela Associação 1000 Mulheres para o Prêmio Nobel da Paz. É uma referência contra o racismo e a violência de género. A legitimação de um papel mais representativo para mulher negra na sociedade brasileira é uma constante na sua obra como podemos ver no seu poemário Eu, mulher negra, resisto, que virou quase uma citação.

Alzira Rufino

É ensaista, contista, cronista, romancista e poeta. Foi a primeira escritora negra a ter o seu depoimento registrado pelo Museu de Literatura Mário de Andrade.

Se o Nobel é uma plataforma de visibilidade, a obra de Rufino merece estar naquele patamar para os leitores e leitoras de todo o mundo conhecerem os problemas das mulheres e mais ainda das mulheres racializadas.

Webgrafia que usei, por se quiserem dar uma vista de olhos:

  1. https://www.designdoescritor.com/post/10-autores-nacionais-vivos-que-faturaram-mais-de-1-milh%C3%A3o-de-reais-com-seus-livros
  2. https://blog.saraiva.com.br/mais-lidos-brasil/
  3. https://editoraalbatroz.com.br/escritores-brasileiros-mais-vendidos-no-mundo/
  4. https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,qual-escritor-brasileiro-merecia-um-premio-nobel-de-literatura,70003037925
  5. https://www.publishnews.com.br/materias/2019/08/13/premio-nobel-de-literatura-quando-sera-a-nossa-vez
  6. https://www.mundodek.com/2017/03/20-grandes-escritoras-brasileiras.html
  7. http://saopauloreview.com.br/150-mulheres-que-estao-fazendo-literatura-hoje-no-brasil/
  8. https://mdemulher.abril.com.br/cultura/escritoras-negras-brasileiras-que-voce-vai-adorar-conhecer/

Enfim, o prémio foi dado ontem à Louise Glück, poeta americana.

Será 2021 o ano do Brasil?

Jornada Clássica Galaico-portuguesa

Eu tenho um fraquinho pelo mundo clássico, toda a gente sabe. Sou dessas pessoas que defendem aquela máxima de Nihil novi sub sole. Todas as modernices…já foram feitas na Grécia e Roma antigas, nós pouco inventamos.

O estudo do latim e do grego foi fulcral na minha formação, não imagino ser filóloga sem amar isso. A visão do mundo que me deu traduzir estas línguas é para mim uma experiência impagável e sempre me perguntei como é que seria o ensino destas línguas noutros países ou qual é o peso cultural que lhe é atribuído a este acervo.

Estas matérias, junto da Filosofia, são normalmente muito marginalizadas nos nossos curricula escolares. Tenho pena disto, porque é sempre bom sabermos quais é que são os fundamentos da nossa cultura.

Gostei de saber que uma nova iniciativa nasce para revisitar os clássicos e fazê-lo de uma ótica galego-portuguesa. Temos hoje a I Jornada Clássica Galego-portuguesa na Faculdade de Filologia de Compostela às 18h onde pessoas relacionadas com os estudos clássicos da Galiza e Portugal falarão  no Salão de Graus da faculdade. Serão tratados aspetos como a tradução, o ensino, a edição e toda a força inspiradora que autores clássicos deixaram na literatura mais contempoânea.