13MICE

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Entre os dias 4 e 8 do corrente mês decorre na cidade de Compostela a Mostra Internacional de Cinema Etnográfico (MICE), que já vai pela edição número 13. A quantidade de filmes e o programa também foram crescendo com o tempo, então temos vários lugares de projeção: Museu do Povo Galego, Teatro Principal e Sala Numax.

Na minha já costumeira análise de programas, selecionei aquelas obras com interesse lusopata.

No dia 5, na sala Numax, às 20h temos a visualização de Trás-os-montes, filme realizado por António Reis e Margarida Cordeiro na década de 70. Esta fita é fundamental no cinema português porque influenciou autores posteriores como o internacional Pedro Costa.

Trás-os-montes é um documentário ficcionado sobre a região homónima portuguesa. É uma das obras mais representativas do movimento do Novo Cinema e uma das primeiras docuficções portuguesas. São descritos no filme o folclore, a paisagem e a identidade desse cantinho geográfico, que remontam às raízes históricas ancestrais da tradição galaico-portuguesa.

Há pouco tempo que as pessoas têm acesso ao filme depois dos anos 70, porque esteve em restauro na Cinemateca Portuguesa do Museu do Cinema.

Se quiserem ver esta joia do cinema, têm de se despachar. A projeção tem entrada de graça até completar a lotação, mas os bilhetes têm de ser reservados exclusivamente na Numax e de maneira presencial a partir do dia 2.

No dia 6, dentro do conjunto de filmes que vão ser exibidos e vão a concurso, há uma coprodução galego-portuguesa: Palmira.

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A autora da obra é a Diana Gonçalves, a alma mater do conceituado Mulheres da raia. A cineasta volta com uma peça com marcado protagonismo feminino como na sua fita anterior. Ela tinha a ideia de gravar durante quatro anos a Palmira, vizinha de Caldelas de Tui e conhecida até 2011 como a “avó da Galiza” pela sua longevidade. Mas a Palmira morreu no terceiro ano de gravação aos 108 anos e isto foi um grande desafio de montagem.

Palmira conta a vida desta mulher centenária longe das entrevistas televisivas. “Um corpo cansado, mas resistente”.

No Teatro Principal, às 20h30.

No dia 7 temos dois filmes a concurso, um brasileiro e uma coprodução Bélgica/Brasil. Comecemos por este último: We must be dreaming, de David Bert Joris Dher.

Fala dos caminhos e estradas que a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de Rio 2016 abriram no Brasil. O que significou para os moradores da cidade? Três anos e três histórias em busca de sonhos, vitórias e fair play.

No Museu do Povo Galego às 19h30.

O outro dos filmes é Deixa na Régua, realizado no Brasil pelo Emílio Domingos.

“Um corte de cabelo estiloso pode representar muita coisa. O dia a dia movimentado das barbearias da zona norte é retratado com leveza e graça, a partir de depoimentos dos jovens que as frequentam. Nas mãos dos babeiros Belo, Deivão e Edi, eles vão mostrar como esses estabelecimentos se tornam um espaço de sociabilidade e de debate sobre diversos assuntos.” O cabelo é neste caso uma construção narrativa, cada pessoa que vai ao barbeiro cria o seu discurso. Com efeito, podemos produzir cultura numa visita ao salão de beleza.

Marcaram já no Google Calendar?

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Festival Atlântica 2017

Amanhã começa o nosso encontro com a narração oral: o Festival Atlântica, um clássico na programação da cidade. Bem haja para este projeto, que já conta com cinco (cinco!) edições.

Abre o festival o contador Pablo Albo de Alicante, mas realmente a gala inaugural com todos os contadores e contadoras não é até depois de amanhã.

Será em 16 de março quando os contos em português comecem. Sofia Maul  (Madeira), Cláudia Fonseca (Brasil), Valter Peres (Açores), Vítor Fernandes (Trás-os-Montes) vão ser os representantes das vozes em língua portuguesa.

Então é assim, os contadores lusófonos não são novos…mas isto não quer ser uma crítica! Quem está de volta é porque vale a pena!

No programa há também uma atividade que…quem me dera a mim poder fazer!! Mas os tempos do capitalismo pedem que trabalhe e trabalhe e isto atrapalha muito a vida social. O Manuel Gago fará uma visita guiada pela cidade, contando a crónica negra dos últimos tempos. Um passeio pelos crimes de Compostela que pode apaziguar a sede de conhecimento do mais morboso/a. Será esta a cidade calminha que sempre achamos que era?

Réveillon e tradições de Natal

Chega para mim um dos momentos mais esperados do ano: o Natal. Doçaria típica, prendas, ver pessoas que poucas vezes tenho oportunidade de ver no resto do ano…são essas coisas que me fazem gostar da festa. Sei que há quem não goste, mas eu adoro. Até gosto do presépio e dos Reis, sem ser eu uma pessoa religiosa, mas para mim é como uma continuação de andar a brincar com bonequinhos.

Nos outros anos já dei algumas notas culturais sobre o Natal. Neste post quero falar do réveillon e das tradições mais enraizadas de Portugal.

Vamos com o réveillon. Vou dar uma lista de “superstições” deste dia. Que coisas bizarras é que se fazem para atrair a sorte?

Há pequenas coisas que não devem deixar de fazer ao soar das 12 badaladas, segundo as tradições mais enraizadas de passagem de ano:

-Comer 12 passas e pedir correspondentes 12 desejos. Esta e a segunda que vos comento talvez seja a superstição mais conhecida.

-Subir a uma cadeira, porque é sinal de ascensão. Assim progredimos na vida.

-Brindar com champanha.brinde

-Ter uma nota no bolso ou no sapato para garantir a prosperidade económica no resto do ano.

-Fazer barulho com tampas de panelas. Assim afugentamos os espíritos maus.

-Levar roupa interior nova. Mas aqui o consenso é difícil de se encontrar, no que diz respeito à cor. Alguns defendem que deve ser azul, outros de cor vermelha. Supostamente o azul traz boa sorte, o vermelho sucesso amoroso, o amarelo garantias económicas, o branco paz, o verde saúde e o castanho melhora a carreira profissional.

-Dar um mergulho no mar. Carcavelos, Nazaré, Figueira da Foz e Matosinhos ou Vila Nova de Gaia são alguns dos locais que mantêm viva a tradição.

  • OUTRAS TRADIÇÕES que vão do Natal até ao Entrudo.

Como sabem, todas estas tradições têm uma origem pagã e estão ligadas ao solstício de inverno. Algumas delas ficaram no conceito “Natal” outras no de “Entrudo” uma vez que chegou o cristianismo.

Principalmente gosto muito destas últimas. Tenho andado nestes dias a mergulhar na net horas e horas a fio a ver vídeos e ler artigos. Todos muito interessantes. Queria, se me permitirem, monopolizar um bocado o artigo e falar da festa dos Rapazes, porque encontrei um bocado de mim, de nós, nessa celebração.

É em Trás-os-Montes que permanecem mais enraizadas as tradições ancestrais desta épica. A Festa dos Rapazes ou dos Caretos levada a cabo no Nordeste Transmontano é uma delas, com diversos desfiles de mascarados a acontecer em várias aldeias. Na verdade, eu já conhecia esta festa, mas não sabia que começava já em muitas aldeias no Natal ou Ano Novo. Gostei muito de conhecer este dado, porque alguns dos ciclos de entrudo galego mais autênticos também começam nos primeiros dias do ano.

Festa-dos-Rapazes

Como é esta festa? Em forma de “caretos”, “máscaras”, “chocalheiros” ou “mascarados”, os jovens percorrem os caminhos da terra vestindo fatos de serapilheira, máscaras de latão ou madeira e chocalhos à cintura. A sua missão neste ritual de passagem para a idade adulta passa por louvar os mortos, castigar os males sociais e purificar os habitantes. Também fazem “loas”, cantos satíricos onde denunciam os fatos mais importantes acontecidos na comunidade.

Feliz Natal e boas entradas, quer seja com anjos, quer com diabretes.

 

Recebemos 2015 na hora certa com Luar

XXa-DmyXuS2XPVLZ6ijTZ5E8_Há meses que a RTP e a TVG participaram conjuntamente num programa gravado em Ourense e parece que aquilo soube a pouco e querem repetir. A notícia que demos sobre o festival Womex (tão lusófono) foi das mais lidas neste blogue e além disso, hoje vim a saber que a Companhia Nacional de Teatro vai encenar Saxo Tenor de Roberto Vidal Bolaño. Eu diria que são coisas positivas, não é?
Num ano em que estamos alertados com os números da língua (e outros números, porque os tostões sempre importam) quero lançar uma mensagem positiva. Talvez exista uma possibilidade de uma recondução ou em palavras do Valentim Fagim “um new deal para o galego“.

Há uns dias esbarrei com um artigo do Miguel Penas em que falava de “35 anos de reintegracionismo, como nos foi?“, ele imaginava um mundo em paralelo onde a ortografia do galego fosse outra e o que teria acontecido. Falava do Luar e, por vezes, parece que todas as coisas se conectam.20120925181836_fotogayoso

Hoje damos um pequeno passinho à frente. Longe de falarmos em gostos ou não gostos, falemos do que isto simbolicamente significa: o Luar vai fazer um especial de passagem do ano dedicado ao país luso. Leram bem, vamos entrar no ano juntos e ouvirmos os sinos baterem duas vezes. Vamos receber o ano na hora certaaa! até que enfim! mesmo se não houvesse mais espetáculo, eu já ficava feliz só com isso.

Quem vai estar? é claro que Gayoso. Com ele estará Silvia Jato e na representação portuguesa Sónia Araújo, já conhecida nos ecrãs galegos.

E como a noite é criança e passagem de ano não é uma noite qualquer, porque toda nota brega é bem-vinda, poderemos ver no palco Kátia Aveiro (sim, a irmã do Cristiano), Função Públika (uma banda que toca nos arraiais mais mexidos de Portugal) e as Malvela cantarão as Janeiras. Eu não vou perder! na verdade nunca perco, porque sempre recebo o ano com Luar.

Não faltarão apontamentos sobre cultura portuguesa e as tradições desse dia, coisas que alguma vez comentamos neste blogue, mas que ganharão força com imagem e voz: comer passas, receber o ano subido a uma cadeira…e ainda figuras ancestrais do entrudo de Trás-os-Montes, mas que já aparecem nas ruas pelo solstício de inverno.

Receber o ano assim pode ser um bom sinal.