O dia em que a morte sambou

Chega o programa dos Galicreques, por melhor dizer, chegou. Não cheguei a tempo a anunciar os eventos de Compostela, mas ainda vou a tempo de vos dizer o que se vai passar na Corunha. Amanhã na Sala Gurugú às 18h30 poderão ver a peça brasileira de teatro infantil O dia em que a morte sambou.

O filho de Valéria e Habib explica tudo com muito jeito neste teaser.

Estão a ver então que O dia em que a morte sambou é também um livro que foi levado aos palcos pelos próprios autores: Habib, escritor e Valéria, artista plástica. Ansiosos em preservar a poética da obra original na encenação, escolheram a linguagem do teatro de bonecos de sombras, uma das formas mais antigas e belas de teatro de formas animadas.

Esta família é quase como aquela The Kelly Familiy da década de 90. Eles fazem tudo! A trilha sonora, que vai da música tradicional da Bretanha ao Maracatu de Baque Solto e Cavalo Marinho de Pernambuco, é executada ao vivo com violino e escaleta por Valéria, enquanto Habib manipula os bonecos, cujas sombras conversam, andam, brincam e dançam, não somente no cenário, mas também pelas paredes, chão e teto da sala.

E qual é o argumento? Seu Biu é um velhote que mora sozinho, canta, brinca, dança e está em sintonia com a natureza apesar das críticas que rebece. Um dia a morte vem por ele…mas será recebida de um modo inesperado.

Vamos?

 

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Daniel Faria

daniel_faria_foto_augusto_baptistaNo marco do programa “Escenas do cambio” que decorre como cada ano nestas datas na cidade de Compostela, temos a peça “Daniel Faria”.

Esta obra é a segunda co-produção Galiza-Portugal do Centro Dramático Galego. O diretor de teatro Pablo Fidalgo, de Vigo, dá vida em palco ao monge e poeta português Daniel Faria. Numa entrevista recente, o realizador diz que esta não é exatamente uma peça biográfica sobre o autor “é sobre o modo em que uma vida pode afetar outras”, porque Daniel Faria tinha uma fé e uma ideia de partilha quase revolucionárias.

O poeta morreu com 28 anos. Tirou Teologia e licenciou-se em estudos portugueses. A sua foi uma dessas carreiras que a morte nos impediu de ver evoluir. Talvez possamos aprender um bocado mais da sua poesia graças a esta proposta cénica, o que acham?

Podem ver a peça desde amanhã até dia 28 no Salón Teatro.

O Conto do Inverno

invernoEspero que o Natal tenha sido mesmo bom e que o Pai Natal vos trouxesse muitas roupas para vos agasalhar. Igual que o frio, porque hoje, meus e minhas, está um frio de rachar, a peça de teatro de William Shakespeare O conto do inverno chega a Compostela nesta semana.

A crítica tem classificado como comédia a obra, mas esta é uma dessas peças teatrais que podem confundir os espetadores quanto ao género porque há também inúmeras doses de drama. Qual é o enredo? a história acontece entre Boêmia e a Sicília e nos três primeiros atos Leontes, rei da Sicília, que suspeita que o seu amigo de infância, Camillo, e a sua esposa, Hermione, estão a ter um caso.

Esta peça foi inúmeras vezes encenada e adaptada, mas é sempre bom revisitar os clássicos e mais se estes são interpretados em português por atores e atrizes galegos e portugueses. Teatro Oficina e o CDG fazem uma boa parceria.

Teatro Oficina junta, no mesmo palco, um fantástico elenco de atores e os músicos Manuel Fúria e os Náufragos atuam também, ao vivo, durante a peça.

No Salón Teatro os dias 12, 14 (20h30) e 15 (às 18h)

O contrabaixo

o contrabaixo 038A obra de Patrick Süskind chega à Galiza encenada pela companhia portuguesa Visões Úteis. Hoje na Casa das Crechas, às 21h, em Compostela poderão ver então O Contrabaixo.

Sei que estavam a pensar n‘O perfume, mas não, chega à nossa capital esta peça teatral monologada, a primeira obra do autor bávaro.

Deixo-vos aqui a sinopse que tirei da página da companhia: “Numa sala à prova de som, provavelmente o quarto onde vive, um contrabaixista de uma Orquestra Nacional decide contar como é vivida a sua solidão e confidenciar, com ironia amargurada, o seu amor não revelado por uma das sopranos da Ópera. Esta relação platónica encontra no próprio contrabaixo o seu maior obstáculo: instrumento arcaico, que melhor se ouve quanto mais nos afastarmos dele, de aparência hermafrodita, desajeitado e incómodo, o contrabaixo torna-se para este homem no maior empecilho à liberdade e ao amor.
Pelo discurso desta personagem isolada e frustrada, viajamos ainda pela História da música e dos músicos e encontramos uma crítica sagaz à sociedade contemporânea”

Afinem o seu instrumento e venham…

Ensaio sobre a cegueira…vai a palco

Chego um bocado atrasada, porque pelos vistos Ensaio sobre a cegueira leva já uns dias a fazer uma digressão pela Galiza. Mas mesmo assim não queria deixar passar a oportunidade de vos anunciar o evento.

Amanhã, pelas 18h30, no Câmpus de Vigo (Cuvi), em Vigo.

índiceA obra do escritor luso José Saramago foi adaptada ao teatro da mão de Sarabela.

Como sabem, a obra trata a história de uma epidemia de cegueira que ataca a população mundial. Uma cegueira de uma sociedade egocêntrica e violenta, uma «cegueira branca» que se expande de maneira fulminante num tempo-espaço universal. Os cegos terão que encarar aquilo que existe de primitivo na natureza humana: a vontade de sobreviver a qualquer preço num mundo guiado pelo desejo, a hipocrisia e guiados pela manipulação política e a dominação.

Ensaio sobre a cegueira provoca emoção no público pelo grande trabalho dos atores, pela intensidade dos diálogos e a conexão que se estabelece entre os personagens.

Já houve adaptações cinematográficas do romance, mas na Galiza vai ser a primeira adaptação teatral. Será que afinal a Galiza consegue ver Portugal?

O baile dos candeeiros em Ribadávia

20090707-231740aO baile dos candeeiros do Coletivo Radar 360º virá a ser encenado no dia 24 do corrente mês em Ribadávia. Esta peça portuguesa faz parte do programa da MIT Ribadávia.

Os ajuntamentos de pessoas são vistos hoje como uma ameaça para muitas pessoas da classe política. As coisas cada vez viram mais pretas e as liberdades individuais correm muitos riscos. É bom vermos esta peça porque nesta “desconfiança” radica o quid desta obra.

Em finais dos anos 60, fazia-se na Foz do Douro, no Porto, o baile dos cinco candeeiros. Esse encontro, que serve de inspiração para esta produção da Radar 360º, era um espaço de liberdade numa época em que os ajuntamentos populares eram encarados com desconfiança, mas era também um momento de dor, pois aí se faziam as despedidas dos soldados que iam lutar para a guerra colonial.

O diretor António Oliveira apanhou esta ideia e criou um espetáculo de rua que mistura música, dança clássica, contemporânea e teatro e assim faz do espaço público um lugar de celebração e de crítica contra o individualismo.

Em definitivo, vamos ver o quê? cinco candeeiros vintage a dançar espalhados por pontos estratégicos. Aos poucos, vamos estar mais envolvidos com esta dança e esse vai ser o nosso momento de libertação.

01h, na Praça Maior de Ribadávia.

Um belo dia

1-dulce-ducaAcredito muito no acaso. “Um belo dia” é isso que acontece depois de uma tormenta, depois da escuridão chega o sol e ilumina tudo, dando um novo sentido às coisas e alterando as nossas sensibilidades. É esse momento em que a vida explode.

“Um belo dia” chega ao concelho de Compostela literal e figuradamente. Cá entre nós, se viram o programa das festas deste ano, vocês já me entendem. Aquilo dá para fazer pelo menos cinco artigos no Lusopatia. Aposta nos bairros, na diversidade e no “glocal”. Nestas semanas vão encontrar artigos meus muitas vezes.

“Um belo dia” é uma dessas afirmações que qualquer um de nós poderia postar no Facebook ao pé de uma imagem com umas vistas estonteantes e paradisíacas. Agora imaginem essa imagem em movimento, com música…Esta é a minha metáfora sobre o espetáculo da portuguesa Dulce Duca, que mistura circo, malabares e dança. O domínio da técnica dos malabares é tal, que parece que ela faz malabares…sem malabares. Em palavras da própria Dulce “represento o ser humano e sou alto-falante daquilo que o faz sentir vivo: as emoções. Em plena liberdade criativa, dou vida aos sentimentos, emoções…ou por melhor dizer, elas é que me dão vida, personifico-as e transformam-me fisicamente”

Onde? São Martinho Pinário, Compostela. Quando? dia 18, às 21h30.

Título por determinar

Quando estudava grego na escola secundária, o nosso professor falou-nos de um clássico latino: A Eneida. Disse-nos que aquele livro era utilizado para a bibliomância. Uma pessoa pode abrir o livro por uma página qualquer e…pelos vistos…essa página (interpretada por alguém que sabe, um ou uma bibliomante) determina o seu futuro. Façam a prova lá em casa.

É curioso isto das superstições. Algumas culturas baseiam o horóscopo em coisas tão inacreditáveis como grupos sanguíneos, outras em datas de nascimento. Será que nascer um dia e não outro determina as nossas vidas?

Eu nasci a 17 de junho e sempre me considerei (e considero) um produto inacabado, em construção. Uma coisa por determinar.

salonteatro2Título por determinar é uma obra que vai ser encenada o dia do meu aniversário. O título é a minha cara.

O Centro Dramático Galego coordena a estreia no Salón Teatro em Compostela de um projeto organizado pelas companhias de teatro nacional de Portugal (Dona Maria II e São João) onde os protagonistas serão alunos e alunas de Vigo, Porto e Lisboa. O texto, ainda em fase de criação, é de José Maria Vieira Mendes e será levado a palco por Pedro Penim, ator e diretor.

Um programa aberto, em construção…define-me a mim e à cidade em que vivo.

 

XVI Festival Internacional de Títeres de Redondela

11146491_10153287375347431_2170157695834032795_nÉ já um clássico e para nós é sempre uma magnífica notícia comprovar a continuidade que este festival tem ano após ano. Não deve ser fácil manter um festival assim nas condições em que está a ser tratada a cultura na Galiza. E o teatro de marionetas é a margem da margem…!

O Festival Internacional de Títeres de Redondela começa na próxima semana. Para abrir o calendário de eventos, há programação escolar durante os primeiros dias. Contudo, o bom do festival é que é para miúdos e graúdos. E…há peças dos países de língua portuguesa, claro. Cada ano Redondela faz uma aposta forte na lusofonia e aquilo deve dar bons frutos, porque sempre há companhias portuguesas e brasileiras no cartaz.

Este ano temos duas obras muito diferentes. Por um lado a tradição religiosa mais ancestral e por outro a modernidade conceptual e renovação estética. Vejam:

Quinta, 28 de maio, às 21h no Auditório da Xunqueira:
“Bonecos do Santo Aleixo”, Centro Dramático de Évora (Portugal). +12 anos.

Este tipo de representação e bonecos tem uma origem rural e muito antiga. Existem registos da sua existência já no século XVIII, como nos diz Padre Joaquim da Rosa Espanca in “Memorias de Vila Viçosa”, onde refere terem sido apreendidos e mandados queimar títeres de Santo Aleixo, em 1798. Provavelmente teriam nascido na aldeia que lhes dá nome. Santo Aleixo é uma freguesia do concelho português de Monforte, no Alto Alentejo.bonecos santoaleixo04

Pelo que vi nas informações do Museu da Marioneta, estas pequenas marionetas de varão atuam num pequeno retábulo e a iluminação é feita como antigamente, com candeias de azeite. Nem que seja por interesse puramente antropológico vale bem a pena ver esta encenação. O acompanhamento musical é feito por uma guitarra portuguesa.

O repertório compreende peças de tradição secular, de teor mais especificamente religioso, bem como textos pertencentes à chamada literatura de cordel. No programa do festival a orientação de idade recomendada diz que é para maiores de 12 anos, mas eu penso que isto está mais virado para adultos. Por vezes pensamos que marionetas e crianças são sinónimos e…qual nada!

Os seus personagens carismáticos são o Padre Chancas, representante da autoridade eclesiástica, e o Mestre Sala, o mestre de cerimónias, que por tradição tem uma moca, com a qual castiga ou abraça o Padre, enquanto o mesmo prega.

Podem ver uns minutinhos da representação.

Sexta, 29 de maio “TitiriNoite ”. Auditório da Xunqueira “O Quadro de uma família”, da companhia Pigmalião Escultura que Mexe. (Brasil).  A lotação é limitada para 80 pessoas. Tem um preço de 3 euros.

O grupo de teatro de bonecos de Belo Horizonte vem ganhando espaço no velho continente apresentando-se e ministrando ateliês desde 2011. Tal como acontecia com o mitológico Pigmaleão, eles parecem ter verdadeira paixão pelas marionetas que fazem, que por vezes são já um espetáculo propriamente. Nas bases da companhia há uma vertente conceptual e filosófica muito forte: visam criar uma ilusão cénica que leve à reflexão de temas quotidianos. Podem ver alguns dos seus trabalhos neste canal do Youtube.cd636f_205d7b456b7639814fad35459a42c67e.jpg_srb_p_285_185_75_22_0.50_1.20_0.00_jpg_srb

Na página da companhia aparecem umas breves linhas sobre a peça: “Certos de serem uma família, os componentes desse quadro posam já automaticamente eternizados. Todas as análises que serão feitas sobre cada um deles tornarão mais clara a sua compreensão. No momento basta observá-los individualmente. ”

“O quadro de uma família” pode ser visto às 20.30-21.00-21.30-22.00-22.30. A duração não é para deixar ninguém com fadiga: 15 minutos. É uma cena curta.

 

Também nessa mesma sexta podem ver de novo “Bonecos do Santo Aleixo” às 21h no Auditório do Piñeiral.

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Nós, Teatro de surdos do Porto

noc2a6ucc88s_cartaz_web1O teatro de criação coletiva, que esteve tanto na moda na década de 70, parece que volta e talvez volte por necessidade. São tempos complicados e somar, mesmo que sejam ideias, é sempre uma ajuda. De muitas sinergias nascem peças de teatro como esta.

Nós é fruto da soma muitas vontades e esforços. Até achei engraçado o nome porque a geração Nós na Galiza foi batizada com o mesmo nome pelo espírito de coletividade que imperava entre os intelectuais na altura. Nós é uma peça de teatro coletivo inspirada na obra de Valter Hugo Mãe A Máquina de Fazer Espanhóis. Parece mesmo que as narrações deste autor dão jeito para o teatro, porque já demos notícia doutras criações assim antes.

A companhia que leva a palco as cenas é o Grupo de teatro de surdos do Porto, que já tem adaptado outros textos, conforme nos contam no blogue Cultura Surda. A peça será encenada, portanto, em duas línguas: português e LGP (língua gestual portuguesa).

Achei uma oportunidade ótima para conhecermos novas realidades que muitas vezes estão à nossa volta e nem damos por isso. Então tomem nota disto: dias 8 e 9 de maio às 20h30, no Salón Teatro em Compostela.