Voz passiva e pronome SE

12481-1-ali-baba-and-the-fo_11102007161414Em criança adorava que me contassem contos antes de adormecer. Era meu pai que tomava conta disso e muitas noites vinha aconchegar-me nos lençóis e contar-me contos novos. Umas vezes eram lendas populares galegas, outras contos clássicos, outras até contos em que ele com mestria me incluía.

Recordo-me de eu ouvi-lo ler muito concentrada o conto de Ali Babá e pensar em que estranha força era a que tinham as palavras. Havia palavras mágicas que eram capazes de abrirem grandes muros de pedra e mostrarem o caminho a grandes tesouros. Dei em imaginar as línguas assim.

Vamos utilizar esse mesmo conto como exemplo para aquilo que quero hoje expor. O que é a voz ativa? o que é a voz passiva?

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1. Voz ativa: Ali Babá pronunciou as palavras mágicas.
2. Voz passiva: As palavras mágicas foram pronunciadas por Ali Babá.
Basicamente, uma oração apresenta o sujeito (Ali Babá), que pratica a ação e o objeto (as palavras), que sofre essa ação. Dizemos então que essa oração está na voz ativa.
Quando o sujeito é paciente, ou seja, quando ele sofre a ação em vez de praticar (as palavras, exemplo 2), dizemos que a oração está na voz passiva, nesse caso, quem está a praticar a ação é chamado Agente da passiva (por Ali Babá).

Pronto, depois desta introdução, vou ao ponto que eu queria chegar.
No português a voz passiva é uma forma muito mais comum e mais usada do que no espanhol, que parece reservar esta voz para usos jornalísticos. É estranho porque isto não acontece da mesma maneira noutras línguas próximas, onde a voz passiva é também muito mais usada.

No nosso caso, por decalque, empregamos a partícula apassivante SE muitas vezes, mais das aconselháveis. Ver um texto cheio de SE por todo lado entre os meus alunos e alunas já me indica que algumas correções devem ser feitas para aquilo ficar mais genuíno.
Em vez de “fizeram-se muitas mudanças ortográficas”, é muito mais correto e genuíno escrever “muitas mudanças ortográficas foram feitas”, assim, com o tempo composto na voz passiva. Mesmo que a construção com SE seja admissível gramaticalmente, convém evitar o abuso desta forma, porque não é tão usual no português e tira naturalidade.

Dica: releiam os vossos textos e se virem muitos SE…tentem dar volta a isso.

A condição II: se, caso, no caso de

1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_The_Tower_of_Babel_(Vienna)_-_Google_Art_Project_-_editedSempre adorei as teorias ou mitos que explicam a origem ou o desaparecimento de uma língua. Uma das teorias mais bizarras para explicar a existência de muitas línguas no mundo é a da Torre de Babel.

A lenda retrata a existência de várias línguas como um castigo bíblico e, infelizmente, ainda há quem tenha esta opinião hoje. Pelo contrário, eu gosto mais da ideia de um mundo diverso e policromático. Aliás, aprender línguas é o meu centro de lazer, se apenas existisse uma língua teria que…sei lá…fazer desporto? naaa…

Os indicativos da Torre de Babel começam na bíblia, especialmente no Antigo Testamento, livro do Génese. De acordo com este, a torre teria sido construída pelos descendentes de Noé na época em que o mundo inteiro falava apenas uma língua. Supostamente, a localização da Torre de Babel seria entre os rios Tigre e Eufrates, na Mesopotâmia. A soberba dos homens em se empenharem na empreitada de alcançar o mundo dos deuses teria causado a fúria de Deus, que, em forma de castigo, teria causado uma grande ventania para derrubar a torre e espalhado as pessoas sobre a Terra com idiomas diferentes, para confundi-las. Por esse motivo, o mito é entendido hoje como uma tentativa dos antepassados de explicar a existência de tantas línguas no mundo.

Aceitemos a mitologia como isso, mitologia. Se a torre de Babel não fosse construída, falaríamos hoje apenas uma língua? É uma hipótese pouco provável.

Continuamos a estudar a condição. Desta feita, vamos ver as hipóteses mais improváveis.
Podemos exprimir condição improvável com estas estruturas:
SE+ imperfeito do Conjuntivo+ Condicional/Imperfeito do Indicativo:
Se aprovasse português, iria/ia a Lisboa de férias
Se fosse milionária, daria/dava a volta ao mundo
Se esta rua fosse minha, eu mandava ladrilhar com pedrinhas de rubi só para o meu amor passar

CASO+ Imperfeito do Conjuntivo+ Condicional/Imperfeito do Indicativo
Caso viesses, faria/fazia o jantar
Caso conseguisses esse emprego, faríamos/fazíamos uma festa

NO CASO DE+Infinitivo pessoal composto+Condicional composto
No caso de teres podido sair, teríamos ido ao cinema

A condição: se, caso, no caso de

Nós somos as nossas escolhas. Nestes últimos tempos tenho andado a pensar, se realmente escolhemos alguma coisa na vida ou se fazemos coisas porque, na verdade, não há outra hipótese. De qualquer maneira, estamos ferrados/as. Penso que o livre arbítrio é uma ilusão e cada dia sou mais ciente disso.394072_10150503324143333_131689188332_9094143_1315720226_n Nós somos como esta vaquinha da direita, pensamos que escolhemos muita coisa, mas…acabamos no abatedouro na mesma.

Num nível gramatical, a escolha ou a hipótese é exprimida mediante as orações condicionais.

No português, como em muitas outras línguas, existe uma gradação na probabilidade da condição. Temos hipóteses prováveis e pouco prováveis. Mudando os tempos verbais é que percebemos esta possibilidade ou impossibilidade. Hoje vamos ver as orações condicionais prováveis com as conjunções e locuções Se, Caso e No caso de, há muitas outras maneiras de exprimir condição (com outras conjunções, por exemplo), mas com isto sobrevive uma pessoa.

Podemos exprimir condição provável com estes mecanismos:
SE+ Futuro do Conjuntivo+ Futuro Indicativo/Presente Indicativo:
se aprovar português, vou/irei a Lisboa de férias
se eu for milionária, dou/darei a volta ao mundo

CASO+ Presente do Conjuntivo+Presente Indicativo:
caso venhas, faço o jantar
caso consigas esse emprego, fazemos uma festa

NO CASO DE+ Infinitivo pessoal+ Presente Indicativo/Futuro Indicativo:
no caso de poderes sair cedo, vamos/iremos ao cinema
no caso de encontrares aquele livro, faz/farás o pedido

 

E se você viajar??