Ceuta

Faz sentido falar de Ceuta num blogue dedicado a assuntos lusófonos? Cabe a mim falar nisto? Embora muitas pessoas não saibam, a história de Ceuta tem vínculos estreitos com a história de Portugal.

Estamos cá para falar do olho de Camões, das tripas, de horny jail e de bandeiras. Viva a vexilologia!

  • Ceuta sempre foi considerado um enclave estratégico, um primeiro passo para as conquistas ultramarinas. A data da tomada de Ceuta durante o reinado de Dom João I (1415) é considerado o espoletar das viagens ultramarinas portuguesas. Dom João I necessitava de uma nova façanha que reforçasse a sua posição internacional e a relação com a Santa Sé. A chegada dos portugueses à atual praia de Santo Amaro inicia um facto: a presença de portugueses em toda a parte do globo. Isto, ora por colonialismo, ora por emigração, é quase um traço da identidade nacional.
  • Esta cidade norte-africana só passou para posse espanhola em 1640, tendo sido administrada por portugueses mesmo durante o domínio filipino. Portugal recuperou a sua independência de Espanha nesse ano, mas a cidade de Ceuta decidiu não reconhecer como rei o português João IV e permanecer sob os domínios de Espanha, o que ficaria oficializado no Tratado de Lisboa assinado por ambos países em 1668. O reino português perdeu assim uma cidade que não lhe tinha oferecido tantos lucros como esperava, já que a sua manutenção gerou elevados custos à coroa lusa.
  • O fito da tomada de Ceuta foi recolhido muitas vezes ao longo da literatura e historiografia portuguesa. Gomes Eanes de Zurara foi o primeiro cronista a relatar este episódio na Crónica de Dom João I, mais conhecida como a Crónica da tomada de Ceuta. Nestas páginas podemos encontrar a participação de uma das figuras mais importantes da independência de Portugal: o Condestável Nuno Álvares Pereira, herói de Aljubarrota.
  • O Santuário e Igreja de Santa Maria de África foi construído no século XV. Tem uma imagem da Virgem que foi doada pelo Infante Dom Henrique. Artisticamente não tem grande valor, mas reveste-se de grande importância espiritual porque é a padroeira da cidade.
  • A bandeira e o brasão de Ceuta remetem imediatamente para símbolos da vexilologia e heráldica portuguesas. O desenho da bandeira, gironado de oito peças de negro e prata, exibe a clara ligação à bandeira de Lisboa, cidade de onde proveio a armada que conquistou Ceuta. A ligação a Portugal é ainda mais intensa no brasão. Vejam só as imagens, porque elas falam.
  • Se forem à Estação de São Bento, no Porto, podem ver toda a tomada de Ceuta “aos quadrinhos”, porque está pintada nos seus azulejos. E como estamos a falar da invicta, temos que também explicar o motivo de lhes chamar “tripeiros” aos portuenses. Há várias teorias, mas todas ligadas à tomada de Ceuta.
    • Segundo Germano Silva, carneiros, porcos, bois, muitos bois, foram mortos para serem a provisão de quem partia em barco para a conquista de Ceuta. A carne foi esquartejada, salgada, metida em barricas, ou caixas de madeira, feitas propositadamente para este efeito, e acomodadas nos porões dos barcos. Só as tripas não puderam embarcar, porque corriam o risco de rapidamente apodrecerem.
    • Aos 21 anos, o Infante D. Henrique retorna para o Porto a pedido do seu pai D. João I, a fim de liderar construções para a conquista de Ceuta. Estas construções pediam muito esforço físico para os homens que lá trabalhavam, então foi prometida toda a carne da cidade para eles, o resto de cidadãos comeria apenas as tripas. Nasceram aí as “tripas à moda do porto”?
  • Luís Vaz de Camões, pelo seu talento e cultura, provocou paixões entre damas da Corte, dentre as quais a lnfanta D. Maria, filha de Dom Manuel e irmã de Dom João III, e Dona Catarina de Ataíde. Por este motivo é “desterrado” algum tempo para longe da Corte, até que resolve “exilar-se” em Ceuta (1549), como soldado raso. Sim, Ceuta foi a sua horny jail. Mas a coisa não fica por cá, nesta cidade perde o olho direito, facto que conta nos seus versos e traço físico que o faz único. Tem hoje uma rua dedicada, a “Calle Camoens” (sic). A vida dele dava um filme.
  • Como continuidade do vínculo Ceuta-Portugal, o Auditório da cidade foi obra do arquiteto português Álvaro Siza Vieira

Espero que tenham desfrutado destas curiosidades todas.

Oxalá não existam colónias, nem fronteiras. Quem me dera deixar à minha filha um mundo com mais empatia e justiça social.

Uma Galiza em Lisboa

(Este artigo foi publicado hoje em A viagem dos argonautas com motivo do Dia das Letras Galegas. Faço reblog para cá. Muito obrigada a todos e todas as argonautas, nomeadamente a Ernesto Vázquez Sousa)

Talvez por sermos um país pequeno, talvez pelo próprio trauma que as migrações significaram para a Galiza, desde sempre, galegos e galegas tentámos evidenciar quais foram os contributos culturais que por lá deixámos. É muito frequente e até diria que é um tópico folclórico ouvir dois galegos a conversarem e atribuírem uma série de invenções, triunfos ou descobrimentos a diversos compatriotas. Assim sendo, assumimos que os matraquilhos são uma invenção galega e até temos a teoria de falar de Colombo como possível galego.

Na nossa literatura há imensos escritores e escritoras que trataram o tema dos êxodos: Rosália de Castro, Castelão, Celso Emílio Ferreiro…e mentalmente há para nós um espaço dedicado a países como a Argentina, Uruguai, Cuba, Brasil, Alemanha, França…

Houve um outro movimento migratório, que por ser pouco falado, parece inexistente. Falo da migração galega à região de Lisboa.

Na região de Lisboa a presença de galegos era já antiga por causa da reconquista cristã. Galegos vindos das rias faziam naquelas terras de salineiros.

Como mostra da presença galega, há hoje inúmeros topónimos no Sul de Portugal que rememoram as terras galegas. Um facto curioso aconteceu com o município de Montijo, que antes de 1930 era conhecido como Aldeia Galega do Ribatejo. O nome foi mudado, mas a saudade deveu ficar porque cada setembro fazem o evento Feira Quinhentista de Aldeia Galega, onde fazem uma viagem ao passado.

Depois do sismo de 1755 que destruiu a cidade de Lisboa, era necessária mão de obra para poder reconstruir todas aquelas infraestruturas que faltavam. Em 1800 os galegos os galegos imigrados em Portugal eram 80.000 e na altura, um décimo da população da cidade era galega.

os-aguadeiros-galegos

Os galegos dedicavam-se a pequenos trabalhos: venda ambulante, levar e trazer encomendas e fazer mudanças…Dizia-se então que dois galegos e uma corda eram capazes de transportar quase toda a mobília de uma casa num só dia. Disto que no português perdurem hoje expressões idiomáticas como trabalhar como um galego.

Havia uma profissão em destaque onde galegos tinham quase o monopólio: os aguadeiros. Ainda não há muito li num blogue uma frase “Nós fizemos fortuna a vender aos lisboetas a água… que era deles”. Passe a ironia, o ofício de aguadeiro era muito duro porque supunha levar às costas barris pesados até aos lugares mais longínquos da capital portuguesa. Não demorou em chegar o lucro e com ele nasceram outro tipo de negócios: tabernas, casas de pasto…estas atividades comerciais exigiam menos esforço físico. Também a canalização da água não ia permitir que o negócio do transporte da água durasse muito mais.

A presença galega era tanta que no Chiado havia um largo chamado Ilha dos galegos. No período colonial muitos portugueses puseram nomes de lugares que eles conheciam a outros que colonizaram. Acontece que a Ilha dos galegos não é conservada no Chiado, mas é hoje o nome de um largo em Maputo, Moçambique.

Culturalmente em Lisboa é facilmente reconhecível a presença árabe, romana…mas é difícil discriminar em quais elementos da identidade lisboeta foi decisivo o fator galego. Como identificar isto quando religião, língua e tradições são as mesmas? Mesmo assim, podemos evidenciar vestígios culturais muito importantes. Lisboa fala também da Galiza, há que saber ouvi-la.

ginja-espinheira-com-elas-07l-ginja-ginjinha

A 15 de janeiro festeja-se na cidade o Santo Amaro, santo padroeiro dos galegos em Portugal. A capela de Santo Amaro, na freguesia de Alcântara, foi mandada construir por uma colónia de marinheiros galegos em cumprimento de uma promessa feita e como proteção perante os naufrágios. Todos os anos a cada 15 de janeiro lá iam os galegos em alegre romaria. Hoje a capela está um bocado degradada e só tem culto no primeiro domingo de cada mês.

Mas há ainda testemunhos vivos que são marcas de identidade até para qualquer alfacinha.

Quem não foi a Lisboa e bebeu lá uma ginjinha? No Largo de São Domingos podemos encontrar a Casa Espinheira, fundada em 1840 pelo galego Francisco Espinheira. Este comerciante soube levar o sabor da ginja às ruas e comercializá-la em grandes quantidades. E sem nos afastarmos muito desse largo, no Rossio, há vestígios do restaurante e do hotel Irmãos Unidos. Estes negócios foram fundados pelos irmãos galegos Florencio e José António Abril Bugarín. Por morte destes irmãos os negócios passaram ao casal galego formado por Antonio Venancio Guisado e Toucedo e Benita Abriz González e depois ao seu filho, António Venâncio Guisado, pai do poeta Alfredo Guisado. Sem o restaurante Irmãos Unidos, nunca haveria uma história do Orphéu, pois foi entre essas paredes que o movimento nasceu. Infelizmente, restaurante e hotel já não existem mais, mas há uma placa comemorativa que testemunha este episódio.

Se palmilharmos bem a cidade, poderemos ver as pegadas que deixou Agapito Serra Fernandes. O bairro da Estrela d’Ouro, entre a Graça e Senhora do Monte, é uma vila operária projetada por este comerciante abastado de origem galega.

ip0001162

A estrela que dá nome ao bairro é um motivo que aparece em calçadas, capitéis e azulejos.

Serra Fernandes pensou neste empreendimento para alojamento dos trabalhadores das suas confeitarias e as famílias deles. As ruas deste bairro operário, de facto, têm os nomes dos descendentes da família Serra Fernandes e dos empregados. Nenhum pormenor foi esquecido e até dotou de cinema este bairro. O antigo cinema Royal, hoje um Pingo Doce, foi o primeiro cinema português que passou filmes sonoros.

Deixando de parte a Reconquista e o século XIX, a história recente lisboeta também tem páginas onde nomes galegos aparecem. Num processo tão importante para Portugal como o final da ditadura temos lá também a figura de Manuel Durán Clemente, capitão na Revolução dos cravos e atual membro do CDU.

No trabalho prévio de encontrar fontes fiáveis para este artigo, dei com as palavras do historiador Xan Leira que são uma síntese do que eu quero transmitir hoje. Partilho-as convosco: “As pegadas da emigração galega a Lisboa são tão importantes que penso eu que não se poderia compreender o ser lisboeta sem a costela galega”