Chico César em Compostela

Conheci o som do Chico César nos anos da faculdade. Na altura, colecionava uns cds do Putumayo, uma seleção de músicas e ritmos worldmusic que me fazia descobrir novas culturas. Lembro-me perfeitamente, a minha primeira aquisição da coleção foi um disco que se chamava Brasileiro e foi comprado com dois objetivos claros: treinar português e conhecer novos artistas. Cheguei a casa, tirei o plástico protetor com emoção, li cada página do livrinho, coloquei o cd na aparelhagem (eram aqueles rituais)…e lá estava ele, Chico César, com o seu Mama África.

O consumo musical na década de ’00 era muito diferente e mais para alguém como eu, que fui das últimas pessoas do grupo em ter net em casa. Ainda me lembro de ir a um “Cyber” (uffffa, estas confissões fazem-me muito muito muito velha) para poder responder emails e ainda, se restasse tempo, ver algum vídeo musical.

U dia num cyber qualquer com computadores e Windows 97, todas aquelas cores da capa do Brasileiro pintadas pela Nicola Heindl tiveram um novo sentido. Fiquei de boca aberta quando vi o Mama África.

Chegariam depois novas oportunidades para definitivamente amar o Chico César, ainda que o meu foi um amor À primeira vista.

Graças a iniciativas como o Sons da Diversidade ou Cantos na Maré pude ver o cantor da Paraíba ao vivo e contagiar-me de toda essa energia que ele tem para dar.

No domingo, ainda no marco do programa das festas de Compostela, poderemos ver o seu show na Praça da Quintana às 22h. A não perder!

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Salvador Sobral, Compostela e Lorca

O poeta Federico Garcia Lorca viajou muitas vezes à Galiza, até encenou La Barraca na Praça da Quintana. Há quem não saiba que compôs seis poemas na nossa língua, publicados pela editorial Nós e prologados por Blanco Amor. Alguns deles têm como localização Santiago de Compostela.

De um lado temos este poeta e do outro um pianista e músicos: assim é que encaixam todas as peças do puzzle Lorca namorado. O espírito de quem encenou La Barraca em 1932 volta à cidade em forma de espetáculo-homenagem.

O pianista Abe Rábade musicou estas composições do poeta de Fuente Vaqueros e amanhã, às 22h, poderemos ouvir ao vivo como é que ficaram esses arranjos. Vão ser misturados ritmos de música tradicional, jazz e flamenco assim como danças.

Alguns cantores da Galiza interpretaram estas letras. Temos o caso dos Luar na Lubre e o legado do Narf: as suas interpretações do Madrigal de Santiago são umas joias que ainda não sei se merecemos.

Amanhã, teremos as vozes do Salvador Sobral, Kiki Morente, Arcangel, Marcelo DoBode e Davide Salvado. Com efeito, o cantor português que já nos conquistou no Ari(t)mar interpretando poemas de Celso Emilio volta a Compostela e todos e todas estamos em pulgas para vê-lo! O lisboeta cantará o poema lorquiano dedicado a Rosalia. Fusão das boas. Lorca namorado! Atrevo-me com uma resposta também literária: e vou namorada.

Cristina Branco com a Filarmónica da Galiza

A Real Filarmónica da Galiza e a fadista portuguesa Cristina Branco farão um espetáculo em parceria nos dias 14 e 15 do corrente mês. No dia 14 estarão em Compostela no Auditório da Galiza e no dia a seguir na Corunha no Teatro Colón. Os dois passes são à mesma hora, 20h30.

Para quem não souber, a Cristina Branco é uma das celebridades do Museu do Fado. Sim, a canção de Lisboa tem um museu. A cantora ribatejana tinha em Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Elis Regina os seus referentes até que um dia o seu avô lhe oferece um disco da Amália Rodrigues. A partir desse momento, começou a sua amaliomania.

Conta ela própria que uma noite atreveu-se a cantar fado de maneira descontraída, como quem não quer nada, e isso mudou a sua vida para sempre. Um dos músicos convidou-a continuar e assim a sua carreira começou.

Podem consultar o repertório de canções nas ligações que deixei lá cima. Não percam esta oportunidade de ouvir fado com os melhores músicos e uma das vozes mais cotadas da música lisboeta.

Convergências 2019

É com incontido orgulho que começo a redigir este post. Há poucos onde eu possa escrever sobre a terra em que nasci, portanto, deixem-me saborear cada palavra.

Não há muitas pessoas que conheçam o facto de que a Rosália tem um poema intitulado “Desde as fartas orelas do Mondego”. Esta composição que tem o Camões como referente foi escrita com ç, nh e lh. Muitas vezes pensamos que culturalmente o nosso mundo não está tão aquém da lusofonia ou que este assunto é historicamente recente na Galiza, mas como podem ver, há provas de que isto não é bem assim.

A minha terriola (Padrão), Santiago de Compostela e Braga convergirão nesta semana num encontro cultural com um vasto programa: exposições, música, cinema, teatro…muitas disciplinas artísticas para um único sentimento de união.

Podem ver o programa nesta imagem.

O plano para quem não quiser deslocar-se muito está nos dias 22, 23 e 24 entre Compostela e Padrão.

No dia 22 temos na Gentalha o concerto de Primo Convexo.

No dia a seguir, no Teatro Principal, haverá um tributo a José Afonso com a Banda Municipal de Compostela.

No dia 24 na Casa da Rosália haverá um concerto em homenagem à poeta homónima com Canto D’Aqui e Iria Estévez.

Quem me dera a mim poder ir a Braga e fazer o programa completo!

Tribalistas em Compostela

Tríade, trinômio, trindade, trímero, triângulo, trio. Trinca, três, terno, triplo, tríplice, tripé, tribo. Os tribalistas já não querem ter razão…ou sim? O Multiusos do Sar continua a ser a casa dos grandes concertos (sem ser ao ar livre) em Compostela. No próximo dia 26 do corrente mês poderemos ver o show dos brasileiros Tribalistas. Sim, eles voltam. A banda é dessas de circunstâncias, a união de três amigos cada um com carreiras musicais diferentes e assentes. Falamos do Carlinhos Brown, Marisa Monte e Arnaldo Antunes. Não. Não podemos então acusar o trio de “one hit wonder”. Se bem é certo que todos e todas os conhecemos pelo Já sei namorar, temos também de reconhecer o enorme impacto que a canção teve na Galiza, porque foi dessas músicas como A lambada, Maria Caipirinha ou o Ai se eu te pego. Admitamos que abriu um caminho de entrada para muitas pessoas galegas sentirem curiosidade pelo mundo lusófono.
Começo então a falar de cada um dos membros. Carlinhos Brown é um cantor, percussionista, compositor, arranjador, produtor, artista plástico, agitador cultural e praticante de candomblé. É muito conhecido por músicas como A Namorada, Maria Caipirinha ou Carlito Marrón, onde faz quase uma defesa musical do portunhol. Marisa Monte é uma cantora, compositora, instrumentista e produtora. Eu conheci-a por causa de um anúncio televisivo do El Corte Inglés, onde soava a música Amor I Love You daquele disco intitulado Memórias, Crônicas e Declarações de Amor.  Era o meu primeiro ano em filologia e a primeira vez que eu tinha formação na variante brasileira da língua, admito que muita vontade de aprender.  Penso que foi o primeiro cd em língua portuguesa que eu comprei com o meu dinheiro e lembrem que os discos custavam um balúrdio! Arnaldo Antunes é um músico, poeta, compositor, DJ, ex-VJ e artista visual. Foi integrante dos Titãs, uma banda de punk rock e grunge que eu adorava. Começou também o curso de Linguística e, sei lá, chamem-me lamechas, sempre tive um fraquinho por ele pela própria história bizarra da banda e pelo facto de estudar língua. Ainda há bilhetes à venda. E este é um dos poucos concertos que os Tribalistas vão dar na tour europeia…despachem-se!

Apóstolo 2018

As festas de Compostela são uma ocasião para vermos bons concertos de bandas emergentes ou grupos nem sempre conhecidos. E eu curto.

Outros anos, o programa de festas “não institucional”, isto é, aquele mais virado para o Dia da Galiza, feito também por diversos coletivos, supunha para mim uma lufada de ar fresco e mesmo tenho apontado que chegava a concorrer com o programa da câmara. Nestes dias vi todos os programas e confesso que não há coisas que me seduzam muito (falo eu, na primeira pessoa). Tem havido anos em que…nem sabia por onde começar a escrever este artigo, porque as ideias vinham a mim em rodopio, mas este ano para mim é um bocado fraco em número de artistas lusófonos.

Vamos lá com a proposta. Começamos por hoje às 22h, na Praça 8 de março. Compostela Território de Mulheres organiza um mini-festival de autoras, entre as quais estão as nossas divas do norte: as Batuko Tabanka. Como é que na Galiza tenhamos coisas tão boas e tenham tão pouca difusão? É incrível que desde 2015 não voltassem a aparecer entre as linhas deste blogue. In-crí-vel.

 

Estas doze mulheres de origem cabo-verdiana e radicadas em Burela trarão ritmo, alegria e morabeza sem igual à nossa cidade.

Vamos de Cabo Verde a Portugal, porque no sábado 21 temos o concerto do João Afonso e o Rogério Pires. Às 23h na Praça do Toural poderemos ver estes dois músicos no palco. Eles definem o seu espetáculo como um encontro entre amigos. Só vozes e guitarras elétricas é que criam essa atmosfera intimista.

João Afonso e Rogério Pires estão a fazer uma pequena digressão nestes meses com o seu disco Buganvília. De facto o João Afonso está no domingo em Vilar de Santos (Arca da Noe, 21h), por sinal.

Querem ainda novos destinos? temos mais: Moçambique. No dia 23, segunda-feira, poderemos ver o concerto dos Timbila Muzimba com Ogun Afrobeat. Os Timbila e o Cheny Wa Gune já tinham estado connosco graças ao Narf, mas posso fazer uma pequena biografia na mesma. Em 1997 um grupo de jovens músicos e bailarinos dos bairros de Maputo criou uma orquestra de timbilas, eles são uma conjunção entre a tradição e a modernidade.

 

Curtam das festas! A gente vê-se!

 

Dear Telephone em Compostela

Hoje em Compostela, no Xardín de Julia, no marco dos concertos do programa Terrazeando teremos a oportunidade de ouvir a banda portuguesa Dear Telephone.

Os Dear Telephone vêm de Barcelos com o seu novo disco, Cut (2017) para darem o seu melhor. Formados em 2010, a banda conta com a Graciela Coelho, André Simão, Ricardo Cibrão e Pedro Oliveira. O seu nome vem da curta-metragem de Peter Greenaway “Dear Phone” de 1976.

Tocaram já em Salas como o Theatro Circo, o Hard Club ou mesmo em festivais do reconecimento do Optimus ou Milhões de Festa. Despois de Birth of a robot (2011) estão agora de gira com Cut.

Dream pop , rock experimental, eletrónico minimalista…e saxofone. Eu não saberia que etiqueta colocar. Vão lá e vejam! Hoje…às 21h!

Teresa Salgueiro no Nexos

Eu não sou uma influencer. O tema do meu blogue não é tão maioritário como para eu ter milhares de fãs que me leiam e tentem seguir as minhas indicações. Quem me dera a mim criar modas!

Suponho que os e as influencers medem o seu sucesso com o número de followers. Eu sou obrigada a contar as pequenas vitórias doutra maneira.

Um dos meus momentos estrela no Twitter foi há pouco, no ano passado, quando a Teresa Salgueiro retwittou uma notícia minha. Logo disso…vieram coisas que ninguém lê e tweets aborrecidos, mas, olhem…já consegui um bocadinho de atenção por parte de alguém talentoso.

A Teresa volta à Galiza no marco do ciclo Nexos que decorre em Compostela, na Cidade da Cultura, este sábado às 12h. Se no ano anterior foram abordados temas arquitetónicos, esta será a vez da música.

Sam the Kid, na sua canção Poetas de Karaoke, faz algumas críticas à visão que o pessoal tem sobre a música portuguesa dentro do próprio país. Concordo com ele, até acrescentaria à sua opinião a ideia completamente vaga que nós temos sobre o que lá é produzido musicalmente. O país vizinho é mais do que fado e rancho folclórico e isto é uma teima constante no meu blogue, já sabem. Neste ciclo Nexos falar-se-á sobre fado, nova canção portuguesa, jazz, worldmusic…enfim, o vasto panorama musical que Portugal oferece. Tomemos como exemplo os Madredeus, a antiga banda da Teresa Salgueiro, faziam worldmusic em português e acho que são um dos grupos que mais têm repercutido internacionalmente nos últimos anos.

Dentro do programa do Nexos está agendada às 12h uma entrevista sobre estes temas com a cantora e às 13h há um concerto “surpresa”. Adivinhem só…

Se tiverem crianças podem ir com elas porque o ciclo propõe uma versão infantil com pequenos ateliês para os miúdos.

Apenas vou dizer duas coisas: preparem os 3 euros para o bilhete e…faz-me retweet, Teresa!

 

 

 

SELIC 2018

A Semana do Livro de Compostela não foi sol de pouca dura, veio para ficar e esta é a sua segunda edição. Desde o dia 1 de junho até ao dia 10 poderão estar em contacto com livrarias e editoras do país além de usufruir de um amplo programa de atividades.

Este ano a cidade convidada é a Póvoa de Varzim. O seu festival literário “Correntes d’escritas” acho que é hoje um referente e está na hora de que se conheça mais na Galiza. A propósito disto, no dia 3 de junho às 12h30, no exterior da carpa, há dança tradicional poveira, as chamadas “rusgas”. Nesse mesmo dia às 18h30 a escritora portuguesa Dulce Maria Cardoso falará com o público galego.

Dulce Maria Cardoso foi escolhida para partilhar com o público o processo criativo que a leva a fazer da sua biografia uma experiência literária. Ela nasceu em Trás-os-Montes no ano 1964 e passou a sua infância em Angola. Regressou depois da descolonização.

No ano 2001 publicou a sua primeira obra, Campo de Sangue, seguiram-se outros romances como: Os meus sentimentos, O chão dos pardais, O retorno…

Algumas das suas obras foram adaptadas como roteiro de cinema e muitos dos seus livros são objeto de estudo em universidades do mundo todo.

No dia 4, às 19h30 temos as “Correntes de conversa”, uma conversa sobre o “Correntes d’escritas” entre Manuela Ribeiro, organizadora do festival, e Carlos Quiroga, professor de literaturas lusófonas na USC.

No dia 5, às 20h. “Um guitarrista português e um poeta”, poesia musicada por Aurelio Costa e Carlos Costa.

Durante toda a semana do livro, poderão também encontrar a banca da Através editora e dar uma olhada às suas últimas publicações. Deem um passeio pela carpa!

Adriana Calcanhotto em Compostela

Adriana Calcanhotto não precisa de ser apresentada. Talvez seja uma das artistas mais versáteis dentro da música brasileira. Além disso, não sei se sabem, atualmente está a dar aulas sobre “como escrever canções” na Universidade de Coimbra, pois ela é uma das embaixadoras desta entidade.

A descoberta de como escrever canções continua até 7 de maio mas, pelo meio… teremos um concerto único na Galiza, em Compostela.

Um conceito inspirado na “Mulher do Pau-Brasil”, movimento modernista brasileiro dos anos 20, com o “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”, a sua influência no Tropicalismo e toda a informação que chegava de fora do país a ser reinventada nos termos locais. A descolonização mental e cultural do Brasil foi resolvida assim, muito inteligentemente, em termos de antropofagia. O Brasil é uma nação capaz de apanhar produtos culturais europeus e “comé-los”, abrasileirá-los, fazer uma versão própria. Nós, muito pelo contrário, na Galiza resolvemos ser sempre comidos…

Deixo-vos o manifesto antropófago por se quiserem dar uma vista de olhos, porque é verdadeiramente interessante. Nele aparece o desenho do Abaporu, de Tarsila do Amaral, uma pintora que bem vale uns minutos de leitura sobre ela.

Podem ver o vídeo dela a recitar o manifesto em:

Amanhã em Compostela às 20h30 no auditório da Galiza.