As músicas do aRi(t)mar

Temos uma nova edição do certame aRi(t)mar por descobrir. Há uns dias foram anunciadas as primeiras melhores músicas de 2018, sobre estas o público terá de fazer uma seleção.

Podem ouvir todas as canções, ver os vídeos e votar nesta ligação. Ouçam!!! Têm até 20 de março para votarem e vão entrar no sorteio de livros. Escolham sabiamente, que isto é quase como Eurovisão.

Se quiserem mesmo levar as canções consigo podem fazer se tiverem a app do Spotify no telemóvel. O Uxio Outeiro criou esta lista e acho muito prático.

Vou falar-vos da seleção de músicas portuguesas. Quanto à seleção de estilos, vão ver que domina a pop. Sinto falta doutras opções artísticas (kizomba, kuduro…), mas acho que este conjunto de canções é um bocado mais representativo da música atual portuguesa, mais representativo do que outros anos.

É assim: se quiserem saber da minha opinião, continuem a ler. Se acharem que a minha opinião é uma bela merda, querem ser objetivos e não estarem condicionados por mim…façam stop.

  • António Zambujo, Sem palavras. A canção tem aquela coisa clássica do amor. Para mim não é das melhores do festival, nem das melhores do autor.
    Mas por cada mulher/ Que é só feita de amar/ E nasceu numa flor/ No jardim que tu lavras/ Há um homem qualquer/ Qua aprendeu a falar/ E morrendo de amor/ Acabou sem palavra ” Por outro lado, o António Zambujo já conhece a Galiza, visitou Compostela várias vezes e se um dos atrativos da gala é vermos os premiados ao vivo…
  • Carolina Deslandes, Avião de papel. Esta é daquelas canções que passam a toda hora na Rádio Comercial. Carolina Deslandes e Rui Veloso interpretam a duo esta música que também fala de amor. É uma canção sentimental, mas não acho enfastiante.
    Fiz-te um avião de papel/ Daqueles das cartas de amor/ Pra voarmos nele quando o mundo é cruel/ E não há espaço que chegue pra dor
  • D.A.M.A, Nasty. Eu adoro este vídeo e não consigo não dançar quando passam isto na rádio. D.A.M.A é a sigla de “deixa-me aclarar-te a mente, amigo”. Realmente a canção tem uma letra fácil, dessas de ritmo contagiante. Podemos dizer que é das músicas mais eurovisivas (em todos os sentidos possíveis) do certame.
    Qual é a tua conversa, eu sei que tu vens mudar-me a cabeça/ Para me pôr nas nuvens/ Mas é preciso que eu deixe, mas é preciso que eu deixe
  • Luísa Sobral, O melhor presente. A fama é uma coisa engraçada. Luísa Sobral era uma estrela famosa em Portugal, o seu irmão, Salvador, era conhecido por ser o irmão da Luísa e agora as coisas mudaram. A compositora de Amar pelos dois criou desta vez uma canção para explicar ao filho mais velho a chegada de um novo irmão. A Luísa sempre sabe dar no coração das pessoas: E no meu colo sempre haverá espaço pra dois/ que o colo de uma mãe aumenta quando chega alguém/ por mais que ainda não entendas posso prometer/ que este é o melhor presente que irás receber
  • Márcia, Tempestade. Transborda otimismo esta música. Dançar, deixar-se estar, voar. Eu tinha a Márcia como uma artista de um único registo e, é claro, estava completamente enganada. Esta é uma das minhas apostas. Dança o teu azar/ Enterra-o por aí/ Vem passar por dentro/ Da tempestade/ Lança-te a voar/ Nada como abrir/ As asas ao vento/ E aprender a cair
  • Mariza, Quem me dera. Também muito ouvida nas rádios portuguesas. A Mariza é a dama da canção portuguesa. Esta pode ser a canção, se quiserem, mais “de raiz”. Contudo, penso que se parte do espetáculo é trazer o artista para cantar…a Mariza já nos visitou inúmeras vezes também. É como o caso do António Zambujo.

Esta é também uma canção de amor: “Quem me dera/ Abraçar-te no outono, verão e primavera/ Quiçá viver além uma quimera/ Herdar a sorte e ganhar teu coração”

  • Os azeitonas, Efeito do observador. Tive uma época em que gostava muito dos Azeitonas. Depois perdi interesse e agora parece que voltei a achar piada. A letra dos Azeitonas tem uma inspiração, parece, no Carl Sagan: “Somos todos iguais/ Lá no fundo/ Pó de estrela e nada mais”
  • Os quatro e meia, A Terra gira. Simplesmente amo. Amo esta música. Quero mesmo que ganhe. Digo isto abertamente. O ritmo, chamem-me doida, é como se me ajudasse a fazer planos, a querer empreender projetos. A letra faz-me muito pensar, tem um toque intimista e leva-me a uns pensamentos recorrentes na minha vida: a pouca possibilidade de decisão que temos, mas a grandeza que é ser-se sonhador/a. “A terra gira em contramão/ Ficamos tontos sem direção
    Corremos até nos faltar o ar/ E a vida vai ficando para depois/ E continuamos os dois a sonhar
  • Sérgio Godinho, Grão da mesma mó. Sérgio Godinho dispensa qualquer apresentação. Ele é a música portuguesa, é um histórico como o Rui Veloso. A música candidata aos prémios está carregada de filosofia e elementos de repetição que nos levam a pensar na estaticidade, imobilismo da vida: “E as palavras tornam-se esparsas/ Assumes/ Fazes que disfarças/ Escolhes paixões, ciúmes/ Tragédias e farsas/ E faças o que faças/ Por vales e cumes/ Encontras-te a sós, só/ Grão a grão/ acompanhado e só/ Grão da mesma mó/ Grão da mesma mó”
  • Valas, Estradas no céu. Um bocado de rap não faz mal e com a voz da Raquel Tavares isto ganha. Para mim é uma canção com muita força, mas já sabem que tenho um fraquinho por rap e não posso ser objetiva. Gosto muito da combinação de vozes que nos dá esta música. “Eu vejo estradas no céu/ Que me levam sempre a ti/ Sou tua e tu és meu/ Lugar onde sou feliz”

Agora estou à espera dos poemas, estou em pulgas!!

Dez canções de Natal que não canta a Mariah Carey

Será que já ouviram neste ano a canção daquela artista dos EUA? então é que é Natal mesmo. 

O Natal é uma das minhas festas prediletas. Há autênticas iguarias, prendas e uma ode ao mau gosto constante sem qualquer tipo de complexo. Tudo é aceite: lantejoulas, cetim, grinaldas ruídas, veludo, muito plástico, coisas doiradas e luzes a piscar. Há uma palavra em alemão para isto: kitsch.

As canções que ambientam não são muito melhores do que o resto dos enfeites. Repetitivas e em falsete, são duas características que unem as canções natalinas, as janeiras e as músicas pop do Natal. Eu penso que Last Christmas pode ser usada para alterar mecanismos do córtex cerebral.

Pensei em fazer uma lista com canções na nossa língua. Tinha alguma coisa em mente, mas quando me estava a documentar, encontrei verdadeiros achados e foi impossível não querer partilhá-los.

Têm cá a minha apresentação, se carregarem nas bolinhas verdes, podem ver os vídeos.

Explico-vos um bocado as escolhas:

Popota em versão Popomodel
  • Luísa Sobral: está três vezes nesta lista porque é, sem dúvida, a dona disto tudo em Portugal (junto com a Áurea, mas esta última canta em inglês e então decidi não incluir). Querido Pai Natal, Canção de Natal Natal mais uma vez. Não é que ela faça discos de Natal tipo Michael Buble ou Luis Miguel, mas a rapariga sempre tem um espaço para este género de músicas. E eu, até gosto. Vejam os clips de vídeo, porque são muito estéticos.
  • Zeca Afonso: estou com dor de cotovelos. Quanto talento. Este homem tinha sensibilidade também para criar uma canção de Natal com toques da cultura popular como as janeiras. Esta faixa devia mesmo estar na seleção.
  • A Popota: no Natal há vários seres inesquecíveis: duendes, Pai Natal, renas…e o Continente tem, atenção, uma hipopótama. A Popota é uma autêntica celebridade do Natal português e cada ano tem um vídeo novo, tem até uma página com jogos, passatempos e conteúdos interativos para os miúdos. Coloquei-vos o clip do ano passado porque ela fez uma cover de uma música do Agir. Na Galiza a única hipopótama que nós temos é a imagem que o nosso espelho nos devolve depois de quase 15 dias de jantaradas continuadas.
  • Rui Veloso: os velhos rockeiros também sabem chegar ao coração das pessoas. A letra desta canção é incrível, penso que faz uma crítica com muito lirismo. O Rui fala do Natal dos mais humildes e há lá vários temas sociais colocados na mesa. Ouçam.
  • Anjos e Susana: a Susana deste vídeo é a mesma Suzy de Eu quero ser tua que representou a Portugal no festival de eurovisão de 2014. Sim, essa. Em 1999 cantava isto canção com os Anjos, uma boy band. Ela era um boneco de neve e tinha a certeza de que ia derreter. Os Anjos e ela juntos é como ver os Back Street e a Britney à portuguesa, era a década de 90 e as influências eram as que eram. Nunca chegaremos a saber porque é que a Suzy, de Figueira da Foz, pronuncia todos os T como Tch. Comentem-me as vossas epifanias.
  • Xuxa: para mim este é um vídeo muito caricata. A Xuxa vestida, enfim, da Xuxa, no meio de um exército de crianças e lá no fundo o Pão de Açúcar.
  • Tema de Natal do Meo: estou a ser mesmo repetitiva porque em 2014 já vos disse que era fã deste vídeo. Prometo que se eu achar algum que supere isto, deixo de pôr. Por enquanto, isto está ainda do topo. Maravilha.
  • Boss Ac: não podia faltar uma faixa de rap e o Boss Ac é o homem. Com Carta ao Pai Natal lança versos tão sublimes como este: 

Se és Pai Natal deves ser pai de alguém
Para mim Natal é a qualquer hora, basta querer
Gosto de dar e não preciso de pretextos para oferecer
E já agora para acabar, sem querer abusar
Dá-nos Paz e Amor e nem é preciso embrulhar

Já agora para acabar, Paz, Amor e Feliz Natal!

Expressões idiomáticas: mar, água, navios, navegações

Estamos já no verão e para aquelas pessoas mais sortudas…isso até pode ser sinónimo de férias. Daqui a poucos dias eu serei uma delas.

Como cada vez que vou de férias faço um post temático sobre o meu destino e, desta feita, decidi que o único que vou fazer é descansar na praia; cá vos deixo um catálogo de expressões que, ora têm origem marítima, ora anda alguma das suas palavras nesse campo semântico. Tentei agrupá-las por ordem alfabética.

  • Andar à toa. Significa andar sem destino, despreocupado, passando o tempo. O que eu menos pensava é que esta expressão tivesse origem marítima. Pelos vistos, a “toa” é a corda com que uma embarcação reboca a outra. Um navio que está “à toa” é o que não tem leme nem rumo, indo para onde o navio que o reboca determinar.
  • Anda mouro na costa. É um grito de alerta, para estarmos prontos por causa de uma eventualidade qualquer, um problema, alguma coisa inesperada. A expressão terá tido origem nos tempos da pirataria dos corsários árabes que atacavam Portugal e Espanha. Estes tinham espiões na costa que os informavam.
  • Canto de sereia. É uma expressão de uso comum, sempre que se quer dizer que alguém está iludido por algo. Está a predizer que esse alguém vai ter uma deceção se insistir nisso que está a acreditar.

Tenho um fraquinho por este ditado popular porque eu adoro sereias, por acaso até tenho tatuada uma.

A sereia é uma figura da mitologia, presente em lendas que serviram para personificar aspectos do mar ou os perigos que ele representa. Quase todos os povos que dependiam do mar para se alimentar ou sobreviver, tinham alguma representação feminina que enfeitiça os homens até se afogarem. Metade mulher, metade peixe (mas isto só desde a Idade Média), as sereias têm uma arma poderosa: o seu canto.

Na Odisseia conta-se que eram filhas do rio Achelous e da musa Terpsícore. Eram tão lindas e cantavam com tanta doçura que atraíam os tripulantes dos navios que passavam por ali para os navios colidirem com os rochedos e afundarem. Odisseu conseguiu salvar-se porque colocou cera nos ouvidos dos seus marinheiros e amarrou-se ao mastro de seu navio, para poder ouvi-las sem poder aproximar-se.

Lá vai a canção da minha vida, Sereia Louca.

  • Dobrar o Cabo das Tormentas. É sinónimo de vencer uma grande dificuldade. O Cabo das Tormentas é o nome antigo do Cabo da Boa Esperança. Em 1488 o navegador Bartolomeu Dias dobrou pela primeira vez o Cabo das Tormentas. Este era um território desconhecido na altura e só foi conhecido até passados vários dias de avistar tomentas, atingir este objetivo significou saber que existia uma conexão entre o Atlântico e o Índico. Camões personifica estas dificuldades na figura do Adamastor, na obra Os Lusíadas.

  • Embandeirar em arco. É dessas expressões que nunca pensei que tivessem a ver com o mar. É uma manifestação efusiva de alegria.
    Na Marinha, em dias de festa, os navios embandeiram em arco, isto é, içam pelos cabos bandeiras e cometas quase até ao topo dos mastros, indo um dos seus extremos para a proa e outro para a popa. Assim são assinalados esses dias de algaravia.
  • Fazer tempestade em copo d’água. Poderíamos usar esta expressão para ilustrar o que é uma antítese. As tempestades são fenómenos atmosféricos de grande magnitude e os copos d’água remetem para uma quantidade mínima de líquido. O contraste é evidente. A frase é utilizada para nos referir a uma reação exagerada.

  • Ficar a ver navios. É uma expressão popular da língua portuguesa que significa ser enganado ou também ficar desiludido. A frase tem origem no Sebastianismo. Sabem o que é? Dom Sebastião foi um rei de Portugal, desaparecido na África, na batalha de Alcácer-Quibir em 1578. O corpo nunca foi achado e o povo português ficou sempre à espera do seu regresso para ser salvo da dominação espanhola. Dom Sebastião nunca regressou, por isso muitos sebastianistas “ficaram a ver navios”.
  • Há mais marés que marinheiros. Este ditado popular transmite a ideia de novas oportunidades virem acontecer. Muitas vezes perdemos uma oportunidade, mas mais tarde, podemos recuperá-la.

  • Não é a minha praia/É a minha praia. Gostaria de saber a origem disto, porque nunca cheguei a saber. Usamos esta expressão para indicar que uma coisa é/não é o nosso forte. Por exemplo, imaginem que temos muito jeito na cozinha, então podemos dizer “cozinhar é a minha praia”.

Vai uma canção sobre uma praia bem linda, Porto Covo.

  • Navegar à vista. Quer dizer agir conforme as circunstâncias ou com os meios de que dispomos. A origem está também no tempo das grandes navegações, quando não existiam os mapas e os marinheiros portugueses navegavam o mais perto possível da costa, sempre vendo-a e seguindo-a de bombordo.

Os argonautas, um “fado brasileiro” cantado pela Elis e com inspiração no Fernando Pessoa. Que beleza, gente! Navegar é preciso, viver não é preciso.

  • Nem disse água vai nem água vem. Uma expressão curiosa. Pensei sempre (falsamente) que isto tinha a ver com navegar, mas…qual nada!

O sistema de esgotos das cidades veio a significar um grande avanço em questões de higiene. Antes disto existir, as pessoas deitavam os seus dejetos à rua pela janela e (aquelas mais cívicas) gritavam “água vai!”. Quando alguém faz alguma coisa sem nos avisar e devia mesmo ter-nos avisado é que usamos esta frase.

  • Puxar a brasa à (sua) sardinha. É levar vantagem exclusivamente em proveito próprio. Pelos vistos, antigamente os trabalhadores dos cortiços assavam sardinhas com as brasas dos candeeiros que serviam de luminária. Retirar e, portanto, puxar as brasas apagava essas fontes de luz nas casas.
    Para a elaboração deste artigo, li há uns meses um livro bem interessante que recomendo vivamente: Puxar a brasa à nossa sardinha de Andreia Vale.
  • Separar as águas. É uma dessas cenas bíblicas…já estão a pensar no Moisés? com efeito, o protagonista é ele. O profeta conduziu o povo hebreu criando uma passagem entre as águas do mar Vermelho.

O que significa? usamos esta expressão para fazer um crivo entre o importante e o supérfluo.

  • Ser como um peixe fora d’água. É estar fora do nosso habitat natural, numa situação de desconforto.

 

 

Passem bem nas férias. Eu vou descansar um bocadinho…mas continuarei a atualizar o blogue, é claro, porque o Lusopatia é sempre um bom porto.

Cantos na maré

cantos na maréCantos na maré é hoje um dos principais festivais de música lusófonos. Um encontro a não perder para todos os amantes da música com vogais nasais. Este ano faz dez anos de existência e o Lusopatia vai lá festejar.

O objetivo deste festival, dirigido por Uxía, é espalhar a música feita na Galiza e no resto dos países lusófonos. Disto nasce um espetáculo cheio de variedade cultural, com artistas emergentes e artistas já com um nome internacional.

Este sábado dia 12 no Palácio da Cultura em Ponte Vedra poderemos ouvir as canções de Sés, Chico César, Rui Veloso e Cheny Wa Gune. Galiza, Brasil, Portugal e Moçambique unem-se numa só melodia: a língua que nos une.

A parte galega será representada por Sés, uma das revelações dos últimos tempos. Chico César, do Brasil, repete, pois já atuou na primeira edição. Não é por desmerecer os outros, mas esta é a minha aposta particular. Adoro Chico César!

Rui Veloso é um gigante da música por todos conhecido e batizado popularmente como o “pai” do rock português. Participou no segundo disco do Xabarín Club e isso já faz com que seja um bocado nosso. Nós nunca nos esquecemos dele.

Estamos em pulgas também por ouvir o Cheny Wa Gune, que vem pela primeira vez à Galiza com a sua timbila.

Venham a Ponte Vedra, Cantos na Maré impacta na primeira vista.