Quando nem tudo o que parece é pronome: fos-te*, disse-mos*, fize-se*….

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Vou armar-me em guerreira das palavras e levar a gramática como brasão qual cruzada medieval.
Há uns meses comecei a seguir no Facebook a página Na Idade Média é que era bom e encontrei esta imagem que ilustra o post. Houve guerras que começaram por uma maçã, por que não havia de haver uma guerra por hífenes?
Queria escrever há tempo estas linhas, mas não sabia como começar e, continuando o tom medieval, qual seria o elixir que ajudasse a apagar este erro.
Primeiro quero reportar o erro, porque até não é fácil de explicar.
Como sabem, a posição mais habitual do pronome átono em galego-português é depois do verbo, se não houver uma negação ou outros elementos que o atraiam. Assim sendo, na frase “-desligaste as luzes? -desliguei-as” esse AS é uma palavra que nos lembra que estamos a falar de luzes, é um pronome e vai ligado ao verbo por um hífen. Até aqui, tudo bem.

O problema vem quando alguns dos morfemas verbais têm o mesmo aspeto que os pronomes TE, MOS (me+os) e SE, porque então podemos fazer uma má segmentação e colocar um hífen onde não é preciso, tal como aparece na imagem que coloquei.

Vou dar exemplos ao contrário, que marcarei com *:

-Se fize-se um curso de alemão na Alemanha, a minha pronúncia seria melhor*

-Quando come-mos caldo verde, a avó sempre quer mais*

-Fos-te ao concerto de ontem?*

Deveríamos em todos estes casos ter escrito: fizesse, comemos e foste. Explico o porquê. Se estivermos em dúvidas de se aquilo é um pronome ou não, podemos fazer várias provas:

  1. substitui algum elemento anteriormente referido? Se a resposta for Não, então o hífen está a mais.
  2. se colocarmos uma negação (se não fizesse, quando não comemos, não foste…) a posição desse elemento continua inalterada? se a resposta for afirmativa, o hífen também deve desaparecer.

Bebamos o elixir e descansemos no alto da torre.

Colocação dos pronomes II: mesóclise

mesoclise modifiedÉ pouco intuitivo e por isso custa aprendê-lo. Acontece só na língua escrita e é então um fenómeno que parece que tem rasteira e que nos atraiçoa. Temos mesmo que estar de olho, é assim.

Há tempo que na Galiza não sabemos o que é isso da Mesóclise. O livro do Valentim R. Fagim, assinala uma mesóclise em Rosalia de Castro: cantar-te-ei, Galiza. Piscaram já qual é o fenómeno gramatical?

Vimos com anterioridade um post sobre a colocação do pronome e disse, na altura, que não dava a explicação por fechada. A mesóclise é a colocação do pronome no meio do verbo: entre a raiz e a desinência.

Esta classe de palavra tem vida própria em português e pode ir antes, no meio e depois do verbo. Há pessoas nesta vida que viajaram bem menos. O pronome é assim, não tem força por ele próprio e tem que roubar energia de outras palavras. Vampiriza-as.

Esta estrutura forma parte sobretudo da língua escrita e só é aplicada em dois tempos verbais: Futuro de Indicativo e Condicional.
Farei a tarefa> fá-la-ei (Futuro de Indicativo)
Faria a tarefa> fá-la-ia (Condicional)

As normas com a Mesóclise são as mesmas que vimos no artigo da Colocação do Pronome. Portanto, se houver uma negação ou qualquer outra estrutura que impedir, não faremos a mesóclise: não farei a tarefa; não faria a tarefa.

Assim sendo, se quisermos substituir “a tarefa” por um pronome, a conjugação verbal ficaria assim nos dois casos:
Futuro: Eu farei a tarefa (substituímos a palavra “tarefa” por um pronome)
Condicional: Eu faria a tarefa (ídem)

FUTURO

eu fá-la-ei
tu fá-la-ás
ele/ela/você fá-la-á
nós fá-la-emos
eles/elas/vocês fá-la-ão

CONDICIONAL

eu fá-la-ia
tu fá-la-ias
ele/ela/você fá-la-ia
nós fá-la-íamos
eles/elas/vocês fá-la-iam

Isto seria assim com qualquer forma verbal, só mudaria a forma do pronome, obviamente (farei o exercicío> fá-lo-ei; farás as encomendas> fá-las-ás).
De um lado e outro do hífen, cada palavra segue as normas de acentuação independentemente: fá-lo-á; dar-se-ão…

E recordem também que os verbos Fazer, Dizer e Trazer têm raízes especiais no Futuro e no Condicional: Far-, Dir-, Trar-.

Contudo, estas são formas próprias (e obrigatórias) da língua escrita e de um registo elevado. Na oralidade mais quotidiana, os tempos verbais de Futuro ou Condicional são evitados. Costumamos dizer Vou fazer, eu Ia fazer, Vamos viajar, Íamos viajar…
Mesmo assim, não está correto dizer: *farei-no, *faria-o…Escrevemos fá-lo-ei e fá-lo-ia, e no dia da dia dizemos Vou fazê-lo e Ia fazê-lo.

Vamos com esta música d’Os golpes, que hoje estou muito indie: