Itália e Portugal: algumas conexões

O dia 25 de abril é feriado em Portugal e também na Itália. No país de “lo stivale” é o “giorno della liberazione” porque comemoram o fim da ocupação nazista. Suponho que num blogue como este é escusado explicar o motivo deste feriado em Portugal.

Recentemente tenho feito uma viagem à Itália e durante o percurso dei em mim a pensar nas muitas conexões entre estes dois países. Decidi criar este “livro” interativo de atividades onde vos explico um bocado algumas delas. Toquem, cliquem, reproduzam…!

Os meus podcast para o 8 de março

O 8 de março pode ser um dia muito bom para começares a acompanhar podcast e conheceres muitas pessoas criativas. Já demos anteriormente algumas recomendações cá, mas hoje vamos focar naqueles programas produzidos por mulheres. Desde que comecei a experiência com As Womansplainers a procura por este tipo de conteúdos tem sido uma obsessão. Esta é a minha seleção, espero que gostem dela!

É nóia minha?. A Camila Fremder, escritora, roteirista e agora a tua paranoica habitual, partilha as suas paranoias connosco e também com convidados. Os teus pensamentos repetitivos e ciclos viciosos vão adorar este podcast.

Há algum episódio com uma dinâmica “especial” intitulado “Roleta do unfollow”: uma genialidade.

Eu não sou a sua mãe. Tive imensa pena quando este projeto acabou, mas temos que agradecer todos os programas que fizeram e que ainda possamos desfrutá-los. Quatro mulheres de esquerda portuguesas metiam conversa sobre temas complexos. Acompanhem-nas nas redes socias: sempre certas!

Mamilos. Mamilos é “jornalismo de peito aberto”. Os temas mais polémicos das redes sociais são debatidos cá com empatia, respeito e profissionalismo. O toque de humor também não falta.

Têm muitos programas e acho que é dos podcast melhor sucedidos do Brasil. Não percam esta oportunidade.

Imagina juntas. Este é um podcast de millennials que tentam ser adultas e pagar as contas. A sanidade mental está em risco. Parece que desde dezembro de 2021 o projeto não teve continuidade, mas têm muitos episódios para poder usufruir.

As Mathildas. Um podcast sobre cultura audiovisual, cinema e artes. Não tem continuidade desde 2020, mas deixaram um acervo sonoro muito valioso para desfrutarmos. Teste de Bechdel, este é o teu programa.

Gordacast. Este nome é uma sedução. Autoestima e bodypositive, mas este podcast quebra muitos mais padrões do que os simplesmente estéticos.

Calma, gente horrível. Vou gravar esta frase para dizer no Twitter de tempos em tempos. Este é o teu podcast de reclamações semanais de referência. Ana Roxo, Rita Alves, Tati Fadel e Malu Rodrigues falam de política, ciência, sociologia e outros temas. Podem (e devem, com todo o direito) surtar.

Tenham os fones por perto!

O Festival Atlántica está de volta

Como sabe bem voltar a escrever artigos sobre eventos e termos novidades para anunciar. O Festival Atlántica é desses que já têm um espaço reservado no calendário lusopata. Para quem não souber, este é um evento internacional de narração oral, onde quase sempre alguém lusófono marca presença dentro do programa. Nesta ocasião temos dois narradores, um brasileiro e uma madeirense, esta última muito presente entre as nossas notícias sobre festivais deste género. Lembram-se da Sofia Maul? Se não me enganar esta será a quarta vez que nos visite. Agora, depois da minha experiência na Madeira, tenho ainda mais vontade de a ouvir. Com a Sofia chegam desta vez uns contos de arrepio virados para o público adolescente.

Dedicaremos então um bocado mais de tempo a falar do Thomas Bakk, porque é caloiro neste blogue. O Thomas nasceu no Rio de Janeiro, mas já quase podemos considerá-lo um português de gema, porque mora no país luso desde há mais de 20 anos. É formado em Arte Dramática. Entre os seus talentos está o canto, a interpretação, a poesia e o contar estórias, obviamente. Tem muitas obras publicadas como dramaturgo e até compôs com o artista brasileiro Lenine.

Ele leva estórias a escolas, hospitais, cárceres…e festivais de narração como este, onde poderemos vê-lo interpretar várias personagens em cena, porque é o seu selo interpretativo pessoal, por assim dizer.

Então, como já temos os nossos contadores apresentados, está na hora de falarmos da agenda. Marquem aí porque é uma oportunidade de ouvirem português fora dos ecrãs e isto há tempo que não acontece.

Thomas Bakk: Sexta 2 de julho, 11h30, Parque Eugenio Granell, Santiago de Compostela: contares que não calam, contos de bichos que falam. Público infantil +5 anos

Thomas Bakk com Marcelo Ndong: Sábado 3 de julho, 21h30, Parque de Bonaval, Santiago de Compostela: O que fazem os fang quando contam contos/ Contares doutras terras e mares (espanhol e português) Público adulto.

Sofia Maul: Domingo 4 de julho, 21h30, cemitério de Bonaval, Santiago de Compostela: Contos de arrepio. Público adolescente.

Consultem a página porque para alguns espetáculos é necessária uma reserva.

Ceuta

Faz sentido falar de Ceuta num blogue dedicado a assuntos lusófonos? Cabe a mim falar nisto? Embora muitas pessoas não saibam, a história de Ceuta tem vínculos estreitos com a história de Portugal.

Estamos cá para falar do olho de Camões, das tripas, de horny jail e de bandeiras. Viva a vexilologia!

  • Ceuta sempre foi considerado um enclave estratégico, um primeiro passo para as conquistas ultramarinas. A data da tomada de Ceuta durante o reinado de Dom João I (1415) é considerado o espoletar das viagens ultramarinas portuguesas. Dom João I necessitava de uma nova façanha que reforçasse a sua posição internacional e a relação com a Santa Sé. A chegada dos portugueses à atual praia de Santo Amaro inicia um facto: a presença de portugueses em toda a parte do globo. Isto, ora por colonialismo, ora por emigração, é quase um traço da identidade nacional.
  • Esta cidade norte-africana só passou para posse espanhola em 1640, tendo sido administrada por portugueses mesmo durante o domínio filipino. Portugal recuperou a sua independência de Espanha nesse ano, mas a cidade de Ceuta decidiu não reconhecer como rei o português João IV e permanecer sob os domínios de Espanha, o que ficaria oficializado no Tratado de Lisboa assinado por ambos países em 1668. O reino português perdeu assim uma cidade que não lhe tinha oferecido tantos lucros como esperava, já que a sua manutenção gerou elevados custos à coroa lusa.
  • O fito da tomada de Ceuta foi recolhido muitas vezes ao longo da literatura e historiografia portuguesa. Gomes Eanes de Zurara foi o primeiro cronista a relatar este episódio na Crónica de Dom João I, mais conhecida como a Crónica da tomada de Ceuta. Nestas páginas podemos encontrar a participação de uma das figuras mais importantes da independência de Portugal: o Condestável Nuno Álvares Pereira, herói de Aljubarrota.
  • O Santuário e Igreja de Santa Maria de África foi construído no século XV. Tem uma imagem da Virgem que foi doada pelo Infante Dom Henrique. Artisticamente não tem grande valor, mas reveste-se de grande importância espiritual porque é a padroeira da cidade.
  • A bandeira e o brasão de Ceuta remetem imediatamente para símbolos da vexilologia e heráldica portuguesas. O desenho da bandeira, gironado de oito peças de negro e prata, exibe a clara ligação à bandeira de Lisboa, cidade de onde proveio a armada que conquistou Ceuta. A ligação a Portugal é ainda mais intensa no brasão. Vejam só as imagens, porque elas falam.
  • Se forem à Estação de São Bento, no Porto, podem ver toda a tomada de Ceuta “aos quadrinhos”, porque está pintada nos seus azulejos. E como estamos a falar da invicta, temos que também explicar o motivo de lhes chamar “tripeiros” aos portuenses. Há várias teorias, mas todas ligadas à tomada de Ceuta.
    • Segundo Germano Silva, carneiros, porcos, bois, muitos bois, foram mortos para serem a provisão de quem partia em barco para a conquista de Ceuta. A carne foi esquartejada, salgada, metida em barricas, ou caixas de madeira, feitas propositadamente para este efeito, e acomodadas nos porões dos barcos. Só as tripas não puderam embarcar, porque corriam o risco de rapidamente apodrecerem.
    • Aos 21 anos, o Infante D. Henrique retorna para o Porto a pedido do seu pai D. João I, a fim de liderar construções para a conquista de Ceuta. Estas construções pediam muito esforço físico para os homens que lá trabalhavam, então foi prometida toda a carne da cidade para eles, o resto de cidadãos comeria apenas as tripas. Nasceram aí as “tripas à moda do porto”?
  • Luís Vaz de Camões, pelo seu talento e cultura, provocou paixões entre damas da Corte, dentre as quais a lnfanta D. Maria, filha de Dom Manuel e irmã de Dom João III, e Dona Catarina de Ataíde. Por este motivo é “desterrado” algum tempo para longe da Corte, até que resolve “exilar-se” em Ceuta (1549), como soldado raso. Sim, Ceuta foi a sua horny jail. Mas a coisa não fica por cá, nesta cidade perde o olho direito, facto que conta nos seus versos e traço físico que o faz único. Tem hoje uma rua dedicada, a “Calle Camoens” (sic). A vida dele dava um filme.
  • Como continuidade do vínculo Ceuta-Portugal, o Auditório da cidade foi obra do arquiteto português Álvaro Siza Vieira

Espero que tenham desfrutado destas curiosidades todas.

Oxalá não existam colónias, nem fronteiras. Quem me dera deixar à minha filha um mundo com mais empatia e justiça social.

Os meus podcast portugueses favoritos

Ando agora com a cabeça ocupada com muita coisa. Poucas vezes tenho concentração ou tempo para ler, quando vejo séries dou por mim a mexer no telemóvel e quando vejo vídeos de Youtube que duram mais de três minutos reparo em que no minuto dois já estou a ver a secção de comentários com pouca paciência para ver o final.

Há uns dias recebi uma mensagem no meu Twitter. Uma pessoa que conheço pedia para me unir a um projeto de podcast. Abrir aquela mensagem foi como abrir o cofre de um tesouro. Aquilo tudo brilhava com muita força e logo disse sim. Sem ter refletido muito antes, na verdade. Mas é que o projeto é muito empoderante.

Já sabia o que era um podcast. Conhecia o formato, mas nunca tinha reparado nas suas vantagens de edição. E agora que estou por dentro, comecei a acrescentar no meu Spotify mais podcast portugueses. Fiz até uma seleção e quero partilhá-la convosco.

O É preciso ter lata de Mariana Soares Branco é um espaço onde ela fala dos seus interesses, dá as suas opiniões sobre aqueles temas onde precisamos de uma dose de coragem ou…lata, sim. Tem um episódio sobre os idiomas.

O Valium da Sara Vicário é um desabafo. Fala de coisas que a tiram do sério. Coisas irritantes: os vizinhos, os exames, o trânsito…Afinal toda a gente partilha os mesmos desapontamentos.

Assim a nível linguístico, gosto muito porque dá para me manter atualizada da fala mais descontraída e aprendo muitos bordões. Parece que o programa não tem mais continuidade, mas lá estão os episódios.

A mãe é que sabe é um podcast com chefia feminina. Joana Paixão Brás e da Joana Gama falam de muita coisa e, às vezes, de maternidade.

O Maluco Beleza é desses programas veteranos nisto dos podcast. É um projeto do multifacetado Rui Unas que sabe levar o programa sem constrangimentos de tempo. Podem acompanhar isto no Spotify e também no Youtube. Se quiserem estar a par de quem é celebridade e quem não em Portugal este é vosso podcast.

A minha vida dava um filme é uma criação da Joana Miranda que tem conversas sobre cinema, atuação, elites artísticas…

Reconheço que num primeiro momento vim ao programa como uma traça, atraída pelo brilho do seu título e depois fiquei porque aprendo muito mesmo e eu quero deixar de ser burra.

Perguntar não ofende é um programa sobre matéria política criado pelo Daniel Oliveira, portanto, se quiserem ficar por dentro dos equilíbrios de poder este é o vosso podcast. Em cada programa há diferentes pessoas convidadas que achegam pontos de vista bem interessantes

E no último lugar deixo este tesouro da minha amada Marta Bateira aka Beatriz Gosta, #quem vai acredita. Não me ocorre mulher do norte mais genuína do que esta. Rapper, youtuber e futura mamã. Saboreiem bem estes episódios porque o programa acabou, mas fiquem com a dica e…com esse sotaque!

Espero que gostem da seleção e que também me sugiram mais podcast novos!

Tiago Fragateiro em Tui

A música eletrónica é ainda uma área inexplorada no nosso blogue. Falamos pouco em djs.

Pode a techno ser lusopata? pode. A Lusopatia tem poucos limites e o Tiago Fragateiro chega do Porto para demonstrá-lo.

Segundo a alineaa.net ele está na cena musical há mais de 20 anos, primeiro como programador cultural nos melhores clubs do Porto e depois como dj.

Privou com DJ Yellow em Mindz Kontrol Ultra e isto permitiu-lhe encontrar logo a sua própria linguagem musical.

Os EPs que editou em nome próprio na Composite acabaram por servir de montra e atrair as atenções de labels conceituadas tendo já editado pela Ovum Recordings, Freerange Records, Plastic City e Compost Records.

Deixo-vos este showcase de exemplo. Quem me dera agora estar no BPM Festival em Portimão…ai!

Então, se quiserem imaginar que estão ao calor na praia, podem ir amanhã (dia 4) à discoteca Metropol em Tui. Mas não se esqueçam de comprarem antes as entradas!

Ari(t)mar 2019

Isto é já amanhã, amigas. Um dos eventos mais importantes a nível lusopata e esta que escreve não vai poder lá estar. É com grande pena (de mim mesma) que escrevo este artigo.

É escusado dizer o que é o Ari(t)mar, isto já toda a gente (que presta) sabe. Música e poesia das duas margens do Minho, unidas e entranhadas.

Cabe a mim fazer de apresentadora neste artigo e falar da gala e dos premiados. Lá no Auditório da Galiza, o mestre de cerimónias será este ano o Carlos Blanco, portanto, já sabem que a dose de humor está garantida. Realmente é um dos grandes ingredientes do evento.

O prémio à embaixatriz da amizade Galiza e Portugal é para a nossa Uxia, que tanto merece depois de anos como capitã do Cantos na Maré, festival que deu a conhecer tantas bandas lusófonas na nossa terra. Muitos parabéns, Uxia!

E da Uxia passamos a outras duas mulheres premiadas na categoria de melhor poema. Não poderia ter mais orgulho em falar neste artigo de tão bons referentes femininos. Da nossa parte está a Susana Sanches Arins, que a sinto “mais da nossa parte” do que nunca, obviamente por muitas questões, uma delas a ortográfica. A Susana ganha com Isso é o amor. Este é um ano de prémios para ela. E mais que merece!

Da parte portuguesa temos a Marta Chaves, que ganha com o poema Fachada. Podem ler uma entrevista à autora nesta ligação.

Na cena musical a seleção musical dos finalistas não foi muito arrojada (tradição e pop). Digo sempre, salvo exceções raras, a música que aparece não é muito representativa daquela que passam nas rádios portuguesas. Este ano temos às galegas Tanxugueiras com Que non mo neguen, com um videoclip bem fixe que podem ver aqui.

Do lado português ganharam Os azeitonas com Efeito do Observador. Eu tenho um fraquinho por eles há tempo. Quem és tu, miúda é uma dessas músicas que me acompanham.

O clipe de vídeo da canção premiada também é desses que vale a pena ver pela qualidade estética. Altíssima qualidade, já agora.

Uma vez já ganhou o rap. Quando poderá haver espaço para kizomba, kuduro, trap…? disso também temos na nossa língua.

Aqueles e aquelas afortunados têm um encontro amanhã, às 21h no Auditório da Galiza. Ari(t)mem!

Cineuropa 2019

Começa o Cineuropa. Desta vez, na edição 33, temos novo pessoal na capitania, mas o festival conserva toda a sua magia.

O Lusopatia faz uma folha de navegação para quem quiser estar a par de todo o conteúdo lusófono. Falaremos dos prémios, dos filmes e dos espetáculos…o critério é a língua aparecer. Confiram!

PRÉMIOS

Neste ano o prémio Cineuropa 2019 será para a realizadora Rita Azevedo Gomes. No Lusopatia estamos muito felizes, porque ela ocupa e ocupará sempre um espaço entre os nossos post. É só pesquisarem entre os nossos artigos e verão que ela já andou na Numax, no Encontro de Mulheres da Lusofonia…

A entrega será no dia 16 às 20h.

Muitos parabéns, Rita!

FILMES

Um dia mais com vida (quinta 14, 19h15), Raúl de la Fuente, Damian Nenow; Espanha, 2018, Animação. Kapuściński é um reporter polaco que em 1975 viaja a Angola. Lá conhece a guerrilheira Carlota, que vai mudar a sua vida para sempre e propiciará uma mudança profissional: ele agora será um escritor.

-Tras las luces (sexta 15, 16h), Sandra Sánchez, 2011, Espanha, Documentário. A diretora segue a vida da Lourdes, uma feirante que anda nas feiras com uma atração de carrinhos de choque.

Danses macabres, squelettes, et autres fantaisies/ danses macabres, sketetons and other fantasies (sábado 16, 20h), Pierre León, Rita Azevedo, Jean-Louis Shefer; França, Portugal, Suíça, 2019, Documentário. E se a dança da morte não fosse só realmente a posta em cena da morte na Idade Média? e se fosse a criação da Europa moderna?

A vingança de uma mulher/A woman’s revenge (quarta 20, 22h), Rita Azevedo, Portugal, 2012, Drama. O filme não é novo entre as nossas linhas, recordam-se? Podem ver a sinopse nesta ligação.

Vitalina Varela (domingo 24, 22h, e segunda 25, 18h15), Pedro Costa, Portugal, 2019, Drama. O filme conta a história de uma mulher de 55 anos que chega a Lisboa depois do enterro do seu marido.

A portuguesa/The portuguese (quarta 27, 20h15), Rita Azevedo, Portugal, 2018, Drama. Um dos filmes mais reconhecidos da realizadora portuguesa. A fita leva-nos à Idade Média, onde a nova esposa de Lord Von Ketten vive num castelo da Ilátia à espera de o seu homem voltar da guerra. Podemos ver como é que ela passa o seu tempo, nesse embaraço do jogo do amor.

MÚSICA

Maria de Medeiros and The Legendary Tigerman (quarta 13, 20h30, Auditório da Galiza) o guitarrista e a atriz e cantora fazem este troca-troca de músicas de cinema no trabalho 24 milla baci.

Com toda esta informação…não quero agora ninguém perdido!

O que a Galiza deu a Portugal: galegos e galegas na História portuguesa

Frequentemente revisitamos a literatura medieval galego-portuguesa como fonte indiscutível dos vínculos linguísticos e culturais entre a Galiza e Portugal. Há pouco foi editado pela AGAL um documentário, Pacto de Irmãos, que fala sobre a origem da língua escrita e como também a língua conforma uma sociedade.

Os contributos linguísticos são mais do que evidentes no que diz respeito ao título deste artigo, mas…já pensaram noutras áreas culturais? A verdade é que sempre tive muita curiosidade e há tempo que comecei a juntar uma série de nomes que conformam este post. Portanto, proponho-vos uma pequena viagem galega a várias fases da História de Portugal.

Como as explicações vão inseridas em animações, deverão levar na mala um bocado de “paciência digital”. Podem ampliar os diapositivos para uma melhor visualização. E toquem! toquem tudo para verem as informações extras! São viajantes desses com pulseira de pacote turístico completo.

Temos três roteiros diferentes: o dos galegos de gema, o literário e o da cultura popular. O primeiro deles é composto por pessoas nascidas na Galiza, os outros dois são percursos onde falaremos de descendentes de galegos.

OS GALEGOS DE GEMA

Na própria lenda do Galo de Barcelos aparece um galego como protagonista. É pena eu não ter nomes e apelidos, se tivesse, teria mesmo incluído nesta epígrafe, podem crer.

Aqui vou dar três nomes de galegos que marcaram profundamente a memória portuguesa. Com certeza, vocês conhecem.

  1. Inês de Castro. Acho que deve ser o primeiro e único caso de rainha morta-viva. Ela inspirou tanta literatura…

2. O Conde de Andeiro teve uma vida atribulada, cheia de aventuras e conspirações. É uma das figuras mais conhecidas (e odiadas) da história medieval.

A Câmara Municipal da Corunha tem, já agora, a sua vida esculpida nos cadeirais.

3. A nossa terceira paragem no roteiro dos galegos de gema é daquelas que precisam de um balde de pipocas. Diogo Alves é como uma cena de Futurama, uma cabeça metida em formol conservada hoje na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Considerado o primeiro serial killer da história portuguesa, o assassino do Aqueduto das Águas Livres era também galego. No “curiosidades” há um vídeo, um filme de cinema mudo. Tem que se lhe diga.

4. Na história das grandes navegações também estávamos presentes. João da Nova tem uma ilha deserta no Canal de Moçambique que recebe o seu nome. Acredita-se que também tenha “descoberto” o arquipélago de ilhas Agalega, no sudoeste do Oceano Índico.

O ROTEIRO LITERÁRIO

  1. Imaginem que vos digo que a figura totémica da literatura portuguesa tinha família galega. Imaginem! Não imaginem nada: é verdade. Luís Vaz de Camões era familiar de Vasco Pires de Camões, trovador com raízes em Finisterra.

Para aprendermos mais, também vos conto na mesma infografia a origem do ditado popular “vai chatear o Camões”. Conhecem?

2. E se vos dissesse que a segunda figura mais conhecida da literatura portuguesa também tem raízes galegas? Com efeito, Fernando Pessoa também é galego-descendente segundo o livro As raízes de Pessoa na Galiza do professor Carlos Quiroga.

Tanto Pessoa como Camões foram personagens fixos da série O Ministério do Tempo. Eu era fã e não sei o que foi feito dela.

3. Dentro do Orpheu há alguns poetas injustamente “esquecidos”. Um deles é Alfredo Guisado, com família em Mondariz e Ponte Areias. Este escritor é precursor do binormativismo, antes sequer de dizermos nada na AGAL. Uma ponte entre o republicanismo português e o agrarismo galego. Vejam logo.

4. José Rodrigues Miguéis é um escritor português filho de emigrantes galegos. Durante a ditadura exilou-se nos EUA por causa das suas ideias progressistas herdadas do seu pai.

A CULTURA POPULAR

Neste outro roteiro tocamos vários aspetos da cultura: a música, a política e o mundo empresarial.

Já falamos de como muitos galegos emigraram a Lisboa e qual foi o impacto cultural dessa leva. Os primeiros nomes deste roteiro alargam essa homenagem aos muitos empreendedores que modificaram a estrutura e vida social da cidade.

  1. Manuel Garcia Moreira e a Cervejaria da Trindade. Uma das cervejarias mais famosas do circuito lisboeta foi também um projeto galego.

2. Francisco Espinheira e a Ginjinha. Dispensam apresentações. A Ginjinha é o sabor de Lisboa e o Espinheira soube “fermentar” esta ideia.

3. Agapito Serra Fernandes foi um empresário galego do mundo da confeitaria. Ele projetou o Bairro da Estrela d’Ouro como residência para a sua família e empregados. O bairro tinha até um cinema, o primeiro a passar filmes sonoros em Portugal.

4. Ampliamos horizontes e falamos agora de um dos episódios mais famosos da história portuguesa: a Revolução dos Cravos. A Celeste Caeiro, “Celeste dos cravos”, foi a mulher que deu nome a uma revolução. A sua mãe era da Galiza.

5. A Madalena Iglésias fez história no mundo da canção. Não, não é família do Julio Iglesias. Teve uma carreira curta, mas foi a rainha das rádios e tvs portuguesas. Até venceu o festival da canção da RTP.

6. E já no último lugar, alguém que podem acompanhar nas redes sociais: Manuel Durán Clemente, um dos Capitães de Abril. Quando vos disserem que a Galiza só deu ao mundo exemplos de políticos de direita, pensem neste homem.

E cá termina a nossa viagem. Mas sabem que coisa? eu gosto é dos roteiros circulares, são os meus preferidos.

Agora só espero fazer num futuro próximo um artigo intitulado “O que Portugal deu à Galiza”. Conheçamo-nos melhor uns e outros para que assim seja.