Salvador Sobral, Compostela e Lorca

O poeta Federico Garcia Lorca viajou muitas vezes à Galiza, até encenou La Barraca na Praça da Quintana. Há quem não saiba que compôs seis poemas na nossa língua, publicados pela editorial Nós e prologados por Blanco Amor. Alguns deles têm como localização Santiago de Compostela.

De um lado temos este poeta e do outro um pianista e músicos: assim é que encaixam todas as peças do puzzle Lorca namorado. O espírito de quem encenou La Barraca em 1932 volta à cidade em forma de espetáculo-homenagem.

O pianista Abe Rábade musicou estas composições do poeta de Fuente Vaqueros e amanhã, às 22h, poderemos ouvir ao vivo como é que ficaram esses arranjos. Vão ser misturados ritmos de música tradicional, jazz e flamenco assim como danças.

Alguns cantores da Galiza interpretaram estas letras. Temos o caso dos Luar na Lubre e o legado do Narf: as suas interpretações do Madrigal de Santiago são umas joias que ainda não sei se merecemos.

Amanhã, teremos as vozes do Salvador Sobral, Kiki Morente, Arcangel, Marcelo DoBode e Davide Salvado. Com efeito, o cantor português que já nos conquistou no Ari(t)mar interpretando poemas de Celso Emilio volta a Compostela e todos e todas estamos em pulgas para vê-lo! O lisboeta cantará o poema lorquiano dedicado a Rosalia. Fusão das boas. Lorca namorado! Atrevo-me com uma resposta também literária: e vou namorada.

Ari(t)mar 2017

Uma coisa boa de ter um blogue é ver como um projeto começa. Uma coisa melhor ainda é ver como ele tem continuidade. Escrever “Ari(t)mar” e colocar ao lado “2017” já me encheu de felicidade.

Ari(t)mar é um certame novinho em folha, com apenas duas edições, mas muito revolucionário do meu ponto de vista.

Estudantes de português fazem um mergulho em livros de poesia e discos durante um ano para saberem qual foi a poesia e a canção melhores do ano anterior. Ouvem e leem produtos culturais das duas bandas do Minho, o qual facilita uma imersão. Em termos de consumo cultural também…é 5 estrelas.
Por outro lado, acho que o certame é muito horizontal, porque quem escolhe não é um júri especializado, mas o público leitor/ouvinte que muitas vezes se aproxima de grupos/poetas pela primeira vez.

O ano passado, na parte da música e do lado português, ganhou a minha ídola Capicua. Pensem bem…quantas oportunidades teria uma cantora rap feminista portuguesa em vir à Galiza? Graças ao Arritmar o público daquela noite do Teatro Principal ficou a saber quem ela era.

Este ano, confesso, o cartaz não me atrai muito assim, mas o público é soberano.

Na parte da música, a decisão que menos me satisfaz, ganharam Sés (Gz) e os Quinta do Bill (Pt). Considero que os Quinta do Bill não são muito representativos da música portuguesa atual, até fiquei a saber que ainda tinham a máquina azeitada, pois levam uns tempos em que não estão a bater muito na moda.

No assunto literário já fiquei mais contente. Do lado galego temos a Paco Souto (“Terradentro”) e do português a Pedro Craveiro (“fui a Bruges esquecer um amor”).

Como adoro o projeto irei ao teatro na mesma ver a gala, no dia a seguir é feriado e não há nem que madrugar nem nada. Aliás, apresentam a Isabel Risco e o Quico Cadaval…vai dar barraca!

Então a gente vê-se no dia 31 às 21h no Teatro Principal para curtir e fazer também homenagem ao Narf.

Como assim? Ainda sem bilhetes? esgotaram! mas pode ser que tenham uma chance, amanhã há um sorteio na Cadena SER no programa Hoy por hoy

Caminhar sem fim

Compostela é essa cidade que as pessoas recordam por causa do Caminho. Entre peregrinos, lojas de souvenirs e ementas de polvo e churrasco, também há outro caminho: o dos encontros musicais. Narf era um músico que caminhava entre várias culturas e o Festival Feito a Man quer recordá-lo da melhor maneira: com um concerto tributo.

O dia 30 deste mês, às 21h, na Praça da Quintana, teremos oportunidade de ver aqueles artistas que colaboraram com o Narf durante anos: Timbila Muzimba, Xelís de Toro, Jim Sanders, Ze Rui, Coro Encaixe, Coro da Rá, Mofa e Befa, Manolo Cortés (Chévere), Luiz Caracol, As Marias (Maria Bouzas e Maria Pujalte), Carlos Santiago, Pepe Sendón, Quico Cadaval, Uxía, Jabier Muguruza, Alfonso Espiño, Pilo Sierra, Xabier Olite, Javier Abraldes, Pista 4, Manuel Paino, Piti Sanz, Ton Risco e Fran Sanz, entre outros.

Do ponto de vista lusopata não podem perder os Timbila Muzimba (de Moçambique) e o Luiz Caracol (de Portugal e de quem temos falado nestes últimos dias). Podem ver como foi o concerto de Narf com os Timbila neste vídeo, um exemplo ímpar de talento.

E cá com o Luiz Caracol:

As pontes que este homem tem criado durante anos são hoje motivo de celebração neste concerto tributo. Continuemos a caminhar juntos, porque aquelas pessoas que recordamos, essas…nunca morrem.

 

 

Cheny Wa Gune nas Crechas

A programação da Casa das Crechas não para de nos dar motivos para escrever neste mês e nós gostamos muito do desafio.
Hoje às 21h temos o Cheny Wa Gune em concerto. Conheci este artista por causa do Cantos na Maré de 2013 e, também, graças ao Narf. Fran Pérez foi uma auténtica ponte entre a Galiza e os países africanos de língua portuguesa. Os Timbila Muzimba foram uma peça mais dessa ponte com a qual viajamos a Moçambique. O último concerto que o Narf deu na Galiza foi aquele do Womex com os Timbila e onde também estava o Cheny…lá estávamos todos/as unidos num único sentimento.
Se depois desta intro ainda não perceberam bem quem é que é o Cheny Wa Gune, vai valer mais a pena começarmos pelo princípio. Ele nasceu em Maputo em 1980. Desde cedo sentiu curiosidade pela música, aprendendo os conhecimentos da música chopi aos 5 anos. É membro fundador da OrquestraBanda Timbila Muzimba desde 1996 e com ela participou em vários festivais internacionais divulgando a música moçambicana, em particular a timbila, em diversos países.

Não consegui resistir e tive que postar esta cover de Billy Jean na timbila…simplesmente maravilhosa. Vão perder?

Cantos na Maré 2017

programa-completo

Chega um dos eventos mais importantes do nosso calendário: o Cantos na Maré. Este ano a edição vai ser, por assim dizer, uma homenagem e um reencontro com a África lusófona, depois de em 2016 termos perdido um dos grandes vultos da nossa cultura: Narf.

Cada vez que no Lusopatia aparecia o tag “Guiné”, confessemos, era por causa dele. O Narf era desses músicos com alma que foi capaz de fazer-nos ver que lá no fundo no fundo…a origem de todas as coisas é o continente africano. E assim chegaram a este blogue nomes como o de Manecas Costa, por exemplo.

Este vai ser um festival em grande. Amanhã começam uma série de atividades complementares que irão decorrer entre Compostela e Ponte Vedra:

  • dia 12: conversa e cantos com Manecas Costa (Guiné Bissau) na Casa das Crechas em Compostela às 22h30 (5 euros)
  • dia 13: oficina musical para escolares sobre cantos tradicionais brasileiros com Kátya Teixeira (Brasil) no Paço da Cultura de Ponte Vedra às 11h.
  • dia 13 também: Colóquio: O semba, matriz cultural de Angola com Paulo Flores (Angola) na livraria Paz em Ponte Vedra às 20h.
  • dia 14: oficina de canto alentejano com Celina da Piedade (Portugal) no Gramola em Ponte Vedra às 13h.

Como já falei das atividades…não sei se hei de falar do cartaz do sábado. Acho que conseguem adivinhar quem vai estar.

Com efeito: Manecas Costa, Paulo Flores, Kátya Teixeira, Celina da Piedade, as nossas Guadi Galego e Uxia e o músico espanhol Santiago Auserón. Todas estas pessoas atuaram na Galiza e temos por cá no blogue notícias suas que cheguem, é por isso que não vos quero aborrecer e vou apenas colocar uma canção, se me permitirem, do Narf com o Manecas, porque acho que é quase um dever.

Onde quer que estiveres…alô irmão “Narife”

Womex 2016…também lusófono

womex

Temos neste ano uma nova edição do Womex em Compostela e igual que aconteceu no ano 2014, há muitas bandas lusófonas que vão dar pano para mangas.

Para quem não souber, Womex é uma exposição de músicas do mundo. Uma vitrine que nos permite ver num palco montes de grupos que, de outra maneira, não teríamos possibilidade de ver nem ouvir. De 20 a 22 deste mês Compostela será um redemoinho de tendências musicais.

E aí…a nossa proposta. Como são tantas bandas, podem consultar datas e lugares no programa em PDF, a partir da página 13.

  • Reyfado Lisboa (Portugal). É um concerto evocativo daquilo que os fadistas, os autores e instrumentistas, criaram como o mais emblemático do Fado de Lisboa.
    Baseado em temas conhecidos de todos, antigos e recentes, através das vozes de artistas em ascensão no universo do fado, é um concerto- memória. Uma viagem pelo fado, que é também como quem diz por Lisboa, pelos bairros da Mouraria, de Alfama, da Madragoa.

  • Bixiga 70 (Brasil). A banda tem por nome o endereço do local onde esta formação nasceu em 2010. Rua da Bixiga, número 70. São Paulo.bixiga-70-divulgacao

Esta formação mistura elementos da música africana, afrobeat, brasileira, latina e do jazz.

  • Throes + The Shine (Angola/Portugal). Preparem-se para mexer o esqueleto, porque Throes + The Shine vão rolar a festa.

Oriundos do Porto e de Luanda, a sua génese prendeu-se com a fusão do kuduro com o rock, mas que entretanto alargou os seus horizontes de forma a albergar uma multitude de culturas que podem ir de África à Europa ou da América do Sul aos Estados Unidos. Depois de lançarem dois álbuns e palmilharem por essa Europa fora, está para sair um novo álbum no próximo mês de maio, que conta com a produção de Moullinex e irá contar com o selo da Discotecas.

  • José Mucavele (Moçambique). Ele é um dos maiores compositores e intérpretes de Moçambique. Músico e guerrilheiro unidos numa mesma alma, trabalha também como pesquisador etno-cultural.

  • Gisela João (Portugal). É a cereja no bolo dentro desta programação. A jovem cantora portuguesa tem impregnada na voz uma forte matriz fadista, daquelas que surgem sem avisar. De Barcelos à capital do fado e daí à Galiza.gisela

  • Narf & Timbila Muzimba (Galiza / Moçambique). E aí é que o nosso pequeno coração palpita. O Narf sempre sabe fazer boas misturas e esta não havia de ser má. Timbila Muzimba é uma orquestra musical de timbilas. Este grupo de músicos e bailarinos é composto por dez membros entre os quais podemos encontrar velhos conhecidos do Lusopatia como Cheny Gune.

  • Nomade Orquestra (Brasil). Formada no ABC paulista em 2012, pode-se dizer que a Nomade Orquestra é um ponto de encontro onde diferentes vertentes e expressões musicais interagem em um trabalho autoral instrumental vivaz e transita ente os universos do funk, jazz, dub, rock, afro beat, hip-hop, incorporando elementos da música eletrónica e quebrando as barreiras entre música tradicional e contemporânea.

  • Anelis Assumpção (Brasil). Uma das minhas cantoras de referência, amigas. Gosto muito dela. Cantora e compositora brasileiraeu estilo mescla influências de dub, reggae, afrobeat, rap, música de cabaré, samba e bossa nova. anelis.jpg

  • DJ Satelite (Angola /Portugal). Originário de Luanda, tem um talento natural. Começou a sua carreira por acaso e mais tarde terminou por ser um dos maiores impulsionadores do kuduro e do afrohouse fora das fronteiras de fala portuguesa.

Conseguem ter os pés parados no chão?

Cantos na maré 2016

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Aquelas pessoas apaixonadas pela música lusófona, por favor, não façam planos para o dia 16 do corrente mês.
O Festival Cantos na Maré volta depois de um hiatus de quase mais de um ano. O esquema é parecido com os anteriores, direção artística de Uxía Senlle e direção musical de Paulo Borges. O lugar? Ponte Vedra.

Mudam é as vontades, que têm crescido depois da ausência neste intervalo e os artistas do cartaz, obviamente.

  • Alceu Valença foi o último artista em ser confirmado. Pernambucano influenciado pelos maracatus e repentes de viola, faz fusão disto tudo com guitarra elétrica, baixo e sintetizador. Se Zucchero fosse brasileiro, seria Alceu Valença.

  • Jorge Palma é um dos pais do rock português, daqueles que fazem ora rock transgressor, ora baladas que tocam o coração. Dylan, Lou Reed ou Led Zeppelin são as suas influências. “Encosta-te a mim” é quase um hino em Portugal. Simplesmente uma lenda.

Deixo-vos este vídeo onde aparecem os melhores artistas portugueses. Vamos lá ver se reconhecem algum/alguma.

  • Karyna Gomes é guineense, como Manecas Costa e Eneida Marta. Volto a nomear estes dois artistas, porque infelizmente chegam poucos músicos da Guiné à Galiza. Esperemos que agora com a Karyna esta tendência esteja mais consolidada.

Filha de ex-combatentes, os seus olhos viram vários conflitos armados. Iniciou a sua carreira musical longe da sua terra natal, no Brasil, em coros de gospel.

Karyna faz música urbana em crioulo guineense, mesmo que não haja instrumentos ocidentais nas faixas, aquilo é música de cidade.

  • Thaïs Morell é a voz feminina brasileira do festival. Compositora e multi-instrumentista vem com um leque de sons tipicamente brasileiros. Esta cantora emergente é uma rajada de ar fresco.

  • Uxía e Narf são os representantes das nossas latitudes. Não precisam apresentação. Deixo-vos com Baladas da Galiza Imaginária, com a esperança de um dia vê-la virar realidade. Espero-vos em Ponte Vedra.

Cremildo Bahule

5273_138199306367836_1174885211_nO ensaísta e escritor moçambicano, Cremildo Bahule, estará um tempo connosco na Galiza. Ontem esteve na EOI de Vigo e a próxima semana estará na Ciranda. Ficará na residência de escritores da Axóuxere Editora, em Leiro, Rianjo.

Realmente é fantástico fazer artigos e que apareça Rianjo entre as palavras. A minha metade rianjeira não pode estar mais feliz. Uma residência para escritores e escritoras! que ideia maravilhosa dos Axóuxere para promover a criação e perder o medo à página em branco.

De facto, o escritor está a fazer uma pequena turné galega. Hoje estará na biblioteca de Rianjo para ler Nação Laranja (18h). No dia 16, na livraria Ciranda, o Cremildo falará sobre estética literária (similaridades e contendas entre Literatura Moçambicana e da Galiza). Além da palestra, recitará versos acompanhado de Fran Pérez, NARF, que também interpretará alguns dos seus temas temas mais ‘moçambicanos’. Marquem nas suas agendas: dia 16 às 20h na Ciranda.

E nos dias 25 e 26 fará um pequeno ateliê de escrita criativa em Rianjo no auditório. Dia 25 é de tarde, de 19h a 21h30 e dia 26 é de manhã, de 11h a 13h30.

O português está perto, mesmo aqui ao lado

Hoje trazemos um outro festival que nos vai aproximar à língua portuguesa, à sua riqueza e diversidade. Com o mote de “aquelas nossas músicas” apresenta-se em Ourense a segunda edição do Festival “Português Perto”. O evento visa dar a conhecer músicas (e não só) que nos ponham em contacto com as sonoridades de Angola, Brasil, Portugal e Galiza. As actividades dividem-se em dois grandes blocos, actuações e workshops. O 7 de maio, às 20:30, vai contar histórias com pronúncia da Arousa o actor Carlos Blanco, o dia 9 às 20:30 tocará NARF, também da Galiza. No dia a seguir é a vez dos Terra Morena subir a palco, sempre às 20:30. Para terminar, a presença portuguesa estará a cargo dos Andarilhos, o 10 de Maio.

No que diz respeito aos workshops, o dia 8, Sandra Diéguez e Sérgio Tannus, galega e brasileiro, vão mostrar as diferenças e/ou semelhanças entre a percussão dos dois lados do atlântico, começa às 19 horas. O dia nove de Maio é o turno da nossa Aline Frazão, também às 19, fazer outro dos seus cacimbos, dos que já demos devida conta neste Lusopatia.

Os festival, e apesar dos cortes, é organizado pela Vice-Reitoria do Pólo de Ourense da Universidade de Vigo, os workshops serão leccionados na ludoteca do Edifício de Faculdades em Ourense e os concertos serão na sala Emília Pardo Bazán, no mesmo prédio, a gente encontra-se lá, quero ver a todos.