Lídia Jorge na Galiza

A escritora portuguesa visitará nos dias 21 e 22 a Galiza.

No ano 2015 já a tivemos num encontro fugaz na Cidade da Cultura, mas soube-nos a pouco. Desta vez poderemos tê-la connosco mais tempo, como podem ver no cartaz e o tema é aliciante: “Os caminhos da literatura portuguesa na Galiza”

Para quem estiver um bocado por fora dos assuntos literários, dir-vos-ei que em 2014 foi-lhe atribuído o prémio Luso-Espanhol da Arte e Cultura concedido pelos governos de Espanha e Portugal. Mas comecemos pelo início, que é como as apresentações são começadas: ela nasceu em 1946, no Algarve, em Boliqueime, e viveu os anos mais convulsos da Guerra Colonial na África.

É professora do ensino secundário e publica regularmente artigos na imprensa. Trata-se de um dos vultos da literatura portuguesa e o seu discurso é muito intenso: a mulher e a sua solidão e a releitura da História.

Quanto à receção das suas obras diz a Wikipédia que “é inquestionavelmente uma voz singular e reconhecida no panorama da literatura portuguesa contemporânea. Comprovam-no a receptividade do público e da crítica; as repetidas edições das suas obras; as traduções para outras línguas; as teses e os ensaios académicos que se vão apresentando sobre os seus textos em vários países; os prémios nacionais e internacionais que têm distinguido a sua obra; e ainda os volumes monográficos que se debruçam sobre a sua criação literária”

Esta será uma semana de sorte para quem gostar de literatura.

Maria Fernanda Garbero de Aragão na Ciranda

imagesEntre tanta agenda de concertos e teatro já achávamos em falta alguma palestra.

Amanhã Maria Fernanda Garbero de Aragão estará na livraria Ciranda. Graduada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, esta estudiosa brasileira é um vulto no cenário cultural. Tem grande parte das suas pesquisas em estudos de género, dedicando-se, sobretudo, à compreensão da formação de atores políticos que romperam com as expectativas da esfera privada para, de perspetivas diversas, escandalizar a cena pública.

O seu projeto de pesquisa atual propõe leituras de experiências a partir das composições da mãe e da maternidade, tanto na literatura, quanto na atuação social, tendo a desconstrução mítico-afetiva como caminho para a reivindicação uma voz coletiva e empoderada.

Amanhã pelas 18h na Ciranda encarará um tema quase consubstancial ao Brasil: a violência sob diferentes perspetivas, porque ela também é uma marca na literatura brasileira.

A palestra, intitulada Era uma vez um conto de violência: mulher e literatura no Brasil, promete não deixar ninguém indiferente.

 

Iacyr Anderson Freitas na Ciranda

imagesContrariando o ditado popular de “no primeiro de abril vão os burros aonde não têm que ir” hoje podemos ir ao lugar certo e sem que nos preguem uma partida.

Iacyr Anderson Freitas é um escritor brasileiro que apresentará o seu último livro na livraria compostelana Ciranda. Ar de arestas, que é o título, é uma reflexão sobre a dor mais cruel, descarnada e inevitável. O título vem ilustrar o que na dor há de anguloso e intratável, segundo Paulo Henriques Britto.

A obra foi já objeto de adaptação cenográfica pelo Laboratório de Movimento e Performance I’Mmoving e tem também fotos de Ozias Filho, que também foram expostas no Museu de Arte Moderna Murilo Mendes, em Juíz de Fora, Minas Gerais. Assim sendo, podemos afirmar que o volume de poesias é uma experiência estética completa.

Nascido em 1963, começou a publicar em 1982 e desde essa data os prémios e considerações não cessaram.

No estudo Uma história da poesia brasileira, o crítico e poeta Alexei Bueno afirma: “Dos principais poetas de sua geração, Iacyr Anderson Freitas (1963), desde a sua estreia com Verso e palavra, de 1982, vem construindo com notável coerência uma obra poética que se traduz por uma tentativa de compreensão em profundidade do mundo, característica comum a quase toda grande poesia. Passando do verso livre às formas fixas como o soneto, a sua poesia transmite a perceção aguda do efêmero e do imponderável sobre o qual se constroem todas as ilusões humanas”.

Hoje às 19h, na livraria Ciranda em Compostela.

Festival Atlântica 2015

Storyteller, cuentero/a, cuentacuentos, contador/a, conteur…e outras múltiplas vozes que definem esta profissão reúnem-se novamente num festival de narração oral.

Dizemos Olá mais uma vez ao festival Atlântica que chega este ano com contadoras por nós conhecidas por terem participado noutras edições.

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De 12 a 19 de março narradores de todas as partes do globo trarão as suas histórias para dar-lhes vida na Galiza. Junto com os nossos contadores (Pepo de Suevos, Quico Cadaval, Avelino González, Paula Carballeira, Celso Sanmartín…) estarão também vozes vindas da lusofonia: Sofia Maul e Ana Lage. Desta feita apenas temos duas portuguesas, outros anos o cartaz vinha bem mais carregadinho, mas mesmo assim fico feliz por termos estes pontos de encontro.

Sofia Maul e Ana Lage dão circularidade à programação porque abrem e encerram, nomeadamente, o festival. Podem consultar o programa e ver os participantes nesta ligação.

maxresdefaultA madeirense Sofia Maul é já “aluna repetente” neste evento. Participou na anterior edição e trouxe aquele dom da mestiçagem. Vai contar a história Explicação do amor no De catro a catro, em Vigo, o dia 12 de março às 21h. Não sei se este é um desses contos de protagonismo marcadamente feminino onde fala de mulheres em lavadouros da Madeira. Ando curiosa…

ana lageAna Lage é uma voz nova para nós. Minhota de nascimento e lisboeta de adoção é perita em literatura infantil. Leva histórias a todos os contextos da vida e é por isto que conta com regularidade em bibliotecas, escolas, hospitais e cárceres. Jogos da vida é o título do seu conto na Nave de Vidán. Dia 19 de março, às 22h.

Deem ouvidos a todas as histórias que ouvirem. Acreditem, que a fantasia é para isso que foi criada.

 

 

O crânio de Castelao

2013021421041561822O amor pelo vintage chega também à literatura. Este post é sobre literatura de folhetim.

Esta terça-feira, 23 de julho, às 19h30, no Túmulo de Castelao na Igreja de São Domingos de Bonaval em Compostela terá lugar o lançamento do livro “O Crânio de Castelao”. O livro é um romance em folhetim, escrito por onze pessoas de países lusófonos.
Quem quiser passear pelas páginas desta obra, encontrará nomes de “cordelistas” como Carlos Quiroga, Antón Lopo, Suso de Toro, Quico Cadaval, Xavier Queipo e Xurxo Souto, Miguel Miranda (Portugal), Bernardo Ajzenberg (Brasil), Germano Almeida (Cabo Verde), Possidónio Cachapa (Portugal) e Luís Cardoso (Timor). Foram publicados capítulos em diferentes meios da Galiza, Brasil e Portugal e agora podemos contar com ele editado como livro junto com outras explicações graças a Através Editora.

Como se se tratasse de um capítulo de Murder, she wrote e tal como o género pede, a história parte de um roubo de uns ossos. Por melhor dizer, do crânio de Castelao. Um Catedrático de Medicina pede a um discípulo que o procure e nessa busca, que leva o jovem por várias geografias de Portugal, Cabo Verde, as Açores e o mesmo Índico, interfere a filha do velho professor. Quando recebem aviso final de regresso, pois o crânio fora substituído por outro, os meios conseguiram fazer crer que o roubo nada mais era do que uma ficção literária ligada ao mencionado Encontro Galego no Mundo-Latim em Pó.

Onde começa a literatura e onde a verdade? será que está o crânio no túmulo? será que o crânio é o de Castelao?

Só poderemos saber a verdade esta terça.

Paulo Soriano na livraria Ciranda

Esta sexta-feira, na livraria Ciranda em Compostela poderão conhecer um bocado mais a literatura do Brasil. A proposta que se faz, desta feita, está centrada nos géneros de terror e ficção científica e no escritor Paulo Soriano.

Pelas 19h30 começará o colóquio, apresentado por Rodrigo Vizcaíno, da Urco Editora.

935821_4876789120002_619358435_nPaulo Soriano é advogado e contista amador. Nascido em Itabuna-BA, reside em Salvador, onde exerce o magistério superior e a advocacia pública. Mantém na internet o sítio “ContosGrotescos“, uma página de literatura de terror.

Autor das coletâneas “Contos Grotescos”,  “Histórias Nefastas”  e “Contos Galegos”. Organizou  também as coletâneas “Irmandade das Sombras” e “I Concurso Literário ‘Contos Grotescos’ – Prémio Edgar Allan Pöe”

Nós já conhecíamos um bocado o seu labor, graças aos volumes que a Imperdível disponibiliza. Mas a relação do escritor com a Galiza vem de antigo, dos tempos em que não usávamos internet.

Paulo Soriano é um brasileiro que chegou a saber da Galiza por acaso, como tantos outros. A descoberta foi num “botequim” de um galego. No balcão havia um jornal do outro lado do Atlântico que começou a ler com muita curiosidade, estava escrito na nossa língua. Foi assim que iniciou uma relação de procura e indentidade com a Galiza. Podem ler parte dos seus posicionamentos na entrevista que lhe foi feita no PGL.

Vampiros, lobisomens, fantasmas… Não percam esta oportunidade de se arrepiar!

Laços de família

Hoje fala para nós, a filóloga Sandra Freire, uma das incorporações mais recentes do Clube de leitura Santengrácia. Ela vai dirigir nestas linhas a nossa leitura de Laços de Família.

O seu texto diz assim:
“Uma reflexão crítica de Laços de família

O livro que tratámos esta sexta-feira no clube de leitura “Santa Engrácia” foi para os assistentes um livro que tem como protagonista a mulher.
A personagem feminina deixa de ser vista, como foi na tradição literária, segundo umas características físicas e morais prototípicas. Na obra de Clarice Lispector trata-se a mulher de forma mais profunda como um ser complexo, com contradições, sentimentos, ações, pensamentos, …
Em geral, em todos os contos podemos assinalar exemplos das ações e pensamentos da protagonista que não se ajustam ao papel dado à mulher. Nestes relatos a personagem tem comportamentos que não obedecem a regras morais tradicionalmente aceitáveis, coloquemos como exemplo dois textos: “Devaneio e embriaguez duma rapariga” ou “Amor”, nestes relatos a mulher realiza factos, deixa de parte as obrigações como esposa e mãe para fazer caso aos seus sentimentos e gostos individuais.
Acedemos portanto à mente da mulher e ao seu quotidiano para fazer-nos ficar com a ideia dos seus problemas e preocupações. Nesse viver das mulheres quotidiano não está fora o homem, de facto o homem e seu papel de indiferença, desprezo ou mesmo violência afetam de forma visível à vida da mulher. São múltiplos os exemplos que mostram como afeta o comportamento dos homens a elas tanto de forma física em “Preciosidade” conta-se um caso de violação, noutros casos de forma mais psicológica, por exemplo em “Mistério de São Cristóvão” quando um mascarado acede ao espaço de uma rapariga e da sua família.
Como conclusão podemos dizer que no livro há uma crítica ao papel dado às mulheres como domésticas encarregadas de limpar e servir em casa, acompanhar ao homem fora, sem momentos de distração. Podemos dar um exemplo em “Laços de família” ele é quem toma as decisões pelos dois, o homem reflexiona no fim do conto que esse sábado iriam ao cinema.
O mundo que é apresentado no livro foge do artifício, quiçá para mostrar de forma natural o dia a dia de uma mulher que ainda hoje em dia, cinquenta anos depois não nos é alheio”.

Estão com vontade de ler o livro? carreguem nesta ligação: ClariceLispector-LaçosdeFamília

Sandra, muito obrigada por nos descobrir tanta coisa boa.

Contos da Montanha

Chegam novos tempos para o Lusopatia na etiqueta “livros”. Até que enfim!
Sob esta epígrafe iremos colocando em próximos artigos alguns textos de crítica literária, dicas de leitura..etc.

Temos que agradecer isto tudo a colaboradores e colaboradoras, sem eles e elas seria impossível este novo caminho.
Faz a estreia hoje o professor Antom Labranha, leitor fiel do Clube de Leitura Santengrácia. Esta iniciativa nasceu do convívio de ex-alunos/as de Português da EOI de Compostela, que procuraram alargar seus estudos e continuar a se reunir, pelo menos, uma vez por estação. Bem haja para este projeto!
Vejam lá o que o Antom tem para nos dizer sobre Contos da Montanha, de Miguel Torga:
“Há, de contínuo, uma tensão narrativa arrebatadora que desfecha, conto por conto, numa grande comoção. Com uma prosa intensa, poética e alegórica, através das personagens que constrói, vai descrevendo as paixões humanas mais ancestrais, profundas e instintivas, e por isso mais autênticas e intemporais que são, com certeza, as nossas próprias paixões: o medo de cá e do além-mundo, o refúgio na fé, a resignação, a complacência, a admiração, o amor, os ciúmes, os remorsos, o ódio, a vingança… a vontade de suicídio.
Os contos são, de facto, independentes, mas complementares: no conjunto fazem um mostruário dos modos de vida e das paisagens rústico-geográficas, económicas, culturais… dum passado que podemos pensar longínquo e que, aliás, pode ainda perdurar e acho que perdura, embora seja remanescente desses outros tempos, não assim tão distantes.
Um contributo linguístico notável são os ditados e provérbios que de frequência coloca em dicas ou exclamações das personagens, ou mesmo do narrador -não sei se populares ou de ideia própria do autor-.

  • Em pormenor:

A Maria Lionça
A espera expectante do Pedro pelo pai retornado e a posterior deceção, lembrou-me “O pai do Miguelinho” de Castelao. E a espera pelos correios que nunca chegam, lembrou-me “Mamasunción” de Chano Piñeiro.

O cavaquinho
Acho que não foi assim bem resolvido, pois não percebi qualquer situação no relatório que ligue com a tragédia final, embora a imaginação me faça pensar que a única hipótese para o pai conseguir o cavaquinho fosse o roubo.

O filho
Encontrei conotações ambientalistas: a beleza e a grandeza do simples, do viver em harmonia com a natureza.

Maio moço
Acho que há uma crítica social à coletividade humana geral por não valorizarmos aquilo que não vem precedido de uma posição elevada, de um prestígio, de uma façanha.

  • Em destaque:

Solidão
“Não há falência maior que a de imitar o passado, mesmo que seja o nosso”

O lugar de sacristão
Porque não é assim tão direto como nos outros relatos. O jogo psicológico é mais subtil: uma intuição juvenil premonitória que paira no ar e mesmo o próprio protagonista não acerta a conhecer, o desencontro amoroso que desvenda para ele e para nós leitores o presságio, a mortificação de lhe assistir nos ritos tirados de um outro amor que a ele foi negado, e um final restaurador duma justiça íntima e inconfessável

Muito obrigada e parabéns, Antom!