Chega o Chapitô a Ferrol

maxresdefaultA Companhia do Chapitô nasce em 1996 em Lisboa e desde o seus inícios desenvolve uma linguagem artística própria.

Para quem não souber, a companhia leva o nome da organização onde nasceu. O Chapitô é uma ONG situada na Costa do Castelo, em Lisboa. Lá são desenvolvidas atividades de apoio social, formação e cultura.

Os atores e atrizes valorizam formas que revelam a criatividade e o otimismo humano, daí a sua vocação para a comédia, que responde segundo eles à capacidade do homem perceber os aspetos mais insólitos da sua realidade física e social.

Hoje esta companhia está em Ferrol para representar o grande clássico de Sófocles, Édipo. Édipo, para mim o máximo expoente da tragédia, vai ser reinventado em chave de humor. Parricidas, incesto, monstros…e risos? parece que sim é possível.

Em Ferrol, no Teatro Jofre, às 20h30.

Womex 2016…também lusófono

womex

Temos neste ano uma nova edição do Womex em Compostela e igual que aconteceu no ano 2014, há muitas bandas lusófonas que vão dar pano para mangas.

Para quem não souber, Womex é uma exposição de músicas do mundo. Uma vitrine que nos permite ver num palco montes de grupos que, de outra maneira, não teríamos possibilidade de ver nem ouvir. De 20 a 22 deste mês Compostela será um redemoinho de tendências musicais.

E aí…a nossa proposta. Como são tantas bandas, podem consultar datas e lugares no programa em PDF, a partir da página 13.

  • Reyfado Lisboa (Portugal). É um concerto evocativo daquilo que os fadistas, os autores e instrumentistas, criaram como o mais emblemático do Fado de Lisboa.
    Baseado em temas conhecidos de todos, antigos e recentes, através das vozes de artistas em ascensão no universo do fado, é um concerto- memória. Uma viagem pelo fado, que é também como quem diz por Lisboa, pelos bairros da Mouraria, de Alfama, da Madragoa.
  • Bixiga 70 (Brasil). A banda tem por nome o endereço do local onde esta formação nasceu em 2010. Rua da Bixiga, número 70. São Paulo.bixiga-70-divulgacao

Esta formação mistura elementos da música africana, afrobeat, brasileira, latina e do jazz.

  • Throes + The Shine (Angola/Portugal). Preparem-se para mexer o esqueleto, porque Throes + The Shine vão rolar a festa.

Oriundos do Porto e de Luanda, a sua génese prendeu-se com a fusão do kuduro com o rock, mas que entretanto alargou os seus horizontes de forma a albergar uma multitude de culturas que podem ir de África à Europa ou da América do Sul aos Estados Unidos. Depois de lançarem dois álbuns e palmilharem por essa Europa fora, está para sair um novo álbum no próximo mês de maio, que conta com a produção de Moullinex e irá contar com o selo da Discotecas.

  • José Mucavele (Moçambique). Ele é um dos maiores compositores e intérpretes de Moçambique. Músico e guerrilheiro unidos numa mesma alma, trabalha também como pesquisador etno-cultural.
  • Gisela João (Portugal). É a cereja no bolo dentro desta programação. A jovem cantora portuguesa tem impregnada na voz uma forte matriz fadista, daquelas que surgem sem avisar. De Barcelos à capital do fado e daí à Galiza.gisela
  • Narf & Timbila Muzimba (Galiza / Moçambique). E aí é que o nosso pequeno coração palpita. O Narf sempre sabe fazer boas misturas e esta não havia de ser má. Timbila Muzimba é uma orquestra musical de timbilas. Este grupo de músicos e bailarinos é composto por dez membros entre os quais podemos encontrar velhos conhecidos do Lusopatia como Cheny Gune.
  • Nomade Orquestra (Brasil). Formada no ABC paulista em 2012, pode-se dizer que a Nomade Orquestra é um ponto de encontro onde diferentes vertentes e expressões musicais interagem em um trabalho autoral instrumental vivaz e transita ente os universos do funk, jazz, dub, rock, afro beat, hip-hop, incorporando elementos da música eletrónica e quebrando as barreiras entre música tradicional e contemporânea.
  • Anelis Assumpção (Brasil). Uma das minhas cantoras de referência, amigas. Gosto muito dela. Cantora e compositora brasileiraeu estilo mescla influências de dub, reggae, afrobeat, rap, música de cabaré, samba e bossa nova. anelis.jpg
  • DJ Satelite (Angola /Portugal). Originário de Luanda, tem um talento natural. Começou a sua carreira por acaso e mais tarde terminou por ser um dos maiores impulsionadores do kuduro e do afrohouse fora das fronteiras de fala portuguesa.

Conseguem ter os pés parados no chão?

Curtocircuito 2016

curtocircuito-2016-8734e0fb

O regresso às aulas é definitivo, mas estamos a viver uma época um bocado estranha. Está um calor de morrer em Compostela e aquela visão outoniça da locomotiva das castanhas ainda não apareceu. O guarda-chuvas continua no bengaleiro e os casacos…pronto, os casacos nem vê-los!

Ainda bem que voltou o Curtocircuito para nos lembrar a realidade: outubro está mesmo pertinho. Entre 3 e 9 do corrente mês teremos uma boa seleção de filmes para ver.

Como é costume, faço-vos uma seleção das curta-metragens lusófonas.

Nas secções que vão a concurso, temos:

  • Radar 1, 3 de outubro, Teatro Principal, às 20h15.

Excursões, Portugal-Canadá. Uma curta sobre guias turísticos, Lisboa e encontros por acaso.

O pássaro da noite, Portugal-França. A curta-metragem mais esperada por mim. Cada vez que visito Lisboa tento ir ao Finalmente, um local onde atua Fernando a.k.a. Deborah Krystal. Esta curta fala-nos da sua vida e metamorfoses.

deborah-manchete

  • Radar 4, 7 de outubro, Teatro Principal, 20h15.

NYC 1991, Portugal. Filmada em super 8 na cidade de Nova York em 1991, poderemos ver graças a esta curta todos os passos que a nossa sociedade deu.

  • Radar 5, 8 outubro, Teatro Principal, 20h15.

A brief story of a Princess X, França-Portugal-Reino Unido. Trata-se de uma breve história sobre a escultura do mesmo nome, Princess X, do escultor Constantin Brancusi. Vejam a foto…não, não vou dizer mais nada.

download

 

Nas secções fora do concurso, temos também:

  • Explora 2, 4 de outubro, Teatro Principal, às 18h30.

Cabeça d’asno, Portugal. Um exercício experimental que mistura a narrativa de um diário com um ensaio sobre a natureza das imagens.

  • Explora 3, 5 de outubro, Teatro Principal, 18h30.

Exodus, Portugal- Países Baixos. Uma evocação da paisagem e das viagens onde Provost parece andar. A técnica é quase como a de uma apresentação de slides.

An aviation field, Portugal, Brasil, EUA. A história de um campo de aviação na periferia de algum lugar desconhecido.

 

Em secções paralelas temos toda uma seção dedicada à brasileira Ana Vaz, que já apareceu pela Galiza com motivo do Play-Doc. O Curtocircuito recolhe em duas sessões a obra completa da brasiliense, sempre em volta de duas linhas temáticas: o ambientalismo e o colonialismo.

Assinalo-vos aqui as obras onde o Brasil ou Portugal é produtor.

  • Púlsar Ana Vaz 1, 5 de outubro, Numax, 22h.

Sacris Pulso: baseada no texto Brasília de Clarice Lispector, a curta-metragem dá conta do positivo e negativo da história da cidade, sempre a caminho entre a memória e o esquecimento.

A Idade da Pedra, França-Brasil. Uma viagem ao extremo ocidental do Brasil leva-nos a uma estrutura monumental. Curta-metragem inspirado na construção épica da cidade de Brasília.

  • Púlsar Ana Vaz 2, 7 de outubro, Numax, 22h

Occidente, França-Portugal. Este foi o documentário que passaram no Play-Doc. Podem ler o argumento cá.

Amérika, Bahía de las Flechas, Brasil- República Dominicana. Uma história ambientalista do marco da baía de Samaná aonde, pelos vistos, Colombo chegou e foi recebido por montes de setas enviadas por índios taínos. O antes e o depois com a câmara como flecha.

 

Noutras secções especiais haverá um espaço para o português Pedro Maia onde poderemos ver toda a filmografia dele.

No Numax no dia 6 de outubro às 20h haverá uma sessão inteira dedicada ao autor para ver: Memory, Arise (Zona), Plant in my head, Love & Light, Dare-Gale, Inventário, You and I, e Drowned in the water light.

Outra das secções especiais é SexTapes, onde são exibidos filmes que visam fazer-nos refletir. Dentro disto, está Spunk do português António da Silva. Trata-se de uma obra experimental onde os protagonistas realizam as suas fantasias sexuais. Poderemos ver esta obra no Numax o dia 5 às 20h.

 

Mas o Curtocircuito não é apenas cinema, é também música e eventos.

Equations é uma banda que já esteve connosco no ano passado no Wosinc. Esta vez os portuenses repetem, voltam a Compostela para tocar o seu  space rock e pop psicadélico. Podem ouvi-los no dia 8 na Sala Capitol às 21h30.

inkomodoNo dia 7 de outubro, no Riquela Club, poderemos ir ao concerto dos Dragão Inkómodo. O coletivo La Melona volta ao ataque e traz esta banda de Lisboa. No seu Bandcamp, é notório o uso (des)equilibrado de colagens de som, algum plunderphonics e muito nonsense.

Começam a tocar na meia-noite.

O Vila do Conde Soundsistem é um evento que tratá o melhor da música do festival de cinema de Vila do Conde ao Riquela Club da rua do Preguntoiro. Miguel Dias e Sérgio Gomes espalharão os ritmos do ghetto-funk, glitch-hop e future beats o sábado 8 às 02h30.

 

Depois disto…não falem de aborrecimento. Apaguem essa palavra do vosso vocabulário!

Pedro Costa em Numax

A sala Numax dedica o mês de setembro ao cineasta português Pedro Costa. O realizador vem para apresentar o seu novo filme, Cavalo Dinheiro, e dar umas aulas no projeto Olhos Verdes e no Numax decidiram juntar o útil ao agradável e fazer um ciclo em volta dele: O Foco Pedro Costa.

1469176803-89366cf685ff7f7663c4b0d407e425ef

O Foco Pedro Costa é composto pela estreia de Cavalo Dinheiro e  três cópias revistas das seguintes fitas :

-Amanhã, às 21h30h: Casa de lava. Este filme é a primeira aproximação do Pedro Costa à comunidade cabo-verdiana de Lisboa. Conta a história de uma enfermeira que cuida um homem, Leão, que teve um acidente. Leão é deportado e isto faz com que a protagonista comece a questionar muitas coisas da sua própria vida.

-Quarta, às 21h30: No quarto da Vanda. Este foi o filme que fez espoletar internacionalmente a carreira do cineasta. Vanda Duarte vive nas Fontainhas, um dos bairros mais degradados e empobrecidos de Lisboa, onde impera o tráfico de drogas.

-Quinta, às 19h30: Juventude em Marcha. Ventura é um operário reformado de origem cabo-verdiana que vive na periferia de Lisboa. Recentemente abandonado pela sua mulher passa o tempo a deambular entre a casa onde morou 34 anos e o seu novo apartamento.

-Sexta e sábado, às 20h: Cavalo Dinheiro. Novamente temos a figura de Ventura como protagonista. Nos longos e silenciosos corredores de um hospital, avança a figura trémula de Ventura, possuído por um sono febril. Lembra o seu Cabo Verde natal, que abandonou na sua juventude para se ganhar a vida em Lisboa, onde, ao igual que os seus, viveu sempre na margem.

Vitalina, que viajou a Portugal para ir ao funeral do seu esposo. Numa conversa com o Ventura recorda um episódio da vida dele e a mente do cabo-verdiano começa quase que a viajar no tempo.

-Sábado, às 11h30. O realizador dará umas aulas no marco do projeto Olhos Verdes onde fará um percurso por toda a sua trajetória artística.

A não perder!

 

 

 

 

Pega Monstro em Burela

Não há duas sem três, é claro. O Festival Osa do Mar em Burela sagra-se nesta terceira edição como o festival de música underground da Galiza. Longe de ser um fenómeno esporádico, uma terceira edição já demonstra um assentamento e interesse no público.
O cartaz deste ano é também muito variado e há grandes nomes de músicos/as da Galiza, junto deles encontramos as Pega Monstro, banda de Lisboa que são “habitués” do verão galego.
Conhecemos as Pega Monstro por terem estado no Festival da Poesia do Condado e no Wosinc.
As irmãs Júlia e Maria Reis estão a ganhar um espaço cada vez maior no garage internacional. O som do seu último disco, “Alfarroba”, é um rock direto, descarnado e sujo, uma estética que a Galiza não está habituada a ver da mão de cantores/as portuguesas. Ainda bem que existem festivais que fazem contratações variadas que saem do comum de samba-fado-fado-samba.

Pega Monstro faz letras diretas que nos fazem revoltar. Poeira nos olhos, baldes de água fria.

Deixo-vos com És tu, eu sei: “E és tu, já sei, não vou foder com mais ninguém”


<p><a href=”https://vimeo.com/133539040″>PEGA MONSTRO &Eacute;s Tu, J&aacute; Sei</a> from <a href=”https://vimeo.com/user4542559″>Nuno Leal</a> on <a href=”https://vimeo.com”>Vimeo</a&gt;.</p>

Sábado 20, em Burela.

Volta à terra

volta

A produtora portuguesa o Som e a Fúria é…altamente. Nos últimos tempos muitos dos seus produtos culturais têm preenchido horas de lazer em terras galegas. Já tivemos muita música, agora é a vez do audiovisual.

Amanhã, em Ponte Vedra, no Teatro Principal às 18h poderemos ver o longa Volta à Terra de João Pedro Plácido. O visionado faz parte da programação do Festival Novos Cinemas, que tem como objetivo dar visibilidade aos novos talentos emergentes.

O lisboeta João Pedro Plácido começou a realizar videoclipes com 19 anos e desde essa nunca largou o panorama audiovisual, quer seja como assistente de imagem, quer seja como diretor de fotografia. Volta à Terra é o primeiro filme dele.

Volta à Terra conta a história de uma comunidade em extinção: camponeses que praticam agricultura de subsistência numa aldeia das montanhas do norte de Portugal, esvaziada pela imigração.
Entre a evocação do passado e um futuro incerto, seguimos os 49 habitantes da Uz pelas quatro estações do ano.
Entre os habitantes encontramos António, antigo emigrante que realizou o sonho de regressar ao país e prepara a festa da aldeia para o verão, e Daniel, jovem pastor que sonha com o amor ao anoitecer.

Fado 1111

10639376_1471923629733675_946168819307155490_n

De maneira lendária o povo português afirma que o rei Dom Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, nasceu no ano 1111. Não é por acaso que a formação Fado 1111 tenha escolhido este número. A banda reúne num todo muitos símbolos nacionais: a data de nascimento do rei, o facto de serem de Guimarães -onde nasceu Portugal- e o fado.

O que eles têm de especial? Fado 1111 é a mistura do fado lisboeta e a canção de Coimbra. As duas visões do fado são reunidas nos concertos deles. Expõem de forma autentica e genuína as suas fortes divergências de estilo, mas também os seus claros pontos de contacto.

Segundo Fado 1111 diz: “Neste sentido, e recorrendo a um elenco próprio de músicos especializados em cada género, ou em posse de uma clara versatilidade, o projeto Fado1111 apresenta-se como uma eclética organização artística, permitindo-nos criar diferentes perspetivas cénicas – um espetáculo de Fado de Lisboa, um espetáculo da Canção de Coimbra, ou ainda um cativante e original espetáculo, onde os dois géneros se juntam

Querem ouvir grandes vozes e viola dedilhada? agendem!

sexta 9, Perilho. Auditório d’A Fábrica, 20h30

sábado 10, Padrão. Auditório Municipal, 20h30.

Rita Braga em Vilar de Santos

0004044125_10A Arca da Noe continua incansável com a programação de setembro.

Neste domingo irá a palco Rita Braga, uma lisboeta que podemos qualificar como de “mulher renascentista”.

Rita é dessas virtuosas que é capaz de interpretar músicas de Mozart, canções do faroeste ou Bollywood e aquilo, tudo junto nela, não nos é estranho no cenário. Licenciou-se em Ciências Musicais na Universidade Nova de Lisboa em 2009 e…por outras palavras, quem sabe, sabe.
Mas o talento da Rita Braga não fica por aí. Também é autora de bandas sonoras, deu voz a personagens de filmes de animação, música para publicidade e produziu cabarés imprevisíveis na cidade do Porto, onde reside atualmente.

Em 2011 lançou o seu álbum de estreia “Cherries That Went To The Police”, produzido por Bernardo Devlin, aclamado pela crítica e pelo público, após três EP’s de gravações caseiras low-fi.

Em 2012, durante a sua primeira tour no Brasil, Rita Braga formou a sua primeira banda de formação “rock” em São Paulo, que batizou de Indiozinhos Psicodélicos. A banda seguiu-a em tour nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Em 2013 gravou o novo EP “Gringo in São Paulo” com temas originais compostos durante a estadia no Brasil com a participação destes e outros músicos de São Paulo.


Olhares sobre Portugal: género, ciências sociais e literatura

12009579_893034810771433_2589248003559346226_nE começamos setembro com uma proposta muito corajosa, dessas que convidam a sair de casa, mas é para estarmos num local igualmente aconchegante.

As livrarias compostelanas Lila de Lilith e Ciranda à volta do português organizam entre 14 e 23 de setembro um ciclo de apresentação de livros e autores que toca vários temas, mas sempre de uma ótica que reúne as sensibilidades de ambas as empresas: feminismo e lusofonia.

A “comissária” desta exposição de ideias é Paula Godinho, que trabalha no Departamento de Antropologia e Instituto de História Contemporânea da FCSH da Universidade Nova de Lisboa. A visão da Paula seleciona autores e ideias condensados num programa que se irá desenvolver sempre de tarde, às 19h durante vários dias.

Exponho cá o programa para vocês conferirem:

14 de setembro:
. Fotobiografia de Alves Redol – de António Redol (com a presença do autor)
. Alves Redol – O olhar das ciências sociais – coordenado por Paula Godinho e Antonio Mota Redol (com a presença dos coordenadores e de Luísa Tiago de Oliveira, autora de um texto da obra)

15 de setembro
. Militares e Política: O 25 de Abril – de Luisa Tiago de Oliveira (com a presença da autora)

17 de setembro
. Call centers – Trabalho, domesticação e resistência – de João Carlos Louçã (com a presença do autor)

18 de setembro
. Gente comum, uma história na PIDE – de Aurora Rodrigues (com a presença da autora)

21 de setembro
. Antropologia e Performance – organizado por Paula Godinho (com a presença da organizadora)
. Festas de inverno no nordeste de Portugal: património, mercantilização e aporias da “cultura popular” – de Paula Godinho (com a presença da autora e apresentação de Luzia Oca)

22 de setembro
. O mar é que manda: Comunidade e perceção do ambiente no litoral alentejano – de Paulo Mendes (com a presença do autor)
. No Rasto da Draga – exploração mineira e protesto popular numa aldeia da Beira Baixa (1912-1980) – de Pedro Gabriel Silva(com a presença do autor)

23 de setembro
. Frontera y Guerra Civil de España. Dominación, resistencia y usos de la memoria – de Dulce Simões (com a presença da autora)
. Saal e autoconstrução em Coimbra – de João Baía (com a presença do autor)

Uma Galiza em Lisboa

(Este artigo foi publicado hoje em A viagem dos argonautas com motivo do Dia das Letras Galegas. Faço reblog para cá. Muito obrigada a todos e todas as argonautas, nomeadamente a Ernesto Vázquez Sousa)

Talvez por sermos um país pequeno, talvez pelo próprio trauma que as migrações significaram para a Galiza, desde sempre, galegos e galegas tentámos evidenciar quais foram os contributos culturais que por lá deixámos. É muito frequente e até diria que é um tópico folclórico ouvir dois galegos a conversarem e atribuírem uma série de inventos, triunfos ou descobrimentos a diversos compatriotas. Assim sendo, assumimos que os matraquilhos são um invento galego e até temos a teoria de falar de Colombo como possível galego.

Na nossa literatura há imensos escritores e escritoras que trataram o tema dos êxodos: Rosália de Castro, Castelão, Celso Emílio Ferreiro…e mentalmente há para nós um espaço dedicado a países como a Argentina, Uruguai, Cuba, Brasil, Alemanha, França…

Houve um outro movimento migratório, que por ser pouco falado, parece inexistente. Falo da migração galega à região de Lisboa.

Na região de Lisboa a presença de galegos era já antiga por causa da reconquista cristã. Galegos vindos das rias faziam naquelas terras de salineiros.

Como mostra da presença galega, há hoje inúmeros topónimos no Sul de Portugal que rememoram as terras galegas. Um facto curioso aconteceu com o município de Montijo, que antes de 1930 era conhecido como Aldeia Galega do Ribatejo. O nome foi mudado, mas a saudade deveu ficar porque cada setembro fazem o evento Feira Quinhentista de Aldeia Galega, onde fazem uma viagem ao passado.

Depois do sismo de 1755 que destruiu a cidade de Lisboa, era necessária mão de obra para poder reconstruir todas aquelas infraestruturas que faltavam. Em 1800 os galegos os galegos imigrados em Portugal eram 80.000 e na altura, um décimo da população da cidade era galega.

os-aguadeiros-galegosOs galegos dedicavam-se a pequenos trabalhos: venda ambulante, levar e trazer encomendas e fazer mudanças…Dizia-se então que dois galegos e uma corda eram capazes de transportar quase toda a mobília de uma casa num só dia. Disto que no português perdurem hoje expressões idiomáticas como trabalhar como um galego.

Havia uma profissão em destaque onde galegos tinham quase o monopólio: os aguadeiros. Ainda não há muito li num blogue uma frase “Nós fizemos fortuna a vender aos lisboetas a água… que era deles”. Passe a ironia, o ofício de aguadeiro era muito duro porque supunha levar às costas barris pesados até os lugares mais longínquos da capital portuguesa. Não demorou em chegar o lucro e com ele nasceram outro tipo de negócios: tabernas, casas de pasto…estas atividades comerciais exigiam menos esforço físico. Também a canalização da água não ia permitir que o negócio do transporte da água durasse muito mais.

A presença galega era tanta que no Chiado havia um largo chamado Ilha dos galegos. No período colonial muitos portugueses puseram nomes de lugares que eles conheciam a outros que colonizaram. Acontece que a Ilha dos galegos não é conservada no Chiado, mas é hoje o nome de um largo em Maputo, Moçambique.

Culturalmente em Lisboa é facilmente reconhecível a presença árabe, romana…mas é difícil discriminar em quais elementos da identidade lisboeta foi decisivo o fator galego. Como identificar isto quando religião, língua e tradições são as mesmas? Mesmo assim, podemos evidenciar vestígios culturais muito importantes. Lisboa fala também da Galiza, há que saber ouvi-la.

A 15 de janeiro festeja-se na cidade o Santo Amaro, santo padroeiro dos galegos em Portugal. ginja-espinheira-com-elas-07l-ginja-ginjinhaA capela de Santo Amaro, na freguesia de Alcântara, foi mandada construir por uma colónia de marinheiros galegos em cumprimento de uma promessa feita e como proteção perante os naufrágios. Todos os anos a cada 15 de janeiro lá iam os galegos em alegre romaria. Hoje a capela está um bocado degradada e só tem culto no primeiro domingo de cada mês.

Mas há ainda testemunhos vivos que são marcas de identidade até para qualquer alfacinha.

Quem não foi a Lisboa e bebeu lá uma ginjinha? No Largo de São Domingos podemos encontrar a Casa Espinheira, fundada em 1840 pelo galego Francisco Espinheira. Este comerciante soube levar o sabor da ginja às ruas e comercializá-la em grandes quantidades.

Se palmilharmos bem a cidade, poderemos ver as pegadas que deixou Agapito Serra Fernandes. O bairro da Estrela d’Ouro, entre a Graça e Senhora do Monte, é uma vila operária projetada por este comerciante abastado de origem galega.

ip0001162A estrela que dá nome ao bairro é um motivo que aparece em calçadas, capitéis e azulejos.

Serra Fernandes pensou neste empreendimento para alojamento dos trabalhadores das suas confeitarias e as famílias deles. As ruas deste bairro operário, de facto, têm os nomes dos descendentes da família Serra Fernandes e dos empregados. Nenhum pormenor foi esquecido e até dotou de cinema este bairro. O antigo cinema Royal, hoje um Pingo Doce, foi o primeiro cinema português que passou filmes sonoros.

Deixando de parte a Reconquista e o século XIX, a história recente lisboeta também tem páginas onde nomes galegos aparecem. Num processo tão importante para Portugal como o final da ditadura temos lá também a figura de Manuel Durán Clemente, capitão na Revolução dos cravos e atual membro do CDU.

No trabalho prévio de encontrar fontes fiáveis para este artigo, dei com as palavras do historiador Xan Leira que são uma síntese do que eu quero transmitir hoje. Partilho-as convosco: “As pegadas da emigração galega a Lisboa são tão importantes que penso eu que não se poderia compreender o ser lisboeta sem a costela galega”