Adestrar ou Treinar?

O vocabulário pode ser um dos desafios quando aprendemos uma língua. Implementar novo léxico e lembrá-lo. Pôr em prática aquilo que aprendemos.

Algumas vezes, quando a aprendizagem é autodidata temos um outro entrave: vamos ao dicionário, consultamos, parece que sabemos o significado, mas…alguma coisa não bate certo. Falta-nos por saber o contexto de uso dessa palavra. E aí o corretor online não ajuda.

Hoje quero-vos falar deste par.

Adestrar é ensinar alguma coisa a um animal com determinados fins. Podemos adestrar um cavalo, por exemplo, para se tornar mais calmo, atento ao cavaleiro, etc. Podemos adestrar um cão para ele estar mais adaptado à vida doméstica, para ser cão guia…

É importante sabermos que no uso Adestrar é um verbo normalmente associado a animais.

Adestrei o meu cavalo para o concurso de hipismo.

O caráter do teu cão tem mudado muito com os adestramentos.

Etimologicamente partilha origem com Destro, aquele que escreve com a mão direita.

Treinar vem do francês traîner. Este verbo significa também ensinar ou aprender determinada ação prática, quer dizer, tornar apto a desempenhar uma atividade.

Demorei a ser fluente em italiano, tive que treinar muito.

Pode ser até preparar-se para a prática de um desporto.

Nas quintas tenho treino de futsal

Acho que durante as semanas de confinamento toda a gente viu algum desses vídeos com pequenos treinos para manter a forma física em casa, né? Deixo-vos este link

Fazemos agora a mesma indicação que com o verbo anterior. Reparem em que Treinar é usado quando falamos em pessoas.

Ficar, Combinar, Restar

Esta é uma das questões dos primeiros dias de aulas. Tentar explicar que não existe uma relação biunívoca entre dois termos de duas línguas diferentes não é coisa fácil. As pessoas estão à espera de uma tradução do tipo vermelho-rojo-red, que nem sempre se pode dar, porque uma língua é uma maneira de ver a realidade e isto significa que cada língua segmenta a realidade e cria conceitos…como lhe vai na alma.

E explico que digo “duas línguas diferentes”, porque cada ano o espaço que ocupa o castelhano entre os meus alunos e alunas é maior. É por isto que nasce a confusão com estes três verbos, porque para eles todas estas realidades podem ver-se resumidas numa: quedar.

  • FICAR: tem o sentido de permanecer, não sair de algum lugar. Hoje vou ficar em casa, porque devo estudar para o teste.

Sobre-ficar

Ficar é o contrário de Ir embora. Contudo, não existe a expressão Ficar embora*

No Brasil o verbo tem mais significados além deste, porque Ficar com alguém significa também ter um caso.

  • COMBINAR: é o verbo que utilizamos para fazer planos, para acordar uma hora e um lugar, pactuar. Combinei com o Luís às 18h30 no cinema para vermos aquele thriller.

No português do Brasil é usado o verbo Marcar com o mesmo uso. Em Portugal podemos marcar mesa num restaurante, marcar uma consulta médica…

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  • RESTAR: tem a ver com uma subtração, a parte que resta de outra parte que tirámos. É uma diminuição. De todas as línguas indígenas que havia no Brasil antes de 1500, hoje só restam aproximadamente 150.

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Apresento-vos a minha Beyoncé particular. Pérola é aquela artista que deveria soar em todas as pistas de dança. Fiquem parados com a música…se puderem.

Palavras galego-portuguesas que são universais

fernando_pessoa_minha_patria_e_a_lin_wlAtualmente há uma tendência muito forte para adotar anglicismos na língua portuguesa. O inglês é aquela língua que impera, é marca de poder e modernidade.

Os estrangeirismos são palavras doutras línguas que acabam por se integrar na nossa. Ao longo da história a língua portuguesa recebeu vários empréstimos. Uns tiveram melhor sucesso do que outros.
Há quem ache que isto pode pôr em risco uma língua e há quem, por outra parte, ache que a língua é um sistema vivo, sempre alterável. É claro que nestes assuntos é preciso bom senso.

Se acompanharmos o processo dos estrangeirismos, podemos saber também um bocado de história e de política. Vejamos por exemplo os conceitos:

-carmim (português)> batom (francês)

-oficina (português)> atelier (francês) >workshop (inglês)

Nos tempos em que as fronteiras estavam mais fechadas e a França era uma potência europeia, muitas palavras entraram do francês. Hoje o poder é representado pelo mundo anglo-saxónico e cada vez é maior o número de realidades que dizemos em inglês: o tablet, a pen, a selfie, fazer crowdfunding…

E nós? demos algum contributo à humanidade?

Na época em que os navegadores dominaram os oceanos a nossa língua também navegou noutras águas. Muitas foram as palavras de origem galego-portuguesa adotadas por outras línguas, como o inglês, o francês, o alemão…que ainda hoje designam realidades nessas comunidades linguísticas.

Querem ver exemplos? eis alguns que recolhi de vários artigos da net.
1. Cobra: origem no séc. XVII, quando os portugueses utilizaram pela primeira vez o termo “Cobra de capello”.
2. Comando: Origem no séc. XVIII e designava as milícias que combatiam entre Angola, Namíbia e África do Sul.
3. Fetiche: É dessas palavras que vai e volta, como aconteceu no francês com a palavra vintage que voltou ao francês com o sentido que popularizaram os anglófonos. Fetiche veio de volta com o francês, mas a origem é o português Feitiço.
 4. Albino: indivíduo de cor totalmente branca devido a uma mutação genética. Usada pela primeira vez no séc. XVIII.
5. Albatroz: nome de ave. Séc. XVII.
6. Banana: nome de fruto. Séc. XVI.
7. Cachalote: mamífero marinho. Séc. XVI.
8. Tempura: nome de prato japonês com origem na palavra portuguesa Tempero. Há quem diga que Arigato também tem origem portuguesa, mas aí tenho as minhas sinceras dúvidas. Farei um dia um post sobre palavras portuguesas no japonês.
9. Zebra: animal equino. Séc. XV. Esta é uma dessas histórias lindas de contar para qualquer amantes das letras. Não sei se sabem que na Galiza existiu um animal equino chamado  “zebro” que viveu connosco até ao século XVI. Hoje está extinto, mas deu origem a vários topónimos, como por exemplo “Zebreiro” (sim, Cebreiro, deveria então ser escrito com z-).
Na época dos descobrimentos ao encontrarem a “zebra” que hoje conhecemos deram-lhe o nome do animal mais parecido com ela que sabiam, isto é, o “zebro”
10. Barroco: designa-se assim o estilo artístico excessivo que se seguiu ao Renascimento. Há uma ou outra polémica com esta etimologia. Segundo algumas teorias, a palavra deriva do grego baros, que significa “pesado”; para outros, provém do florentino barochio (“engano”), enquanto a hipótese mais generalizada relaciona a palavra com o português “barroco”, “pérola de forma irregular”. Já surge assim em dicionários do século XVII.
11. Mosquito: tipo de inseto cuja palavra tem origem no diminutivo português de “mosca”. Aqui há certa polémica, porque os espanhóis também reivindicam a origem espanhola da palavra.
12. Marmelada: tanto Mosquito como Marmelada são duas palavras que me animam a fazer um post sobre lusismos no espanhol, então…fiquem à espera.
Marmelada é um doce que se faz com marmelo. É muito típico na sobremesa galega combinar queijo e este doce. Também podemos encontrar este prato nas ementas portuguesas e brasileiras.
Fazer a marmelada, assim como a matança noutras casas, era o evento do ano na casa dos meus avós, porque lá tínhamos um jardim com árvores de fruto, muitas delas marmeleiros.
Noutras línguas o termo serve para designar compotas ou doces com um fabrico similar e mesmo feito com outras frutas. Temos no inglês e francês Marmelade, no alemão Orangenmarmelade, no italiano Marmellata, no espanhol Mermelada…

Expressões idiomáticas com as cores

Uma das leituras do meu verão é Puxar a brasa à nossa sardinha, de Andreia Vale. O livro conta a origem de muitas das expressões idiomáticas que usamos no nosso dia-a-dia, dessas coisas que são um docinho para qualquer linguista.

O mundo das cores, sempre tão simbólico, é fonte de muitas expressões. Há anos que deixei por cá artigos sobre as cores e um ou outro falso amigo que tem a ver com elas. Neste ano com os meus alunos e alunas de B2-C1 fiz um jogo de expressões idiomáticas onde arranjamos muitas informações. Agora graças ao livro sei a origem de algumas.24ed3bf2a521ec3cb286b538c2cd9a3f

Exponho aqui muitas que estudamos, vai o nosso pantone:

BRANCO:

-verso branco: livre, não rimado.

-voto em branco: boletim de voto sem qualquer preenchimento.

-noites em branco: sem dormir.

-ir ao teste em branco: ir sem ter estudado.

-deixar preto no branco: escrever ou assinar uma declaração verbal, lavrar um documento para que algo fique registado.

-bandeira branca: trégua.

-arma branca: facas, espadas e lâminas de toda espécie.

-dar carta branca: autorizar alguém a fazer tudo o que for necessário.

-magia branca: com a que se faz o bem.

-greve branca: os empregados e empregadas declaram-se em greve, mas continuam a trabalhar.

-ficar branco de medo: assustar-se, ter medo.

-vinho branco: vinho de coloração dourada e aroma frutado.

COR-DE-ROSA:

-período cor-de-rosa: período feliz.

-ver a vida cor-de-rosa: encarar a vida com otimismo ou com ingenuidade.

-páginas cor-de-rosa: notícias da vida social.

VERMELHO:

-exército vermelho: exército soviético.

-estender o tapete vermelho para alguém: receber alguém com todas as pompas e honras.

-planeta vermelho: Marte.

-telefone vermelho: comunicação entre duas autoridades.

-estar no vermelho: ter saldo devedor.

-ficar vermelho: ruborizar-se.

-levar o cartão vermelho: ser demitido, ser expulso.

-paixão vermelha: paixão exagerada, desmedida.

VERDE:

-andar ao verde: pastar.

-estão verdes!: usamos esta frase para desdenhar coisas que cobiçamos e que não podemos obter.

-cair no verde: fugir, esconder-se no mato.

-vinho verde: qualidade de vinho naturalmente efervescente feito com uvas pouco sacarinas porque foram colhidas cedo.

-verdes anos: adolescência.

-fruta verde: não está madura.

-tremer como varas verdes: estar muito nervoso, ter medo.

-recibo verde: recibo entregue pelo trabalhador independente à pessoa ou entidade para que presta serviços.

-ficar verde de inveja: estar com muita inveja.

-receber o sinal verde: receber a aprovação para fazer alguma coisa.

AMARELO:

-imprensa amarela: sensacionalista.

-sorriso amarelo: sorriso forçado, falso.

-páginas amarelas: listas telefónicas para designar anúncios classificados.

AZUL:

-sangue azul: pertence à nobreza.

-receber o bilhete azul: ser demitido.

-ser ouro sobre azul: quando uma coisa é perfeita.

-estar tudo azul: estar tudo em ordem.

-bandeira azul: designa a qualidade de uma praia.

-príncipe azul: homem perfeito.

ROXO:

-roxo por dinheiro: cobiçoso, ansioso.

-andar roxo por alguém, alguma coisa: desejar ansiosamente alguém, alguma coisa.

MARROM:

-imprensa marrom: o mesmo que imprensa amarela, imprensa sensacionalista.

NEGRO/PRETO:

-magia negra: aquela com que se faz o mal.

-ovelha negra: alguém da família que destoa do grupo pelo seu comportamento reprovável.

-câmbio/mercado negro: clandestino, paralelo.

-ouro negro: petróleo.

-lista negra: lista de nomes vetados ou boicotados.

-a coisa está preta: a situação está mesmo mal.

-humor negro: que sublinha, com crueza, amargura e por vezes desespero, a absurdidade do mundo.

Atrevam-se com este teste numa tarde de sábado! Lusopatia 2.0!

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O léxico da Galiza, Portugal e do Brasil

10348468_832413656813317_2066543478630840449_nIsto é uma palavra galega? é uma palavra lisboeta? é uma palavra que na Galiza nunca foi usada? é um castelhanismo?…o tema do léxico sempre suscitou vários debates e discussões intermináveis.

Carlos Garrido, professor de tradução técnico-científica na Universidade de Vigo e presidente da Comissom Linguística da AGAL, falará na EOI de Ferrol sobre léxico. Que é comum? que é legitimamente divergente?

A palestra tem como objetivo sedimentar o nosso conhecimento e limpar o nosso vocabulário de certas expressões se calhar não tão galegas como pensamos.

Esta quinta-feira, na Sala de Atos, às 19h.