“Morangos com açúcar” é o fruto proibido que tu vais querer provar

Andei mesmo desligada estes dias por causa do trabalho e não consegui escrever sobre eventos bem interessantes que houve. Este sábado tocou mais trabalho, mas já com o alívio que supõe ter as férias da Páscoa perto.

Ontem soube que a série portuguesa Morangos Com Açúcar vai ser emitida na TVG2 de segunda a sexta às 19h30. Fiquei de boca aberta.

Quando a TVG e a RTP rodaram juntas Vidago Palace foi, acho, um facto importante para aquelas pessoas que pedem mais intercâmbios culturais entre as duas margens do Minho. Agora com a receção da série Morangos Com Açúcar avançamos um pouco mais nesse caminho.

Não sei se a TVG tem vendido direitos dalguma das suas produções à RTP alguma vez. Só sei, em conversas que tive com portugueses/as, que aquelas pessoas que conseguiam receber o sinal da TVG em Portugal, por estarem próximas da fronteira, viam alguns programas como o Xabarín ou Pratos Combinados. Não, o último exemplo não é o nosso melhor produto, eu sei, e há quem diga que o que de lá vem, Morangos Com Açúcar, também não é grande coisa. Mas antes de analisar o conteúdo ou qualidade da série, pensemos no que isto significa para nós: consumo cultural e achegamento à lusofonia. Começa a ser mais palpável a cooperação entre o audiovisual galego e o português e talvez isso dignifique a visão que nós temos da própria língua. Tomara que sim!

Por outra parte, a velha reivindicação da receção das tvs portuguesas na Galiza pode voltar a se ativar.

Explico um bocadinho o que é isso dos Morangos Com Açúcar para quem não souber.

Na TV Globo do Brasil existia (e existe ainda!) uma série tipo novela destinada ao público mais jovem: falo de Malhação. 26 temporadas de novela, amigas!. Eu tive catos que morreram em três dias! A TVI gostou do produto e decidiu fazer um formato similar em Portugal, assim nasceram os Morangos. A versão portuguesa não foi tão longeva quanto a brasileira, mas foi mesmo longa: 9 temporadas e mais de 2000 capítulos. De facto, até me atrevo a afirmar que foi a novela mais duradoura da tv portuguesa, sendo emitida na Rússia, no Brasil (paradoxalmente com dobragens em português brasileiro) e Angola. Esta é a nossa vez e a TVG decidiu emiti-la com legendas à galega (não sei se necessárias).

O formato da série, é normal, teve muitas variações. Começou nas primeiras temporadas com um argumento bem simples: casal de adolescentes que namoram no Colégio da Barra com os seus problemas típicos de betinhos. As histórias das personagens principais eram estabelecidas durante o ano letivo e resolvidas nas Férias de Verão. A cada ano letivo, o elenco da série era renovado ou algumas personagens eram mantidas de maneira episódica.

A partir da sexta temporada há uma mudança muito drástica: é eliminado boa parte do elenco anterior e o cenário é outro. Estavam na moda séries tipo Glee ou os filmes da High School Musical e os Morangos não quiseram ficar atrás. Assim, a novela começa a ser também um musical e muitos dos cantores/as pop que hoje são conhecidos em Portugal começaram a sua carreira nesta série, um exemplo é o David Carreira, o filho do Tony. De facto, há quem fale da Geração Morangos.

Falamos do valor linguístico e cultural, mas não queria deixar de parte o fator saudade. Rever a série é também voltar à década de noventa, que reconheçamos…durou até bem entrados os 2000. Crop-tops, madeixas, diademas de ziguezague, peças de roupa sobrepostas…assim é que éramos os/as adolescentes ou post-adolescentes daquela altura. Vejam só o visual do Pipo e da Joana.

Mordemos o fruto proibido?

 

 

 

 

 

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Jornada Clássica Galaico-portuguesa

Eu tenho um fraquinho pelo mundo clássico, toda a gente sabe. Sou dessas pessoas que defendem aquela máxima de Nihil novi sub sole. Todas as modernices…já foram feitas na Grécia e Roma antigas, nós pouco inventamos.

O estudo do latim e do grego foi fulcral na minha formação, não imagino ser filóloga sem amar isso. A visão do mundo que me deu traduzir estas línguas é para mim uma experiência impagável e sempre me perguntei como é que seria o ensino destas línguas noutros países ou qual é o peso cultural que lhe é atribuído a este acervo.

Estas matérias, junto da Filosofia, são normalmente muito marginalizadas nos nossos curricula escolares. Tenho pena disto, porque é sempre bom sabermos quais é que são os fundamentos da nossa cultura.

Gostei de saber que uma nova iniciativa nasce para revisitar os clássicos e fazê-lo de uma ótica galego-portuguesa. Temos hoje a I Jornada Clássica Galego-portuguesa na Faculdade de Filologia de Compostela às 18h onde pessoas relacionadas com os estudos clássicos da Galiza e Portugal falarão  no Salão de Graus da faculdade. Serão tratados aspetos como a tradução, o ensino, a edição e toda a força inspiradora que autores clássicos deixaram na literatura mais contempoânea.

O Zeca Afonso volta à sua pátria espiritual

Um dos grandes precursores musicais do vínculo Galiza-Portugal foi, sem dúvida, o Zeca Afonso.

A Associação José Afonso terá a partir de agora uma seção na Galiza. Ela será apresentada formalmente este sábado à tarde, com uma palestra, exposições e um concerto. Mas hoje já temos algumas coisitas na agenda para fazer, por exemplo, ir à exposição fotográfica na Casa das Crechas intitulada: Zeca: O que foi, O que é.

Podemos dizer que nós tínhamos uma dívida com o cantor luso. Devemos-lhe tanta coisa! abriu tantos caminhos na música e na cultura que não sei se há no mundo eventos que cheguem para agradecer, mas vamos tentar.

AJA juntará amigos galegos para recordar a herança que Zeca deixou. Frases como “A Galiza é para mim uma espécie de Pátria espiritual. Foi uma experiência maravilhosa. Algo especial. Talvez ninguém me entendesse como na Galiza ” ou “estou farto de dizer por todo o lado que a Galiza não é Espanha” demonstram que ele teve cá uma segunda casa e uma forte identificação cultural.

É impossível não relacionarmos o músico com Grândola vila morena. Talvez quem cá lê não saiba que esta canção foi tocada pela primeira vez em Compostela, no Burgo das Nações. Ele escolheu Compostela e para ver como a música funcionava e não foi por acaso.

Se quiserem comemorar a herança que ele nos deixou, não percam as atividades. O programa começa formalmente amanhã às 18h há uma palestra na Gentalha do Pichel sobre o «Triângulo mágico na vida e obra de José Afonso: África-Portugal-Galiza». Depois, às 22h, um concerto de homenagem ao Zeca na Sala Malatesta com artistas das duas margens: Uxia, Francisco Fanhais, Nao, Cais da Saudade, Falua, Tiago Fernandes, Banda das Crechas, Do fondo do peto, Chico de Carinho & Manolo Bacalhau.

E não, não é mentira nem exagero esse amor que o Zeca tinha pela Galiza. Ouçam só esta adaptação que ele fez de uma das nossas músicas populares. Sempre Zeca!

Titiriberia

Este foi um ano em que a minha mãe serviu como arquivo vivo da memória coletiva. Chegaram várias pessoas do Proxecto Barriga Verde à nossa casa e fizeram vídeos onde ela relatava como eram as festas na sua infância e também como eram as marionetas. Foi emotivo vê-la no Youtube, ver que aparece numa coisa da net que ainda ela nem entende muito bem, mas deu tantos detalhes que até parecia que estávamos lá, vendo o cenário e as personagens.

De Barriga Verde e das suas relações com o teatro de Dom Roberto temos falado noutros artigos, mas recomendo a sua leitura para quem quiser ir ver os espetáculos do Titiriberia. En Teu teremos entre amanhã e domingo este festival que oferecerá espetáculos e palestras em volta das marionetas tradicionais.

Na sexta, na Mediateca do Grilo, às 21h, haverá a projeção, e posterior colóquio, do filme Dom Roberto, (José Ernesto de Sousa, 1962), fita considerada como peça fundacional do Novo Cinema Português que trata a tradição dos fantoches do país. Estará apresentado por Comba Campoi, João Costa, fantocheiro especializado nos Robertos, e de Lara Rozados, que dará a conhecer a colaboração do Cineclube Compostela com o Festival Titiriberia.

O evento também envolve a feira cavalar de Francos e assim recupera o espaço dos títeres. Neste sábado poderemos ver à formação lusa Mãozorra. Mas Mãozorra não vai estar apenas na festa, vai no domingo encenar O Caçador ás 12.30 horas no Auditório Constante Liste.

Morreu o demo…acabou-se a peseta!

 

Fogo, Incêndio e Lume

É duro ter um blogue desde 2011 e ter um rascunho aí na gaveta. É pertinente? É oportuno? Interessa? Mais duro ainda é que todos os anos haja motivo para publicar este artigo.

Deixando de parte o tema das causas e responsáveis, vamos ao estritamente linguístico, porque acho que nem merecemos uma terra queimada nem uma língua queimada.

Três conceitos então, gente!:

  • Fogo: é a manifestação da combustão, seja ela por causas naturais ou humanas. Usamos esta expressão normalmente no singular. Quando usada no plural, tem a ver com jogos de artifício: foste ver os fogos do 25 de julho?
    • Em Portugal, no singular, é também uma interjeição de surpresa ou indignação: 3 euros por um café? fogo!
    • Outra dica mais para quem quiser aprender fonética do português: é também dessas palavras como olho/olhos. Com O fechado no singular e O aberto no plural.
    • Palavras da família: fogueira, fogão, foguete…
    • Verbos para fogo: atear, lançar, cessar, ativar, avivar…

 

  • Incêndio: é um fogo fora do nosso controlo, um fogo que devora. Uma catástrofe natural em muitos dos casos. É um substantivo contável, isto é: podemos dizer Um incêndio, Dois incêndios, Três…por isso tem também plural. Esta contagem conhecemo-la bem de um e outro lado do Minho.

 

  • Lume: é um fogo doméstico, controlado, para uma utilidade. O lume da lareira, por exemplo, que dá calorinho e luz.
    • Umas expressões:
      • dar a lume, que significa “publicar”. Terá a ver com dar à luz no sentido de parir? claro que tem!
      • lume brando: cozinhar os alimentos pouco a pouco, com um calor de baixa intensidade.
    • Palavras da família: luminária, vaga-lume…
    • Verbos para lume: acender, apagar…
    • Provérbios: Não há fogo sem lume. Se as duas palavras aparecem num ditado popular, será então que não são sinónimas totais, não acham? O ditado fala de algo que começa governado e termina por se desgovernar…

Em definitivo, eu gosto de lumes nas lareiras, quero sim que haja lumes. Não gosto é dos incêndios nem de queimar os registos da língua com cada fogo.

Rodrigo Leão na Corunha

Amanhã chega à Corunha um dos grandes vultos da música portuguesa. Integrante de duas das bandas com mais repercussão internacional: Madredeus e Sétima Legião.

Rodrigo Leão é desses homens que criam autênticos hinos e é por isso que foi capaz de reunir tantos prémios.

Ele é um músico completo, criador de um estilo inconfundível. Explora a combinação das suas composições clássicas-modernas com formas de canção e instrumentação mais tradicionais, por isso ir a um concerto dele é quase ouvir uma sinfonia de sintetizadores.

Amanhã o lisboeta vai estar no Teatro Colón da Corunha, no marco do Festival do Noroeste, acompanhado de Ana Vieira na voz. Vai tocar temas essencialmente compostos para a voz desta cantora, em língua portuguesa maioritariamente, mas também em inglês, francês e espanhol.

Deixo-vos com Vida Tão Estranha, que é uma das suas mais belas obras.https://youtu.be/joKcK4D6PGo

Compostela em festas

Em muitos países orientais ser impontual é uma coisa horrível. Eu também não gosto de pessoas que não chegam nas horas combinadas…pouco perdão tenho hoje. Queria há dias fazer um artigo sobre as festas em Compostela, mas umas férias improvisadas têm-me afastado do teclado por uns tempos.

Então, fiquem a saber que já não dá para eu falar de Selma Uamusse (Moçambique), Bixiga 70 (Brasil), Vânia Couto (Portugal) ou Celina da Piedade (Portugal). Andei nas nuvens…pelo menos ainda chego para vos dar três recomendações:

-dia 22, sábado, Maria Gadu (21h, Praça 8 de março). Quem não conhece o Shimbalaiê? Shimbalaiê é Maria Gadu. A cantora paulistana, criadora de grandes sucessos da MPB, virá a Compostela com um repertório de clássicos, mas também com o seu novo álbum no braço: Guelã.

-dia 24, segunda, The Gift (22h, Praça da Quintana). Necessitam qualquer apresentação? amamo-los e queremo-los sempre de volta. O grupo português com mais presença no mundo inteiro chega de Alcobaça à Quintana para fazer barulho e tocar teremim.

A máquina desta banda está bem azeitada e funciona muito bem. Altar é o seu novo trabalho e a verdade é que a canção Big Fish é dessas para dar pulinhos.

-dia 25, terça, Bifannah (22h, Praça da Quintana). Uma banda da Galiza sedeada em Londres com canções escritas na influência da poesia experimental portuguesa. Como não havia de falar deles? Maresia é o seu trabalho mais recente. Toques de psicodelia, atlantismo e tropicália.

Sepultura em Viveiro

No ano 2015 falávamos da presença dos Moonspell em Viveiro no Resurrection Fest, três anos antes noticiávamos a chegada dos Sepultura à Galiza. Esse artigo foi, de facto, uma pole position no nosso ranking de mais lidos durante anos. Pronto, esse e um intitulado “Mulheres a fazer filmes”, porque sempre há uma pessoa tarada que faz uma leitura pornográfica de tudo e contou também como visitante do blogue.

No dia 7 deste mês, no Resurrection Fest em Viveiro, chega a banda dos irmãos Calavera (mas sem eles) para dar à lusopatia o toque heavy de que estávamos à espera. Nem tudo vai ser fado, ‘migas! E como eu gosto de mostrar que o Brasil é um país musicalmente muito diverso, que tem tudo, todos os ritmos, e todos eles passam por aquele crivo da brasileirização.

Neste 2017, os Sepultura lançaram o seu 14º álbum de estúdio, Machine messiah, e com isto demonstram que a máquina ainda está azeitada e continua a funcionar. Mas…pode uma banda com 32 anos de carreira ser ainda relevante? Pode, sim, tomando como motivos temas atuais para as suas letras. Este disco é uma referência, segundo diz o seu líder Andreas Kisser, à dependência moderna de gadgets e à subordinação humana a inteligências artificiais.

Por outra parte, os temas políticos não escapam. Na faixa 4, Alethea, há críticas à Lava Jato e da situação da corrupção no Brasil.

Contexto fora, a crítica tem falado bem deste trabalho nos últimos meses. Pelos vistos o álbum supera o Roots de 1996, trabalho que incluiu cânticos de índios xavante e a participação do Carlinhos Brown. O grupo visa tornar este álbum num segundo clássico. O tempo sozinho dirá…

Quanto aos ritmos, o quarteto investe no prog, mas sem descuidar o seu assalto sonoro, esse “maracatu drak” a que estamos habituados.

Estão prontos?

Zuco 103 e Bnegão em Caldas

Num novo município, mas com a mesma filosofia: volta o Portamérica.

Havia tempo que este evento tinha sido deixado de parte e agora poderemos desfrutá-lo em Caldas de Reis. Como se fossem bonecas russas, este ano o festival está encaixado dentro do programa do Cultura Quente. Boa cozinha, música e projetos criativos não hão de faltar no carvalhal.

Há pouco vi o programa de um festival galego que se chama Atlantic Fest e fiquei um bocado brava…porque realmente o catálogo de artistas não tinha nada de atlântico. O Portamérica visa ser um portal entre a Galiza e a América Latina e realmente cumpre essa promessa. A proposta lusopata deste ano faz-me muito (muito) feliz. Temos duas bandas bué de fixes: Zuco 103 e BNegão & Seletores de Frequência.

Zuco 103 não é uma banda brasileira…e tanto faz! Radicados na Holanda e com líder brasileira (Lilian Vieira) o grupo tem influência de electro-pop, samba e bossa nova. “Outro lado”, “Treasure” ou “Nunca mais” foram os meus mantras universitários, numa fase de música eletrónica que eu tive (quem nunca…?). Eles são os criadores de um estilo novo: o brasilectro.

Deixo-vos com o vídeo de “Na Mangueira”. Podem permanecer com os pés quietos? impossível!

Bnegão poderia ser confundido com uma sigla política, mas é o nome artístico do carioca Bernardo Santos. O rap e o hip hop são a sua praia. Ele foi, junto com Marcelo D2, um dos vocalistas do grupo Planet Hemp, lembram-se? Quando largou a banda fundou BNegão & Seletores de Frequência, desta vez misturando rap, hardcore, dub e funk, com letras carregadas de crítica social.

Ouçam, na íntegra, o álbum Sintonize lá.

E esta toda maravilha quando vai ser? esta sexta!

 

O Douro na Ribeira Sacra

A vida pode ser maravilhosa e para aquelas pessoas que amam vinho, ainda mais.

Entre hoje e amanhã haverá em Monforte de Lemos várias iniciativas em volta desta inspiradora bebida, porque, já sabem a coisa como é o bom vinho, solta as línguas e os corações. E tal como nas melhores comunhões, da boa mesa saem as melhores iniciativas.

Hoje podem ir à apresentação do livro Galegos do Douro de Alberto Alves, à projeção do documentário Gigantes do Douro de André Valentim Almeida e…não podia ser doutra maneira, uma cata de vinhos e azeite.

Para fechar com chave de ouro, amanhã há um concerto de Sons do Douro e também venda de livros da livraria Traga-Mundos.

Brindamos?