Fado Bicha no Festival Agrocuir

Acho que muitas pessoas da Galiza ficaram a saber de Fado Bicha pela participação que tiveram este ano no Festival da Canção com Povo pequenino. Se o António Variações afirmava que tinha criado um som especial e único, uma fusão entre Braga e Nova York, hoje vou fazer o atrevimento de dizer que Fado Bicha é a pedra basilar do fado queer.

Comecemos pelo nome. A palavra fado dispensa apresentações, mas bicha talvez precise de explicações demoradas. Bicha coloquialmente é um animal doméstico fêmea (gata, cadela…) e no calão português é pejorativamente uma palavra para dizer gay. Fado+Bicha remete para uma declaração de intenções e uma reapropriação de um termo. Tencionam criar um lugar de experimentação dentro de um género musical quase sagrado em Portugal. Com a sua criatividade ultrapassam barreiras de género (tão rígidas no fado tradicional) e encontram um espaço para novas narrativas.

Lila Fadista é a voz desta dupla e o João Caçador é guitarra e arranjos. Tenho lido e visto muitas entrevistas desta banda, acho que aprendo imenso sobre música e questões LGBTQIA+. Antes do Festival da Canção quis saber como é que era o processo criativo e fiquei a entender ainda mais que esta equipa é música e intervenção em simultâneo. Umas vezes resgatam fados pouco conhecidos ou já esquecidos, outras apanham fados muito canónicos e mudam a letra ou também pode ser que criem música a partir de poemas escritos por pessoas não heterossexuais.

Como prova do seu ativismo, podemos destacar que Fado Bicha pôs música à campanha do Livre nas legislativas de 2019 com a Joacine Katar Moreira como primeira candidata negra à Assembleia da República.

Fado Bicha vai marcar presença na 7ª edição do Festival Agrocuir da Ulhoa. Às 00h30 do dia 26 toda a gente fantasiada e a cantar em Monterroso o Namorico do André!

Pongo, a rainha do kuduro, na Galiza

É rara a vez que à Galiza chega uma cantora do país vizinho se não é para cantar fados. Cada vez que sei de uma notícia destas recebo-a com a maior das alegrias, porque acho que estas escolhas por parte das pessoas que programam a cultura ajudam muito a romper a caricatura construída em volta do que é Portugal.

Pongo, a rainha do kuduro, chega à Galiza depois de nos ter deixado de boca aberta no Festival da Canção 2022. No dia 11 de março eu publicava cá três desejos sobre a cantora e parece que esta visita vai fazer com que se concretizem alguns deles, embora o assunto de Turim já seja um impossível.

Em 6 deste mês poderemos ouvi-la ao vivo no festival Con voz de muller em Ponte Vedra. Abrirá este ciclo de concertos protagonizados por vozes femininas na Praça da Ferreria às 22h30. Parece que a Galiza não virou costas a esta realidade musical e poderemos repetir a experiência no Festival Maré no dia 24 de setembro em Compostela.

Se estiverem ainda com dúvidas e não sabem de quem é que te falo, podem ler este fio do Twitter.

Sakidila é o novo trabalho da Pongo. O título significa Obrigado em kimbundo, uma das línguas originárias de Angola. Eu fico muito grata por ela ter a oportunidade de cantar na Galiza e trazer estes ritmos. Deixo cá a ligação do álbum, para o pessoal conhecer o que é o kuduro.

Não é degradê, é o brilho da Pongo

Este sábado é a grande final do Festival da Canção. Como confessei na publicação anterior eu torço pela dupla formada pelo Tristany e a Pongo.

Ok, talvez ainda estejas a te recuperar da surpresa de saberes que a Pongo é a menina e o Tristany é o rapaz. Acontece. Um dia falaremos também do Mia Couto e de muitas pessoas surpreendidas.

Pongo & Tristany não têm (ainda) muita popularidade na Galiza, mas hoje vais descobrir que já conhecias a Pongo. Só que tu não sabias disso. Escrevi esta thread na minha conta pessoal de Twitter onde comento alguns dados biográficos sobre a cantora e explico alguma referência angolana de uma das suas letras.

A Pongo não é degradê, ela toda tem intensidade e brilho.

Este pode ser o meu post do 8M onde sempre falo de mulheres que me inspiram? Pode. Sei que chega atrasado, mas chega.

Tenho muitos desejos em volta do conteúdo deste post:

  • que a Pongo chegue aos palcos de Turim
  • que faça uma digressão de concertos pela Galiza
  • que o kuduro seja um estilo musical mais conhecido nestas terras

Vejam o Festival da Canção amanhã na G2. Não se esqueçam da Lusofesta!

O que a Galiza deu a Portugal: galegos e galegas na História portuguesa

Frequentemente revisitamos a literatura medieval galego-portuguesa como fonte indiscutível dos vínculos linguísticos e culturais entre a Galiza e Portugal. Há pouco foi editado pela AGAL um documentário, Pacto de Irmãos, que fala sobre a origem da língua escrita e como também a língua conforma uma sociedade.

Os contributos linguísticos são mais do que evidentes no que diz respeito ao título deste artigo, mas…já pensaram noutras áreas culturais? A verdade é que sempre tive muita curiosidade e há tempo que comecei a juntar uma série de nomes que conformam este post. Portanto, proponho-vos uma pequena viagem galega a várias fases da História de Portugal.

Como as explicações vão inseridas em animações, deverão levar na mala um bocado de “paciência digital”. Podem ampliar os diapositivos para uma melhor visualização. E toquem! toquem tudo para verem as informações extras! São viajantes desses com pulseira de pacote turístico completo.

Temos três roteiros diferentes: o dos galegos de gema, o literário e o da cultura popular. O primeiro deles é composto por pessoas nascidas na Galiza, os outros dois são percursos onde falaremos de descendentes de galegos.

OS GALEGOS DE GEMA

Na própria lenda do Galo de Barcelos aparece um galego como protagonista. É pena eu não ter nomes e apelidos, se tivesse, teria mesmo incluído nesta epígrafe, podem crer.

Aqui vou dar três nomes de galegos que marcaram profundamente a memória portuguesa. Com certeza, vocês conhecem.

  1. Inês de Castro. Acho que deve ser o primeiro e único caso de rainha morta-viva. Ela inspirou tanta literatura…

2. O Conde de Andeiro teve uma vida atribulada, cheia de aventuras e conspirações. É uma das figuras mais conhecidas (e odiadas) da história medieval.

A Câmara Municipal da Corunha tem, já agora, a sua vida esculpida nos cadeirais.

3. A nossa terceira paragem no roteiro dos galegos de gema é daquelas que precisam de um balde de pipocas. Diogo Alves é como uma cena de Futurama, uma cabeça metida em formol conservada hoje na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Considerado o primeiro serial killer da história portuguesa, o assassino do Aqueduto das Águas Livres era também galego. No “curiosidades” há um vídeo, um filme de cinema mudo. Tem que se lhe diga.

4. Na história das grandes navegações também estávamos presentes. João da Nova tem uma ilha deserta no Canal de Moçambique que recebe o seu nome. Acredita-se que também tenha “descoberto” o arquipélago de ilhas Agalega, no sudoeste do Oceano Índico.

O ROTEIRO LITERÁRIO

  1. Imaginem que vos digo que a figura totémica da literatura portuguesa tinha família galega. Imaginem! Não imaginem nada: é verdade. Luís Vaz de Camões era familiar de Vasco Pires de Camões, trovador com raízes em Finisterra.

Para aprendermos mais, também vos conto na mesma infografia a origem do ditado popular “vai chatear o Camões”. Conhecem?

2. E se vos dissesse que a segunda figura mais conhecida da literatura portuguesa também tem raízes galegas? Com efeito, Fernando Pessoa também é galego-descendente segundo o livro As raízes de Pessoa na Galiza do professor Carlos Quiroga.

Tanto Pessoa como Camões foram personagens fixos da série O Ministério do Tempo. Eu era fã e não sei o que foi feito dela.

3. Dentro do Orpheu há alguns poetas injustamente “esquecidos”. Um deles é Alfredo Guisado, com família em Mondariz e Ponte Areias. Este escritor é precursor do binormativismo, antes sequer de dizermos nada na AGAL. Uma ponte entre o republicanismo português e o agrarismo galego. Vejam logo.

4. José Rodrigues Miguéis é um escritor português filho de emigrantes galegos. Durante a ditadura exilou-se nos EUA por causa das suas ideias progressistas herdadas do seu pai.

A CULTURA POPULAR

Neste outro roteiro tocamos vários aspetos da cultura: a música, a política e o mundo empresarial.

Já falamos de como muitos galegos emigraram a Lisboa e qual foi o impacto cultural dessa leva. Os primeiros nomes deste roteiro alargam essa homenagem aos muitos empreendedores que modificaram a estrutura e vida social da cidade.

  1. Manuel Garcia Moreira e a Cervejaria da Trindade. Uma das cervejarias mais famosas do circuito lisboeta foi também um projeto galego.

2. Francisco Espinheira e a Ginjinha. Dispensam apresentações. A Ginjinha é o sabor de Lisboa e o Espinheira soube “fermentar” esta ideia.

3. Agapito Serra Fernandes foi um empresário galego do mundo da confeitaria. Ele projetou o Bairro da Estrela d’Ouro como residência para a sua família e empregados. O bairro tinha até um cinema, o primeiro a passar filmes sonoros em Portugal.

4. Ampliamos horizontes e falamos agora de um dos episódios mais famosos da história portuguesa: a Revolução dos Cravos. A Celeste Caeiro, “Celeste dos cravos”, foi a mulher que deu nome a uma revolução. A sua mãe era da Galiza.

5. A Madalena Iglésias fez história no mundo da canção. Não, não é família do Julio Iglesias. Teve uma carreira curta, mas foi a rainha das rádios e tvs portuguesas. Até venceu o festival da canção da RTP.

6. E já no último lugar, alguém que podem acompanhar nas redes sociais: Manuel Durán Clemente, um dos Capitães de Abril. Quando vos disserem que a Galiza só deu ao mundo exemplos de políticos de direita, pensem neste homem.

E cá termina a nossa viagem. Mas sabem que coisa? eu gosto é dos roteiros circulares, são os meus preferidos.

Agora só espero fazer num futuro próximo um artigo intitulado “O que Portugal deu à Galiza”. Conheçamo-nos melhor uns e outros para que assim seja.