O que a Galiza deu a Portugal: galegos e galegas na História portuguesa

Frequentemente revisitamos a literatura medieval galego-portuguesa como fonte indiscutível dos vínculos linguísticos e culturais entre a Galiza e Portugal. Há pouco foi editado pela AGAL um documentário, Pacto de Irmãos, que fala sobre a origem da língua escrita e como também a língua conforma uma sociedade.

Os contributos linguísticos são mais do que evidentes no que diz respeito ao título deste artigo, mas…já pensaram noutras áreas culturais? A verdade é que sempre tive muita curiosidade e há tempo que comecei a juntar uma série de nomes que conformam este post. Portanto, proponho-vos uma pequena viagem galega a várias fases da História de Portugal.

Como as explicações vão inseridas em animações, deverão levar na mala um bocado de “paciência digital”. Podem ampliar os diapositivos para uma melhor visualização. E toquem! toquem tudo para verem as informações extras! São viajantes desses com pulseira de pacote turístico completo.

Temos três roteiros diferentes: o dos galegos de gema, o literário e o da cultura popular. O primeiro deles é composto por pessoas nascidas na Galiza, os outros dois são percursos onde falaremos de descendentes de galegos.

OS GALEGOS DE GEMA

Na própria lenda do Galo de Barcelos aparece um galego como protagonista. É pena eu não ter nomes e apelidos, se tivesse, teria mesmo incluído nesta epígrafe, podem crer.

Aqui vou dar três nomes de galegos que marcaram profundamente a memória portuguesa. Com certeza, vocês conhecem.

  1. Inês de Castro. Acho que deve ser o primeiro e único caso de rainha morta-viva. Ela inspirou tanta literatura…

2. O Conde de Andeiro teve uma vida atribulada, cheia de aventuras e conspirações. É uma das figuras mais conhecidas (e odiadas) da história medieval.

A Câmara Municipal da Corunha tem, já agora, a sua vida esculpida nos cadeirais.

3. A nossa terceira paragem no roteiro dos galegos de gema é daquelas que precisam de um balde de pipocas. Diogo Alves é como uma cena de Futurama, uma cabeça metida em formol conservada hoje na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Considerado o primeiro serial killer da história portuguesa, o assassino do Aqueduto das Águas Livres era também galego. No “curiosidades” há um vídeo, um filme de cinema mudo. Tem que se lhe diga.

O ROTEIRO LITERÁRIO

  1. Imaginem que vos digo que a figura totémica da literatura portuguesa tinha família galega. Imaginem! Não imaginem nada: é verdade. Luís Vaz de Camões era familiar de Vasco Pires de Camões, trovador com raízes em Finisterra.

Para aprendermos mais, também vos conto na mesma infografia a origem do ditado popular “vai chatear o Camões”. Conhecem?

2. E se vos dissesse que a segunda figura mais conhecida da literatura portuguesa também tem raízes galegas? Com efeito, Fernando Pessoa também é galego-descendente segundo o livro As raízes de Pessoa na Galiza do professor Carlos Quiroga.

Tanto Pessoa como Camões foram personagens fixos da série O Ministério do Tempo. Eu era fã e não sei o que foi feito dela.

3. Dentro do Orpheu há alguns poetas injustamente “esquecidos”. Um deles é Alfredo Guisado, com família em Mondariz e Ponte Areias. Este escritor é precursor do binormativismo, antes sequer de dizermos nada na AGAL. Uma ponte entre o republicanismo português e o agrarismo galego. Vejam logo.

4. José Rodrigues Miguéis é um escritor português filho de emigrantes galegos. Durante a ditadura exilou-se nos EUA por causa das suas ideias progressistas herdadas do seu pai.

A CULTURA POPULAR

Neste outro roteiro tocamos vários aspetos da cultura: a música, a política e o mundo empresarial.

Já falamos de como muitos galegos emigraram a Lisboa e qual foi o impacto cultural dessa leva. Os primeiros nomes deste roteiro alargam essa homenagem aos muitos empreendedores que modificaram a estrutura e vida social da cidade.

  1. Manuel Garcia Moreira e a Cervejaria da Trindade. Uma das cervejarias mais famosas do circuito lisboeta foi também um projeto galego.

2. Francisco Espinheira e a Ginjinha. Dispensam apresentações. A Ginjinha é o sabor de Lisboa e o Espinheira soube “fermentar” esta ideia.

3. Agapito Serra Fernandes foi um empresário galego do mundo da confeitaria. Ele projetou o Bairro da Estrela d’Ouro como residência para a sua família e empregados. O bairro tinha até um cinema, o primeiro a passar filmes sonoros em Portugal.

4. Ampliamos horizontes e falamos agora de um dos episódios mais famosos da história portuguesa: a Revolução dos Cravos. A Celeste Caeiro, “Celeste dos cravos”, foi a mulher que deu nome a uma revolução. A sua mãe era da Galiza.

5. A Madalena Iglésias fez história no mundo da canção. Não, não é família do Julio Iglesias. Teve uma carreira curta, mas foi a rainha das rádios e tvs portuguesas. Até venceu o festival da canção da RTP.

6. E já no último lugar, alguém que podem acompanhar nas redes sociais: Manuel Durán Clemente, um dos Capitães de Abril. Quando vos disserem que a Galiza só deu ao mundo exemplos de políticos de direita, pensem neste homem.

E cá termina a nossa viagem. Mas sabem que coisa? eu gosto é dos roteiros circulares, são os meus preferidos.

Agora só espero fazer num futuro próximo um artigo intitulado “O que Portugal deu à Galiza”. Conheçamo-nos melhor uns e outros para que assim seja.

Dead Combo na Corunha

Amanhã a banda portuguesa Dead Combo estarão em concerto na Corunha, no Teatro Colón.

No ano 2016 o Lusopatia já falava de um concerto deles em Compostela. Continuamos a recomendar uma banda de música experimental e instrumental? Continuamos, sim. E ainda com mais força.

No passado mês de abril lançaram o seu último disco, Odeon Hotel. Internacionalizaram-se e arranjaram um produtor externo. Este trabalho recolhe perfeitamente o seu som tradicional e a sua visão da música como ritmo universal. Mas há ainda um facto que faz com que este disco seja a cereja no bolo da sua produção. Mark Lanegan interpretará com a sua voz de barítono o tema I know, I alone. Esta canção é muito especial porque a letra é um dos poemas escritos em inglês mais conhecidos de Fernando Pessoa.

Deixo um vídeo para vocês ouvirem esta maravilha de som.

Ainda vão a tempo de comprarem bilhetes!

As raízes de Pessoa na Galiza

No Dia da Língua Portuguesa não há nada melhor do que revisitarmos a nossa história e ligações culturais.

A Ginjinha, Inês de Castro, o galo de Barcelos e, agora também Pessoa, têm antecedentes na Galiza. E se a nossa história fosse contada doutra maneira?

O professor de Literaturas Lusófonas, Carlos Quiroga, prova neste livro a árvore genealógica galega do poeta, a origem do heterónimo Alberto Caeiro e a relação que isto tem com Alfredo Guisado, poeta galego esquecido da Geração Orpheu.

Hoje, no Centro Cultural Camões de Vigo, às 20h.

Ecos na África do Sul

À partida, uma viagem à África do Sul pode parecer pouco ligada à temática deste blogue. Nada mais longe disso.

Quero fazer neste artigo um pequeno diário daqueles ecos galego-portugueses que encontrei no caminho.

As navegações

Alguma coisa comentei no post que anunciava esta viagem, mas agora relatarei a história tintim por tintim. A modo de resumo de sensações posso dizer que fazer este percurso foi como vivenciar os Lusíadas.

Em 1488 Bartolomeu Dias foi à costa da África do Sul na procura de uma nova rota para as Índias. Na altura o caminho marítimo tinha sido monopolizado pelos turcos e havia que procurar alternativas para arranjar especiarias e artigos de luxo. Bartolomeu Dias dobrou o temido Cabo das Tormentas e rebatizou-o como Cabo de Boa Esperança dada a sua vitória.

Contudo, Dias não completou o percurso até à Índia por problemas com a tripulação, foi mais tarde Vasco da Gama quem chegou até lá com os ensinamentos do anterior almirante. Mas Dias desenhou o mapa dos grandes cabos, entre eles o Cabo das Agulhas, assim chamado porque no cabo é nula a declinação magnética da bússola. Hoje conserva-se este nome para o cabo e também para a localidade de L’Agulhas.

A 16 de dezembro de 1497, a frota de Da Gama já tinha ultrapassado o ponto de onde Bartolomeu Dias tinha retornado anteriormente e navegou em águas até então desconhecidas para os europeus. No dia 25, Gama e sua tripulação batizaram a costa em que navegavam com o nome de Natal por coincidir com a festividade. O nome ainda é conservado, de facto é assim chamada a costa e a província de KwaZulu-Natal (de KwaZulu “terra dos Zulu” e “Natal”)

Nesta mesma província existe uma localidade chamada St Lúcia. Este lugar foi primeiro chamado Rio dos Médãos do Ouro em 1554 pelos sobreviventes do navio português São Bento. Mais tarde em 1575, no dia da festa de Santa Lúcia, Manuel Peresterello, navegador, cartógrafo e sobrevivente do naufrágio rebatizou esta terra com o nome atual.

Estas grandes navegações são recordadas com padrões por toda a costa dos cabos.

Falemos então de mais topónimos.

A Baía de Saldanha (Saldanha Bay) é um porto natural na costa sul-ocidental, situada a noroeste da Cidade do Cabo. A cidade que se desenvolveu ao redor da baía, é também chamada de Saldanha atualmente. O nome deve-se ao capitão António de Saldanha, que visitou a região em 1503, sendo o primeiro europeu em atingir a Baía da Mesa, hoje chamada Table Bay.

Finalmente, o mercador holandês Jan van Riebeeck estabeleceu um posto de reabastecimento em 1652, que mais tarde evoluiu para se tornar na Cidade do Cabo, Cape Town ou como muitos e muitas galeguizamos: Capetom. Vendo tanta beleza, não admira que os marinheiros galegos fossem os autênticos reis das anedotas nas tascas. Está na hora de eu ler este livro do Xurxo Souto.

Fernando Pessoa

As apresentações são escusadas. O criador dos heterónimos partiu em 1896 para Durban, porque a mãe casou com um cônsul e lá passou grande parte da infância e juventude. Foi nessa cidade onde se escolarizou recebendo uma educação britânica e onde criou o seu primeiro pseudónimo, Alexander Search, que usava para enviar-se cartas a si próprio.

No ano de 1901, é aprovado com distinção no primeiro exame Cape School High Examination e escreve os primeiros poemas em inglês. Em 1903, candidata-se à Universidade do Cabo da Boa Esperança. Na prova de exame de admissão, não obtém boa classificação, mas tira a melhor nota entre os 899 candidatos no ensaio de estilo inglês. Recebe por isso o Queen Victoria Memorial Prize.

É para mim curioso, depois desta viagem, ver que na obra de Fernando Pessoa em português não há quase qualquer referência a estes primeiros anos. Gostava muito de saber qual seria a sua visão das coisas na época.
Depois da sua morte, em 1987 foi erigida uma estátua comemorativa na esquina de Pine com Gardiner em Durban. A estátua foi desfigurada em 2015 após o acalorado debate em torno dos símbolos da era do apartheid e da época colonial que foi motivado pela campanha “Rhodes Must Fall”.

Vida e caffè

Não quero ser gaja-propaganda, mas não há outra hipótese: tenho mesmo que falar-vos do Vida e caffè.

“Inspired by the street cafés of Portugal, infused with the vivacious energy of the people of Africa, and blended together in a place that inspires the soul, we infuse passion in everything we do, especially our coffee. That little kick that shouts ‘Olá!’. That’s passion. Can you taste it?”

O conceito do bar é aquele dos cafés de Portugal e a marca tem o país, a língua e os azulejos como inspiração. A ementa costuma estar escrita num misto entre inglês e português bastante engraçado. Foi para mim um achado.

As zebras e…

Ok, confesso, a minha viagem não foi dessas de “wild Africa”. Não vi zebra nenhuma. Mas não por isso vou dizer que a minha experiência na África “deu zebra” (na gíria brasileira) por não ter visto este animal. Vi mesmo muitos animais inesperados e, sobretudo, livres, que era para mim o mais importante.

Já falei disto noutro post, mas quero mesmo recordar esta etimologia porque acho que é um traço que une a Galiza com a África e muitas pessoas não o sabem. Uma das -não sei se dizer- queixas que eu sempre expunha na minha viagem era que depois de ver a fauna africana, a fauna europeia parece-me bem aborrecida. Isto é, pouco variada em animais grandes e selvagens. Recordei então este antigo post meu. Não é bem que a nossa fauna seja aborrecida, é que nós exterminamos tudo de divertido.

Não sei se sabem que na Galiza existiu um animal equino chamado “zebro” que viveu connosco até ao século XVI. Hoje está extinto, mas deu origem a vários topónimos, como por exemplo “Zebreiro” (sim, Cebreiro, deveria então ser escrito com z-).
Na época dos descobrimentos ao encontrarem a zebra que hoje conhecemos deram-lhe o nome do animal mais parecido com ela que sabiam, isto é, o zebro.

Além disso, o português também contribuiu para o património linguístico da África do Sul, com palavras como commando e picaninn (da palavra pequenino, que significa pouco).

Diz um provérbio africano que ser feliz é melhor do que ser rei. Eu fui feliz e rainha.

Dulce Pontes, Peregrinação

O rapper Sam the Kid canta na sua música Poetas de Karaoke ” aqui o Samuel é Madredeus é Dulce Pontes”. Há uma marca de identidade nas músicas que ouvimos. Dulce Pontes é Portugal.

dulce_pontes_peregrinacao-portadaEste sábado teremos a artista portuguesa no Palácio da Ópera da Corunha. Podem comprar os bilhetes nesta ligação.

Peregrinação é o último disco da Dulce. Depois de uma longa espera desde o seu último trabalho, a cidade herculana será a primeira paragem da digressão de concertos.

O disco tem 22 canções e é composto por dois cd. No primeiro, Nudez, a cantora canta em português; no segundo, Puertos de abrigos, canta em espanhol, inglês e galego-português. Peregrinação é uma viagem espiritual e um encontro com nós próprios.

Vejam o clipe de Nevoeiro: voz de Dulce Pontes, letra de Fernando Pessoa. Simplesmente fantástico.

A literatura portuguesa depois da revista Orpheu

Nexos016_OrpheuUm século de literatura a debate. O que foi feito na literatura portuguesa depois do Orpheu?

Amanhã revisitaremos as melhores páginas. Três momentos literários à volta da língua portuguesa: o Orpheu, com Pessoa e Sá Carneiro; Herberto Helder e a sua poesia e as novelas de Lídia Jorge.

A sessão será na Biblioteca da Galiza, no Gaiás amanhã a meio-dia e está co-organizada pelo Instituto Camões. Nela vão participar os investigadores António Cardiello (Casa Fernando Pessoa) e Rosa Maria Martelo (Universidade do Porto), além da própria Lídia Jorge, que nos explicará in situ a sua obra.

O professor Carlos Quiroga recitará também textos selecionados.

Como complemento temos outra atividade, uma projeção cinematográfica: As deambulações do mensageiro alado (1969). Edgar Gonçalves Preto cria um filme onde surge Herberto Helder, que mimetiza títulos de algumas das suas obras, num contexto em que é posta em causa a sociedade portuguesa da época, sob a ditadura.

 

Sê plural como o universo

O escritor Fernando Pessoa escreveu esta frase há tempo. O pai da heteronímia pode ser um bom representante da pluralidade, mas para sermos plurais como o universo precisamos de muita filosofia zen e saber como é que o número gramatical se forma.

Vamos dar uma série de regras para recordar como podemos fazer o plural das palavras.
A teoria geral é a mesma que em todas as línguas romances ocidentais: a nossa técnica para formar plural é acrescentar um -s. A partir de agora o que vamos dar, por melhor dizer, são exceções a esta regra.

1. Todas as palavras acabadas em vogal acrescentam um -s: casa (sg)/ casaS (pl); árvore (sg)/ árvoreS (pl). Uma exceção a esta regra é o ditongo -ÃO, que se comporta de duas maneiras:
1.1. Existe um bloco de palavras que se comporta como MÃO (sg)> MÃOS (pl)
1.2. e outro que faz o plural como CORAÇÃO (sg)> CORAÇÕES (pl). Confira aqui para ficar a saber. Podem fazer uns testes só com esta terminação nesta página.

2. Nos substantivos acabados em -M, esta letra final desaparece e acrescentamos -NS: som (sg)/ soNS (pl); homem (sg)/ homeNS (pl)

3. Nas palavras acabadas em -L esta letra desaparece sempre. Para formar plural temos de acrescentar -IS: possível (sg)/ possíveIS (pl); azul (sg)/ azuIS (pl)

4. As palavras que acabarem em consoantes diferentes de -M e -L, acrescentam -ES: país (sg)/ paísES (pl); cruz (sg)/ cruzES (pl). Verifiquem se dão pontapés na gramática com este exercício.

Não sei se a sua vida é agora mais complicada. Se estas todas regras foram fáceis, veja o vídeo do Professor Fábio Alves sobre os plurais metafónicos. Comece a entrar em pânico!