Escrever: porque, porquê, por que, por quê

De onde viemos O que somos Para onde vamos - Paul Gauguin - 1897O que somos? de onde viemos? para onde vamos? Todas estas questões estão presentes em todas as culturas. É o fardo que nós temos.

O Paul Gaugin soube com o seu pincel retratar estas perguntas. Uma tela de 4 metros, pintada em apenas um mês. Da direita para esquerda é possível notar uma evolução da vida humana. Começando com uma criança no canto, um adulto ao meio em contacto com o conhecimento e no outro extremo uma velha anciã.

Este quadro, é o quadro dos porquês da vida.

Ortograficamente, o tema dos porquês em português traz muitas vezes dúvidas aos meus alunos e alunas. Agora que estão com datas de exames, coloco este post para resolver algumas questões que ficam pendentes e também desejar-lhes muita sorte. Vamos ver o uso dos porquês:

  • porquê: é um substantivo, por isso somente poderá ser utilizado, quando for precedido de artigo (o, os), pronome adjetivo (meu(s), este(s), esse(s), aquele(s), quantos(s)…) ou numeral (um, dois, três, quatro). Ex: Não consigo entender o porquê da sua ausência.
  • por quê: vai sempre no final de uma pergunta. Sempre que a palavra que estiver em final de frase, deverá receber acento, não importando qual seja o elemento que surja antes dela. Ex: Estudei bastante ontem à noite. Sabe por quê?
  • por que: usa-se por que, quando houver a junção da preposição por com o pronome interrogativo que ou com o pronome relativo que. Para facilitar, dizemos que se pode substituí- lo por por qual razão, pelo qual, pela qual, pelos quais, pelas quais, por qual. Ex: Estes são os direitos por que estamos a lutar.
  • porque: É uma conjunção subordinativa causal ou conjunção subordinativa final ou conjunção coordenativa explicativa, portanto estará ligando duas orações, indicando causa, explicação ou finalidade. Para facilitar, dizemos que se pode substituí-lo por já que, pois ou a fim de que. É usado em frases afirmativas ou respostas. Ex: Vou ao supermercado porque não temos mais frutas

porquc3aasAgora já sabem quando se escrevem estas palavrinhas. Vou deixar esta ligação dos Xutos e Pontapés, sem mais motivo. Só porque eu sei, porque eu quero.

De e Desde

imagesDesde o início da nossa história temos a teima de querer deixar claro quando é que as coisas começam. Gostamos de medir o tempo. Sentimos a ilusão de poder dominá-lo.

Lembro-me da primeira vez que li O Papalagui. Ao ouvir o barulho da máquina do tempo, queixa-se o Papalagui assim: “que pesado fardo! mais uma hora que se passou!”. A nossa relação com o tempo foi muito bem descrita no livro.

Para enganar e poder controlar a ilusão do tempo, inventámos o calendário. O calendário é um sistema para contagem e agrupamento de dias que visa atender, principalmente, às necessidades civis e religiosas de uma cultura. A palavra deriva do latim calendarium ou livro de registo, que por sua vez derivou de calendae, que indicava o primeiro dia de um mês romano.

Com isto do calendário não havia unanimidade, por exemplo, cada cidade grega tinha um calendário diferente e aliás sem calendas. Coisas esquisitas.

Vamos ver agora como podemos delimitar tempo e espaço na nossa expressão quotidiana.

  • Para poder dar uma referência no tempo, usamos a preposição DESDE: Desde o descobrimento da penicilina, a qualidade de vida melhorou; A empresa funciona desde 1923.
  • Para dar uma referência no espaço, usamos DE: Da minha janela, posso ver o mar; A notícia da manifestação foi seguida ao vivo do Porto; Escrevo-te este e-mail do Brasil. Evitaremos: Desde a minha janela; …foi seguida desde o Porto; desde o Brasil.

Perto ou cerca?

Proximidade entre desconhecidos pode chegar a ser incómoda.

Um artigo publicado pelo biólogo Dario Maestripieri em Wired indaga na relação que existe entre a atitude dos seres humanos nos elevadores e os ancestrais instintos que partilhamos com o resto dos primates. A resposta instintiva costuma produzir condutas de auto-proteção. Assim, em elevadores cheios, as pessoas ficam paralisadas e olham o teto, o chão ou os seus botões. Se dois estranhos se encontrarem, afastar-se-ão quanto possível, sem se encararem diretamente, sem se olharem.conversa elevador

Ainda que os elevadores são um invento moderno, já se têm produzido no passado situações de proximidade com outras pessoas em espaços fechados. Por exemplo, no Paleolítico. Maestripieri coloca o exemplo de dois cavernícolas que perseguem as pegadas de um grande urso numa estreita cova. Nesse caso o perigo, mais do que o urso, é o caçador rival. E naquela época, o assassinato era uma “maneira aceitável de sair de situações socialmente incómodas”, como hoje é usado um encontro com o médico como escusa para sair cedo de uma festa.

Embora o ser humano evoluísse muito nos últimos milhares de anos, o instinto nas situações de perigo permanece intacto e é partilhado com outros primates. Desta maneira, os macacos que estão juntos numa jaula tentam fazer qualquer coisa para evitarem uma agressão: mover-se com cuidado, agir com indiferença ou estar num cantinho. Olhar olhos nos olhos também é proibido, porque para eles significa uma ameaça.

O elevador é, por natureza, um ambiente inibidor. Muitas pessoas não sabem como proceder diante dessa repentina e artificial intimidade. Alguns tentam disfarçar o mal-estar desviando o olhar para o painel luminoso que indica o número dos andares. Outros preferem puxar conversa, ainda que seja com algum comentário insosso sobre o tempo.

Vamos agora com as nossas dicas, que já houve papo de antropóloga que chegue. Relacionado com a proximidade, está o advérbio perto que vamos explicar agora em contraste com cerca.

  • PERTO é o contrário de longe. É usado para marcar distâncias espaciais: compro a carne no talho perto da tua casa.
  • CERCA é usado com números, para dar quantidades aproximadas: com cerca de 280 milhões de falantes, o português é hoje a língua mais falada do hemisfério Sul.

Escrever: sou, são, som

O ato de medir é, em essência, um ato de comparar, e essa comparação envolve erros de diversas origens (dos instrumentos, do operador, do processo de medida etc.). Isto é o que diz a Teoria dos Erros.eu sou

Quando se pretende medir o valor de uma grandeza, pode-se realizar apenas uma ou várias medidas repetidas, dependendo das condições experimentais particulares ou ainda da postura adotada frente ao experimento. Em cada caso, deve-se extrair do processo de medida um valor adotado como melhor na representação da grandeza e ainda um limite de erro dentro do qual deve estar compreendido o valor real.

Esta teoria é capaz de classificar erros de diversas tipologias: erros de arredondamento, fortuitos, de truncatura, sistemáticos… Gosto especialmente destes últimos, porque são os mais humanos. Entre os erros sistemáticos que habitualmente encontro em aprendentes, estão estas confusões que agora esclareço.

  • SOU: é a primeira pessoa de singular do presente do verbo SER: eu sou uma rapariga chinesa.
  • SÃO: pode ser várias coisas. Vamos lá ver:
    1. uma redução da palavra SANTO. Lembre-se da cidade de SÃO PAULO.
    2. um adjetivo: o contrário de doente. Lembre-se da expressão SÃO E SALVO. O feminino é SÃ e o plural é SÃOS.
    3. pode ser também a terceira pessoa do plural do verbo SER: elas são umas raparigas chinesas.
  • SOM: é alguma coisa que soa aos ouvidos: o som do mar, o som da música.

“Eu sou assim, quem quiser gostar de mim, eu sou assim

Escrever: quanto a, enquanto, entretanto

Falar pelo telemóvel enquanto escrevemos um e-mail. Rotinas diárias, pois não?

O ser humano é obrigado a fazer duas ou mais coisas ao mesmo tempo, e com eficiência em todas, se possível. É real essa eficiência em atividades simultâneas?

Quando tentamos executar várias atividades ao mesmo tempo, acabamos por não fazer nada perfeitamente e, a longo prazo, por precisarmos estar alertas sempre com muitos acontecimentos, perdemos a capacidade de nos focar. De facto, uma das principais caraterísticas cerebrais aproveitadas pelos ilusionistas é incapacidade do ser humano de prestar atenção em duas coisas simultâneas. É assim que nos distraem e fazem ilusões.

O cérebro não foi projetado para atentar para duas ou três coisas simultâneas. Ele é configurado para reagir a uma coisa de cada vez. Por isso é que é punido falar pelo telemóvel enquanto conduzimos.

O poder das “multitarefas” é um mito, é um impossível para o ser humano, por isso é que existem deusas com muitos braços como Lakhsmi.

Agora que falamos em simultaneidade, encontro nos textos dos meus alunos e alunas uma confusão muito frequente. Se quisermos exprimir simultaneidade, linguisticamente temos vários mecanismos.

  • Entretanto significa “nesse intervalo de tempo”. É uma palavra muito comum na banda desenhada. Quando o plano do quadrinho está partido para contar duas ações em espaços diferentes. Por exemplo, o Batman está em Nova Iorque, mas o escritor quer fazer ver o que está a acontecer em Gotham City: Entretanto em Gotham City…
  • Enquanto: indica simultaneidade de duas ações, por exemplo: enquanto faço as unhas, canto bossa-nova. Quer dizer “no mesmo tempo que”.

Enquanto + Futuro de Conjuntivo é uma outra construção com outro significado diferente: enquanto souber qualquer coisa do acidente, digo-te. Isto é sinónimo de “assim que”: assim que souber qualquer coisa do acidente, ligo-te.

Por enquanto: é também uma locução adverbial. Na frase: não te vou deixar, por enquanto. Aqui podemos ver que significa “por ora”.

  • Quanto a: não indica simultaneidade, mas como é quase homófono com “enquanto”, cria confusões. Este é um organizador textual, uma maneira de introduzirmos um novo tema. Não tem nada a ver com os anteriores casos: Quanto à nomenclatura dos metais e não metais, acho muito difícil a sua memorização/ Quanto aos procedimentos de seleção na empresa, direi que alguns deles eram ridículos.

Deixo vocês, por enquanto, com esta música dos Legião Urbana, também intitulada Por Enquanto.

Escrever: til de nasalidade

O tema das vogais nasais não é novo para nós, já temos falado nisto com anterioridade, mas neste artigo só nos vamos centrar no aspeto informático, coisas técnicas que possam atrapalhar.
Como podemos discar no teclado estas palavras? anã, irmã, corações…Como se escreve o til de nasalidade num computador?

Muitas vezes, não é por desconhecimento linguístico mas por falta de alguns truques informáticos que as pessoas não escrevem o til. Aliás, cada sistema operativo pede uns comandos diferentes para o escrever.
Vamos lá ver, tintim por tintim, como é que podemos fazer para apurar os nossos textos:

• No sistema Windows, para colocar o til de nasalidade (~) devemos discar: Ctrl Alt 4. Depois deveremos escrever a vogal, isto é, escolher se queremos nasalar “a” ou “o”: irmãos, limões. Este é um atalho de escrita, mas também podem optar (se usarem habitualmente a escrita em português) por aderir ao sistema de distribuição do teclado correspondente a este idioma (pode-se usar ora a variante portuguesa ora a brasileira), o que nos permite, premendo apenas simultaneamente um par de teclas, trocar os teclados espanhol/português. O til de nasalidade vai aparecer
sempre que premermos a tecla do Ç e, a continuação, a vogal que quisermos nasalar.
A rota é: Panel de control > Opciones regionales, de idioma, y de fecha y hora > configuración regional y de idioma > idiomas > detalles > servicios instalados > agregar > idioma de dispositivo de entrada > português (Portugal)
Pode parecer chato mas, uma vez realizado isto, o único que fica por fazer é em idioma de dispositivo de entrada > configuración de teclas, escolher a combinação de teclas entre as opções que o sistema dá.

• No sistema operativo Mac (Apple) temos este atalho: Alt Ñ

• Para completar a informação podemos dizer que em Ubuntu e similares o til de nasalidade é AltGr ¡

Escrever: mais, mas e más

A expressão brasileira “Mas que nada” tem andado ultimamente pela minha cabeça. Antes da minha conversão à Lusopatia, procurava esta música na net e quando achava dois títulos (Mas que nada/Mais que nada) nunca sabia o motivo. Hoje pensei: “isto merece um artigo”.

Esta frase é sinónimo de “deixa pra’ lá” e entre os resultados da net aparece escrita com mais/mas porque no Brasil estas duas palavras são pronunciadas exatamente igual. Daí muitas confusões ortográficas.
Como os erros na escrita são nacionais, entre os meus alunos e alunas existem indecisões, mas doutro género. Agora vamos tentar dar uma cura para deixar os textos limpinhos.

  • MÁS: é o plural do adjetivo “má”, que é o feminino de “mau”, contrário de “bom”. “Estas laranjas são más e aquelas são ainda piores”
  • MAS: é a conjunção adversativa mais usada no português. Relaciona pensamentos contrastantes, opostos… “Queria ir à festa, mas tinha de estudar”. É sinónimo de “no entanto”, “porém”, “todavia”…
  • MAIS: é um advérbio que é o contrário de “menos”. “O concerto acabou e dissemos: “mais uma! mais uma!”

Acho que este vídeo vai explicar melhor:

Ainda com dúvidas? Façam exercícios aqui

Todo mundo sabe tudo. Quando escrever Tudo ou Todo/a(s)?

Uma das coisas que custa sistematizar quando aprendemos português é esta escolha. Por vezes achamos que o mais genuíno é colocar *tudos à toa, mas devemos parar e pensar, porque a regra é tão simples, que vale a pena.
-TUDO é uma forma invariável, não pode flexionar nem em género, nem em número. Não podemos inventar nem feminino, nem plural: *tudas, *tudos…Esta é uma forma que exprime um conceito geral.
Uma dica: se substituirmos Tudo por Nada numa frase e ela continua a ter sentido, estamos certinhos.
Tudo vale a pena/Nada vale a pena
-TODO/A, TODOS/AS varia na forma e acompanha sempre um substantivo: todos os dias, toda a noite…É uma forma que especifica.
Vejam lá esta explicação:

Podem verificar o aprendido aqui.

Repare nesta música

e agora compare

Acompanhe a letra aqui e chore connosco o fim do Carnaval, snif, snif…

Escrever: há, ah, à, a

Note-se que isto serve como memorando e não para apontar com o dedo a alguém…qual nada!, não é para ficarmos corados, mas um dos erros que mais frequentemente encontro nos escritos é este.
Com efeito, estas quatro palavras parecem-se e isso pode fazer com que apareçam dúvidas.

*HÁ
É a terceira pessoa do singular do Presente do Indicativo do verbo Haver. Usamos esta palavra em:
-Na mesa da cozinha há uma maçã (para assinalar que uma coisa existe)
-Há anos que vou a ioga (=desde esse tempo)

*AH
É uma conjunção que exprime surpresa, admiração…
-Ah, não me lembrei de te dizer isso!
-Ah, que cachorro tão lindo!

*A
Pode ser ou uma preposição ou um artigo definido feminino singular.
-A casa da tua avó é grande (artigo)
-Começaram a gritar de medo (preposição)


É a preposição “a” contraída com o artigo definido “a”. O acento que tem é sempre grave e só aparece em sete palavras da língua portuguesa, que agora vai ficar a saber:
-à (a+a): O comboio chegou à cidade.
-às (a+as): O autocarro partiu às 16.00
-àquele (a+aquele): Foram àquele bar tomar uns copos
-àqueles (a+aqueles): Foram fazer montanhismo àqueles montes
-àquela (a+aquela): Nunca fui àquela palestra de economia
-àquelas (a+aquelas): Nunca fomos àquelas montanhas
-àquilo (a+aquilo): Liga sempre àquilo que falámos

Tanto papo de linguista e ainda ficou com dúvidas? veja o vídeo a seguir.

Outras dificuldades ortográficas com o acento diferencial, podem ser estas. Com esta imagem sabemos que acento devemos colocar:

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E agora verifique agora os seus conhecimentos aqui.

Papel em branco


Quando queres ir a algum lugar aonde nunca foste, costumas elaborar um roteiro. Sabes que, caso não planeies, correrás o risco de ficar rodando à toa e não chegarás ao destino, e, se chegares, terás perdido mais tempo que o previsto.

Ao elaborarmos uma redação de opinião, não é diferente: se não tivermos um plano ou um roteiro previamente preparados, corremos o risco de ficar dando voltas em torno do tema, sem chegar a lugar nenhum. Por isso, antes de escrever a tua redação, é preciso planeá-la bem, procurando elaborar um esquema. Ele evita o pânico ao papel em branco, esse medo que muitas vezes engasga a nossa criatividade.

Podemos seguir os seguintes passos para elaborar um texto escrito:
-O primeiro passo para a elaboração do esquema é ter entendido o tema, pois de nada adiantará um ótimo esquema se ele não estiver adequado ao tema proposto.
-Em seguida, poderás dividir o seu esquema nas três partes básicas – introdução, desenvolvimento e conclusão. Na “Introdução”, é necessário estarmos informadas/os sobre a tese que defenderemos. No “Desenvolvimento”, tens que escrever as palavras capazes de resumir os argumentos que apresentarás para sustentar a tua tese. Na “Conclusão”, deverás escrever palavras que representem a tua ideia final.

Quando aprendemos uma língua, o medo do papel em branco soma-se à falta de vocabulário e isto faz com que percamos fluência na escrita. Precisamos de expressões que liguem umas ideias com as outras. Eis uns conetores que podem ser sempre de ajuda:
-para opor ideias: mas, pelo menos, todavia, ao contrário, a pesar de, contudo, porém, embora, por outro lado…
-para clarificar: assim, com efeito, dito de outro modo, isto é, ou seja, por exemplo, por outras palavras…
-para exprimir uma opinião pessoal: quanto a mim, acho que, penso que, na minha opinião…
-para resumir: em conclusão, em resumo, em síntese…

Esta ligação contém boas dicas:
http://www.bestreader.com/port/txcomoescrever.htm

Ainda faz falta que avisemos as musas?