Oficina de criação literária na Ciranda

índiceA livraria Ciranda faz uma nova proposta didática esta semana. Para quem estiver interessado em melhorar a sua expressão escrita, haverá um ateliê de criação literária amanhã sábado, de 11h a 13h, com inscrição prévia.

O escritor Michel Yakini, autor de “Desencontros” (contos, 2007), “Acorde um verso” (poesia, 2012), “Crônicas de um Peladeiro” (Crônicas, 2014) e de diversas antologias, é colunista do Jornal Brasil de Fato e será o docente neste pequeno percurso pela arte de escrever. escrevendo-para-si-mesmo-i

Michel Yakini participou de atividades literárias na Argentina, México, Cuba e França, realizando palestras, recitais e apresentando sua obra em universidades, feiras, centros culturais e eventos artísticos.A partir de um breve histórico sobre a presença das matrizes africanas na cultura brasileira, trançaremos palavras e elementos naturais (água, folhas, pedras, sons, etc.), visitando a imaginação, a criatividade e a memória. A leitura de mitologias africanas (em português), poemas afro-brasileiros e expressões idiomáticas serão um convite à criação poética e a reflexão sobre o tema, em que abordaremos a presença da cosmovisão africana e sua influência cultural e linguística no Brasil.

Pelos vistos o escritor passará antes pelo mercado para comprar manjericão, hortelã, alecrim e mais coisas que habilmente misturará com palavras. Isto vai dar barraca, migas!

Quem tiver interesse em participar terá de se inscrever no mail: ciranda@ciranda.pt

 

 

 

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Seguir ou Continuar?

Tiveram alguma vez esta dúvida?

Parecem sinónimos, mas não. Um é um verbo de movimento e o outro indica uma ação continuada. É curioso porque conheço muitas pessoas que não dão este erro quando falam inglês. Sei lá…vamos com as explicações rápidas.
seguir: tem o sentido de perseguir, acompanhar ou copiar. Disse antes que era um verbo de movimento, mas também tem outros significados que não implicam deslocamento. Por exemplo:

  • Seguiu-me até a minha casa; O resto dos pinguins seguiram o primeiro; (aqui há movimento)
  • Justin Timberlake seguiu a trajetória de Michael Jackson; Sigo a série The Wire há vários anos. (nestas outras tem o sentido de Acompanhar ou Copiar)

seguir
continuar: significa não parar, não interromper: Passou por muita coisa, mas ela continuava com um sorriso; Continuou com os estudos no estrangeiro; O coelhinho Duracell continuava a correr e as pilhas nunca estavam gastas.

continuar

Colher, Apanhar, Pegar

Por castelhanismo, fazemos um uso hiperabundante do verbo Colher. No espanhol de Espanha o verbo Coger tem um sentido muito amplo, mas no português há usos mais específicos e verbos diferentes para o que no espanhol é um significante apenas.

Quando aprendemos português, muitas vezes fazemos uma tradução literal Coger=Colher e as coisas não são bem assim. Isto costuma criar dificuldades entre os meus alunos e alunas, então decidi dar umas pequenas indicações básicas. Para completarem informações, podem ler também este artigo no Ciberdúvidas.

  • COLHER: é “agarrar arrancando”. Derivado do verbo Colher está o substantivo Colheita, portanto, já podem imaginar que género de coisas é que se colhem: maçãs, peras, pimentos…995791_628321240525948_1687648998_n

Por outras palavras, Colher é para flores, ervas, frutos ou frutas tiradas das suas árvores (ou plantas) uma a uma. Ontem fui ao pomar colher maçãs.

De uma maneira metafórica também podemos ser colhidos por um carro, por um touro, pela morte…Isto é uma letra da Capicua: “Quero uma horta do outro lado da porta e quero a sorte de estar pronta quando a morte me colher”

Contudo, cada vez mais, o verbo Apanhar está a ganhar o espaço do verbo Colher.

  • APANHAR: tem vários usos, mas costuma implicar um movimento.1455044_692131974144874_983920073_n
    • Para agarrar coisas que estão no chão: apanha aí esse lápis que caiu.
    • Também como sinónimo de Capturar ou Atingir: apanhei-te numa mentira, aldrabão!
    • Para meios de transporte: apanhar um táxi.
  • PEGAR: é um verbo que faz impressão nas primeiras aulas, porque é um falso amigo também. Mas não, não podemos confundi-lo com Bater. Nunca pensei em agradecer nada à música Ai, se eu te pego, mas o pessoal ficou a saber um dos significados do verbo graças a ela.

Normalmente, as coisas que pegamos estão ao alcanço da nossa mão. A ação de Pegar não implica movimento. Pega nesse livro.

No português do Brasil este verbo é usado muito e para os meios de transporte também: pegar um táxi.

Escrever: escolher, eleger

Vamos agora com uma das minhas batalhas particulares: as escolhas.

Pessoas indecisas…como lidar com elas? quando se convive com uma pessoa indecisa, provavelmente colherá os frutos desta vida imprecisa, ou seja, vai ter que conviver com alguém que vive constantemente mudando de ideia e faltando com a sua palavra. Como de chato é isso de agora sim, agora não, talvez, sei lá…

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Coloquei esta questão logo no início para falarmos de dois verbos que nem sempre são fáceis de usar, sobretudo porque muitas vezes pensamos que são sinónimos totais e não. Uma vez que soubermos cada caso, o uso é bem simples.

  • Uma “escolha” é uma seleção de alguma coisa entre um conjunto de coisas. Isto vem do verbo “escolher“. Por exemplo: para escrever, eu escolho sempre a caneta azul; Havia montes de sapatos, mas eu escolhi os oxford.

Gostam de escolher e tomar decisões? atrevam-se com o quizz de Venha o Diabo e Escolha. As perguntas são fáceis, mas as respostas são sempre uma escolha bem difícil.

  • Derivado do verbo “eleger” é o substantivo “eleição”. Quando elegemos fazemos isso por meio de uma votação: hoje elegeram o representante da junta da freguesia.

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Então, como é que é? Sim ou Não?

Escrever: sob, sobre, baixo

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Nestes dias tenho andado sob pressão. Trabalhos novos e outras obrigações que fazem com que cada dia me obrigue a mim própria a ter um desempenho maior e melhor. E dando voltas à expressão “estar sob pressão” (e também ouvindo Under pressure dos Queen), decidi clarificar o uso da palavra “sob”.

Eu diria que no português esta é uma das palavras mais esquisitas na forma. Nunca vi outras palavras que acabassem em -b. Sim, a palavra é uma ovelha negra, coitada, e os alunos e alunas assim a tratam. Vamos ver como ela é especial.

Entre palavras parecidas ou entre usos parecidos de uma língua a outra pode haver decalques e confusões, isto acontece algumas vezes com esta tríada de palavras: sob, sobre e baixo.

  • sob: significa “debaixo de”. Num sentido extenso, significa: em posição inferior, subordinado/a, no interior de, no governo de…Indica então uma hierarquia. Podemos usar Sob também em expressões como: sob juramento, sob compromisso, sob pressão…

O cão está sob a mesa/ Apenas contei a verdade porque estava sob pressão/ Elas passaram sob os arcos da ponte romana/ O programa da tv estava sob o comando do apresentador arguido

  • sobre: significa “por cima de”, é o contrário do anterior. Num sentido amplo, pode significar: em cima, na parte superior, numa posição superior, ao encontro de…entre muitos significados.

Coloquei o prato de sopa sobre a mesa/ Não tenho nada a dizer sobre esse assunto

A palavra “sobre” não é um substantivo, é sempre uma preposição. Não está correto dizer meti todos os documentos num sobre, porque para isso temos a palavra envelope.

  • baixo: o único uso como advérbio que o português recolhe, é no sentido de “falar baixo”, “cair baixo”…No resto dos casos é um adjetivo oposto a “alto”. Não está correto dizer, por exemplo, o soldado estava baixo as ordens do rei, porque este é o espaço de uso de Sob.

A mesa que comprámos é muito baixa, baixa demais para as cadeiras que nós temos

Reparem na letra da música A mesma praça de Paulo Miklos, ele usa (quase de propósito) Sob e Sobre na canção:

Escrever: palavras terminadas em -n

pólenO pólen é o conjunto dos minúsculos grãos produzidos pelas flores das angiospermas, que são os elementos reprodutores masculinos, onde se encontram os gâmetas que vão fecundar os óvulos, que posteriormente irão se transformar em sementes.

O pólen pode ser kryptonita para uma pessoa alérgica e os -n finais são também kryptonita para um aprendente. Uma das primeiras batalhas ortográficas está no plano do inconsciente. Estamos habituados a escrever palavras acabadas em -n e sem dar por isso, reproduzimos este esquema nos textos escritos em português.
Pólen é uma palavra portuguesa que acaba em -n. É uma das poucas.

13228592-cuero-alfabeto-cuero-de-textura-letra-nUma das normas básicas que temos de saber quando escrevemos em português é que o -N é muito pouco usado. Se alguma vez tiverem dúvidas, escolham o til de nasalidade (ã, õ) ou -m. O índice de acerto vai ser muito maior.

As palavras que acabam em -n em português entraram tardiamente na língua e por via erudita, daí não terem sofrido praticamente alterações. Podemos dizer assim que esse -n é etimológico.

  • Como pronunciamos este -n? Cunha e Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo, indicam que «em final absoluta de palavras cultas a articulação ápico-alveolar da consoante n». Isto é, a consoante nasal pronuncia-se da mesma forma como em neve ou nada.
  • A acentuação. Há uma regra a ter em consideração no que respeita à acentuação: as palavras terminadas em –n são graves, e a sua acentuação deve ser marcada graficamente.
  • Alguns exemplos de palavras em -n: abdómen, cólon, éden, espécimen, glúten, hífen, hímen, pólen, sémen, ânion, cânon, cátion, elétron, néutron, plâncton, próton, líquen…

Escrever: porque, porquê, por que, por quê

De onde viemos O que somos Para onde vamos - Paul Gauguin - 1897O que somos? de onde viemos? para onde vamos? Todas estas questões estão presentes em todas as culturas. É o fardo que nós temos.

O Paul Gaugin soube com o seu pincel retratar estas perguntas. Uma tela de 4 metros, pintada em apenas um mês. Da direita para esquerda é possível notar uma evolução da vida humana. Começando com uma criança no canto, um adulto ao meio em contacto com o conhecimento e no outro extremo uma velha anciã.

Este quadro, é o quadro dos porquês da vida.

Ortograficamente, o tema dos porquês em português traz muitas vezes dúvidas aos meus alunos e alunas. Agora que estão com datas de exames, coloco este post para resolver algumas questões que ficam pendentes e também desejar-lhes muita sorte. Vamos ver o uso dos porquês:

  • porquê: é um substantivo, por isso somente poderá ser utilizado, quando for precedido de artigo (o, os), pronome adjetivo (meu(s), este(s), esse(s), aquele(s), quantos(s)…) ou numeral (um, dois, três, quatro). Ex: Não consigo entender o porquê da sua ausência.
  • por quê: vai sempre no final de uma pergunta. Sempre que a palavra que estiver em final de frase, deverá receber acento, não importando qual seja o elemento que surja antes dela. Ex: Estudei bastante ontem à noite. Sabe por quê?
  • por que: usa-se por que, quando houver a junção da preposição por com o pronome interrogativo que ou com o pronome relativo que. Para facilitar, dizemos que se pode substituí- lo por por qual razão, pelo qual, pela qual, pelos quais, pelas quais, por qual. Ex: Estes são os direitos por que estamos a lutar.
  • porque: É uma conjunção subordinativa causal ou conjunção subordinativa final ou conjunção coordenativa explicativa, portanto estará ligando duas orações, indicando causa, explicação ou finalidade. Para facilitar, dizemos que se pode substituí-lo por já que, pois ou a fim de que. É usado em frases afirmativas ou respostas. Ex: Vou ao supermercado porque não temos mais frutas

porquc3aasAgora já sabem quando se escrevem estas palavrinhas. Vou deixar esta ligação dos Xutos e Pontapés, sem mais motivo. Só porque eu sei, porque eu quero.

Escrever: De, Desde

imagesDesde o início da nossa história temos a teima de querer deixar claro quando é que as coisas começam. Gostamos de medir o tempo. Sentimos a ilusão de poder dominá-lo.

Lembro-me da primeira vez que li O Papalagui. Ao ouvir o barulho da máquina do tempo, queixa-se o Papalagui assim: “que pesado fardo! mais uma hora que se passou!”. A nossa relação com o tempo foi muito bem descrita no livro.

Para enganar e poder controlar a ilusão do tempo, inventámos o calendário. O calendário é um sistema para contagem e agrupamento de dias que visa atender, principalmente, às necessidades civis e religiosas de uma cultura. A palavra deriva do latim calendarium ou livro de registo, que por sua vez derivou de calendae, que indicava o primeiro dia de um mês romano.

Com isto do calendário não havia unanimidade, por exemplo, cada cidade grega tinha um calendário diferente e aliás sem calendas. Coisas esquisitas.

Vamos ver agora como podemos delimitar tempo e espaço na nossa expressão quotidiana.

  • Para poder dar uma referência no tempo, usamos a preposição DESDE: Desde o descobrimento da penicilina, a qualidade de vida melhorou; A empresa funciona desde 1923.
  • Para dar uma referência no espaço, usamos DE: Da minha janela, posso ver o mar; A notícia da manifestação foi seguida ao vivo do Porto; Escrevo-te este e-mail do Brasil. Evitaremos: Desde a minha janela; …foi seguida desde o Porto; desde o Brasil.

Escrever: perto, cerca

Proximidade entre desconhecidos pode chegar a ser incómoda.

Um artigo publicado pelo biólogo Dario Maestripieri em Wired indaga na relação que existe entre a atitude dos seres humanos nos elevadores e os ancestrais instintos que partilhamos com o resto dos primates. A resposta instintiva costuma produzir condutas de auto-proteção. Assim, em elevadores cheios, as pessoas ficam paralisadas e olham o teto, o chão ou os seus botões. Se dois estranhos se encontrarem, afastar-se-ão quanto possível, sem se encararem diretamente, sem se olharem.conversa elevador

Ainda que os elevadores são um invento moderno, já se têm produzido no passado situações de proximidade com outras pessoas em espaços fechados. Por exemplo, no Paleolítico. Maestripieri coloca o exemplo de dois cavernícolas que perseguem as pegadas de um grande urso numa estreita cova. Nesse caso o perigo, mais do que o urso, é o caçador rival. E naquela época, o assassinato era uma “maneira aceitável de sair de situações socialmente incómodas”, como hoje é usado um encontro com o médico como escusa para sair cedo de uma festa.

Embora o ser humano evoluísse muito nos últimos milhares de anos, o instinto nas situações de perigo permanece intacto e é partilhado com outros primates. Desta maneira, os macacos que estão juntos numa jaula tentam fazer qualquer coisa para evitarem uma agressão: mover-se com cuidado, agir com indiferença ou estar num cantinho. Olhar olhos nos olhos também é proibido, porque para eles significa uma ameaça.

O elevador é, por natureza, um ambiente inibidor. Muitas pessoas não sabem como proceder diante dessa repentina e artificial intimidade. Alguns tentam disfarçar o mal-estar desviando o olhar para o painel luminoso que indica o número dos andares. Outros preferem puxar conversa, ainda que seja com algum comentário insosso sobre o tempo.

Vamos agora com as nossas dicas, que já houve papo de antropóloga que chegue. Relacionado com a proximidade, está o advérbio perto que vamos explicar agora em contraste com cerca.

  • PERTO é o contrário de longe. É usado para marcar distâncias espaciais: compro a carne no talho perto da tua casa.
  • CERCA é usado com números, para dar quantidades aproximadas: com cerca de 280 milhões de falantes, o português é hoje a língua mais falada do hemisfério Sul.

Escrever: sou, são, som

O ato de medir é, em essência, um ato de comparar, e essa comparação envolve erros de diversas origens (dos instrumentos, do operador, do processo de medida etc.). Isto é o que diz a Teoria dos Erros.eu sou

Quando se pretende medir o valor de uma grandeza, pode-se realizar apenas uma ou várias medidas repetidas, dependendo das condições experimentais particulares ou ainda da postura adotada frente ao experimento. Em cada caso, deve-se extrair do processo de medida um valor adotado como melhor na representação da grandeza e ainda um limite de erro dentro do qual deve estar compreendido o valor real.

Esta teoria é capaz de classificar erros de diversas tipologias: erros de arredondamento, fortuitos, de truncatura, sistemáticos… Gosto especialmente destes últimos, porque são os mais humanos. Entre os erros sistemáticos que habitualmente encontro em aprendentes, estão estas confusões que agora esclareço.

  • SOU: é a primeira pessoa de singular do presente do verbo SER: eu sou uma rapariga chinesa.
  • SÃO: pode ser várias coisas. Vamos lá ver:
    1. uma redução da palavra SANTO. Lembre-se da cidade de SÃO PAULO.
    2. um adjetivo: o contrário de doente. Lembre-se da expressão SÃO E SALVO. O feminino é SÃ e o plural é SÃOS.
    3. pode ser também a terceira pessoa do plural do verbo SER: elas são umas raparigas chinesas.
  • SOM: é alguma coisa que soa aos ouvidos: o som do mar, o som da música.

“Eu sou assim, quem quiser gostar de mim, eu sou assim