Isabela Figueiredo à conversa na EOI de Compostela


Isabela Figueiredo nasceu no ano 63 numa terra que na altura era chamada de Lourenço Marques. Depois da independência de Moçambique, deixou Maputo e rumou a Portugal.

Foi jornalista, é professora de português e bloggista de Novo Mundo, portanto, já tem pontos para eu gostar dela.
Desenvolve workshops de escrita criativa e participa em seminários e conferências sobre as suas principais áreas de interesse: estratégias de poder, de exclusão/inclusão, colonialismo dos territórios, géneros, corpo, culturas e espécies.
Hoje estará na sala 5 da EOI de Compostela às 18h30 e poderemos meter conversa com ela sobre o seu último livro, A gorda, e outros.

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Ari(t)mar

arritmar

Há tanto tempo que quero fazer este artigo. Pensei tantas vezes em como iria começar, em como dar esta notícia…dei tantas voltas que agora o único que quero é que a emoção chegue aos meus dedos e estes me permitam escrever rapidamente.

Tudo nesta história é lindo. Tudo mesmo.

Ari(t)mar é um projeto nascido na EOI de Santiago de Compostela onde docentes e discentes selecionaram o melhor da música e da poesia de 2016 dos dois lados do Minho. Depois…umas votações, e agora uns resultados. Uns premiados e uma gala.
Essa seria a notícia objetiva. Mas por trás disso há um trabalho imenso de pesquisa. Ler e ouvir horas a fio. Uma vontade de aproximar mundos que sempre foram próximos e uma aprendizagem inconsciente para muitos e muitas.

De um ponto de vista pessoal, já disse que agora começava com o plano subjetivo, para mim não pode haver uma coisa melhor. Uma das premiadas no ramo musical é a Capicua. Nas três primeiras posições temos três mulheres e a primeira é ela. Capicua, o meu tótem, a minha rapper de referência. Como dizer: o meu ídolo, se me permitirem o regresso quase à idolatria adolescente.

capicua

Capicua é um palíndromo. Igual que Ana. Ana Matos é essa mulher do Norte que entra com força e diz as coisas tintim por tintim. E igual que os palíndromos, aquela mensagem não tem fim.

Num momento da minha vida em que eu estava mesmo de rastos…ir a um concerto dela foi um elixir mágico. A minha energia voltou dos pés à cabeça, da cabeça aos pés, dos pés…

A parte complicada agora? selecionar uma música. Só uma para esta notícia. Já postei milhares de vezes músicas dela, mas nunca para falar da sua chegada. Seria óbvio demais colocar a música vencedora (Medusa) e como para mim a sereia é um símbolo de muita coisa, vou deixar-vos com a Sereia Louca, por toda essa poesia contida.

Escreveria montes de coisas mais, mas não seria justa com o resto dos premiados, então vamos agora com o José Ricardo Nunes.

img_3066José Ricardo Nunes nasceu em Lisboa, mas mora em Caldas da Rainha. É licenciado em Direito e mestre em Cultura e Literatura Portuguesas. A Companhia das Ilhas editou o seu último livro de poemas “Três oito e setenta e cinco”. O final de um número de telefone? Os números da sorte grande? sabe-se lá. Essa é a magia da poesia, a coragem de nos fazer descobrir e pensar.

Com Tinta da China também publicou “Andar a par” e aí é onde poderemos ler o poema vencedor do Ari(t)mar deste ano: Não sei, minha filha.

Nesta festa da cultura, partilharão o mesmo espaço, igual que partilham a mesma língua, premiados galegos e portugueses, já sabem. Quem são os nossos? Na parte da literatura temos a María do Cebreiro com “O Corazón” e na parte da música o Xabier Díaz e as adufeiras do salitre com “Cantiga da montanha”.

O espetáculo será apresentado pela Isabel Risco e o Carlos Meixide.

Todas estas coisas boas vão acontecer amanhã às 20h, no Teatro Principal.

Experiências de escrita em português: Lusopatia na EOI

dia do livroNo marco das atividades organizadas pelo Departamento de Português da EOI de Compostela com motivo do Dia do livro e do 25 de abril, faremos uma breve apresentação sobre este blogue. Ex-alunos/as da escola falaremos num colóquio sobre as nossas experiências de escrita fora das salas de aula.

Na verdade, fiquei muito grata pelo convite e assumi como um fruto do trabalho destes três anos.

Desde a nomeação no concurso de blogues Aventar como 5º melhor blogue estrangeiro em língua portuguesa, esta é uma das melhores coisas que o Lusopatia me tem dado.

Comecei a escrever em 2011 e com uma política de factos consumados. Nunca cheguei a explicar os meus motivos àquelas pessoas que me leem, portanto, também vi o convite como uma oportunidade para esclarecer certas coisas da minha escrita, qual foi a origem do blogue, como é que escrevo sobre uns temas e não outros, que dificuldades tenho, que polémicas surgem com cada post…(porque nem tudo é paz)

Falarei amanhã (às 18h30 na Sala de Atos) para alunos e alunas de português da EOI e espero que as minhas palavras ajudem a alargar o universo WordPress em português, por vezes tão pouco representado.

Depois de amanhã as atividades continuam. Há um concurso por equipas sobre literatura em português e também um troca-troca de livros. Traz o teu livro também!  🙂

Cursos de verão na EOI de Compostela

lendo-na-praiaAcaba o verão e tens a sensação de que não tens aproveitado bem o tempo? sempre quiseste aprender uma língua mas deixas tudo para mais logo? Nestas férias podes fazer a diferença!

Na EOI de Compostela abriram antes de ontem o prazo de inscrição para os cursos de verão. Entre a oferta de línguas está também o português.

O curso, focado nas competências comunicativas, decorrerá todo o mês de julho e tem uma duração de 40h repartidas em 2h ao dia de 10h00 a 12h00 de segunda a sexta. Um horário perfeito para aquelas pessoas que não gostam de ter que renunciar a um bom dia de praia.

No final, há um diploma acreditativo com valor de 40h e com carimbo da escola. Se eu fosse a ti não perdia!

Se estás a pensar em fazer a inscrição, tens que passar pela escola antes do dia 20 de junho. Mas não deixes passar muito tempo, porque o curso apenas tem 20 vagas!

Sabe Deus pintar o diabo

Sabe Deus Pintar o Diabo-02-50Abel Neves vem amanhã a Compostela com a companhia do Teatro de Braga para encenar a peça Sabe Deus pintar o diabo.

Para aquelas pessoas que desejarem ir, fiquem a saber que é amanhã, às 20h30 no Salón Principal, em Compostela.

Na peça é representada a história de dois amigos de circunstância que se julgam “portadores de uma razão capaz de dar acerto ao mundo” e que se entenderam para jogar um “jogo de extermínio”. Eles fecham-se no último andar de um prédio e decidem ser os autores do fim do mundo. Conseguirão acabar com ele? só vão saber se lá forem.

Gil Vicente encenado na Galiza

gil vicente na horta“Gil Vicente na horta” vai ser o debut galego da companhia lisboeta do Teatro Nacional de Dona Maria II.

Para quem não souber, o Gil Vicente é um autor medieval, considerado o primeiro dramaturgo português. Ele é criador de vários “autos”. Historicamente está a cavalo entre duas épocas: a Idade Média e o Renascimento.

A peça que esta companhia de teatro traz foi construída a partir de vários textos do autor, mas está principalmente inspirada no “Velho da horta”, uma farsa onde se expõe o valor da juventude face à velhice. Um desses temas universais que fazem da obra uma obra imortal.

Na sexta-feira 25 e no sábado 26, às 21h os dois dias,  teremos a oportunidade de ver esta encenação no Teatro Principal em Compostela. Para os bolsos mais carentes, devem saber que o Centro Dramático Galego (através de um acordo coa EOI de Santiago de Compostela) oferece ao alunado da EOI a possibilidade de assistir três obras do melhor teatro português a só 5 euros por sessão (15 ao todo). Basta apresentar o cartão de estudante da EOI e um bónus que podem obter junto do professorado de português.

No dia 25 de outubro de 2013 ás 10h30 teremos na EOI de Compostela a visita de João Grosso, um dos atores de Gil Vicente na Horta na sala 4.

Estejam atentos ao lusopatia nestes dias, porque o teatro português não acaba aqui!

Laços de família

Hoje fala para nós, a filóloga Sandra Freire, uma das incorporações mais recentes do Clube de leitura Santengrácia. Ela vai dirigir nestas linhas a nossa leitura de Laços de Família.

O seu texto diz assim:
“Uma reflexão crítica de Laços de família

O livro que tratámos esta sexta-feira no clube de leitura “Santa Engrácia” foi para os assistentes um livro que tem como protagonista a mulher.
A personagem feminina deixa de ser vista, como foi na tradição literária, segundo umas características físicas e morais prototípicas. Na obra de Clarice Lispector trata-se a mulher de forma mais profunda como um ser complexo, com contradições, sentimentos, ações, pensamentos, …
Em geral, em todos os contos podemos assinalar exemplos das ações e pensamentos da protagonista que não se ajustam ao papel dado à mulher. Nestes relatos a personagem tem comportamentos que não obedecem a regras morais tradicionalmente aceitáveis, coloquemos como exemplo dois textos: “Devaneio e embriaguez duma rapariga” ou “Amor”, nestes relatos a mulher realiza factos, deixa de parte as obrigações como esposa e mãe para fazer caso aos seus sentimentos e gostos individuais.
Acedemos portanto à mente da mulher e ao seu quotidiano para fazer-nos ficar com a ideia dos seus problemas e preocupações. Nesse viver das mulheres quotidiano não está fora o homem, de facto o homem e seu papel de indiferença, desprezo ou mesmo violência afetam de forma visível à vida da mulher. São múltiplos os exemplos que mostram como afeta o comportamento dos homens a elas tanto de forma física em “Preciosidade” conta-se um caso de violação, noutros casos de forma mais psicológica, por exemplo em “Mistério de São Cristóvão” quando um mascarado acede ao espaço de uma rapariga e da sua família.
Como conclusão podemos dizer que no livro há uma crítica ao papel dado às mulheres como domésticas encarregadas de limpar e servir em casa, acompanhar ao homem fora, sem momentos de distração. Podemos dar um exemplo em “Laços de família” ele é quem toma as decisões pelos dois, o homem reflexiona no fim do conto que esse sábado iriam ao cinema.
O mundo que é apresentado no livro foge do artifício, quiçá para mostrar de forma natural o dia a dia de uma mulher que ainda hoje em dia, cinquenta anos depois não nos é alheio”.

Estão com vontade de ler o livro? carreguem nesta ligação: ClariceLispector-LaçosdeFamília

Sandra, muito obrigada por nos descobrir tanta coisa boa.

Contos da Montanha

Chegam novos tempos para o Lusopatia na etiqueta “livros”. Até que enfim!
Sob esta epígrafe iremos colocando em próximos artigos alguns textos de crítica literária, dicas de leitura..etc.

Temos que agradecer isto tudo a colaboradores e colaboradoras, sem eles e elas seria impossível este novo caminho.
Faz a estreia hoje o professor Antom Labranha, leitor fiel do Clube de Leitura Santengrácia. Esta iniciativa nasceu do convívio de ex-alunos/as de Português da EOI de Compostela, que procuraram alargar seus estudos e continuar a se reunir, pelo menos, uma vez por estação. Bem haja para este projeto!
Vejam lá o que o Antom tem para nos dizer sobre Contos da Montanha, de Miguel Torga:
“Há, de contínuo, uma tensão narrativa arrebatadora que desfecha, conto por conto, numa grande comoção. Com uma prosa intensa, poética e alegórica, através das personagens que constrói, vai descrevendo as paixões humanas mais ancestrais, profundas e instintivas, e por isso mais autênticas e intemporais que são, com certeza, as nossas próprias paixões: o medo de cá e do além-mundo, o refúgio na fé, a resignação, a complacência, a admiração, o amor, os ciúmes, os remorsos, o ódio, a vingança… a vontade de suicídio.
Os contos são, de facto, independentes, mas complementares: no conjunto fazem um mostruário dos modos de vida e das paisagens rústico-geográficas, económicas, culturais… dum passado que podemos pensar longínquo e que, aliás, pode ainda perdurar e acho que perdura, embora seja remanescente desses outros tempos, não assim tão distantes.
Um contributo linguístico notável são os ditados e provérbios que de frequência coloca em dicas ou exclamações das personagens, ou mesmo do narrador -não sei se populares ou de ideia própria do autor-.

  • Em pormenor:

A Maria Lionça
A espera expectante do Pedro pelo pai retornado e a posterior deceção, lembrou-me “O pai do Miguelinho” de Castelao. E a espera pelos correios que nunca chegam, lembrou-me “Mamasunción” de Chano Piñeiro.

O cavaquinho
Acho que não foi assim bem resolvido, pois não percebi qualquer situação no relatório que ligue com a tragédia final, embora a imaginação me faça pensar que a única hipótese para o pai conseguir o cavaquinho fosse o roubo.

O filho
Encontrei conotações ambientalistas: a beleza e a grandeza do simples, do viver em harmonia com a natureza.

Maio moço
Acho que há uma crítica social à coletividade humana geral por não valorizarmos aquilo que não vem precedido de uma posição elevada, de um prestígio, de uma façanha.

  • Em destaque:

Solidão
“Não há falência maior que a de imitar o passado, mesmo que seja o nosso”

O lugar de sacristão
Porque não é assim tão direto como nos outros relatos. O jogo psicológico é mais subtil: uma intuição juvenil premonitória que paira no ar e mesmo o próprio protagonista não acerta a conhecer, o desencontro amoroso que desvenda para ele e para nós leitores o presságio, a mortificação de lhe assistir nos ritos tirados de um outro amor que a ele foi negado, e um final restaurador duma justiça íntima e inconfessável

Muito obrigada e parabéns, Antom!