12 MICE

A Mostra Internacional de Cinema Etnográfico que decorre no Museu do Povo Galego vai já pela 12ª edição. Por vezes, até tenho orgulho em viver na cidade em que vivo. De 29 a 3 de junho poderemos ver os mais variados filmes.

Neste ano Catarina Alves Costa, antropóloga especializada em antropologia visual e em cinema etnográfico, professora da Universidade Nova de Lisboa e realizadora, marcará presença no museu e fará parte do júri da mostra.

No colóquio do dia 2 também poderemos vê-la participar em “Ollares Intencionados. Mirada e representación no cinema etnográfico”.

Dentro do vasto programa, Lusopatia destaca:

  • quinta-feira dia 1, teremos dois filmes de Catarina Alves Costa: Pedra e cal (Portugal, 2016) uma visão sobre o Alentejo que mostra a ligação do homem com a arquitetura e a natureza.
    • Casas para o povo (Portugal, 2010) uma plataforma de arquitetos e aquitetas criada após a Revolução de Abril que visa dar uma habitação digna às pessoas.
  • sexta-feira dia 2: Tchindas (Cabo Verde-Espanha, 2015). Filme que fala sobre como as pessoas trans são vistas em Cabo Verde.

Entre o catálogo de filmes, há muitos sobre a Galiza. As relações entre a Galiza e Portugal não vão ser descuradas: também nesta edição poderemos ver projeções de filmes como Em companhia da morte ou Mulleres da raia.

Descarreguem o programa no telemóvel e deixem para lá o Netflix umas horas.

 

Dia das bruxas, Pão-por-Deus e Dia de todos os Santos

aboboraSinceramente, odeio a palavra Samhain. Já disse. Que desabafo!

Não sei o motivo pelo qual ao recuperarmos uma festa nossa temos que utilizar palavras doutra língua para batizá-la. Acho uma esquizofrenia.

E depois deste meu depoimento hater, entro ao tema que queria tratar: as tradições portuguesas destes dias.

No dia 31 é festejado o dia das Bruxas. As pessoas enfeitam os lugares com abóboras e outros motivos decorativos associados ao medo e coisas assombradas. Vejam por exemplo o que vai acontecer nesta sexta-feira numa das carruagens do metro de Lisboa.

O dia 1 é propriamente o dia de Todos os Santos e os rituais funerários são os que já conhecem.

Há um outro ritual que é o do Pão-por-Deus. Em Portugal as crianças saíam à rua e juntavam-se em pequenos bandos para pedirem o Pão-por-Deus (ou o bolinho) de porta em porta. O dia de Pão-por-Deus, ou dia de Todos os Fiéis Defuntos, era o dia em que se repartia muito pão cozido pelos pobres antigamente.

É também costume nalgumas regiões os padrinhos oferecerem um bolo, o Santoro. Já pedir o “santorinho”, que começava nos últimos dias do mês de outubro, era o nome que se dava à tradição em que crianças sozinhas, ou em grupo, de saco na mão iam de porta em porta para ganharem doces.

Deixo-vos cá a receita do bolo Santoro, por se quiserem fazê-la em casa.

O peditório do Pão-por-Deus não é outro que o antigo costume que se tinha de oferecer pão, bolos vinho e outros alimentos aos defuntos. Ainda em muitas casas da Galiza há pratos vazios nas mesas para quem morreu nesse ano. O Pão-por-Deus também era um ritual nosso e recebia o nome de “migalho”.

No dia 2 de novembro é o dia dos Fiéis Defuntos. Dedicava-se este dia à oração por quem tinha morrido nesse ano na família.

Há tempo que penso no tratamento estranho que damos à morte e em como aos poucos esquecemos o convívio que na nossa sociedade mais tradicional havia com ela. Se ainda não viram o documentário Em companhia da morte, estão na hora. Várias mulheres raianas contam histórias de espíritos, sinais da morte e aparições. Redescubram a Galiza perdida nestas vozes e testemunhos vivos. Vale a pena.

Em companhia da morte

Depois do surpreendente “Entrelínguas” que nos descobriu pessoas a falar galego em províncias espanholas como Cáceres ou Salamanca, Filmes de Bonaval apresenta um novo documentário, com o que se deixa ficar claro que o grupo composto por João Aveledo, Eduardo Maragoto e Vanessa Vila Verde não foi sol de pouca dura e veio para ficar.

Hoje vamos colocar neste post uma outra assinatura convidada, esta vez não é uma crítica de cinema conceituada, mas são os próprios autores os que nos deixam aqui um pequeno resumo do conteúdo e do intuito do filme:

Algures nas montanhas ainda há famílias que sabem que falecer forma parte da vida, e dulcificam o pior de todos os contratempos com histórias sem cabimento na sociedade em que a morte é levada para longe dos nossos olhos, recluída em hospitais e tanatórios. Trata-se de histórias inquietantes em que o mais implacável inimigo humano se mostra em figuras compreensíveis para a mente das pessoas.

O acompanhamento é um dos nomes populares que ainda recebe um mito que a literatura galega renomeou como Santa Companha. Como as estântegas ou as candeias, trata-se de um sinal anunciador da morte. As pessoas que deles nos falam vivem longe da nossa maneira de ver a realidade, mas nem tanto das nossas casas. Onde habitam estas mulheres vestidas de negro que fogem da morte tratando-a por tu?

Para já temos uma data, a da estreia mundial, dia 28 de Novembro, na Escola de Línguas de Vila Garcia, pelas 19:00, não percam.

em companhia da morte

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