Falso amigo: filhós, filhoses

Não sei se repararam, mas culinária e isoglossas por vezes fazem um bom par. Um dos sonhos da minha vida é termos uma história da culinária escrita por profissionais. Sabermos a origem de muitos pratos, porque o que é considerado totémico na nossa cultura se calhar é bem mais recente do que estamos a pensar.

Talvez vos tenha acontecido. Chegam a uma casa portuguesa ou restaurante e alguém oferece filhoses. No vosso imaginário está uma sobremesa de entrudo, redonda e de massa fina…mas a realidade mostra outro produto.

Uma filhó (plural filhós) ou filhós (plural filhoses), é uma especialidade gastronómica portuguesa, muito comum nas regiões do interior e no Seridó por altura do Natal. Filhoses e rabanadas são os produtos estrela na sobremesa da consoada. Realmente, a filhó recebe muitos nomes no país vizinho e há também muitas “modas” para prepará-las. Há quem lhe chame simplesmente “fritos” ou “bolos fritos”.

Coloco os ingredientes que normalmente aparecem, a filhó “padrão”, por assim dizer. Ela costuma ser feita com farinha e ovos, por vezes também com abóbora e raspa de laranja. É frita em azeite, ou outros óleos vegetais. Tem também os seus toppings porque podem ser polvilhadas de canela e açúcar.

Podem ver a receita do Pingo Doce que vos deixo cá ou, se forem mais da geração millennial e precisarem de vídeos podem conferir a Teleculinária.

Existe um outro prato típico do entrudo madeirense que é a malassada. Parece-se com os donuts, as bolas de Berlim ou as “chulas” da minha zona. Era confecionado, igual que as “filhoas” galegas para aproveitar toda a banha que restava antes da Páscoa. A sua história e relação com o Havaí é bem interessante. Não percam.

Roupa velha

Este não é um artigo sobre modas, não. Vou falar em culinária.

Não sei vocês, mas eu tenho a casa cheia de sobras da consoada. A minha irmã levou uma marmita de comida para a sua casa e eu…ainda tenho reservas lá na cozinha.

Cada povo tinha antigamente muitas receitas para aproveitar a comida. As fajitas no México, os croquetes em Espanha, a empada na Galiza…e hoje queria falar-vos da roupa velha. Esta obra mestra da cozinha é o triunfo da racionalidade e do aproveitamento de recursos. Dantes pouco ou nada ia ao lixo.

Em Cuba e outros países latinoamericanos existe a ropa vieja que é um prato típico com carnes. Na Galiza também temos (ou tínhamos) a roupa velha que aproveita os excessos do lacão ou cozido. Já no norte de Portugal, o prato do mesmo nome tem como ingrediente a matéria prima de tantos pratos portugueses: o bacalhau. Se repararem, a receita do Bacalhau à Brás tem uma filosofia muito parecida, porque era um prato de “cozinha heroica”: a culinária dos pobres que não tinham muitos recursos para comprarem grandes postas de peixe.

A roupa velha portuguesa é um prato típico feito com as sobras do bacalhau da consoada e era uma coisa ligada às famílias mais pobres. Era comido no dia mesmo do Natal. Hoje isto já não é assim e o prato funciona como entrada, antes de comer o prato de carne (peru, cabrito…)

Por acaso, o bacalhau com couve é ainda uma tradição na consoada na minha casa. E nas vossas?

Esta receita do Pingo Doce é facílima e usa os mesmos ingredientes que a minha mãe coloca no bacalhau. Económico e simples. Vejam logo.

Nós em casa regamos com vinagre, temperamos com pimenta e salteamos. Antes de servir adicionamos azeite, azeitonas e salsa picadinha. Está uma delícia e sempre se poupa.

E agora foi que me lembrei também desta canção do Fausto, se acompanharem a letra, podem ver que fala disto mesmo.

Bom apetite!