Pongo, a rainha do kuduro, na Galiza

É rara a vez que à Galiza chega uma cantora do país vizinho se não é para cantar fados. Cada vez que sei de uma notícia destas recebo-a com a maior das alegrias, porque acho que estas escolhas por parte das pessoas que programam a cultura ajudam muito a romper a caricatura construída em volta do que é Portugal.

Pongo, a rainha do kuduro, chega à Galiza depois de nos ter deixado de boca aberta no Festival da Canção 2022. No dia 11 de março eu publicava cá três desejos sobre a cantora e parece que esta visita vai fazer com que se concretizem alguns deles, embora o assunto de Turim já seja um impossível.

Em 6 deste mês poderemos ouvi-la ao vivo no festival Con voz de muller em Ponte Vedra. Abrirá este ciclo de concertos protagonizados por vozes femininas na Praça da Ferreria às 22h30. Parece que a Galiza não virou costas a esta realidade musical e poderemos repetir a experiência no Festival Maré no dia 24 de setembro em Compostela.

Se estiverem ainda com dúvidas e não sabem de quem é que te falo, podem ler este fio do Twitter.

Sakidila é o novo trabalho da Pongo. O título significa Obrigado em kimbundo, uma das línguas originárias de Angola. Eu fico muito grata por ela ter a oportunidade de cantar na Galiza e trazer estes ritmos. Deixo cá a ligação do álbum, para o pessoal conhecer o que é o kuduro.

Grândola na USC

Neste blogue temos falado sobre conexões históricas entre a Galiza e Portugal no 25 de Abril. Celeste Caeiro ou Durán Clemente ocupam muitas linhas dos nossos posts. Uma conexão histórica é também o facto de que o hino da revolução portuguesa fosse estreado na USC no ano 1972, e este é um dado que muitas pessoas desconhecem. Não é por acaso que tenhamos no coração do câmpus compostelano centros sociais e parques com o nome do cantor do Grândola.

Neste 2022 fazem-se 50 anos daquele concerto emblemático e nesta terça às 19h a Faculdade de Filologia da USC organiza uma homenagem. Deixo-vos cá o cartaz com o programa.

O ato tem duas partes. Como abertura haverá um colóquio entre diferentes testemunhas ou responsáveis daquele concerto do Zeca em Compostela. Zélia Afonso (viúva do cantor), Maite Angulo (fez parte do grupo de estudantes que organizou o concerto), Emilio Pérez Touriño (que apresentou aquele evento), Francisco Fanhais (presidente da AJA) e Suso Iglesias, jornalista que conduzirá o colóquio.

A parte mais festiva será apresentada pelo Carlos Blanco e contará com as vozes da Uxía, João Afonso (sobrinho do cantor), Nacho-Faia-Lar, Couple Coffee e Xico de Carinho.

Maré ’21

O mar está para peixe e depois de algumas mudanças e novos rumos este ano temos o Maré ’21 em Compostela.

Os adeptos mais lusopatas estavam habituados a uma localização em Ponte Vedra e a que o Cantos na Maré fosse mesmo um festival dedicado quase em exclusiva à lusofonia. Com estes reajustes o evento dura mais tempo e transita por vários espaços da cidade. De quinta a domingo veremos novas e vanguardistas propostas, estilos talvez mais arriscados, uma presença feminina maior e uma seleção musical se calhar destinada a um público mais jovem. Temos na agenda cerca de 30 concertos, que concentram a cultura duns 10 países. Contudo, a conexão lusófona parece um bocado mais fraca no cartaz. Mas não fiquem aflitos, porque o elenco de artistas com nh continua a ser amplo.

Assim sendo, esta que escreve examinou o cartaz e fez a já costumeira seleção lusopata, lá vamos!:

  • Quinta 23
    • Luiz Caracol, 20h, Teatro Principal. O cantor de Elvas já se deu a conhecer entre as linhas deste blogue por ter ido a Vilar de Santos (Obrigada, Noemi). Recentemente tem editado o álbum Só.tão, um trabalho que tem um título-trocadilho graças ao qual podemos intuir muito do seu conteúdo e intenção.
  • Sexta 24
    • Mira é Marta Miranda, 20h, Teatro Principal. A cantora Marta Miranda, voz de Oquestrada, vem à Galiza com este novo projeto em solitário.
    • Jéssica Caitano e Luana Flores, 20h30, Bonaval. Esta pode ser sim uma mudança radical de rumo para a filosofia deste festival. A Jéssica é uma artista multifacetada: cantora, compositora, rapper, percussionista, poeta e ativista LGBT+. Por sua vez, a Luana Flores é beatmaker, dj, percussionista, intérprete e compositora. Na sua linguagem criativa aparecem temas como a sexualidade, o território e o género. Esta dupla promete vir e partir a loiça.
    • Bia Ferreira, 22h30, Bonaval. A artista multi-instrumentista de Minas Gerais define a sua atividade musical criativa como MMP: Música de Mulher Preta. Não há uma apresentação melhor. Bia Ferreira é conhecida no Brasil não só pelo seu grande talento na música, mas também pelo seu compromisso com a luta antirracista e o movimento LGBT+
  • Sábado 25
    • Timbila Muzimba,19h, Praça da Quintana. Os Timbila Muzimba são um tag frequente no nosso blogue. Esta orquestra de timbilas é uma das conexões com o nosso caro Narf e também aposto que a palavra de ordem desta edição, warethwa!, tem muito a ver com eles. Warethwa é o título de um dos seus trabalhos de 2008 e também significa Avante! numa das línguas nacionais de Moçambique.
    • Maria Alice e Jon Luz, 19h, Bonaval. Aqui temos dois referentes da morna, dois pesos pesados de Cabo Verde. E se eu vos disser: Tejo Bar, penso que já vos estou a dar uma pista muito grande. O Jon Luz é a cara visível deste bar mítico da noite lisboeta. O Tejo Bar é um tesouro e já era um tesouro antes de a Madonna ir.
    • Japa System, 20h, Bonaval. Antônio Dimas Vieira Aires Júnior, é um percussionista que fez parte de Terra Samba ou Timbalada. Criado entre São Paulo e a Bahia é músico desde muito cedo. Com o grupo cultural brasileiro Bahia Brasil andou em digressão pelo Japão durante um ano e aí é que nasceu o seu nome artístico. O Antônio Dimas tem dois grammy latinos e no seu currículo está ter subido a palco em festivais internacionais como Lollapalooza ou Rock in Rio.
  • Domingo 26
    • Maré comemora no Parque de Bonaval o Dia Europeu das Línguas a partir das 12h com várias atividades.
    • Às 17h voltam ao cenário Maria Alice e Jon Luz
    • Como encerramento haverá uma gala sobre as viagens de Narf: cantores darão vida ao seu projeto artístico, aquele que unia a Galiza (Zigala, na sua língua imaginária) com Moçambique (Zemambiquo, ídem)

Deixo cá acima esta lista de reprodução do Spotify com as músicas do evento para tomarem contacto, ficarem a saber, curtirem…

Também poderão aceder a conteúdos extras em Rádio Pessoas, um projeto de que falaremos mais à frente, porque bem merece uma menção.

Este é um oceano de experiências, Warethwa!

César Lacerda na Galiza

César Lacerda é um cantor, compositor e músico mineiro. O mês de novembro inicia para nós com uma pequena digressão de concertos deste artista, como podem ver na imagem. Vigo, Vilar de Santos, Ourense, Lugo e Compostela são as terras escolhidas para acolher os seus concertos.

O brasileiro tem quatro trabalhos publicados: Porquê da voz; Paralelos & Infinitos; O meu nome é qualquer um e Tudo tudo tudo tudo.

A carreira de Lacerda vem certificada por dois fatores. O primeiro é como ele se apresentou noutros países. Já tocou em espaços muito conceituados como a Casa da Música em Portugal, o Bahnhof Ehrenfeld Club na Alemanha, o TramJazz na Itália, e o Festival Romerias de Mayo em Cuba.

O segundo argumento para acreditar no seu talento são as suas parcerias com o Paulinho Moska ou Gal Costa.

Contudo, o argumento principal e de mais valor, longe de apoiar-nos no que ele tem feito fora ou com quem ele tem trabalhado, é a sua própria música. Confiram:

Ele canta Me adora e temos mesmo que adorar…

Arthus Fochi em Compostela

Arthus Fochi estará amanhã em Compostela no Festival Feito a Man. Poderemos vê-lo às 21h na Praça da Quintana (se chover, no Teatro Principal). Trata-se de um carioca filho de pai guarani paraguaio e suponho que destas raízes vem a sua curiosidade musical e vontade de fusão com os diversos países da América do Sul. A sua criatividade de poeta-cantor passa pela música brasileira, o jazz e o rock.

O compositor faz a sua primeira turnê pela Europa, com paragens em Lisboa, Compostela e o Porto. É, portanto, a sua primeira vez na Galiza.

No Brasil tem uma carreira assente, com três álbuns publicados: Êxodo urbano, Suvaco do mundo e atualmente trabalha na divulgação de Arthus Fochi e os Botos da Guanabara, gravado ao vivo. Contudo, em Compostela os e as espetadoras verão um trabalho mais intimista com o espetáculo Ano Sabático: um projeto em parceria com outros músicos graças ao qual tocará com o produtor musical e pianista Guilherme Marques.

Chico César em Compostela

Conheci o som do Chico César nos anos da faculdade. Na altura, colecionava uns cds do Putumayo, uma seleção de músicas e ritmos worldmusic que me fazia descobrir novas culturas. Lembro-me perfeitamente, a minha primeira aquisição da coleção foi um disco que se chamava Brasileiro e foi comprado com dois objetivos claros: treinar português e conhecer novos artistas. Cheguei a casa, tirei o plástico protetor com emoção, li cada página do livrinho, coloquei o cd na aparelhagem (eram aqueles rituais)…e lá estava ele, Chico César, com o seu Mama África.

O consumo musical na década de ’00 era muito diferente e mais para alguém como eu, que fui das últimas pessoas do grupo em ter net em casa. Ainda me lembro de ir a um “Cyber” (uffffa, estas confissões fazem-me muito muito muito velha) para poder responder emails e ainda, se restasse tempo, ver algum vídeo musical.

U dia num cyber qualquer com computadores e Windows 97, todas aquelas cores da capa do Brasileiro pintadas pela Nicola Heindl tiveram um novo sentido. Fiquei de boca aberta quando vi o Mama África.

Chegariam depois novas oportunidades para definitivamente amar o Chico César, ainda que o meu foi um amor À primeira vista.

Graças a iniciativas como o Sons da Diversidade ou Cantos na Maré pude ver o cantor da Paraíba ao vivo e contagiar-me de toda essa energia que ele tem para dar.

No domingo, ainda no marco do programa das festas de Compostela, poderemos ver o seu show na Praça da Quintana às 22h. A não perder!

Salvador Sobral, Compostela e Lorca

O poeta Federico Garcia Lorca viajou muitas vezes à Galiza, até encenou La Barraca na Praça da Quintana. Há quem não saiba que compôs seis poemas na nossa língua, publicados pela editorial Nós e prologados por Blanco Amor. Alguns deles têm como localização Santiago de Compostela.

De um lado temos este poeta e do outro um pianista e músicos: assim é que encaixam todas as peças do puzzle Lorca namorado. O espírito de quem encenou La Barraca em 1932 volta à cidade em forma de espetáculo-homenagem.

O pianista Abe Rábade musicou estas composições do poeta de Fuente Vaqueros e amanhã, às 22h, poderemos ouvir ao vivo como é que ficaram esses arranjos. Vão ser misturados ritmos de música tradicional, jazz e flamenco assim como danças.

Alguns cantores da Galiza interpretaram estas letras. Temos o caso dos Luar na Lubre e o legado do Narf: as suas interpretações do Madrigal de Santiago são umas joias que ainda não sei se merecemos.

Amanhã, teremos as vozes do Salvador Sobral, Kiki Morente, Arcangel, Marcelo DoBode e Davide Salvado. Com efeito, o cantor português que já nos conquistou no Ari(t)mar interpretando poemas de Celso Emilio volta a Compostela e todos e todas estamos em pulgas para vê-lo! O lisboeta cantará o poema lorquiano dedicado a Rosalia. Fusão das boas. Lorca namorado! Atrevo-me com uma resposta também literária: e vou namorada.

Lídia Jorge na Galiza

A escritora portuguesa visitará nos dias 21 e 22 a Galiza.

No ano 2015 já a tivemos num encontro fugaz na Cidade da Cultura, mas soube-nos a pouco. Desta vez poderemos tê-la connosco mais tempo, como podem ver no cartaz e o tema é aliciante: “Os caminhos da literatura portuguesa na Galiza”

Para quem estiver um bocado por fora dos assuntos literários, dir-vos-ei que em 2014 foi-lhe atribuído o prémio Luso-Espanhol da Arte e Cultura concedido pelos governos de Espanha e Portugal. Mas comecemos pelo início, que é como as apresentações são começadas: ela nasceu em 1946, no Algarve, em Boliqueime, e viveu os anos mais convulsos da Guerra Colonial na África.

É professora do ensino secundário e publica regularmente artigos na imprensa. Trata-se de um dos vultos da literatura portuguesa e o seu discurso é muito intenso: a mulher e a sua solidão e a releitura da História.

Quanto à receção das suas obras diz a Wikipédia que “é inquestionavelmente uma voz singular e reconhecida no panorama da literatura portuguesa contemporânea. Comprovam-no a receptividade do público e da crítica; as repetidas edições das suas obras; as traduções para outras línguas; as teses e os ensaios académicos que se vão apresentando sobre os seus textos em vários países; os prémios nacionais e internacionais que têm distinguido a sua obra; e ainda os volumes monográficos que se debruçam sobre a sua criação literária”

Esta será uma semana de sorte para quem gostar de literatura.

Cristina Branco com a Filarmónica da Galiza

A Real Filarmónica da Galiza e a fadista portuguesa Cristina Branco farão um espetáculo em parceria nos dias 14 e 15 do corrente mês. No dia 14 estarão em Compostela no Auditório da Galiza e no dia a seguir na Corunha no Teatro Colón. Os dois passes são à mesma hora, 20h30.

Para quem não souber, a Cristina Branco é uma das celebridades do Museu do Fado. Sim, a canção de Lisboa tem um museu. A cantora ribatejana tinha em Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Elis Regina os seus referentes até que um dia o seu avô lhe oferece um disco da Amália Rodrigues. A partir desse momento, começou a sua amaliomania.

Conta ela própria que uma noite atreveu-se a cantar fado de maneira descontraída, como quem não quer nada, e isso mudou a sua vida para sempre. Um dos músicos convidou-a continuar e assim a sua carreira começou.

Podem consultar o repertório de canções nas ligações que deixei lá cima. Não percam esta oportunidade de ouvir fado com os melhores músicos e uma das vozes mais cotadas da música lisboeta.

Convergências 2019

É com incontido orgulho que começo a redigir este post. Há poucos onde eu possa escrever sobre a terra em que nasci, portanto, deixem-me saborear cada palavra.

Não há muitas pessoas que conheçam o facto de que a Rosália tem um poema intitulado “Desde as fartas orelas do Mondego”. Esta composição que tem o Camões como referente foi escrita com ç, nh e lh. Muitas vezes pensamos que culturalmente o nosso mundo não está tão aquém da lusofonia ou que este assunto é historicamente recente na Galiza, mas como podem ver, há provas de que isto não é bem assim.

A minha terriola (Padrão), Santiago de Compostela e Braga convergirão nesta semana num encontro cultural com um vasto programa: exposições, música, cinema, teatro…muitas disciplinas artísticas para um único sentimento de união.

Podem ver o programa nesta imagem.

O plano para quem não quiser deslocar-se muito está nos dias 22, 23 e 24 entre Compostela e Padrão.

No dia 22 temos na Gentalha o concerto de Primo Convexo.

No dia a seguir, no Teatro Principal, haverá um tributo a José Afonso com a Banda Municipal de Compostela.

No dia 24 na Casa da Rosália haverá um concerto em homenagem à poeta homónima com Canto D’Aqui e Iria Estévez.

Quem me dera a mim poder ir a Braga e fazer o programa completo!