Falso amigo: colégio

Está na hora de regressarmos às aulas, com todos os traumas que isso supõe para algumas pessoas.

Em criança nunca gostava da pergunta aquela “e quando começas as aulas?”, vinha sempre da boca de uma pessoa adulta, talvez cansada de me aguentar, e parecia quase uma ameaça.

A vida adulta levou-me a ser professora, portanto, ainda não deixei de ouvir a mesma pergunta nestas datas. O “e quando é que começas as aulas?” é agora num tom de “quando deixas já de estar de férias, pelo amor de Deus? quantas férias é que pode ter uma professora?”

Este regresso às aulas, contudo, vai ser o mais especial da minha vida. Começo um novo caminho como professora de português no ensino secundário na Galiza. Não pode ser um mal começo, de tão desejado que ele é.

Quero dizer-vos com isto que o meu orgulho é trabalhar no ensino público, numa escola. Todo o meu percurso académico foi sempre em instituições públicas: escola primária, escola secundária, universidade pública. Agora vejo a escrivaninha do outro lado, sem ninguém fardado.

Então, olho aí quando dizem que os vossos filhos “voltam ao cole”. Não acho que os colégios na Galiza tenham assim tanta inscrição. Não será que “regressam às aulas” às aulas de uma escola?

Um colégio é em Portugal um estabelecimento de ensino particular, normalmente privado. Alguns deles pertencem a ordens religiosas ou militares. Podem até funcionar como internatos.

Não sei se alguma das pessoas que me lê viu alguma vez os Morangos com Açúcar. Até onde eu sei, há pouco passavam a série na TVG, ainda continua? Se alguma das pessoas sabe de que estou a falar, o Colégio da Barra vai vir logo à tona. O episódio do incêndio foi um grande drama à altura desta novela.

Já repararam em que na maioria das séries ambientadas no mundo escolar o cenário é sempre um colégio e não uma escola? O mundo da classe média não é assim válido para a ficção?

“Morangos com açúcar” é o fruto proibido que tu vais querer provar

Andei mesmo desligada estes dias por causa do trabalho e não consegui escrever sobre eventos bem interessantes que houve. Este sábado tocou mais trabalho, mas já com o alívio que supõe ter as férias da Páscoa perto.

Ontem soube que a série portuguesa Morangos Com Açúcar vai ser emitida na TVG2 de segunda a sexta às 19h30. Fiquei de boca aberta.

Quando a TVG e a RTP rodaram juntas Vidago Palace foi, acho, um facto importante para aquelas pessoas que pedem mais intercâmbios culturais entre as duas margens do Minho. Agora com a receção da série Morangos Com Açúcar avançamos um pouco mais nesse caminho.

Não sei se a TVG tem vendido direitos dalguma das suas produções à RTP alguma vez. Só sei, em conversas que tive com portugueses/as, que aquelas pessoas que conseguiam receber o sinal da TVG em Portugal, por estarem próximas da fronteira, viam alguns programas como o Xabarín ou Pratos Combinados. Não, o último exemplo não é o nosso melhor produto, eu sei, e há quem diga que o que de lá vem, Morangos Com Açúcar, também não é grande coisa. Mas antes de analisar o conteúdo ou qualidade da série, pensemos no que isto significa para nós: consumo cultural e achegamento à lusofonia. Começa a ser mais palpável a cooperação entre o audiovisual galego e o português e talvez isso dignifique a visão que nós temos da própria língua. Tomara que sim!

Por outra parte, a velha reivindicação da receção das tvs portuguesas na Galiza pode voltar a se ativar.

Explico um bocadinho o que é isso dos Morangos Com Açúcar para quem não souber.

Na TV Globo do Brasil existia (e existe ainda!) uma série tipo novela destinada ao público mais jovem: falo de Malhação. 26 temporadas de novela, amigas!. Eu tive catos que morreram em três dias! A TVI gostou do produto e decidiu fazer um formato similar em Portugal, assim nasceram os Morangos. A versão portuguesa não foi tão longeva quanto a brasileira, mas foi mesmo longa: 9 temporadas e mais de 2000 capítulos. De facto, até me atrevo a afirmar que foi a novela mais duradoura da tv portuguesa, sendo emitida na Rússia, no Brasil (paradoxalmente com dobragens em português brasileiro) e Angola. Esta é a nossa vez e a TVG decidiu emiti-la com legendas à galega (não sei se necessárias).

O formato da série, é normal, teve muitas variações. Começou nas primeiras temporadas com um argumento bem simples: casal de adolescentes que namoram no Colégio da Barra com os seus problemas típicos de betinhos. As histórias das personagens principais eram estabelecidas durante o ano letivo e resolvidas nas Férias de Verão. A cada ano letivo, o elenco da série era renovado ou algumas personagens eram mantidas de maneira episódica.

A partir da sexta temporada há uma mudança muito drástica: é eliminado boa parte do elenco anterior e o cenário é outro. Estavam na moda séries tipo Glee ou os filmes da High School Musical e os Morangos não quiseram ficar atrás. Assim, a novela começa a ser também um musical e muitos dos cantores/as pop que hoje são conhecidos em Portugal começaram a sua carreira nesta série, um exemplo é o David Carreira, o filho do Tony. De facto, há quem fale da Geração Morangos.

Falamos do valor linguístico e cultural, mas não queria deixar de parte o fator saudade. Rever a série é também voltar à década de noventa, que reconheçamos…durou até bem entrados os 2000. Crop-tops, madeixas, diademas de ziguezague, peças de roupa sobrepostas…assim é que éramos os/as adolescentes ou post-adolescentes daquela altura. Vejam só o visual do Pipo e da Joana.

Mordemos o fruto proibido?