Encontro de clubes de leitura em português

Com o começo do curso chegam novas iniciativas que saem da letargia estival.

Bretonha, na Pastoriça, acolhe este sábado um encontro de clubes de leitura e nem só. A plataforma galega de clubes de leitura em português, Pega no Livro, organiza uma jornada acessível para toda a gente e com um programa muito amplo e variado: desde um roteiro e apresentações de livros até o aberto dos clubes de leitura, entre os que estará o nosso amado Clube de Leitura santengracia, do que já falámos e ao qual a que escreve este artigo tem o privilégio de pertencer.

Uma romaria das letras que conta com a presença de autores muito conceituados e com um programa bem interessante. Uma jornada de convívio lusópata extremo.

Não percam a apresentação do livro O galego é uma oportunidade! Verão a nossa língua de uma ótica bem diferente e estratégica. Eu já fui à apresentação no dia nacional e curti muito.

Portanto, quem gostar de livros não tem escusa, não. As distâncias e a preguiça não existem: mesmo há autocarros para quem não quiser ir de carro!

Têm toda a informação no site do Pega no Livro e no programa que aparece na imagem. Vamos peregrinar!

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Laços de família

Hoje fala para nós, a filóloga Sandra Freire, uma das incorporações mais recentes do Clube de leitura Santengrácia. Ela vai dirigir nestas linhas a nossa leitura de Laços de Família.

O seu texto diz assim:
“Uma reflexão crítica de Laços de família

O livro que tratámos esta sexta-feira no clube de leitura “Santa Engrácia” foi para os assistentes um livro que tem como protagonista a mulher.
A personagem feminina deixa de ser vista, como foi na tradição literária, segundo umas características físicas e morais prototípicas. Na obra de Clarice Lispector trata-se a mulher de forma mais profunda como um ser complexo, com contradições, sentimentos, ações, pensamentos, …
Em geral, em todos os contos podemos assinalar exemplos das ações e pensamentos da protagonista que não se ajustam ao papel dado à mulher. Nestes relatos a personagem tem comportamentos que não obedecem a regras morais tradicionalmente aceitáveis, coloquemos como exemplo dois textos: “Devaneio e embriaguez duma rapariga” ou “Amor”, nestes relatos a mulher realiza factos, deixa de parte as obrigações como esposa e mãe para fazer caso aos seus sentimentos e gostos individuais.
Acedemos portanto à mente da mulher e ao seu quotidiano para fazer-nos ficar com a ideia dos seus problemas e preocupações. Nesse viver das mulheres quotidiano não está fora o homem, de facto o homem e seu papel de indiferença, desprezo ou mesmo violência afetam de forma visível à vida da mulher. São múltiplos os exemplos que mostram como afeta o comportamento dos homens a elas tanto de forma física em “Preciosidade” conta-se um caso de violação, noutros casos de forma mais psicológica, por exemplo em “Mistério de São Cristóvão” quando um mascarado acede ao espaço de uma rapariga e da sua família.
Como conclusão podemos dizer que no livro há uma crítica ao papel dado às mulheres como domésticas encarregadas de limpar e servir em casa, acompanhar ao homem fora, sem momentos de distração. Podemos dar um exemplo em “Laços de família” ele é quem toma as decisões pelos dois, o homem reflexiona no fim do conto que esse sábado iriam ao cinema.
O mundo que é apresentado no livro foge do artifício, quiçá para mostrar de forma natural o dia a dia de uma mulher que ainda hoje em dia, cinquenta anos depois não nos é alheio”.

Estão com vontade de ler o livro? carreguem nesta ligação: ClariceLispector-LaçosdeFamília

Sandra, muito obrigada por nos descobrir tanta coisa boa.

Contos da Montanha

Chegam novos tempos para o Lusopatia na etiqueta “livros”. Até que enfim!
Sob esta epígrafe iremos colocando em próximos artigos alguns textos de crítica literária, dicas de leitura..etc.

Temos que agradecer isto tudo a colaboradores e colaboradoras, sem eles e elas seria impossível este novo caminho.
Faz a estreia hoje o professor Antom Labranha, leitor fiel do Clube de Leitura Santengrácia. Esta iniciativa nasceu do convívio de ex-alunos/as de Português da EOI de Compostela, que procuraram alargar seus estudos e continuar a se reunir, pelo menos, uma vez por estação. Bem haja para este projeto!
Vejam lá o que o Antom tem para nos dizer sobre Contos da Montanha, de Miguel Torga:
“Há, de contínuo, uma tensão narrativa arrebatadora que desfecha, conto por conto, numa grande comoção. Com uma prosa intensa, poética e alegórica, através das personagens que constrói, vai descrevendo as paixões humanas mais ancestrais, profundas e instintivas, e por isso mais autênticas e intemporais que são, com certeza, as nossas próprias paixões: o medo de cá e do além-mundo, o refúgio na fé, a resignação, a complacência, a admiração, o amor, os ciúmes, os remorsos, o ódio, a vingança… a vontade de suicídio.
Os contos são, de facto, independentes, mas complementares: no conjunto fazem um mostruário dos modos de vida e das paisagens rústico-geográficas, económicas, culturais… dum passado que podemos pensar longínquo e que, aliás, pode ainda perdurar e acho que perdura, embora seja remanescente desses outros tempos, não assim tão distantes.
Um contributo linguístico notável são os ditados e provérbios que de frequência coloca em dicas ou exclamações das personagens, ou mesmo do narrador -não sei se populares ou de ideia própria do autor-.

  • Em pormenor:

A Maria Lionça
A espera expectante do Pedro pelo pai retornado e a posterior deceção, lembrou-me “O pai do Miguelinho” de Castelao. E a espera pelos correios que nunca chegam, lembrou-me “Mamasunción” de Chano Piñeiro.

O cavaquinho
Acho que não foi assim bem resolvido, pois não percebi qualquer situação no relatório que ligue com a tragédia final, embora a imaginação me faça pensar que a única hipótese para o pai conseguir o cavaquinho fosse o roubo.

O filho
Encontrei conotações ambientalistas: a beleza e a grandeza do simples, do viver em harmonia com a natureza.

Maio moço
Acho que há uma crítica social à coletividade humana geral por não valorizarmos aquilo que não vem precedido de uma posição elevada, de um prestígio, de uma façanha.

  • Em destaque:

Solidão
“Não há falência maior que a de imitar o passado, mesmo que seja o nosso”

O lugar de sacristão
Porque não é assim tão direto como nos outros relatos. O jogo psicológico é mais subtil: uma intuição juvenil premonitória que paira no ar e mesmo o próprio protagonista não acerta a conhecer, o desencontro amoroso que desvenda para ele e para nós leitores o presságio, a mortificação de lhe assistir nos ritos tirados de um outro amor que a ele foi negado, e um final restaurador duma justiça íntima e inconfessável

Muito obrigada e parabéns, Antom!