O que a Galiza deu a Portugal: galegos e galegas na História portuguesa

Frequentemente revisitamos a literatura medieval galego-portuguesa como fonte indiscutível dos vínculos linguísticos e culturais entre a Galiza e Portugal. Há pouco foi editado pela AGAL um documentário, Pacto de Irmãos, que fala sobre a origem da língua escrita e como também a língua conforma uma sociedade.

Os contributos linguísticos são mais do que evidentes no que diz respeito ao título deste artigo, mas…já pensaram noutras áreas culturais? A verdade é que sempre tive muita curiosidade e há tempo que comecei a juntar uma série de nomes que conformam este post. Portanto, proponho-vos uma pequena viagem galega a várias fases da História de Portugal.

Como as explicações vão inseridas em animações, deverão levar na mala um bocado de “paciência digital”. Podem ampliar os diapositivos para uma melhor visualização. E toquem! toquem tudo para verem as informações extras! São viajantes desses com pulseira de pacote turístico completo.

Temos três roteiros diferentes: o dos galegos de gema, o literário e o da cultura popular. O primeiro deles é composto por pessoas nascidas na Galiza, os outros dois são percursos onde falaremos de descendentes de galegos.

OS GALEGOS DE GEMA

Na própria lenda do Galo de Barcelos aparece um galego como protagonista. É pena eu não ter nomes e apelidos, se tivesse, teria mesmo incluído nesta epígrafe, podem crer.

Aqui vou dar três nomes de galegos que marcaram profundamente a memória portuguesa. Com certeza, vocês conhecem.

  1. Inês de Castro. Acho que deve ser o primeiro e único caso de rainha morta-viva. Ela inspirou tanta literatura…

2. O Conde de Andeiro teve uma vida atribulada, cheia de aventuras e conspirações. É uma das figuras mais conhecidas (e odiadas) da história medieval.

A Câmara Municipal da Corunha tem, já agora, a sua vida esculpida nos cadeirais.

3. A nossa terceira paragem no roteiro dos galegos de gema é daquelas que precisam de um balde de pipocas. Diogo Alves é como uma cena de Futurama, uma cabeça metida em formol conservada hoje na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Considerado o primeiro serial killer da história portuguesa, o assassino do Aqueduto das Águas Livres era também galego. No “curiosidades” há um vídeo, um filme de cinema mudo. Tem que se lhe diga.

O ROTEIRO LITERÁRIO

  1. Imaginem que vos digo que a figura totémica da literatura portuguesa tinha família galega. Imaginem! Não imaginem nada: é verdade. Luís Vaz de Camões era familiar de Vasco Pires de Camões, trovador com raízes em Finisterra.

Para aprendermos mais, também vos conto na mesma infografia a origem do ditado popular “vai chatear o Camões”. Conhecem?

2. E se vos dissesse que a segunda figura mais conhecida da literatura portuguesa também tem raízes galegas? Com efeito, Fernando Pessoa também é galego-descendente segundo o livro As raízes de Pessoa na Galiza do professor Carlos Quiroga.

Tanto Pessoa como Camões foram personagens fixos da série O Ministério do Tempo. Eu era fã e não sei o que foi feito dela.

3. Dentro do Orpheu há alguns poetas injustamente “esquecidos”. Um deles é Alfredo Guisado, com família em Mondariz e Ponte Areias. Este escritor é precursor do binormativismo, antes sequer de dizermos nada na AGAL. Uma ponte entre o republicanismo português e o agrarismo galego. Vejam logo.

4. José Rodrigues Miguéis é um escritor português filho de emigrantes galegos. Durante a ditadura exilou-se nos EUA por causa das suas ideias progressistas herdadas do seu pai.

A CULTURA POPULAR

Neste outro roteiro tocamos vários aspetos da cultura: a música, a política e o mundo empresarial.

Já falamos de como muitos galegos emigraram a Lisboa e qual foi o impacto cultural dessa leva. Os primeiros nomes deste roteiro alargam essa homenagem aos muitos empreendedores que modificaram a estrutura e vida social da cidade.

  1. Manuel Garcia Moreira e a Cervejaria da Trindade. Uma das cervejarias mais famosas do circuito lisboeta foi também um projeto galego.

2. Francisco Espinheira e a Ginjinha. Dispensam apresentações. A Ginjinha é o sabor de Lisboa e o Espinheira soube “fermentar” esta ideia.

3. Agapito Serra Fernandes foi um empresário galego do mundo da confeitaria. Ele projetou o Bairro da Estrela d’Ouro como residência para a sua família e empregados. O bairro tinha até um cinema, o primeiro a passar filmes sonoros em Portugal.

4. Ampliamos horizontes e falamos agora de um dos episódios mais famosos da história portuguesa: a Revolução dos Cravos. A Celeste Caeiro, “Celeste dos cravos”, foi a mulher que deu nome a uma revolução. A sua mãe era da Galiza.

5. A Madalena Iglésias fez história no mundo da canção. Não, não é família do Julio Iglesias. Teve uma carreira curta, mas foi a rainha das rádios e tvs portuguesas. Até venceu o festival da canção da RTP.

6. E já no último lugar, alguém que podem acompanhar nas redes sociais: Manuel Durán Clemente, um dos Capitães de Abril. Quando vos disserem que a Galiza só deu ao mundo exemplos de políticos de direita, pensem neste homem.

E cá termina a nossa viagem. Mas sabem que coisa? eu gosto é dos roteiros circulares, são os meus preferidos.

Agora só espero fazer num futuro próximo um artigo intitulado “O que Portugal deu à Galiza”. Conheçamo-nos melhor uns e outros para que assim seja.

SELIC 2018

A Semana do Livro de Compostela não foi sol de pouca dura, veio para ficar e esta é a sua segunda edição. Desde o dia 1 de junho até ao dia 10 poderão estar em contacto com livrarias e editoras do país além de usufruir de um amplo programa de atividades.

Este ano a cidade convidada é a Póvoa de Varzim. O seu festival literário “Correntes d’escritas” acho que é hoje um referente e está na hora de que se conheça mais na Galiza. A propósito disto, no dia 3 de junho às 12h30, no exterior da carpa, há dança tradicional poveira, as chamadas “rusgas”. Nesse mesmo dia às 18h30 a escritora portuguesa Dulce Maria Cardoso falará com o público galego.

Dulce Maria Cardoso foi escolhida para partilhar com o público o processo criativo que a leva a fazer da sua biografia uma experiência literária. Ela nasceu em Trás-os-Montes no ano 1964 e passou a sua infância em Angola. Regressou depois da descolonização.

No ano 2001 publicou a sua primeira obra, Campo de Sangue, seguiram-se outros romances como: Os meus sentimentos, O chão dos pardais, O retorno…

Algumas das suas obras foram adaptadas como roteiro de cinema e muitos dos seus livros são objeto de estudo em universidades do mundo todo.

No dia 4, às 19h30 temos as “Correntes de conversa”, uma conversa sobre o “Correntes d’escritas” entre Manuela Ribeiro, organizadora do festival, e Carlos Quiroga, professor de literaturas lusófonas na USC.

No dia 5, às 20h. “Um guitarrista português e um poeta”, poesia musicada por Aurelio Costa e Carlos Costa.

Durante toda a semana do livro, poderão também encontrar a banca da Através editora e dar uma olhada às suas últimas publicações. Deem um passeio pela carpa!

As raízes de Pessoa na Galiza

No Dia da Língua Portuguesa não há nada melhor do que revisitarmos a nossa história e ligações culturais.

A Ginjinha, Inês de Castro, o galo de Barcelos e, agora também Pessoa, têm antecedentes na Galiza. E se a nossa história fosse contada doutra maneira?

O professor de Literaturas Lusófonas, Carlos Quiroga, prova neste livro a árvore genealógica galega do poeta, a origem do heterónimo Alberto Caeiro e a relação que isto tem com Alfredo Guisado, poeta galego esquecido da Geração Orpheu.

Hoje, no Centro Cultural Camões de Vigo, às 20h.

A imagem de Portugal na Galiza, a Imagem da Galiza em Portugal

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Se pudessem ter um superpoder…qual seria? voar? ser invisível? ter muita força? eu pensei nisto muitas vezes. Na escola, cada vez que tinha um exame queria ler as mentes de todos os meus colegas de turma para assim obter a melhor resposta a cada questão. Eu não era gaja de estudar muito.
Infelizmente, não podemos ler as mentes, mas se a curiosidade é saber o que os galegos e galegas pensam dos vizinhos e o que os portugueses pensam de nós…podemos ler os livros A imagem da Galiza em Portugal de Carlos Pazos-Justo e A imagem de Portugal na Galiza de Carlos Quiroga, os dois editados na Através Editora.

Hoje há uma dupla apresentação em Compostela, na Faculdade de Filologia às 12h e na EOI às 20h. Vão! Sabe-se lá…talvez saiamos dela com um superpoder.

Fernando Gebra e Alfredo Guisado

12417934_768481933257855_6158641234762554685_nHá pessoas que conseguiram unir a Galiza e Portugal culturalmente, um deles foi Alfredo Guisado.

Fernando Gebra conseguiu também unir três realidades culturais: Portugal, Brasil e a Galiza. O seu trabalho como investigador é minucioso e impecável, nestes dias temos a sorte de tê-lo em terras compostelanas.

Fernando de Moraes Gebra é licenciado em Letras Português/Francês na Universidade Estadual Paulista (UNESP) (2002); Mestre em Letras, área de Estudos Literários, pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) (2003); Doutor em Letras, na área de Estudos Literários, pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) (2009), com Tese intitulada Identidades intersubjetivas em contos de Mário de Andrade. Atualmente, desenvolve investigação no nível de Pós-Doutoramento em Literatura Portuguesa, acerca dos “esquecidos” da Orpheu e disto nasce o seu interesse pela figura de Alfredo Guisado.

Esta não é a primeira estadia do investigador brasileiro na Galiza, mas sim a primeira vez que aparece entre estas linhas. Esperamos que não seja a última.

Conversamos com ele…

Lusopatia: O que te levou a vir à Galiza?
Fernando Gebra: Como sabes, sou professor na área de Teoria Literária e Literaturas de Língua Portuguesa, na Universidade Federal da Fronteira Sul, cuja sede – que é onde eu trabalho – se encontra no município de Chapecó, Estado de Santa Catarina. Além dos trabalhos no curso de Licenciatura em Letras – Português e Espanhol, atuo no Mestrado em Estudos Linguísticos, na área de Práticas discursivas e subjetividades. Recentemente, a UFFS implementou um programa de capacitação para os seus docentes, para que possamos ter condições de implementar programas de Doutoramento altamente qualificados. Postulei minha candidatura no final de 2014 e, em 23 de Março de 2015, fui contemplado com uma licença sabática de onze meses para desenvolver uma investigação de Pós-Doutoramento na Universidade de Lisboa.
Meu plano de trabalho centra-se nas poéticas dos autores que eu chamo os “esquecidos” de Orpheu – Alfredo Pedro Guisado, Luís de Montalvor e Ângelo de Lima. Como se sabe, Orpheu é uma revista literária que tanto escândalo provocou na provinciana sociedade lisboeta de 1915, por conta das suas propostas estéticas de renovação da poesia portuguesa. Entretanto, há que se deixar muito claro que Orpheu não é o órgão do Modernismo em Portugal. Em vários textos, Fernando Pessoa, sistematizador de muitas das correntes estéticas de princípios do século XX, comenta que Orpheu é “a soma e a síntese de todos os movimentos literários modernos”. Desde há muitas décadas, a grande estudiosa pessoana Teresa Rita Lopes chama a atenção para a carta que Fernando Pessoa escreveu ao poeta Camilo Pessanha na qual ressalta que Orpheu engloba tendências que vão do Ultrasimbolismo ao Futurismo, o que quer dizer que nessa revista e nessa geração confluem estéticas mais tradicionais e estéticas mais vanguardistas. Luís de Montalvor, em texto memorialista sobre Orpheu, ressalta que, para essa geração, aplica-se o que disse Paul Valéry acerca do Simbolismo francês: “A estética dividia-os. A ética unia-os”.
Feitas essas considerações preliminares, gostaria de esclarecer o que me levou a vir à Galiza. Preciso rapidamente remontar às minhas origens familiares. Como sou bisneto de andaluzes pelo lado paterno, desde muito cedo comecei a estudar o idioma castelhano. Estava no meu íntimo o desejo de conhecer as minhas origens, relacionadas a emigrantes que, dadas as péssimas condições de vida tanto em Portugal como em Espanha, foram obrigados a deixar sua terra natal e emigrar para a América do Sul. Meus bisavós andaluzes tiveram que emigrar em condições bem precárias, no porão de um navio, e no Brasil, trabalharam na agricultura e conseguiram, depois de muitos esforços, comprar seu pedaço de terra. Uma das minhas professoras de Língua Castelhana, Sra. Carmen Telma Franco, era galega e durante a ditadura franquista, também teve que emigrar para o Brasil por causa de um dos grandes males que assola a Galiza: a concentração de terras nas mãos dos caciques. Pessoas como meus bisavós e Telma precisaram emigrar e dar “adiós ríos, adiós fontes”, como aparece nos versos de Rosalía de Castro. Ressalto que o apelido Franco de Telma não tem relação alguma com o tirano que perseguiu muitos intelectuais andaluzes e galegos e que proibiu o uso oficial das línguas galega, catalã e vasca. Um dos materiais que trabalhávamos em aula era o programa televisivo Desde Galicia para el mundo, que apresenta interessantes aspectos culturais da Galiza.
Os anos passaram-se e aquele enorme desejo de conhecer terras de Portugal e Espanha, impossível de realizar-se durante muito tempo por razões de ordem económica, tornou-se uma realidade em 2012, quando estive pela primeira vez em Portugal. Foram necessários mais alguns anos para que eu pudesse finalmente conhecer a Andaluzia, terra dos meus antepassados, e a Galiza, que sempre me causou fascínio.
Durante minhas investigações de Pós-Doutoramento, chamou-me atenção o facto de Alfredo Guisado fazer muitas referências à Galiza, para além do seu poemário Xente d’aldea (1921). Em Rimas da noite e da tristeza (1913), que costuma ser lido pelos críticos como mera obra de juventude ou poemário de aspectos rústicos e costumbristas, pude encontrar vários poemas que fazem referência à “terra onde nasceram os meus pais”, à “terra querida”. Nas cartas de Alfredo Guisado a António Ferro e a Augusto Cunha, arquivadas na Fundação António Quadros, em Rio Maior, o poeta lisboeta filho de galegos da aldeia de Pías descreve suas viagens de férias por paisagens galegas. Numa dessas cartas a Augusto Cunha, afirma que a “Galiza e bem assim o povo daqui, têm extraordinárias semelhanças com os nossos compatriotas”. E, recentemente, a publicação de Relações intersistémicas no espaço cultural ibérico: O caso da trajetória de Alfredo Pedro Guisado (1910-1930), do professor da Universidade do Minho, Carlos Pazos Justo, trouxe-me informações históricas relevantes para a reunião das publicações que Guisado deixou em vários periódicos galegos, nomeadamente El Tea, que se conserva na Biblioteca Municipal de Pontearêas. Precisava, pois, manejar todos esses dados e compreender com mais propriedade os diálogos interculturais Portugal e Galiza.

L: Conhecias, a priori, alguma coisa?
FG: Os conhecimentos que eu tinha da Galiza remontam às aulas de Língua Castelhana com a professora galega Carmen Telma Franco. Se não estou enganado, ela era natural de Lugo. Como toda minha formação universitária na Licenciatura, no Mestrado e no Doutoramento foram em Literatura Brasileira e Literatura Portuguesa, da Galiza pouco sabia. Conhecia apenas o elementar: as construções arquitetónicas feitas com granito, a história do Apóstolo Santiago e do caminho de Santiago de Compostela, o simbolismo das peregrinações, a importância da pesca como actividade comercial. Na parte literária, além das cantigas medievais, só tinha lido dois escritores galegos: Valle-Inclán, nomeadamente sua peça escrita em castelhano, Luces de bohemia, e um e outro poema de Rosalía de Castro, presentes em livros didáticos de Literatura Espanhola. Posso dizer, com toda a certeza, que foi Alfredo Guisado quem me abriu as portas da Galiza. Para entender esse autor fundamental para as literaturas portuguesa e galega, resolvi fazer minha peregrinação por terras galegas, que se iniciou em Vigo, continuou na Corunha, seguiu a Lugo e desembocou em Santiago de Compostela. De certa maneira, saindo de Lisboa, fiz o meu caminho de Santiago no plano artístico e cultural.

L: Cumpriram-se as tuas expectativas?
FG: Como dizia, na minha primeira viagem à Galiza, ocorrida em agosto de 2015, estive em Vigo, Corunha, Lugo e Santiago. Em cada uma dessas cidades, conheci vários acervos museológicos, como a Pinacoteca de Vigo, o Museu Provincial de Lugo, o Museu de Belas Artes da Corunha e o Museu Catedralício de Santiago de Compostela. Como eu tinha planeado permanecer mais dias no meu destino final, Santiago de Compostela, procurei na internet informações sobre escola de idiomas para estudar Literatura Galega. Interessei-me pela proposta pedagógica de Lorca Institute – além do que o nome Lorca me remeteu directamente a um dos meus dramaturgos favoritos, Federico García Lorca. Em poucas horas, após o primeiro contato telefónico com os responsáveis pela escola de idiomas quando eu ainda estava em Vigo, recebi uma resposta muito atenciosa da direção da escola a propor-me um programa de estudos de Literatura Galega muito bem formulado. Posso dizer, sem sombra de dúvida, que foi muito satisfatório ter feito esse curso, tanto que dei sequência a essa formação em setembro, quando tive que regressar a Galiza para poder ir a Ponteareas selecionar os textos de Alfredo Guisado no jornal agrarista El Tea. Na minha primeira vinda à Galiza, tinha feito uma investigação minuciosa nos periódicos A Nosa Terra e Nós, arquivados na Real Academia Galega. Recomendo essa instituição a todos os investigadores que se interessem por Literatura Galega, pois eles dispõem de um acervo considerável e as pessoas que trabalham ali são muito solícitas.

L: Como foi o teu encontro com a literatura galega?
FG: Posso considerar o meu primeiro encontro com a Literatura Galega no meu ensino liceal, nas aulas de Literatura Portuguesa, quando estudámos as cantigas medievais, entretanto, o encontro mais apaixonado deu-se com a leitura do poemário Xente d’aldea, de Alfredo Guisado, e com pequenos contos de Castelao estampados no periódico A Nosa Terra. Com as aulas de Literatura Galega no Lorca Institute, pude ler e estudar mais profundamente as obras de Rosalía de Castro, Curros Enríquez, Eduardo Pondal, Ramón Cabanillas, Castelao e Vicente Risco. Consegui perceber bem as estruturas linguísticas do Galego e hoje, considero-me um leitor fluente de Literatura Galega. Posso dizer que a Literatura Galega, sobretudo a obra de Eduardo Pondal e Ramón Cabanillas, fez-me entender com mais propriedade a poética e a filosofia do poeta português Teixeira de Pascoaes. Recentemente, apresentei um trabalho no Colóquio Internacional do Triênio Pascoalino, organizado pela Universidade de Lisboa, que se intitulou “Arte de ser Galego: ecos de Teixeira de Pascoaes na poética de Alfredo Guisado”. Nesse trabalho, examino a recepção crítica de Pascoaes na imprensa galega, nomeadamente pela Xeración Nós, e os ecos da filosofia da Saudade no discurso de Ramón Cabanillas “A saudade nos poetas galegos” e no livro Xente d’aldea, de Alfredo Guisado.
L: Alfredo Guisado e a Xeración Nós. Há alguma coisa que os galegos e galegas devamos conhecer melhor e reivindicar?
FG: Não há como ler autores como Alfredo Guisado, Rosalía de Castro, Curros Enríquez, Ramón Cabanillas e Castelao e ficar indiferente à situação de periferia que os sucessivos governos espanhóis querem colocar a Galiza. É inconcebível o facto de o ditador Francisco Franco, sendo galego, ter proibido o uso oficial da sua língua pátria. É revoltante a situação social de tantos galegos que tiveram que deixar suas terras, abundantes em recursos naturais, por conta de altas cobranças de impostos empreendidas por políticos locais, os caciques. Mais lamentável ainda é a situação que tenho presenciado sobretudo nas grandes cidades da Galiza: muitos galegos não sabem falar o seu próprio idioma; usam a língua do outro, língua que lhes foi imposta durante séculos de dominação castelhana.
Destaco o discurso de Alfredo Guisado quando eleito Presidente da Associação de Agricultores da Aldeia de Pías: “Los hijos, los verdaderos hijos, aquellos que la acarician, que oyen viejas leyendas en torno de las lareiras y saben cantar canciones en las esfolladas, aquellos que lloran cuando ella llora, que ríen cuando ella ríe, tienen que partir para tierras estrañas, en busca de sustento, en procura del dinero que les permita saciar esos otros hijos bastardos, degenerados y malditos que se llaman caciques”. Ao ponderar essas palavras, sentimos seus ecos nos dias de hoje e com tanta gente desempregada, ao passo que muitos políticos se encontram em situações bastante confortáveis. Para onde vai o dinheiro gerado com o trabalho dos verdadeiros filhos desta terra? O destino dos recursos gerados com o trabalho de muitos costuma certamente parar nas mãos de poucos, principalmente de grandes empresários e políticos corruptos.
Há algo importante para contar sobre a família de Alfredo Guisado. Quando seu pai António Venâncio Guisado emigrou a Lisboa, os seus avós maternos já tinham para lá emigrado e administravam o restaurante Irmãos Unidos, palco dos grandes projectos estéticos do grupo de Orpheu. De Lisboa, António Venâncio e o jovem Alfredo mantinham importantes laços com a aldeia de Pías. Alfredo Guisado fez parte do movimento agrarista e militou no jornal El Tea, dirigido por Amado Garra, a favor de uma justa distribuição de terras e de uma diminuição do poder dos caciques. O autor de Xente d’a aldea ocupou importantes cargos nos campos políticos português e galego, sempre em defesa dos ideais democráticos.
No caso da Xeración Nós, assim como Alfredo Guisado, seus membros, com exceção de Castelao, tinham uma situação económica relativamente cómoda. Teoricamente, poderiam perfeitamente permanecer fechados nas suas torres de marfim, sem se preocupar com questões da identidade, da cultura, da política e da sociedade galegas. Ser-lhes-ia muito mais cómodo. Entretanto, a pena associou-se à espada, a luta por um ideal que depois foi inscrito no Partido Galeguista. Esse ideal consistia em conhecer com profundidade os vários campos do saber relacionados à Galiza e provar que a Língua Galega podia ser utilizada em todos os campos do saber. A Xeración Nós agrupou uma diversidade de áreas que precisavam ser investigadas, como a etnografia, a arqueologia, a história, o desenho, as artes plásticas. Tal como Orpheu queria atualizar a inteligência artística criadora e continuar o legado deixado por uma tradição que estava a ser mumificada pelos académicos, o grupo Nós também tinha grandes preocupações culturais relacionadas com a identidade galega, sem perder de vista a conjuntura universal.
Considero fundamental que galegos e galegas se conheçam, que compreendam a sua História e o silenciamento identitário imposto durante os séculos escuros e também durante o regime franquista. Para se ter vez e voz numa sociedade opressora, faz-se necessário conhecer todas as bases históricas. É necessário que se invista na formação de professores de Língua Galega para que todas as crianças nascidas na Galiza possam aprender o idioma dos seus antepassados.

L: Achas que a literatura galega deveria ser mais divulgada no mundo lusófono?
FG: Para já, gostaria de manifestar minha tristeza quando percebi que não houve em Portugal reedições da produção literária de Alfredo Guisado, obra que abrange um arco temporal que vai de 1913, com o poemário Rimas da noite e da tristeza, até 1974, com o livro infanto-juvenil A pastora e o lobo e outras histórias, além da edição póstuma coordenada por Fernandes Camelo e intitulada Tempo de Orpheu II. Pensava que esse esquecimento era privilégio das editoras portuguesas. Estas parecem apenas enxergar Fernando Pessoa. Além disso, certos investigadores, bolseiros profissionais, levam anos a procurar inéditos no espólio pessoano – com tudo pago, naturalmente, pelos governos de seus países – e somente o fazem pela vaidade de publicar um inédito do poeta dos heterónimos. Dessa forma, inflaciona-se o mercado pessoano, que deixa à sombra outros grandes poetas coetâneos e membros do mesmo grupo.
No caso da Literatura Galega, acho lamentável uma literatura tão importante ser apenas conhecida na Galiza e, quando muito, em Universidades que promovem a cultura galega. As relações interculturais com Portugal precisam ser ampliadas, a começar pela melhoria dos transportes que ligam Porto a Vigo: são apenas dois horários diários e comboios que parecem ser da época de Franco. Com relação ao Brasil, tenho percebido que há investigadores que optam por desenvolver trabalhos de Doutoramento e Pós-Doutoramento na Universidade de Santiago de Compostela, o que lhes possibilita conhecer mais a fundo a cultura galega e a divulgá-la no Brasil. Todavia, as relações interculturais não se fazem apenas com boas intenções de intelectuais sérios. Percebo, com grande pesar, que ainda falta da parte dos governos brasileiro e português essa aproximação cultural com Galiza, por meio de mais investimentos económicos nos setores culturais. Sobre o governo brasileiro, prefiro nem entrar em detalhes, pois todas as pessoas de bom senso já perceberam a falácia que é esse partido que se diz ser “dos trabalhadores” e que ocupar a cadeira presidencial há treze anos, sustentado por um discurso demagógico que reivindica ter possibilitado que a maior parte da população tivesse acesso à Universidade. Todos sabemos que muitos estudantes conseguem o acesso ao ensino superior por conta de uma política de cotas sociais. Uma educação para todos estaria bem, mas não é essa a questão que se coloca. O grande problema reside no como muitas pessoas ingressam nas Universidades. Ao invés de haver investimento na educação básica, muito deficitária no Brasil há mais de três décadas, os governos optam pela solução mais fácil: baixar o nível de exigência de ingresso no ensino superior para gerar números de ingressantes nas faculdades.
Poucos são os dirigentes políticos bem intencionados. Quando esteve no poder legislativo em Lisboa na década de 1920, Alfredo Guisado foi um exemplo dessas pessoas bem intencionadas, que alimentou vários projetos de parcerias entre Portugal e Galiza, nomeadamente a dos jogos florais galaico-portugueses. Como Vereador da Câmara Municipal de Lisboa, o autor foi responsável pela revitalização de espaços públicos lisboetas, pela manutenção da memória identitária portuguesa, com a atribuição de nomes de escritores a várias ruas, e também por ter evitado que grandes escritores ficassem na vala comum de cemitérios abandonados. Alfredo Guisado foi um grande difusor cultural. Dividido entre duas culturas, como atesta o poema “Duas terras”, do primeiro poemário, o lisboeta filho de galegos sempre lutou por ideais democráticos tanto na Galiza como em Portugal.
L: Falarás esta semana na livraria Ciranda. O que achas do projeto?
FG: Achei genial o projeto da livraria Ciranda. Estive lá apenas uma vez, com um pouco de pressa. Apesar de ter ido lá num dia em que dispunha de pouco tempo, pude conhecer o projeto e pude ver o acervo. Confesso ter saído de lá muito satisfeito. Noto, com muito pesar, que a Língua Portuguesa não goza de uma situação de prestígio nos meios académicos. Como pode uma literatura tão rica, complexa e diversa como a dos países lusófonos, ter recebido apenas um prêmio Nobel? Verifiquei em alguns colóquios e publicações em outras partes de Espanha que os trabalhos tinham por norma ser apresentados em castelhano, inglês, francês ou italiano. E por que não em português? Por que o italiano, que é uma belíssima língua, naturalmente, com uma tradição artístico-cultural riquíssima também, obtém mais prestígio que o português? São questões que me fazem pensar que falta um órgão sério de difusão cultural. Até que ponto o Instituto Camões e o Itamaraty realmente promovem a internacionalização do idioma? Iniciativas como a da livraria Ciranda são louváveis, pois possibilitam que os galegos conheçam as produções literárias feitas em Portugal, Brasil e países africanos de língua portuguesa.

L: Também contamos contigo para uma palestra na USC…
FG: Recebi também um convite do professor Carlos Quiroga para ministrar uma conferência na USC. Na livraria Ciranda, abordarei a recepção da obra de Alfredo Guisado na Galiza e os diálogos estabelecidos com a Xeración Nós, além de comentar os ensaios que o autor estampou nas páginas de República acerca da Literatura Galega. Já na USC, a ideia é verificar os ecos da filosofia da Saudade de Teixeira de Pascoaes no discurso de Ramón Cabanillas, “A saudade nos poetas galegos”, no ensaio “O saudosismo e o idealismo”, de Xaime Quintanilla, e no poemário Xente d’a aldea, de Alfredo Guisado. O construto ideológico e filosófico pascoalino foi um dos pilares da revista A Nosa Terra. A Saudade, lida simultaneamente numa dimensão de recordação do passado e esperança de um futuro, deu alicerces para que essa notável geração de artistas galegos reivindicasse o direito de expressar-se na sua língua e de constuir uma Galiza soberana.

 

 

Hoje, às 20h na livraria Ciranda. Não percam!

 

A literatura portuguesa depois da revista Orpheu

Nexos016_OrpheuUm século de literatura a debate. O que foi feito na literatura portuguesa depois do Orpheu?

Amanhã revisitaremos as melhores páginas. Três momentos literários à volta da língua portuguesa: o Orpheu, com Pessoa e Sá Carneiro; Herberto Helder e a sua poesia e as novelas de Lídia Jorge.

A sessão será na Biblioteca da Galiza, no Gaiás amanhã a meio-dia e está co-organizada pelo Instituto Camões. Nela vão participar os investigadores António Cardiello (Casa Fernando Pessoa) e Rosa Maria Martelo (Universidade do Porto), além da própria Lídia Jorge, que nos explicará in situ a sua obra.

O professor Carlos Quiroga recitará também textos selecionados.

Como complemento temos outra atividade, uma projeção cinematográfica: As deambulações do mensageiro alado (1969). Edgar Gonçalves Preto cria um filme onde surge Herberto Helder, que mimetiza títulos de algumas das suas obras, num contexto em que é posta em causa a sociedade portuguesa da época, sob a ditadura.

 

Ana Luísa Amaral na livraria Ciranda

AnaAna Luísa Amaral é uma escritora e professora portuguesa que leciona na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Tem um doutoramento sobre Emily Dickinson e temas feministas, portanto, que melhor que uma visita dela ao espaço Lila de Lilith-Ciranda à volta do português, conjugando lusofonia e feminismo.

Amanhã, pelas 19h estará na livraria para falar de Ara e Escuro, os volumes mais recentes dela. Apresentada pelo professor Carlos Quiroga, comentará o melhor dos dois livros.

Ara é um romance subversivo. Duas mulheres, dois iguais que se apaixonam.

Escuro é mais virado para a metaliteratura. Reflete-se sobre literatura, inquietações do quotidiano…e tudo isto através de um diálogo com Fernando Pessoa.

Parece que vai ser uma boa tarde de inverno.

Mais uma vez…Ondjaki

angolegoEstavam a pedir, estavam a desejar isto desde a última vez que o Ondjaki veio à livraria Ciranda. Parece que aquela apresentação do livro soube a pouco e agora vamos voltar a ter o Ondjaki connosco.

Amanhã na livraria compostelana Ciranda haverá uma mesa redonda com Felisa Rodríguez Prado, Carlos Quiroga e o escritor angolano de Os Transparentes. Angolano de nascença e angolego de coração (como diz este cartaz da FSCH), o escritor e os professores da USC conversarão com os assistentes sobre literatura angolana.

O ato está marcado às 20h, mas quem já estiver na experiência anterior, sabe bem como são as horas e o tempo para o nascido em Luanda. O melhor será a história criada para justificar a demora. Não conhecem ainda o Ondjaki e as histórias dele? impossível! Vejam como interage com os leitores e leitoras no mundo 2.0.

Conversas e amigos…todos bem recebidos no aconchegante local da Ciranda.

O crânio de Castelao

2013021421041561822O amor pelo vintage chega também à literatura. Este post é sobre literatura de folhetim.

Esta terça-feira, 23 de julho, às 19h30, no Túmulo de Castelao na Igreja de São Domingos de Bonaval em Compostela terá lugar o lançamento do livro “O Crânio de Castelao”. O livro é um romance em folhetim, escrito por onze pessoas de países lusófonos.
Quem quiser passear pelas páginas desta obra, encontrará nomes de “cordelistas” como Carlos Quiroga, Antón Lopo, Suso de Toro, Quico Cadaval, Xavier Queipo e Xurxo Souto, Miguel Miranda (Portugal), Bernardo Ajzenberg (Brasil), Germano Almeida (Cabo Verde), Possidónio Cachapa (Portugal) e Luís Cardoso (Timor). Foram publicados capítulos em diferentes meios da Galiza, Brasil e Portugal e agora podemos contar com ele editado como livro junto com outras explicações graças a Através Editora.

Como se se tratasse de um capítulo de Murder, she wrote e tal como o género pede, a história parte de um roubo de uns ossos. Por melhor dizer, do crânio de Castelao. Um Catedrático de Medicina pede a um discípulo que o procure e nessa busca, que leva o jovem por várias geografias de Portugal, Cabo Verde, as Açores e o mesmo Índico, interfere a filha do velho professor. Quando recebem aviso final de regresso, pois o crânio fora substituído por outro, os meios conseguiram fazer crer que o roubo nada mais era do que uma ficção literária ligada ao mencionado Encontro Galego no Mundo-Latim em Pó.

Onde começa a literatura e onde a verdade? será que está o crânio no túmulo? será que o crânio é o de Castelao?

Só poderemos saber a verdade esta terça.

SECULLUS, seminário de culturas lusófonas

As fronteiras entre Angola, Timor, Portugal e a Galiza derrubar-se-ão durante dois dias, pelo menos as fronteiras literárias.

A Cátedra da Unesco de Cultura Luso-brasileira um seminário que decorre em Compostela e dura dois dias (20 e 21 de novembro, mais informações em Calendário).

As faculdades de Filologia e Filosofia terão um encontro de escritores conceituados como Luís Cardoso (Timor), Ondjaki (Angola), Possidónio Cachapa (Portugal) e Carlos Quiroga (Galiza).
Moderará Elias J. Torres, com o título “Narrativas da Lusofonia”.

Ficam a saber que haverá uma banca da Imperdível com livros à venda.