Expressões idiomáticas: mar, água, navios, navegações

Estamos já no verão e para aquelas pessoas mais sortudas…isso até pode ser sinónimo de férias. Daqui a poucos dias eu serei uma delas.

Como cada vez que vou de férias faço um post temático sobre o meu destino e, desta feita, decidi que o único que vou fazer é descansar na praia; cá vos deixo um catálogo de expressões que, ora têm origem marítima, ora anda alguma das suas palavras nesse campo semântico. Tentei agrupá-las por ordem alfabética.

  • Andar à toa. Significa andar sem destino, despreocupado, passando o tempo. O que eu menos pensava é que esta expressão tivesse origem marítima. Pelos vistos, a “toa” é a corda com que uma embarcação reboca a outra. Um navio que está “à toa” é o que não tem leme nem rumo, indo para onde o navio que o reboca determinar.
  • Anda mouro na costa. É um grito de alerta, para estarmos prontos por causa de uma eventualidade qualquer, um problema, alguma coisa inesperada. A expressão terá tido origem nos tempos da pirataria dos corsários árabes que atacavam Portugal e Espanha. Estes tinham espiões na costa que os informavam.
  • Canto de sereia. É uma expressão de uso comum, sempre que se quer dizer que alguém está iludido por algo. Está a predizer que esse alguém vai ter uma deceção se insistir nisso que está a acreditar.

Tenho um fraquinho por este ditado popular porque eu adoro sereias, por acaso até tenho tatuada uma.

A sereia é uma figura da mitologia, presente em lendas que serviram para personificar aspectos do mar ou os perigos que ele representa. Quase todos os povos que dependiam do mar para se alimentar ou sobreviver, tinham alguma representação feminina que enfeitiça os homens até se afogarem. Metade mulher, metade peixe (mas isto só desde a Idade Média), as sereias têm uma arma poderosa: o seu canto.

Na Odisseia conta-se que eram filhas do rio Achelous e da musa Terpsícore. Eram tão lindas e cantavam com tanta doçura que atraíam os tripulantes dos navios que passavam por ali para os navios colidirem com os rochedos e afundarem. Odisseu conseguiu salvar-se porque colocou cera nos ouvidos dos seus marinheiros e amarrou-se ao mastro de seu navio, para poder ouvi-las sem poder aproximar-se.

Lá vai a canção da minha vida, Sereia Louca.

  • Dobrar o Cabo das Tormentas. É sinónimo de vencer uma grande dificuldade. O Cabo das Tormentas é o nome antigo do Cabo da Boa Esperança. Em 1488 o navegador Bartolomeu Dias dobrou pela primeira vez o Cabo das Tormentas. Este era um território desconhecido na altura e só foi conhecido até passados vários dias de avistar tomentas, atingir este objetivo significou saber que existia uma conexão entre o Atlântico e o Índico. Camões personifica estas dificuldades na figura do Adamastor, na obra Os Lusíadas.

  • Embandeirar em arco. É dessas expressões que nunca pensei que tivessem a ver com o mar. É uma manifestação efusiva de alegria.
    Na Marinha, em dias de festa, os navios embandeiram em arco, isto é, içam pelos cabos bandeiras e cometas quase até ao topo dos mastros, indo um dos seus extremos para a proa e outro para a popa. Assim são assinalados esses dias de algaravia.
  • Fazer tempestade em copo d’água. Poderíamos usar esta expressão para ilustrar o que é uma antítese. As tempestades são fenómenos atmosféricos de grande magnitude e os copos d’água remetem para uma quantidade mínima de líquido. O contraste é evidente. A frase é utilizada para nos referir a uma reação exagerada.

  • Ficar a ver navios. É uma expressão popular da língua portuguesa que significa ser enganado ou também ficar desiludido. A frase tem origem no Sebastianismo. Sabem o que é? Dom Sebastião foi um rei de Portugal, desaparecido na África, na batalha de Alcácer-Quibir em 1578. O corpo nunca foi achado e o povo português ficou sempre à espera do seu regresso para ser salvo da dominação espanhola. Dom Sebastião nunca regressou, por isso muitos sebastianistas “ficaram a ver navios”.
  • Há mais marés que marinheiros. Este ditado popular transmite a ideia de novas oportunidades virem acontecer. Muitas vezes perdemos uma oportunidade, mas mais tarde, podemos recuperá-la.

  • Não é a minha praia/É a minha praia. Gostaria de saber a origem disto, porque nunca cheguei a saber. Usamos esta expressão para indicar que uma coisa é/não é o nosso forte. Por exemplo, imaginem que temos muito jeito na cozinha, então podemos dizer “cozinhar é a minha praia”.

Vai uma canção sobre uma praia bem linda, Porto Covo.

  • Navegar à vista. Quer dizer agir conforme as circunstâncias ou com os meios de que dispomos. A origem está também no tempo das grandes navegações, quando não existiam os mapas e os marinheiros portugueses navegavam o mais perto possível da costa, sempre vendo-a e seguindo-a de bombordo.

Os argonautas, um “fado brasileiro” cantado pela Elis e com inspiração no Fernando Pessoa. Que beleza, gente! Navegar é preciso, viver não é preciso.

  • Nem disse água vai nem água vem. Uma expressão curiosa. Pensei sempre (falsamente) que isto tinha a ver com navegar, mas…qual nada!

O sistema de esgotos das cidades veio a significar um grande avanço em questões de higiene. Antes disto existir, as pessoas deitavam os seus dejetos à rua pela janela e (aquelas mais cívicas) gritavam “água vai!”. Quando alguém faz alguma coisa sem nos avisar e devia mesmo ter-nos avisado é que usamos esta frase.

  • Puxar a brasa à (sua) sardinha. É levar vantagem exclusivamente em proveito próprio. Pelos vistos, antigamente os trabalhadores dos cortiços assavam sardinhas com as brasas dos candeeiros que serviam de luminária. Retirar e, portanto, puxar as brasas apagava essas fontes de luz nas casas.
    Para a elaboração deste artigo, li há uns meses um livro bem interessante que recomendo vivamente: Puxar a brasa à nossa sardinha de Andreia Vale.
  • Separar as águas. É uma dessas cenas bíblicas…já estão a pensar no Moisés? com efeito, o protagonista é ele. O profeta conduziu o povo hebreu criando uma passagem entre as águas do mar Vermelho.

O que significa? usamos esta expressão para fazer um crivo entre o importante e o supérfluo.

  • Ser como um peixe fora d’água. É estar fora do nosso habitat natural, numa situação de desconforto.

 

 

Passem bem nas férias. Eu vou descansar um bocadinho…mas continuarei a atualizar o blogue, é claro, porque o Lusopatia é sempre um bom porto.

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António Zambujo na Ilha

Por enquanto ainda não tínhamos escrito nada da Ilha e não é por ela não ter festivais: O Festival do Norte e O Mar numa flor estão sedeados nesta pérola da ria. Já agora, permitam-me questionar o nome de Festival do Norte, Norte? é o Norte da Galiza a Ilha de Arouça? Enfim…falemos do Mar numa flor.
O Mar numa flor é um festival que decorre nos últimos dias de julho e fusiona arte, música e natureza. É desses eventos ainda jovens, porque a primeira edição data de 2015.
A Ilha de Arouça pode ser um lugar de referência de intercâmbio cultural no Atlântico e nesse sentido a capitã Uxía Senlle está à frente deste navio, que parece ser um irmão pequeno do Cantos Na Maré, tanto no espírito quanto na contratação de artistas.

Há pouco alguém criticava no fio do meu Facebook a contratação dos The Gift por parte da Câmara Municipal de Compostela. Por uma parte estava a questão (para algumas pessoas incómoda) de eles cantarem em inglês, por outra a pouca empatia da banda quanto à identidade da Galiza. Pronto, eu gosto muito da banda e não vou pedir a pessoas de fora que tenham mais compromisso do que nós próprios. Não acho justo. Também gostaria de sublinhar (mais uma vez) que na Galiza temos uma ideia muito reduzida (e até folclorizante) da música portuguesa atual.

Com isto quero dizer que gosto da existência de novos eventos que abram caminhos e ajudem a criar sinergias, mas esses novos eventos têm de trazer também novas vozes.

Qual é a proposta do Lusopatia? chegamos tarde para falar de Falua, mas ainda vamos a tempo de confirmar a presença do António Zambujo às 21h este sábado dia 29.

Lá vai um dos seus últimos clipes.

Compostela em festas

Em muitos países orientais ser impontual é uma coisa horrível. Eu também não gosto de pessoas que não chegam nas horas combinadas…pouco perdão tenho hoje. Queria há dias fazer um artigo sobre as festas em Compostela, mas umas férias improvisadas têm-me afastado do teclado por uns tempos.

Então, fiquem a saber que já não dá para eu falar de Selma Uamusse (Moçambique), Bixiga 70 (Brasil), Vânia Couto (Portugal) ou Celina da Piedade (Portugal). Andei nas nuvens…pelo menos ainda chego para vos dar três recomendações:

-dia 22, sábado, Maria Gadu (21h, Praça 8 de março). Quem não conhece o Shimbalaiê? Shimbalaiê é Maria Gadu. A cantora paulistana, criadora de grandes sucessos da MPB, virá a Compostela com um repertório de clássicos, mas também com o seu novo álbum no braço: Guelã.

-dia 24, segunda, The Gift (22h, Praça da Quintana). Necessitam qualquer apresentação? amamo-los e queremo-los sempre de volta. O grupo português com mais presença no mundo inteiro chega de Alcobaça à Quintana para fazer barulho e tocar teremim.

A máquina desta banda está bem azeitada e funciona muito bem. Altar é o seu novo trabalho e a verdade é que a canção Big Fish é dessas para dar pulinhos.

-dia 25, terça, Bifannah (22h, Praça da Quintana). Uma banda da Galiza sedeada em Londres com canções escritas na influência da poesia experimental portuguesa. Como não havia de falar deles? Maresia é o seu trabalho mais recente. Toques de psicodelia, atlantismo e tropicália.

Sessão de curtas em Vigo

Não sei bem o que foi feito daquele festival de animação que havia em Lalim, o Anirmau, alguém se lembra? O facto é que já estava com saudades de uma boa coleção de curtas. Desde o Curtocircuito não voltei mais com isto.

No dia 13, isto é, esta quinta, o Centro Cultural Camões de Vigo vai projetar em colaboração com a Portuguese Short Film Agency várias curtas metragens portuguesas de animação. Também estará lá a realizadora da curta Três semanas em dezembro, Laura Gonçalves.
Não precisam de apanhar bilhete nenhum, portanto, quem por lá estiver pode aproveitar e ficar a par da situação das curtas da 25ª edição do Festival de Curtas de Vila do Conde, pois isto é uma amostra desse evento.

Stone Dead em Compostela

Stone Dead é uma banda de Pisões, Montalegre. É dessas formações de dois amigos que começam a estudar música juntos, um bocado sem saber no que vai dar e no fim…o produto é bom. Uma bateria velha em casa do pai de um deles e muitos discos dos Sex Pistols depois serviram para defini-los como grupo.
Good Boys, o seu álbum, é todo um achado. “Um clássico instantâneo equilibrado com mestria entre garagem suada, estúdio onde se maquina inventiva arquitectura sónica e cabine onde se registam harmonias de voz bem afinadas”, segundo afirman no Cultura-Ipsilon.

Amanhã estarão no Hotel NH de Compostela, às 21h, no marco dos concertos Terrazeando.

Sepultura em Viveiro

No ano 2015 falávamos da presença dos Moonspell em Viveiro no Resurrection Fest, três anos antes noticiávamos a chegada dos Sepultura à Galiza. Esse artigo foi, de facto, uma pole position no nosso ranking de mais lidos durante anos. Pronto, esse e um intitulado “Mulheres a fazer filmes”, porque sempre há uma pessoa tarada que faz uma leitura pornográfica de tudo e contou também como visitante do blogue.

No dia 7 deste mês, no Resurrection Fest em Viveiro, chega a banda dos irmãos Calavera (mas sem eles) para dar à lusopatia o toque heavy de que estávamos à espera. Nem tudo vai ser fado, ‘migas! E como eu gosto de mostrar que o Brasil é um país musicalmente muito diverso, que tem tudo, todos os ritmos, e todos eles passam por aquele crivo da brasileirização.

Neste 2017, os Sepultura lançaram o seu 14º álbum de estúdio, Machine messiah, e com isto demonstram que a máquina ainda está azeitada e continua a funcionar. Mas…pode uma banda com 32 anos de carreira ser ainda relevante? Pode, sim, tomando como motivos temas atuais para as suas letras. Este disco é uma referência, segundo diz o seu líder Andreas Kisser, à dependência moderna de gadgets e à subordinação humana a inteligências artificiais.

Por outra parte, os temas políticos não escapam. Na faixa 4, Alethea, há críticas à Lava Jato e da situação da corrupção no Brasil.

Contexto fora, a crítica tem falado bem deste trabalho nos últimos meses. Pelos vistos o álbum supera o Roots de 1996, trabalho que incluiu cânticos de índios xavante e a participação do Carlinhos Brown. O grupo visa tornar este álbum num segundo clássico. O tempo sozinho dirá…

Quanto aos ritmos, o quarteto investe no prog, mas sem descuidar o seu assalto sonoro, esse “maracatu drak” a que estamos habituados.

Estão prontos?

Zuco 103 e Bnegão em Caldas

Num novo município, mas com a mesma filosofia: volta o Portamérica.

Havia tempo que este evento tinha sido deixado de parte e agora poderemos desfrutá-lo em Caldas de Reis. Como se fossem bonecas russas, este ano o festival está encaixado dentro do programa do Cultura Quente. Boa cozinha, música e projetos criativos não hão de faltar no carvalhal.

Há pouco vi o programa de um festival galego que se chama Atlantic Fest e fiquei um bocado brava…porque realmente o catálogo de artistas não tinha nada de atlântico. O Portamérica visa ser um portal entre a Galiza e a América Latina e realmente cumpre essa promessa. A proposta lusopata deste ano faz-me muito (muito) feliz. Temos duas bandas bué de fixes: Zuco 103 e BNegão & Seletores de Frequência.

Zuco 103 não é uma banda brasileira…e tanto faz! Radicados na Holanda e com líder brasileira (Lilian Vieira) o grupo tem influência de electro-pop, samba e bossa nova. “Outro lado”, “Treasure” ou “Nunca mais” foram os meus mantras universitários, numa fase de música eletrónica que eu tive (quem nunca…?). Eles são os criadores de um estilo novo: o brasilectro.

Deixo-vos com o vídeo de “Na Mangueira”. Podem permanecer com os pés quietos? impossível!

Bnegão poderia ser confundido com uma sigla política, mas é o nome artístico do carioca Bernardo Santos. O rap e o hip hop são a sua praia. Ele foi, junto com Marcelo D2, um dos vocalistas do grupo Planet Hemp, lembram-se? Quando largou a banda fundou BNegão & Seletores de Frequência, desta vez misturando rap, hardcore, dub e funk, com letras carregadas de crítica social.

Ouçam, na íntegra, o álbum Sintonize lá.

E esta toda maravilha quando vai ser? esta sexta!

 

“Mãe” de Paulo Silva Trio

Paulo Silva é um percussionista brasileiro que leva mais de dez anos connosco. É fácil vê-lo acompanhar a Uxia, Sérgio Tannus, The Lakazans…porque é desses músicos virtuosos e com um registo amplo. Neste ano, o Paulo Silva descolou. Começa um projeto próprio com dois grandes músicos da Galiza: Valentín Caamaño e Alberte Rodríguez.

Paulo Silva Trio lança amanhã Mãe na sala Riquela às 22h em Compostela. Este vai ser o início de uma digressão de concertos que levarão por toda a nossa geografia o bom fazer destes rapazes.

O nome do disco, Mãe, parece um regresso às essências, uma sorte de anagnórise. Habituados/as como estamos a ver o Paulo interpretar todo o tipo de estilos, teremos agora que ouvi-lo na pureza de um único ritmo: o jazz. O repertório é de reinterpretações de clássicos do jazz norteamericano como Isfahan (Duke Ellington), Birk Works (Dizzy Gillespie) ou Body and Soul (Johnny B. Green), mas isto tudo é também misturado com temas de criação própria.

Podem ouvir o disco nesta ligação do Spotify, mas se eu fosse a vocês, ia amanhã ao Riquela.

Ceumar em Compostela

Nascida em Itanhandu, Minas Gerais, numa família de músicos, a Ceumar apaixonou-se logo pela música. Estudou piano e teoria musical na infância e começou a tocar violão aos 16 anos. Entrou na Fundação de Educação Artística de Belo Horizonte e lá estudou canto.

O seu primeiro disco, Dindinha, foi produzido por Zeca Baleiro. A partir daí chegaram 5 discos mais com colaborações de Chico César, Alice Ruiz, Tata Fernandes…

Em 2009 mudou para a Holanda, onde mora atualmente e lá gravou Live in Amsterdam em 2014. A cantora tem-se apresentado em turnês e projetos internacionais ao lado do pianista jazzista Mike del Ferro.

Silência é o seu sexto trabalho e entre cada faixa revela momentos de uma fase de reflexão e descobertas pessoais e espirituais.

No dia 28, esta quarta, estará na Casa das Crechas em Compostela.

O Douro na Ribeira Sacra

A vida pode ser maravilhosa e para aquelas pessoas que amam vinho, ainda mais.

Entre hoje e amanhã haverá em Monforte de Lemos várias iniciativas em volta desta inspiradora bebida, porque, já sabem a coisa como é o bom vinho, solta as línguas e os corações. E tal como nas melhores comunhões, da boa mesa saem as melhores iniciativas.

Hoje podem ir à apresentação do livro Galegos do Douro de Alberto Alves, à projeção do documentário Gigantes do Douro de André Valentim Almeida e…não podia ser doutra maneira, uma cata de vinhos e azeite.

Para fechar com chave de ouro, amanhã há um concerto de Sons do Douro e também venda de livros da livraria Traga-Mundos.

Brindamos?