Fogo, Incêndio e Lume

É duro ter um blogue desde 2011 e ter um rascunho aí na gaveta. É pertinente? É oportuno? Interessa? Mais duro ainda é que todos os anos haja motivo para publicar este artigo.

Deixando de parte o tema das causas e responsáveis, vamos ao estritamente linguístico, porque acho que nem merecemos uma terra queimada nem uma língua queimada.

Três conceitos então, gente!:

  • Fogo: é a manifestação da combustão, seja ela por causas naturais ou humanas. Usamos esta expressão normalmente no singular. Quando usada no plural, tem a ver com jogos de artifício: foste ver os fogos do 25 de julho?
    • Em Portugal, no singular, é também uma interjeição de surpresa ou indignação: 3 euros por um café? fogo!
    • Outra dica mais para quem quiser aprender fonética do português: é também dessas palavras como olho/olhos. Com O fechado no singular e O aberto no plural.
    • Palavras da família: fogueira, fogão, foguete…
    • Verbos para fogo: atear, lançar, cessar, ativar, avivar…

 

  • Incêndio: é um fogo fora do nosso controlo, um fogo que devora. Uma catástrofe natural em muitos dos casos. É um substantivo contável, isto é: podemos dizer Um incêndio, Dois incêndios, Três…por isso tem também plural. Esta contagem conhecemo-la bem de um e outro lado do Minho.

 

  • Lume: é um fogo doméstico, controlado, para uma utilidade. O lume da lareira, por exemplo, que dá calorinho e luz.
    • Umas expressões:
      • dar a lume, que significa “publicar”. Terá a ver com dar à luz no sentido de parir? claro que tem!
      • lume brando: cozinhar os alimentos pouco a pouco, com um calor de baixa intensidade.
    • Palavras da família: luminária, vaga-lume…
    • Verbos para lume: acender, apagar…
    • Provérbios: Não há fogo sem lume. Se as duas palavras aparecem num ditado popular, será então que não são sinónimas totais, não acham? O ditado fala de algo que começa governado e termina por se desgovernar…

Em definitivo, eu gosto de lumes nas lareiras, quero sim que haja lumes. Não gosto é dos incêndios nem de queimar os registos da língua com cada fogo.

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O dia em que a morte sambou

Chega o programa dos Galicreques, por melhor dizer, chegou. Não cheguei a tempo a anunciar os eventos de Compostela, mas ainda vou a tempo de vos dizer o que se vai passar na Corunha. Amanhã na Sala Gurugú às 18h30 poderão ver a peça brasileira de teatro infantil O dia em que a morte sambou.

O filho de Valéria e Habib explica tudo com muito jeito neste teaser.

Estão a ver então que O dia em que a morte sambou é também um livro que foi levado aos palcos pelos próprios autores: Habib, escritor e Valéria, artista plástica. Ansiosos em preservar a poética da obra original na encenação, escolheram a linguagem do teatro de bonecos de sombras, uma das formas mais antigas e belas de teatro de formas animadas.

Esta família é quase como aquela The Kelly Familiy da década de 90. Eles fazem tudo! A trilha sonora, que vai da música tradicional da Bretanha ao Maracatu de Baque Solto e Cavalo Marinho de Pernambuco, é executada ao vivo com violino e escaleta por Valéria, enquanto Habib manipula os bonecos, cujas sombras conversam, andam, brincam e dançam, não somente no cenário, mas também pelas paredes, chão e teto da sala.

E qual é o argumento? Seu Biu é um velhote que mora sozinho, canta, brinca, dança e está em sintonia com a natureza apesar das críticas que rebece. Um dia a morte vem por ele…mas será recebida de um modo inesperado.

Vamos?

 

Quatro ilustradoras no Caminho da Costa

Confesso que odeio coisas que tenham a ver com o Caminho de Santiago. Não sei se por viver numa das ruas mais transitadas por caminhantes ou porque também me atingiu a moda de ser uma hater do turismo. Sei lá, gostava de um outro modelo para a minha cidade, ou talvez de outra focagem do Caminho.

Este evento que vos apresento é desses que ainda me dão esperança. Vejo isto e digo: o pá, o Caminho até pode não ser piroso.

De 26 de junho a 5 de julho quatro ilustradoras (duas delas portuguesas) fizeram o percurso do Caminho da Costa: caminharam do Porto a Compostela. Imortalizaram a sua visão em desenhos que agora poderemos ver a partir do dia 20 numa exposição na Galeria Sargadelos de Compostela.

Falo-vos então das duas desenhistas portuguesas um bocado:

  • Fernanda Lamelas: é uma arquiteta que adora desenhar. Já tem feito várias exposições e colaborou como ilustradora em diversas publicações e em livros como Palácios e Casas Senhoriais de Portugal.
  • Teresa Ruivo: junto com a Fernanda Lamelas faz parte da direção de Urban Sketchers Portugal. Ela é psicóloga. Começou a trabalhar com cadernos há três anos e, sem dar por isso, esta ocupação foi conquistando cada vez mais tempo da sua vida. Desenhar contigo é um projeto muito giro que ela desenvolve, onde usa o lápis como terapia com rapazes oncológicos.

Há uns meses recomecei a pintar. Optei pela técnica da aquarela e tentei ler livros sobre materiais e aquarelistas. Não demorei em descobrir que a aquarela é considerada a irmã pobre da pintura e que…mulheres nem vê-las nos livros. Visibilizar os rascunhos, a aquarela e as mulheres na ilustração…é, com certeza, um bom caminho.

No dia 10 de novembro estarão na Lila de Lilith para apresentar o livro que foi resultado desse intercâmbio. Eu vou!

 

Oquestrada em Ferrol

 


O ciclo Na raiz continua a dar grandes concertos. Desta feita, vêm os Oquestrada, que já tinham estado connosco no Festival de Pardinhas de 2015.

Recentemente, tenho falado muito com amigos e amigas sobre as etiquetas “música tradicional” vs. “música popular” e parece que esta banda é que nem uma luva para ilustrar o último dos conceitos.

A banda de Almada reinventa a música popular, aquela que é cantada nas tascas, como ninguém. Em 2011 iniciaram uma tour europeia com o seu disco Tasca Betat e não pararam mais. Segundo o Jornal Tornado “A banda OqueStrada iniciou em 2001 um poderoso movimento acústico que deu cartas para criar um novo paradigma na estética musical portuguesa. Canções como “Oxalá Te Veja”, “Creo cariño” e “Se’sta Rua fosse minha” (o seu frankestein popular) giram desde essa época em gravações de culto pelo país.

Chegaram um ano depois ao mais alto quando foram convidados para cantar no concerto dos Prémios Nobel da Paz. Foram os primeiros portugueses a atingir esse patamar. Em palavras dos artistas, eles “desbravaram muitos caminhos”.

O seu mais recente trabalho é de 2014: AtlanticBeat Made in Portugal. Imagino que com estas canções animarão o concerto desta sexta-feira em Ferrol no Teatro Jofre.

Portugal em contexto

De 16 a 19 de outubro decorrerá na UdC o ciclo de palestras Portugal em Contexto.

O evento visa dar uma visão de Portugal que complemente, atualize e contextualize os estudos de português na Galiza, quer sejam universitários quer de ensino médio.

Os temas que serão tratados são muito diversos, de história e cidadania a literatura, de didática a dramatúrgia. Podem ver o programa na fotografia.

Então, se estiverem interessados/as em conhecer um bocado mais o país luso, vão lá, mesmo que não sejam estudantes ou professores!

Curtocircuito 2017

Não é fácil fazer um artigo agora. Começa hoje o festival de cinema em pequenas doses mais importante de Compostela: o Curtocircuito. Curto-circuito é quase o que está a acontecer hoje, quando o colapso político do Estado Espanhol é notável. Quero mesmo que a energia catalã possa fluir com normalidade e que o Curtocircuito seja apenas o nome de um festival.

Então, com o coração na Catalunha, vamos aí com a nossa seleção, tintim por tintim. Onde temos mais para escolher é na secção Radar:

  • Em Radar 1 temos o filme Flores de Jorge Jácome (hoje 20h15 no Teatro Principal). Esta curta portuguesa, que vai ser estreada na Galiza, fala de como a população das ilhas Açores é expulsa das suas terras por causa de uma praga de hortênsias. Essa planta originária do Japão e da China foi trazida no século XIX por colecionadores para os Açores para depressa se apoderar da paisagem das ilhas e foi aqui que hoje aprendi uma coisa nova. Nesta curta, o autor imagina um holocausto floreado.
  • Em Radar 2 (amanhã às 20h15 no Teatro Principal) também temos uma estreia. Os humores artificiais, de Gabriel Abrantes, é uma curta portuguesa que toca temas como a inteligência artificial, o humor e a antropologia. Será que o humor é uma coisa fundamental nas relações humanas?

Este filme foi rodado no Mato Grosso e São Paulo. Misturando certa estética hollywoodiana com abordagens típicas do registo documental, o filme conta a jornada de uma indígena comediante que se une a um robô e conquista a fama na indústria cultural de massas brasileira. A obra, de natureza insólita, coloca em questão os hábitos humorísticos de diversos grupos indígenas. Os resumos que li parecem bem interessantes.

  • Em Radar 3 (depois de amanhã, mesma hora, mesmo lugar) teremos duas obras: Farpões, baldiosCidade pequena. A primeira fita, de Marta Mateus, tem já vários reconhecimentos, entre eles o de ser ganhadora do festival de curtas de Vila do Conde. Trata de como depois da Revolução dos Cravos um grupo de lavradores ocupa as terras que trabalhavam, onde foram submetidos ao poder dos seus amos. Estes lavradores contam a história aos netos e assim a peça tem a força da infância que desbloqueia os sofrimentos, os erros e a virtualidades do passado.

Cidade pequena, de Diogo Costa Amarante, fala do descobrimento por parte do miúdo Frederico das questões da vida e da morte e de como isso lhe deixa um grande desconforto.

  • Em Radar 4 (no dia 5, mesma hora, mesmo lugar) temos uma coprodução Portugal-Moçambique Nyo Vweta Nafta de Ico Costa. Entre Maputo e Inhambane, várias histórias cruzam-se.

Temos também nesta mesma secção um filme brasileiro, Estás vendo coisas, de Benjamin de Búrca e Bárbara Wagner, uma curta-documentário sobre dois cantores brega.

Temos ainda a categoria Explora, onde o cinema mais experimental tem um espaço, outros filmes interessantes:

  • Em Explora 4 podemos ver (no dia 6 às 22h15 no  Teatro Principal) a curta portuguesa Ubi Sunt onde Salomé Lamas cria uma obra híbrida, que cartografa a cidade do Porto, incluindo performances de Christoph Both-Asmus.

Se estiverem cansados/as do espetáculo informativo de hoje, já sabem que ainda podem desfrutar do cinema.

Na cozinha com a língua portuguesa

Uma vez, a propósito das críticas à nouvelle cuisine, ouvi um cozinheiro dizer que o melhor da cozinha da vovó era isso, a vovó. Ele defendia que as avós não é que cozinhassem melhor, mas os sabores que “aprendemos” com elas estão muito associados ao afetivo. É curioso que as línguas recebam esse adjetivo de “maternas”, igual que o leite, o primeiro alimento que levamos à boca.

O português é também um sabor. Não sabe igual o português da Galiza, que o de Angola, Portugal ou Brasil. Cada um com o seu sotaque, cada um com os seus ingredientes.

Lorca Institute, escola de línguas de longa data na capital do país, organiza para o dia 29 do corrente mês um minicurso, ou talvez possamos dizer também convívio, de cozinha portuguesa. Esta sexta, prévia inscrição, poderão aprender português enquanto preparam duas deliciosas receitas da culinária portuguesa: o bacalhau à Bras e as amêijoas à Bulhão Pato. Há ainda uma parte bem doce, reservada para o final: sobremesa de pastéis de nata, café português e dois dedos de conversa.

Aquelas pessoas que estiverem interessadas ainda vão a tempo de se inscrever em: info@lorcainstitute.com

Bom apetite!

 

Mû Mbana em Ferrol


Mû Mbana é um cantor, compositor, multinstrumentista e poeta natural da ilha de Bolama, na Guiné- Bissau. A sua paixão pela música começa logo na infância onde começa a investigar sobre ritmos e tradições: cresceu influenciado pelos cânticos religiosos das mulheres das etnias brame (Mancanha) e bijagós (Budjugo)

Anos depois, começa a viajar e experimentar e funda Nemfen, um trio de jazz-fusion.

É bem difícil exprimir com palavras a música e no caso de Mû Mbana, a coisa ainda vira mais complicada, porque ele tem uma rede de ritmos e pegadas culturais que se entrecruzam.

No dia 15 de setembro atuará no Teatro Jofre de Ferrol e interpretará canções do seu último álbum, Iñén. Uma oportunidade única para ouvir 10 temas compostos por ele e também para conhecer novos instrumentos “Depois de muito tempo de reflexão e pesquisa, notei que era possível recuperar o ‘simbi’ que é um instrumento balanta e ‘Tonkorongh’ um instrumento mandinga, fula, felupe, manjaco e bijagó. Todos os grupos étnicos que constituem a nação guineense têm instrumentos musicais fabulosos que podem ser usados para produzir a música. Se não fizermos isso, ou melhor, se ignorarmos esses instrumentos musicais, isso quer dizer que deixamos a nossa cultura e a nossa poesia”

Wos 2017

Hoje começa mais uma edição do Wos em Compostela. O Wos é um espaço de encontro de cultura alternativa com caráter anual. Cada ano reunem-se em Compostela pessoas do mundo da música, artes plásticas e cénicas.

Este ano temos na cidade a quarta edição e, como já fiz a minha própria navegação pelo programa, posso-vos dar a proposta lusópata. Espero que estejam prontos para começar:

  • HHY and The Macumbas chegam hoje do Porto para partilhar connosco o seu som entre vodu e dub. HHY é um instrumentista e produtor que unido aos The Macumbas cria um ritmo novo de percussão que agita qualquer corpo.

https://youtu.be/XzXYgrharhA

  • Amanhã vêm da aldeia do Fornelo, Portugal, os Sensible Soccers. Famosos pelos seus concertos e pela empatia com a empatia com o público, desde 2011 são considerados uma banda de culto.


Este trio faz sobretudo música instrumental, mas sem esquecer a experimentação com sintetizadores. Villa Soledade foi o seu último disco e primeiro sem o baixista Emanuel Botelho. O título do álbum remete para uma casa na estrada nacional que vai de Vila do Conde para Santo Tirso, dessas que uma pessoa vê e recorda por exóticas na construção. Mas o disco não vai sobre esta casa, obviamente. Relatam aqui, de uma maneira íntima, a relação que existe entre as pessoas e os ambientes, por vezes deprimentes e por vezes cheios de esperança.

https://youtu.be/ge23rj72wcQ

Apanhem os seus óculos de massa e deixem barba, que o Wos vai começar.

Festival de Poesia no Condado

Entre 1 e 2 de setembro decorre um dos festivais mais representativos do fim do verão, porque…assumamos…as férias não vão durar sempre. O Festival de Poesia no Condado não é apenas a maior mostra de lírica do ano, é um evento multidisciplinar: audiovisual, artesanato, exposições e música.

Amanhã, dia 1, teremos em Salvaterra às 20h30 a apertura de exposições que contam com projetos de Clara Não e Mariana Malhão entre outras. Clara Não é uma ilustradora, escritora, desenhista, escultora e performista do Porto. Mariana Malhão é desenhista e ilustradora de Coimbra. Deixo-vos com uns exemplos dos seus trabalhos que para mim foram um achado, agora que voltei a brincar com a minha caixinha de aguarelas e que ando na procura de referentes femininos.

Já na noite às 23h poderemos ir ao concerto dos Baleia, baleia, baleia. Esta banda do Porto faz música tipo punk-rock e foi para mim uma coisa nova.

Li sobre eles que «pegam nos elementos mais alegres e coloridos que o rock alguma vez engendrou, agitam-nos numa garrafa com gasosa e tiram a tampa para molhar toda gente». Promete dar barraca…

https://youtu.be/xP7M8RP4fCc

No segundo dia de festival, entre música e poesia, há a projeção do documentário Mulheres da Raia de Diana Gonçalves às 19h.

Apanhem as suas trouxas e vão lá, que isto vai começar!