Falso amigo: gordo

Não sei se o título do post é o mais apropriado, normalmente começaria com uma história sobre a palavra e as confusões hilárias a que isto nos pode levar. Gordo vem do latim GURDU, e naquela altura significava grosseiro. Na passagem do latim ao romance houve mudanças e ampliação de significados. No contacto que nós temos todos os dias com o castelhano, foram perdidos muitos que hoje quero comentar. Este talvez seja um artigo mais orientado à recuperação de usos.

A palavra gordo é polissémica e, na verdade, naquelas expressões que coincidem com o espanhol e que conservamos não há qualquer problema de falsos amigos…mas pode havê-lo com outros. Prefiro fazer assim uma análise dos seus significados na nossa língua. Gordo pode ser:

  • que tem gordura ou é untuoso. Alguma coisa ou alguém que não é magro.
  • também é dito para coisas de aparência ou textura grossas.
  • chamamos também assim aos dias de Carnaval, por exemplo, terça-feira gorda..
  • popularmente é o nome do dedo polegar.

 

  • é um tipo de leite cuja percentagem de gordura é, no mínimo, de 3,5%. Podem ver o vídeo da Gentalha do Pichel, porque tem que se lhe diga.

A gordura é:

  1. a qualidade do que é gordo.
  2. termo genérico para uma classe de lípidos. Gordura animal, vegetal, saturada
  3. é a parte gorda das carnes. O unto, a banha.

Na verdade, o motivo deste post era comentar-vos que para os prémios milionários da lotaria é usada a expressão sorte grandeComo nesta canção da Ivete Sangalo.

Espero que tenham um Feliz Natal!

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Votar em

As pessoas galegófonas fomos abençoadas nas últimas semanas. Quem se importar com a língua tem visto como nos últimos anos os apoios institucionais foram dizimados nas escolas e outros organismos. As associações que têm a língua como foco sabem disto. Mas nestes dias houve uma volte-face, pequenos gestos que fizeram a diferença. Sabela, uma cantora galega que está a concorrer no programa espanhol Operación Triunfo, decidiu cantar na sua (nossa) língua. Ela é jovem, mulher, galegófona e sem preconceitos. Digo isto último porque para além de cantar na nossa língua, escolheu interpretar uma canção da banda Marful, escrita com as mesmas grafias que eu estou agora a usar. As suas ações deram visibilidade a uma realidade linguística desconhecida por muitos e muitas e também a um modelo ortográfico muitas vezes colocado em questão.
Através dos programas da tv e das redes sociais pudemos ver as reações de quem a ouvia, pessoas de cá e de lá. Fãs até do Brasil e Portugal. Surgiram montes de dúvidas e debates interessantes. É galego? é português? vejam este vídeo do Eduardo Maragoto.

Se calhar pensam que este não é o espaço para este género de coisas, mas queria aproveitar o post para dar os parabéns à nossa Sabela e também, é claro, falar de questões linguísticas. É por isso que vou destacar algumas construções e léxico:

  • VOTAR: o verbo rege a preposição EM. Portanto, Eu voto na Sabela cada dia através da aplicação.
  • ESCOLHER vs ELEGER: Já tínhamos falado nisto noutro post anterior. É só para vos lembrar que não são sinónimos e que há um contexto de uso para cada um deles.

Como neste ano próximo vamos ter também eleições, vou matar dois coelhos de uma cajadada e adiantar algum vocabulário também sobre isto:

  • assento, cadeira: o quociente eleitoral distribue o número de cadeiras ou assentos que irão ocupar os representates políticos, então, os resultados eleitorais são medidos em votos e cadeiras.
  • autarca: é o ou a presidente de uma câmara municipal.
  • autárquicas: são as eleições ao governo da câmara municipal.
  • boletim de voto ou voto: é o papel que depositamos na urna para votar.
  • urna: vaso ou objeto similar onde se recolhem os votos num ato eleitoral, num sorteio, lotaria, etc. As furnas são umas cavernas ou covas naturais, de facto, há várias praias na Galiza e Portugal assim chamadas. O voto é sério não depositem na areia.
  • recenseamento eleitoral: operação para determinar o número de habitantes de um país, cidade, freguesia…para os cidadãos registados terem direito ao voto.
  • vereador, -a: cada um dos membros eleitos para constituírem a câmara municipal.

Votaram já hoje na Sabela? Eu já fiz. Só sonho com que ela chegue a ser presidente!

Veem ou vêm?

Estamos a escrever e temos estas dúvidas com os acentos? fazemos confusão entre uma forma verbal e a outra? Este artigo pode fazer a diferença.

Na passagem do latim ao romance, muitas consoantes mediais que estavam entre vogais desapareceram ou viraram mais fracas, dando lugar a muitos hiatos. Alguns deles fizeram uma crase e outros não. Muito, muito, muito tempo depois chegou o Acordo Ortográfico e alterou algum assunto com a acentuação…mas estamos a meter o carro antes dos bois. Comecemos pelo princípio: o latim.

Numa coisa assim de filóloga de trazer por casa, podem dar uma vista de olhos a este esquema.

VIDERE> Vedere> veer (medieval)> ver

VENIRE> vẽir> vĩir> viir (medieval)> vir

No segundo dos exemplos, o de Vir, podem ver que o que desapareceu foi a nasal intervocálica -N-, mas ao longo da conjugação de Presente ainda podemos ver como existe uma “recordação” dessa nasalidade.

VERBO VER: vejo, vês, vê, vemos, (vedes), veem.

VERBO VIR: venho, vens, vem, vimos, (vindes), vêm.

Isto da nasalidade pode ajudar para uma regra mnemónica: o verbo Vir é o de mais ditongos nasais: ele/ela vem; eles/elas vêm. Recordem que as palavras acabadas em -em também estão a representar um ditongo.

Este verbo fez uma crase na escrita e tem um acento circunflexo no plural para representar que ouve essas duas vogais iguais no passado. Isto acontece igual no verbo Ter, que também teve um -N- na origem: ele/ela tem; eles/elas têm.

No entanto, o verbo Ver tem nas terceiras pessoas este paradigma: ele/ela vê; eles/elas veem. Há um circunflexo também, mas só no singular, porque a vogal é fechada. No plural temos essa duplicidade de vogais, igual que em leem, creem, preveem…

Ainda sentem que isto é uma grande confusão? É, porque realmente a ortografia é uma cena muito arbitrária. É assim escrito, mas bem podia ser de outra maneira. De facto, o Acordo Ortográfico veio a mudar algumas coisas.

Mas não há impossíveis, armei-me em desenhista e fiz esta regra visual que penso pode ajudar.

o verbo Ver olha para ti olhos nos olhos
E o verbo Vir com as suas perninhas de circunflexo tem uns sapatos novos

Está na hora de uma canção de despedida. Deixo-vos com o Jorge Ben Jor, Obá, lá vem ela, uma das minhas preferidas.

Falso amigo: grifo

A mitologia sempre me deu uma sensação ampla de liberdade. Depois da pizza com ananás, as melhores misturas (ou as maiores bizarrices) já foram feitas na época clássica: centauros, sereias, minotauros, sátiros…olhem o que lhes foi dar aos gregos e romanos! Não sei se em crianças partiram alguma vez uma boneca ou boneco e tentaram criar algum engendro com outras peças. Olhem que a coisa não é assim tão fácil. O mix and match pede talento! Hoje estou cá para vos falar dos grifos, porque por acaso foi um erro que corrigi ontem montes de vezes. Tentei desenhar na folha de exame dos meus alunos e alunas a tal criatura e não sei se consegui explicar graficamente com sucesso. Portanto, trago dados e fotografias. Os grifos são animais mitológicos que apareceram em muitas mitologias (até não sei se no Harry Potter), mas foi na mitologia grega onde mais vezes foi descrito de maneira literária. Contudo, as suas origens são ainda mais antigas. Surgiu no Oriente Médio, pois aparece lá pela primeira vez em pinturas e esculturas de persas, assírios e babilónios. E como é que eles são? é uma mixórdia bem interessante: possuem cabeça de águia, têm asas e penas no dorso, mas o corpo é de leão. As patas dianteiras são de águia e as traseiras de leão. Ok, se isto for muita informação e muito Frankenstein, vejam as imagens a seguir.
Estas criaturinhas eram usadas pelos deuses não como animais de estimação, mas para assustarem e protegerem tesouros. Outros hábitos que eles tinham eram: construirem ninhos de ouro, acasalarem com éguas e terem “hipogrifos” e também lutarem contra basiliscos. Os grifos…ai! esses é que viviam em berços de ouro, amigas! Pronto, e como todas as coisas têm uma explicação mais ou menos lógica. Li na net que a origem dos grifos pode estar numa confusão com fósseis de Protoceratops, dinossauros ceratopsídeos que viviam na Mongólia. Talvez não saibam que…sim! os grifos existem no mundo real. Também é chamado de grifo o abutre-fouveiro, ave que podem ver no Parque Natural do Douro Internacional.

-am ou -ão?

Então…quando é que escrevemos Comeram e quando Comerão?

Estas duas terminações podem ser um entrave para quem inicialmente aprende a escrever a nossa língua.  Foneticamente são pronunciadas da mesma maneira e para escrever só podemos ter a ajuda da tonicidade para ter uma ideia mais clara.

Vejam o Genially a seguir, classifiquei alguns casos que podem ser de ajuda. No símbolo (+) há um vídeo explicativo também.

E na minha vontade de querer fazer regras de tudo…há coisas que me escapam e que me tiram do sério: as exceções. Senhores e senhoras académicas: isto…não bate certo. Quando fizeram o AO deviam era ter consertado isto. Se o til de nasalidade é marca também de acento…o que é que se passa com estas palavras? Para mim isto é um início de TOC. É como ver a caixa de plastidecor desordenada ou ver uma sarjeta colocada ao avesso. Estou a falar de substantivos que não seguem essa regra de para tónico -ão e para átono -am. Por exemplo, substantivos próprios como Cristóvão, Estévão, Pedrógão Grande e também comuns órgão, órfão, bênção, acórdão, orégão.  Irritam-vos tanto como a mim?

 

 

5 dicas para uma acentuação intuitiva

Um desses óssos de aprender a escrever foi sempre a acentuação. Este post vai para aquelas pessoas que começam a dar os primeiros passos na ortografia internacional e sentem isto como um grande desafio. Sei que não estou a dar uma fórmula mágica, mas podemos entender esta publicação como umas regras para darmos menos erros.

Parece mentira, mas não é: o português foi feito para usarmos os menos acentos possíveis, acreditem. Normalmente, acentuamos (dentro das possibilidades) os grupos de palavras minoritários dentro da língua. Isto é, existem mais palavras como fazia, comia, pedia (pensem em todos os Pretéritos Imperfeitos!), Maria, democracia do que memória, história, vitória e é por isso que o português acentua estas últimas, para poupar-nos o trabalho.

O meu Genial.ly foi feito nessa chave: não sabes o que é significa Oxítona e Proparoxítona, não percebes patavina, mas queres acentuar na mesma. Começa então com estas dicas, carrega nas setas para veres mais!

Outro dia falar-vos-ei dos tipos de acentos e para que é que serve cada um. Fiquem com isto por enquanto.

Infinitivo Pessoal

O Infinitivo Pessoal é um desses traços definitórios da nossa língua. Durante anos estudamos muitas vezes este item gramatical na escola, mas infelizmente na prática o seu uso é muito marginal nas falas galegas. Acontece sempre com os elementos mais diferenciadores: são os primeiros em desaparecer pela pressão da língua dominante.

Tentei colocar nesta infografia umas dicas úteis para começarmos a utilizar esta forma verbal um bocadinho mais.

As minhas apps favoritas

Atualmente estou a trabalhar no ensino secundário. Voltei e confesso que tenho saudades de certas coisas do meu trabalho anterior. Criar o meu próprio método de trabalho, acompanhar mais pessoalmente o progresso de cada aluno/a, fazer mais atividades lúdicas ou fora da escola e…usar o telemóvel para aprender.

Normalmente, nos liceus da Galiza este aparelho não é permitido nas aulas e eu vinha de ter outro método onde permitia (ou até encorajava) o uso de telemóveis para o aprendizado de português. Os temas do bullying, a privacidade, etc…têm afastado a net das escolas. Se a escola deve ser um reflexo da sociedade, afastar os telemóveis é um erro grave. Estamos a criar uma ficção.

Quando usamos o telemóvel podemos escrever e conversar. Isto quer dizer que nesse pequeno aparelho estamos a praticar a compreensão escrita, compreensão oral, expressão escrita e expressão oral. O telemóvel tem-se convertido nos últimos tempos também num recurso para aprender e parece que os professores/as ainda não tenham reparado nisso.

Primeiramente, ter o menu do telemóvel em português pode ser um bom início.

Vou-vos dar uma lista das minhas apps favoritas, aquelas que eu tenho ou que usei alguma vez nas aulas. Espero que gostem!

  • Dicionários:

-Priberam: Tem também uma app para telemóveis

  • Jogos:

-Akinator: o clássico jogo de computador tem também uma app. Um génio numa lâmpada desafia-nos. Temos que pensar numa personagem e ele com perguntas vai adivinhar quem é que é.

-Apalavrados: o clássico Scrabble.

-eTabu: um jogo onde os participantes de duas equipas adivinham as palavras-chave apresentadas pelos seus companheiros, que não podem usar as palavras ou gestos proibidos.

Dark Stories: um jogo onde temos que resolver crimes ou histórias enigmáticas. Ideal para uma tarde com os amigos/as.

Kahoot: se gostam do jogo com o computador, não duvidem em descarregar a app. Com ela podem seguir kahooters famosos/as, fazer desafios com os amigos/as e jogar mais kahoots interessantes.

Letrix: é um jogo que combina o Tetrix com o Scrabble e chega a ser muito viciante.

-Misturadinhos: um tabuleiro com letras misturadas. Temos que selecioná-las num tempo recorde e formar o maior número de palavras possível.

-Perguntados (Trivia Crack): um jogo tipo trivia onde podemos jogar contra adversários reais aleatórios. Nós também podemos criar ou traduzir as perguntas da comunidade.

Pictionary: dos criadores da app anterior. Este jogo permite desenhar com lápis, caneta ou marcador conceitos. O nosso adversário recebe-os no seu telemóvel e tem de adivinhar.

-Quizz up: é também um trivia, mas com montes de categorias, muitas delas bizarras: Simpsons, frutas, futebol, logótipos…

  • Métodos para aprender idiomas:

-Busuu: é como a página da net. Tem opções de conversa.

-Duolingo: tem uma prova de nível antes, o qual é bem prático. A partir disto abrem-se unidades que também são reguláveis quanto ao ritmo e periodicidade.

-Mondly: cada dia abre uma lição de graça. Também com opções de conversa.

  • Literatura:

-Aldiko Book Reader: uma app para levar livros no telemóvel.

  • Música:

-Rádio Comercial: a app da rádio Comercial. Podem ouvir música ao vivo e acompanhar as letras no aplicativo. Além disso, há podcasts dos melhores programas.

-Spotify: podemos acompanhar muitas listas. Recomendo Digster à Portuguesa, dá uma visão geral da música que está a ser criada em Portugal no momento.

-Yokee: um karaoke para cantar canções do Youtube. Permite gravar a nossa voz e carregar a nossa “criação” nas redes sociais.

  • Outras:

-Bring! Lista de compras: uma app para criar listas para fazer as compras. Podemos aprender muito vocabulário das comidas, roupas, produtos de limpeza e higiene…

-SimSimi: é um chatbot que, através de um acervo de frases em constante crescimento, conversa com os seus visitantes. Promove boas risadas. É possível ensinar o sistema como responder a determinadas perguntas, restringir o uso de palavrões, customizar o seu layout e alterar o idioma para português – são mais de 40 línguas no total.

MadLipz: transforma cenas de filmes e séries: dobra-os ou legenda-os! É criativo e engraçado.

Falso amigo: pastilha

Como alguém começou a mascar pastilhas? ninguém tem certeza de quais foram as origens.

Sabemos, sim, que a pastilha elástica já era conhecida desde as antigas civilizações. De facto, é um hábito tão espalhado que na nossa língua temos até três nomes para o mesmo conceito: pastilha na Europa, chiclete no português do Brasil (de origem náuatle) e chuinga em Moçambique e Angola (uma adaptação da expressão chewing gum).

Algumas pessoas afirmam que o hábito de mascar pastilhas surgiu entre os índios da Guatemala, que mascavam uma resina extraída de uma árvore chamada chicle com a finalidade de estimular a salivação. Outras, que o hábito surgiu entre os maias, no México, e ainda há quem diga que a coisa vem dos astecas.
Na Antiga Grécia, também mastigavam a resina de uma árvore como forma de escovar os dentes e melhorar o hálito.

Industrialmente só podemos começar a datar o surgimento das pastilhas em 1800. Uns anos depois foi descoberta uma parafina doce que suplantou o sucesso da resina. Em 1860, Antonio López de Santa Anna, mexicano exilado nos EUA, trouxe para a América do Norte uma resina nova e mais cremosa feita com derivados do látex à que chamou de chicle. Depois juntou-se ao inventor Thomas Adams, e os dois melhoraram a fórmula acrescentando licor. Contudo, considera-se que William F. Semple é o inventor, pois foi ele quem a patenteou em 1869.

No princípio do século XIX chegaria a bubble gum criada por Walter Diemer, a primeira pastilha que permitia criar bolinhas.

Mas foi com as duas grandes guerras que se espalhou o sucesso do produto, em grande parte porque começou a ser vendido com fins terapéuticos. Acreditava-se que mascar podia aliviar o stress de vítimas e aumentar a concentração de soldados.

O aumento da popularidade do produto fez com que aparecessem novos tipos: sem açúcar, novos sabores, em drageias…

E se viajar a Singapura não leve pastilhas! é proibida a venda e consumo. A cidade é tão limpa que o turista que for apanhado com pastilhas pode até ser detido.