Palavras russas no português

Poucas vezes saio do meu mundo, mas das vezes que consegui e tive vontade (estas duas condições nem sempre apareceram juntas) faço um artigo sobre língua X e português.

Este verão vou de férias à Rússia e decidi investigar um bocado. Quis ver quais eram as palavras russas que eu conhecia, ou por melhor dizer, dar um explicação dessas palavras russas que estão na nossa língua.

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balalaika: o instrumento é um símbolo nacional russo. A forma e o som pode fazer-nos lembrar um banjo, mas a balalaika tem uma caixa triangular.balalaika_prima_deluxe_variegated_1

Deixo aqui uma ligação de uma das minhas bandas portuguesas de preferência, Anaquim. Balalaikas é o nome da música!

bistrô: Ok, vão dizer, não é russo, é francês!. Eu sou uma bon vivant e sei muita coisa de restaurantes e de comer bem. 

Bistrô é um restaurante pequenino, de poucas mesas, singelinho e confortável. A palavra tem uma origem um bocado obscura. Vou-vos dar a versão que diz que vem do russo, a propósito deste artigo.

Há quem diga que os militares russos, ao invadirem Paris, exclamavam “bistrô! bistrô!” ao atacarem os cafés da capital francesa; isto é pela presença do termo ‘bystro’, que tem o sentido de ‘rápido, rápido’, no russo.

-blini: ora bem, não sei se esta palavra é dessas típicas que toda a gente conhece, eu tentei fazer uma vez este prato…e tive pouco sucesso ou nenhum, por isso o termo ficou gravado no meu cérebro. Alegadamente o processo de preparação não tem muita dificuldade, mas eu sou um pé de chumbo na cozinha. A língua russa possui uma expressão “fazer como blini”, que na Galiza poderíamos traduzir como “fazer cestos”:  fazer algo rápido e em grandes quantidades.Blini4-small2

Blinis são como crepes, ou talvez sejam mais parecidos com as “filhoas” galegas. O prato é muito antigo, era já cozinhado em território russo mesmo antes da chegada do cristianismo.Nesse período pagão cheio de simbolismo, os blinis com a sua forma redondinha representavam o sol e estavam na mesa em muitos rituais. Recorda-vos isto a alguma coisa cristã? Estes crepes são imprescindíveis na festa de Maslennitsa, que marca o fim do inverno e a memória dos recém-falecidos membros das famílias russas, uma coisa assim como os nossos Defuntos.

bolchevique: estudei COU e passei logo a conhecer a palavra, planos de estudos antigos criavam intelectuais, amigas. Saudades!

Aquelas pessoas que pertenciam ao Partido Comunista, partido único na União Soviética, eram chamadas de bolcheviques. Num dos assuntos que o partido discutia, o grupo liderado pelo Lenine atingiu a maioria de votos e a palavra foi assim usada para se referir a todos os aliados do futuro líder soviético. Aos poucos, “bolchevique” foi usado como sinónimo de “maioria” e “menchevique” como sinónimo de minoria.

Nos primeiros tempos do bolchevismo, em Portugal não era usado o termo Bolchevique e estas pessoas recebiam no nome de maximalistas.

-gulag: é a abreviação para “Diretoria Geral de Campos de Prisoneiros”, criada na década de 1930. Criminosos e presos políticos cumpriam uma mesma “condenação”: realizarem trabalhos duríssimos. De facto, o termo passou a usar-se como sinónimo de repressão política ou pena de morte.

-kalachnikov: criada por Mikhail Kaláchnikov quando tinha 20 anos de idade, é uma das armas mais famosas do mundo. A sua designação oficial é  AK-47.

Esta é uma das palavras que oxalá não se tivessem inventado nunca.

-matriochka: quem não conhece estas bonecas? quantas vezes nos serviram para fazer um símile! Realmente, esta é a primeira imagem que me vem à cabeça quando penso na Rússia.

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O mecanismo destas bonequinhas é muito conhecido e acho que todos e todas em crianças tivemos um brinquedo parecido. Eu tinha uns cubos que dentro tinham outros cubos…também tive um hipopótamo assim. Tempo depois, alguém me comprou uma Matriona. Na verdade, a boneca chama-se assim, Matriochka é só o seu diminutivo.

O número de figuras que se conseguem encaixar é, geralmente, de 6 ou 7, ainda que existam algumas com um número impressionante de peças.

A sua forma é simples, os membros são pintados. De facto, a sofisticação das matriochkas reside no virtuosismo de quem pinta.

O design pode ir do mais folkie dos vestidos das mulheres russas até este exemplo dos grandes líderes. Engraçado, pois não?

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A origem da boneca está noutro país que adoro: o Japão. No século XIX chegaram à Rússia uns brinquedos desmontáveis japoneses que foram a “semente” para a criação destas bonecas.

-pogrom: vamos com um pouco de Filologia. A palavra provém do verbo gromít que significa “destruir, liquidar”, e disto derivou o significado atual: uma ação de extermínio contra um grupo concreto de pessoas: assaltos, destruição de casas, empresas, edifícios de culto religioso. Os pogrom mais populares foram contra os judeus, mas hoje, infelizmente, acho que todos e todas temos na cabeça infinitos exemplos atuais.

sputnik: Cada vez que ouço esta palavra, penso num dos meus filmes favoritos, Adeus, Lenine! e da corrida aeroespacial. O termo significava literalmente “companheiro de viagem”, mas depois de a URSS ter lançado o primeiro satélite, foi adquirindo outro valor semântico tal e como o conhecemos hoje.

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Jornal russo fala do lançamento do Sputnik

-tróika/tróica: é uma carruagem ou grande trenó russo, puxado por três cavalos. Apareceu na Rússia em meados do século XVIII, para ajudar no serviço postal e atravessar longas distâncias.

Hoje o uso desta palavra é um bocado uma alegoria. Usamos tróica para nos referir a um conjunto de três pessoas ou entidades com uma finalidade política. A palavra era usada para designar alianças dos líderes na União Soviética: os três supremos chefes dos estados comunistas, o chefe de estado, o chefe de governo e o líder do partido.

Na Europa atual esta união é formada pelo  Banco Central Europeu, o Fundo Monetário Internacional e a Comissão Europeia. É uma forma moderna de triunvirato.

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Que se lixe a tróika! Queremos as nossas vidas! é um movimento social português que nasceu em 2012 contra as medidas económicas do governo português. Convocaram uma manifestação que levou um milhão de pessoas às ruas, em várias cidades portuguesas, e em Lisboa foram mais 500 mil pessoas num protesto nacional contra as medidas de austeridade. Este movimento foi a inspiração para o dos Indignados em Espanha.

E o povo, pá? de Homens da Luta, o Grândola do Zeca, ou Que Parva que eu sou dos Deolinda foram o hino de muitas pessoas durante as manifestações.

tsar, csar ou tzar: outra dessas palavras do COU. Ai, COU, quanto me deste!. Nesse ano estudei coisas deste império que agora começo a lembrar graças à minha viagem.

Tsar é uma versão reduzida da palavra latina caeser, introduzida ao vocabulário popular em 1547 por Ivan, o Terrível. É o título oficial do monarca russo.

Rússia é um país de dinastias. No período entre 1613 e 1917, quem governava eram os Roamnov. O primeiro tsar desta família foi Mikhail Fiódorovitch e o  último Nikolai II, que abdicou do trono em 1917 a favor do seu irmão mais novo Mikhail, que, mesmo seguindo o exemplo do Nikolai e recusando-se a ser o próximo monarca, é formalmente considerado o último tsar russo.

Os Romanov têm aquela coisa charmosa e misteriosa.

O íman das lendas urbanas é forte e acho que todos e todas alguma vez colocamos alguma hipótese sobre o que deveu de ter acontecido com a princesa Anastásia.

vodca/vodka:a vodca é uma popular bebida destilada russa que surgiu no século XV. É a bebida nacional, sem dúvida nenhuma.

O nome vodca é o diminutivo de água (“aguinha“) em várias línguas eslavas, mas não há muito consenso quanto à origem etimológica disto, pode ser um acaso, um caso de homonímia.

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A vodca é um destilado obtido a partir de arroz, cevada, milho, trigo, centeio, ervas, figos ou batatas, fermentados. Cada”ingrediente base” dá à bebida um sabor e qualidade diferentes. A fórmula também varia em cada região, como acontece com o nosso licor café. Popularmente, a vodca tem 40% de teor alcoólico, mas a sua graduação pode variar entre os 35 e os 60%.

 

Agora é a minha vez de aprender palavras novas. Adeus, Galiza! до свидания , Галисия, do svidaniya , Galisiya

 

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Os cafés

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Este é um artigo de auto-ajuda. Até porque eu nunca sei explicar isto, para quem não é consumidora de café é muito complicado fazer uma aula sobre os cafés em Portugal.
À semelhança de outros países, Portugal tem a tradição dos cafés. Em muitas vilas e aldeias do país há sempre um café central, bem como no centro do burgo que nos dá logo a perceção do encontro. Mas há cafés e cafés…Uns mais simples e outros mais elegantes ou com mais história.
Aconselho-vos vivamente a visitarem o Majestic, no Porto e a Brasileira, em Lisboa. Símbolos de cada uma destas cidades e quase a segunda casa de intelectuais, escritores, políticos, pintores…
Mas vamos ao ponto: a bebida. O café em Portugal é um elemento definitório nacional, ou mais do que isso, uma paixão. Qualquer estrangeiro que vá a Portugal poderá ficar um pouco perplexo com a enorme variedade de cafés que são pedidos num café ou numa pastelaria.
Eu não sou grande apreciadora de café, mas reconheço que quando vou a Portugal caio na tentação e aos meus lábios chega alguma chávena com aroma delicioso.
Entre os meus alunos e alunas existe a brincadeira de dizer que para saber pedir um café em Portugal faz falta obter um C1 do Instituto Camões. Passe a ironia, o assunto não está fácil para quem está a aprender porque existem diferenças entre o Norte e o Sul do país nos nomes, diferenças de nomes quanto a recipientes, temperaturas, quantidades…
Vamos então por ordem alfabética.
Abatanado: é um café um bocado polémico. Cada cabeça, sua sentença. Na minha opinião é como se bebêssemos duas bicas numa chávena maior.
Há quem diga que são duas bicas mais um bocadinho de água, outros dizem que é uma bica com um pouco de água. Também ouvi que é o mesmo que um duplo, que é um sinónimo de meia-de-leite…enfim…

 

Bica (no sul) e Café ou Cimbalino (no norte): é quase como um shot de cafeína. Pede-se uma bica quando se quer beber um café numa chávena pequena. Esta é, com toda a certeza, a modalidade mais tradicional e frequente.

Reza a lenda que o nome surgiu do café “A Brasileira” (logo no seu início), ao ver que as pessoas não gostavam tanto da tal bebida amarga, decidiram colocar na rua um aviso: “Beba Isto Com Açúcar”.

O nome “cimbalino” vem da marca de máquinas de café Cimbali, que foram as primeiras a serem introduzidas no país. Se estiverem por Compostela, a máquina do café Venecia é esta mesma, não admira que este bar seja conhecido na cidade por servir um dos melhores cafés.

 
Café cheio/curto: Um café cheio é uma bica com um pouco mais de café na chávena. Um curto é um café ainda mais forte que a bica.
Café com cheirinho: é desses nomes de café deliciosos. “Cheirinho” é umas gotas de “bagaço” (aguardente). Pode ser tomado até como digestivo, como fazemos na Galiza.
Carioca: é um “segundo café”: ao colocar-se o grão na máquina, tira-se um café mas não se enche a chávena. Só depois é que se tira outro café, com os mesmos grãos, mas desta vez vai sair mais fraco, pois foi tirado um antes, e aí sim, serve-se na chávena.
Descafeinado: é o café sem cafeína, para aquelas pessoas que querem dormir bem. Por vezes até ouvi “Nescafé”, assim com o nome da casa comercial.
Duplo: São dois cafés numa chávena maior do que a da bica. Bom, isto não é bem um “tipo” de café, é mais um tamanho, por melhor dizer…
Galão: é um café com leite desses de pequeno-almoço porque geralmente toma-se antes do meio-dia. É habitualmente servido num copo de vidro e desses cafés que quase “exige” uma torrada com manteiga.
Garoto (no sul) ou Pingo (no norte): é uma bica com um pouco de espuma de leite. Um café um bocado mais fraco do que a bica.
Italiana: um café bem forte. É servido numa chávena pequena mas com mais quantidade de café do que uma bica e um pouco menos de água.
Mazagrã: de origem argeliana, é uma bebida fria de café adoçado. É dito que é o “café com gelo original”. Na versão portuguesa podem usam café expresso, limão e rum.
Meia de Leite: é o mesmo que um galão mas em chávena grande e a mistura poderá sair um pouco mais equilibrada nas quantidades do que no galão.
Pingado: é uma bica com uma pequeníssima quantidade de leite frio.
 
Já sentem aquele cheirinho bom do café?
 
 
 

Jantar lusófono e Leo Minax em Lugo

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A associação Cultura do País comemora o 25 de abril com um jantar lusófono na sede da associação e um concerto no Clavicémbalo em Lugo este sábado.

  • Qual é a ementa?

Rissois
Pataniscas
Bolinhos de bacalhau
Francesinha
Arroz Doce

Vinho verde/tinto, cerveja, Sumol e água
Café

Preço jantar+concerto= 15 euros

  • E o concerto?

Conhecemos o Leo Minax por ter tocado na Arca da Noe com anterioridade, recordam-se? O cantor brasileiro voltará a nos deliciar com esse discurso musical próprio em Lugo.

Podem inscrever-se no email culturadopais@gmail.com até amanhã. Prometem que ninguém vai passar fome nem ficar aborrecido.

Podem ver mais detalhes do evento no Facebook.

Réveillon e tradições de Natal

Chega para mim um dos momentos mais esperados do ano: o Natal. Doçaria típica, prendas, ver pessoas que poucas vezes tenho oportunidade de ver no resto do ano…são essas coisas que me fazem gostar da festa. Sei que há quem não goste, mas eu adoro. Até gosto do presépio e dos Reis, sem ser eu uma pessoa religiosa, mas para mim é como uma continuação de andar a brincar com bonequinhos.

Nos outros anos já dei algumas notas culturais sobre o Natal. Neste post quero falar do réveillon e das tradições mais enraizadas de Portugal.

Vamos com o réveillon. Vou dar uma lista de “superstições” deste dia. Que coisas bizarras é que se fazem para atrair a sorte?

Há pequenas coisas que não devem deixar de fazer ao soar das 12 badaladas, segundo as tradições mais enraizadas de passagem de ano:

-Comer 12 passas e pedir correspondentes 12 desejos. Esta e a segunda que vos comento talvez seja a superstição mais conhecida.

-Subir a uma cadeira, porque é sinal de ascensão. Assim progredimos na vida.

-Brindar com champanha.brinde

-Ter uma nota no bolso ou no sapato para garantir a prosperidade económica no resto do ano.

-Fazer barulho com tampas de panelas. Assim afugentamos os espíritos maus.

-Levar roupa interior nova. Mas aqui o consenso é difícil de se encontrar, no que diz respeito à cor. Alguns defendem que deve ser azul, outros de cor vermelha. Supostamente o azul traz boa sorte, o vermelho sucesso amoroso, o amarelo garantias económicas, o branco paz, o verde saúde e o castanho melhora a carreira profissional.

-Dar um mergulho no mar. Carcavelos, Nazaré, Figueira da Foz e Matosinhos ou Vila Nova de Gaia são alguns dos locais que mantêm viva a tradição.

  • OUTRAS TRADIÇÕES que vão do Natal até ao Entrudo.

Como sabem, todas estas tradições têm uma origem pagã e estão ligadas ao solstício de inverno. Algumas delas ficaram no conceito “Natal” outras no de “Entrudo” uma vez que chegou o cristianismo.

Principalmente gosto muito destas últimas. Tenho andado nestes dias a mergulhar na net horas e horas a fio a ver vídeos e ler artigos. Todos muito interessantes. Queria, se me permitirem, monopolizar um bocado o artigo e falar da festa dos Rapazes, porque encontrei um bocado de mim, de nós, nessa celebração.

É em Trás-os-Montes que permanecem mais enraizadas as tradições ancestrais desta épica. A Festa dos Rapazes ou dos Caretos levada a cabo no Nordeste Transmontano é uma delas, com diversos desfiles de mascarados a acontecer em várias aldeias. Na verdade, eu já conhecia esta festa, mas não sabia que começava já em muitas aldeias no Natal ou Ano Novo. Gostei muito de conhecer este dado, porque alguns dos ciclos de entrudo galego mais autênticos também começam nos primeiros dias do ano.

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Como é esta festa? Em forma de “caretos”, “máscaras”, “chocalheiros” ou “mascarados”, os jovens percorrem os caminhos da terra vestindo fatos de serapilheira, máscaras de latão ou madeira e chocalhos à cintura. A sua missão neste ritual de passagem para a idade adulta passa por louvar os mortos, castigar os males sociais e purificar os habitantes. Também fazem “loas”, cantos satíricos onde denunciam os fatos mais importantes acontecidos na comunidade.

Feliz Natal e boas entradas, quer seja com anjos, quer com diabretes.

 

Deolinda em Ourense (mais uma vez)

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Deolinda é uma dessas bandas que descobri por ter estudado na EOI. Foi graças a essas aulas de português que soube que eles existiam e numa dessas viagens que os e as alunas fazíamos comprei o primeiro cd deles, Canção ao lado. E aí estiveram, ao meu lado sempre, em pastas do mp3, em grandes percursos que fiz para vê-los e como banda sonora de uns anos muito marcantes na minha vida.

Inspirados no fado e na música tradicional portuguesa, os Deolinda trazem uma nova estética. Parva que sou é já um fito histórico dentro das vindicações juvenis portuguesas, é por assim dizer o Grândola do século XXI.

Depois de Canção ao lado, viriam Dois selos e um carimbo e o mais recente dos seus álbuns, Mundo pequenino. Este último trabalho, afasta-se um bocado do estilo dos anteriores, suponho que hoje apresentarão em Ourense estes últimos temas.

Eu já os vi na cidade das burgas na Praça de Santa Eufémia, agora hoje vão tocar na Praça Maior  às 22h30 com motivo das festas da cidade.

Que seja agora, que queremos ouvi-los!

Uma Galiza em Lisboa

(Este artigo foi publicado hoje em A viagem dos argonautas com motivo do Dia das Letras Galegas. Faço reblog para cá. Muito obrigada a todos e todas as argonautas, nomeadamente a Ernesto Vázquez Sousa)

Talvez por sermos um país pequeno, talvez pelo próprio trauma que as migrações significaram para a Galiza, desde sempre, galegos e galegas tentámos evidenciar quais foram os contributos culturais que por lá deixámos. É muito frequente e até diria que é um tópico folclórico ouvir dois galegos a conversarem e atribuírem uma série de inventos, triunfos ou descobrimentos a diversos compatriotas. Assim sendo, assumimos que os matraquilhos são um invento galego e até temos a teoria de falar de Colombo como possível galego.

Na nossa literatura há imensos escritores e escritoras que trataram o tema dos êxodos: Rosália de Castro, Castelão, Celso Emílio Ferreiro…e mentalmente há para nós um espaço dedicado a países como a Argentina, Uruguai, Cuba, Brasil, Alemanha, França…

Houve um outro movimento migratório, que por ser pouco falado, parece inexistente. Falo da migração galega à região de Lisboa.

Na região de Lisboa a presença de galegos era já antiga por causa da reconquista cristã. Galegos vindos das rias faziam naquelas terras de salineiros.

Como mostra da presença galega, há hoje inúmeros topónimos no Sul de Portugal que rememoram as terras galegas. Um facto curioso aconteceu com o município de Montijo, que antes de 1930 era conhecido como Aldeia Galega do Ribatejo. O nome foi mudado, mas a saudade deveu ficar porque cada setembro fazem o evento Feira Quinhentista de Aldeia Galega, onde fazem uma viagem ao passado.

Depois do sismo de 1755 que destruiu a cidade de Lisboa, era necessária mão de obra para poder reconstruir todas aquelas infraestruturas que faltavam. Em 1800 os galegos os galegos imigrados em Portugal eram 80.000 e na altura, um décimo da população da cidade era galega.

os-aguadeiros-galegosOs galegos dedicavam-se a pequenos trabalhos: venda ambulante, levar e trazer encomendas e fazer mudanças…Dizia-se então que dois galegos e uma corda eram capazes de transportar quase toda a mobília de uma casa num só dia. Disto que no português perdurem hoje expressões idiomáticas como trabalhar como um galego.

Havia uma profissão em destaque onde galegos tinham quase o monopólio: os aguadeiros. Ainda não há muito li num blogue uma frase “Nós fizemos fortuna a vender aos lisboetas a água… que era deles”. Passe a ironia, o ofício de aguadeiro era muito duro porque supunha levar às costas barris pesados até os lugares mais longínquos da capital portuguesa. Não demorou em chegar o lucro e com ele nasceram outro tipo de negócios: tabernas, casas de pasto…estas atividades comerciais exigiam menos esforço físico. Também a canalização da água não ia permitir que o negócio do transporte da água durasse muito mais.

A presença galega era tanta que no Chiado havia um largo chamado Ilha dos galegos. No período colonial muitos portugueses puseram nomes de lugares que eles conheciam a outros que colonizaram. Acontece que a Ilha dos galegos não é conservada no Chiado, mas é hoje o nome de um largo em Maputo, Moçambique.

Culturalmente em Lisboa é facilmente reconhecível a presença árabe, romana…mas é difícil discriminar em quais elementos da identidade lisboeta foi decisivo o fator galego. Como identificar isto quando religião, língua e tradições são as mesmas? Mesmo assim, podemos evidenciar vestígios culturais muito importantes. Lisboa fala também da Galiza, há que saber ouvi-la.

A 15 de janeiro festeja-se na cidade o Santo Amaro, santo padroeiro dos galegos em Portugal. ginja-espinheira-com-elas-07l-ginja-ginjinhaA capela de Santo Amaro, na freguesia de Alcântara, foi mandada construir por uma colónia de marinheiros galegos em cumprimento de uma promessa feita e como proteção perante os naufrágios. Todos os anos a cada 15 de janeiro lá iam os galegos em alegre romaria. Hoje a capela está um bocado degradada e só tem culto no primeiro domingo de cada mês.

Mas há ainda testemunhos vivos que são marcas de identidade até para qualquer alfacinha.

Quem não foi a Lisboa e bebeu lá uma ginjinha? No Largo de São Domingos podemos encontrar a Casa Espinheira, fundada em 1840 pelo galego Francisco Espinheira. Este comerciante soube levar o sabor da ginja às ruas e comercializá-la em grandes quantidades.

Se palmilharmos bem a cidade, poderemos ver as pegadas que deixou Agapito Serra Fernandes. O bairro da Estrela d’Ouro, entre a Graça e Senhora do Monte, é uma vila operária projetada por este comerciante abastado de origem galega.

ip0001162A estrela que dá nome ao bairro é um motivo que aparece em calçadas, capitéis e azulejos.

Serra Fernandes pensou neste empreendimento para alojamento dos trabalhadores das suas confeitarias e as famílias deles. As ruas deste bairro operário, de facto, têm os nomes dos descendentes da família Serra Fernandes e dos empregados. Nenhum pormenor foi esquecido e até dotou de cinema este bairro. O antigo cinema Royal, hoje um Pingo Doce, foi o primeiro cinema português que passou filmes sonoros.

Deixando de parte a Reconquista e o século XIX, a história recente lisboeta também tem páginas onde nomes galegos aparecem. Num processo tão importante para Portugal como o final da ditadura temos lá também a figura de Manuel Durán Clemente, capitão na Revolução dos cravos e atual membro do CDU.

No trabalho prévio de encontrar fontes fiáveis para este artigo, dei com as palavras do historiador Xan Leira que são uma síntese do que eu quero transmitir hoje. Partilho-as convosco: “As pegadas da emigração galega a Lisboa são tão importantes que penso eu que não se poderia compreender o ser lisboeta sem a costela galega”

25 de abril também em Caldas

10881504_965672606785171_7820461643892575838_nAdoro fazer estreia de tags. Hoje escrevo uma nova: Caldas.

Nunca tinha feito um artigo sobre este município e é sempre bom alargar a família dos lugares lusopatas e mais ainda dos lugares lusopatas que não são cidades, porque isso significa que há qualquer coisa nas sensibilidades que está a mudar.

Este post é especial por vários motivos. Vejam só o cartaz da imagem. Nesta semana o Lusopatia tem dois eventos a falar dele próprio (ontem fomos à EOI de Compostela) e será uma tal Carmen Saborido que fale disso.  O nome dela nunca foi escrito junto com entidades tais como a RTP, mas pelo que me disse, vai dar o seu melhor.

No marco da programação cultural da Associação Zona Afectada com motivo do 25 de abril, daremos uma pequena palestra sobre a Revolução dos cravos e cultura portuguesa.

De aqui, muito obrigada à associação por pensar em nós para tal desafio.

O nosso pequeno colóquio serve como introdução a um ciclo de cinema que vem logo a seguir. O programa de atividades inclui noticiários, curtas e documentários de vários países lusófonos. Encerramos, obviamente, com o Grândola. Vejam:

  •       Noticiário RTP do 25 de abril de 1974
  •       Documentário da Revolução dos Cravos
  •       Tudo que movimenta, de Thamara Pereira
  •       Ana Monstro, de Francisco Miranda
  •       Assinado Inês, de Rita Fernandes
  •       Igual, de Ruben Sabrão
  •       Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso

Este domingo, às 19h, a gente vê-se no Hotel O Cruceiro de Caldas. Traz um amigo também!

Abrilada em Ferrol

11181886_10204268921751040_8206752642832093608_oAbril é sempre um mês de muito trabalho no Lusopatia, não podia ser doutra maneira.

Amanhã em Ferrol a EOI, Rádio Filispim, Artábria e o Ateneo Ferrolán cooperam para rememorarem com um vasto programa o aniversário do 25 de abril.

De 24 a 28 de abril temos várias propostas culturais que tocam este evento histórico de diversas maneiras: documentários sobre o Zeca Afonso e a fuga de Peniche, teatro e um programa de rádio com músicas especiais é a combinação perfeita para três dias de agenda. Vejam lá o programa na imagem.

Quem por lá estiver, será uma pessoa com sorte.

Dia das bruxas, Pão-por-Deus e Dia de todos os Santos

aboboraSinceramente, odeio a palavra Samhain. Já disse. Que desabafo!

Não sei o motivo pelo qual ao recuperarmos uma festa nossa temos que utilizar palavras doutra língua para batizá-la. Acho uma esquizofrenia.

E depois deste meu depoimento hater, entro ao tema que queria tratar: as tradições portuguesas destes dias.

No dia 31 é festejado o dia das Bruxas. As pessoas enfeitam os lugares com abóboras e outros motivos decorativos associados ao medo e coisas assombradas. Vejam por exemplo o que vai acontecer nesta sexta-feira numa das carruagens do metro de Lisboa.

O dia 1 é propriamente o dia de Todos os Santos e os rituais funerários são os que já conhecem.

Há um outro ritual que é o do Pão-por-Deus. Em Portugal as crianças saíam à rua e juntavam-se em pequenos bandos para pedirem o Pão-por-Deus (ou o bolinho) de porta em porta. O dia de Pão-por-Deus, ou dia de Todos os Fiéis Defuntos, era o dia em que se repartia muito pão cozido pelos pobres antigamente.

É também costume nalgumas regiões os padrinhos oferecerem um bolo, o Santoro. Já pedir o “santorinho”, que começava nos últimos dias do mês de outubro, era o nome que se dava à tradição em que crianças sozinhas, ou em grupo, de saco na mão iam de porta em porta para ganharem doces.

Deixo-vos cá a receita do bolo Santoro, por se quiserem fazê-la em casa.

O peditório do Pão-por-Deus não é outro que o antigo costume que se tinha de oferecer pão, bolos vinho e outros alimentos aos defuntos. Ainda em muitas casas da Galiza há pratos vazios nas mesas para quem morreu nesse ano. O Pão-por-Deus também era um ritual nosso e recebia o nome de “migalho”.

No dia 2 de novembro é o dia dos Fiéis Defuntos. Dedicava-se este dia à oração por quem tinha morrido nesse ano na família.

Há tempo que penso no tratamento estranho que damos à morte e em como aos poucos esquecemos o convívio que na nossa sociedade mais tradicional havia com ela. Se ainda não viram o documentário Em companhia da morte, estão na hora. Várias mulheres raianas contam histórias de espíritos, sinais da morte e aparições. Redescubram a Galiza perdida nestas vozes e testemunhos vivos. Vale a pena.