Itália e Portugal: algumas conexões

O dia 25 de abril é feriado em Portugal e também na Itália. No país de “lo stivale” é o “giorno della liberazione” porque comemoram o fim da ocupação nazista. Suponho que num blogue como este é escusado explicar o motivo deste feriado em Portugal.

Recentemente tenho feito uma viagem à Itália e durante o percurso dei em mim a pensar nas muitas conexões entre estes dois países. Decidi criar este “livro” interativo de atividades onde vos explico um bocado algumas delas. Toquem, cliquem, reproduzam…!

Não é degradê, é o brilho da Pongo

Este sábado é a grande final do Festival da Canção. Como confessei na publicação anterior eu torço pela dupla formada pelo Tristany e a Pongo.

Ok, talvez ainda estejas a te recuperar da surpresa de saberes que a Pongo é a menina e o Tristany é o rapaz. Acontece. Um dia falaremos também do Mia Couto e de muitas pessoas surpreendidas.

Pongo & Tristany não têm (ainda) muita popularidade na Galiza, mas hoje vais descobrir que já conhecias a Pongo. Só que tu não sabias disso. Escrevi esta thread na minha conta pessoal de Twitter onde comento alguns dados biográficos sobre a cantora e explico alguma referência angolana de uma das suas letras.

A Pongo não é degradê, ela toda tem intensidade e brilho.

Este pode ser o meu post do 8M onde sempre falo de mulheres que me inspiram? Pode. Sei que chega atrasado, mas chega.

Tenho muitos desejos em volta do conteúdo deste post:

  • que a Pongo chegue aos palcos de Turim
  • que faça uma digressão de concertos pela Galiza
  • que o kuduro seja um estilo musical mais conhecido nestas terras

Vejam o Festival da Canção amanhã na G2. Não se esqueçam da Lusofesta!

As minhas recomendações para os dias 31 e 1

anos fazíamos um percurso pelas diferentes tradições entre os dias 31 de outubro e 1 de novembro. Até vos cheguei a falar dos meus pesadelos ortográficos mais repetidos. Desta feita só estou cá para para dar umas dicas de lazer: uma série, um podcast e umas pequenas viagens.

Vamos com a série. Typewriter foi para mim um achado. Estava à procura de uma série de poucos capítulos que pudesse devorar em duas tardes e lá estava ela, pacatamente, como quem não quer nada.

Typewriter é uma série de Netflix de apenas 5 capítulos. Foi realizada em 2019 e nela vão poder ouvir várias línguas. E agora estarão a pensar…”e esta maluca recomenda-nos uma série em híndi e inglês? como assim?” Tudo tem uma explicação, a série trata de três crianças que planejam caçar fantasmas num casarão onde há uma máquina de escrever. Disto o título. À partida parece uma coisa muito classicona, mas toda a ação decorre em Goa, no taluka de Bardez. Não se fala português, mas podem ouvir como o português ainda ecoa lá de certa maneira: nomes, topónimos, costumes, etc.

Além de culturalmente familiarizar-me com outro tipo de suspense e estética, mais típicas de Bollywood, penso que aprendi imensas coisas sobre a cultura indiana e goesa. E não, um faquir não é um homem que dorme num colchão com pregos ou engole lâmpadas.

Deixo cá o trailer. Não esqueçam que isto tem legendas em português disponíveis.

Agora é a vez do podcast.

O Vamos Todos Morrer é a rubrica do Hugo Van der Ding para a RTP/Antena 3. Penso que na plataforma da RTP têm mesmo todos os episódios, mas deixo também o Spotify para terem uma maior acessibilidade. Para telemóvel dá um jeitão.

Nunca pensei dedicar todas as manhãs a ouvir um réquiem, mas cá estou. Confesso-me viciada neste programa. Cada dia escolho um episódio e ouço porque eles são assim bem curtinhos, pílulas quase. Como o próprio título indica, uma coisa é clara: vamos todos morrer. Cada programa é uma nota necrológica onde com humor é contada a biografia de uma celebridade. No meio há uma dose de lugar comum que todo humano necessita: morreu tão novo, na flor da idade!

Os pontos fortes para quem está a treinar a língua são muitos:

  • aprender como é o nome português de certas celebridades, por exemplo: Joana D’Arc, Otaviano, Cleópatra…
  • conhecer muitas celebridades dos países de fala portuguesa: Anita Garibaldi, Ana Plácido, Bulhão Pato…
  • treinar expressões típicas da língua mais coloquial (e fúnebre também, claro!)

Quem não gostar muito deste formato, pode ainda comprar o livro na Wook.

É a vez das viagens. Este ano podem fazer a planificação de como querem passar os dias 31-1 de 2022. Eu recomendo três pequenas visitas.

  • Quinta das Lágrimas, em Coimbra. A lenda diz que cá foi morta Inês De Castro. As algas vermelhas que aparecem na Fonte das lágrimas são a evidência fantasmagórica de lá ter acontecido uma morte violenta. Hoje é quase um lugar de peregrinação mas a mim o que me meteu mais medo é que com a requalificação isto agora é um hotel de luxo.
    • Se não souberem quem é que foi a Inês De Castro, falo dela neste artigo, mas já digo que esta é uma fi-gu-ra-ça galega, uma rainha depois de morta. A nossa primeira zombi? Carreguem nas animações para estarem a par.
  • Capela dos Ossos, em Évora. “Nós, ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”. Uma capela que nos lembra que a vida é transitória e passa num triz. Em Évora havia muito cemitério monástico, aquilo ocupava muito espaço e…decidiram reciclar com este DIY.
  • Quinta das Conchas e dos Lilases, Lisboa. Se procurarem na net uma lista de lugares assombrados em Portugal, com certeza absoluta vai aparecer esta quinta. Em 1899 Francisco Mantero compra-a depois de ter feito muito dinheiro com o negócio do café em São Tomé e Príncipe.
    • No parque podemos ver uma construção apalaçada que é de espírito colonial. As duas ilhas artificiais que lá estão recriam São Tomé e Príncipe. Conta a lenda que o empresário se apaixonou por uma nativa santomense, há quem diga que era até a sua escrava. Trouxo-a a Lisboa àquela quinta e fechou-a para afastá-la dos olhares dos vizinhos. Maltratou-a até à loucura. Conta-se que ainda se ouvem os seus gritos e que os cães nunca querem aceder ao palacete.

Não sei como vão passar estes dias. Eu comecei por encarar um dos meus maiores medos: conduzir. Porque o importante é a maneira de conduzir a vida.

Ceuta

Faz sentido falar de Ceuta num blogue dedicado a assuntos lusófonos? Cabe a mim falar nisto? Embora muitas pessoas não saibam, a história de Ceuta tem vínculos estreitos com a história de Portugal.

Estamos cá para falar do olho de Camões, das tripas, de horny jail e de bandeiras. Viva a vexilologia!

  • Ceuta sempre foi considerado um enclave estratégico, um primeiro passo para as conquistas ultramarinas. A data da tomada de Ceuta durante o reinado de Dom João I (1415) é considerado o espoletar das viagens ultramarinas portuguesas. Dom João I necessitava de uma nova façanha que reforçasse a sua posição internacional e a relação com a Santa Sé. A chegada dos portugueses à atual praia de Santo Amaro inicia um facto: a presença de portugueses em toda a parte do globo. Isto, ora por colonialismo, ora por emigração, é quase um traço da identidade nacional.
  • Esta cidade norte-africana só passou para posse espanhola em 1640, tendo sido administrada por portugueses mesmo durante o domínio filipino. Portugal recuperou a sua independência de Espanha nesse ano, mas a cidade de Ceuta decidiu não reconhecer como rei o português João IV e permanecer sob os domínios de Espanha, o que ficaria oficializado no Tratado de Lisboa assinado por ambos países em 1668. O reino português perdeu assim uma cidade que não lhe tinha oferecido tantos lucros como esperava, já que a sua manutenção gerou elevados custos à coroa lusa.
  • O fito da tomada de Ceuta foi recolhido muitas vezes ao longo da literatura e historiografia portuguesa. Gomes Eanes de Zurara foi o primeiro cronista a relatar este episódio na Crónica de Dom João I, mais conhecida como a Crónica da tomada de Ceuta. Nestas páginas podemos encontrar a participação de uma das figuras mais importantes da independência de Portugal: o Condestável Nuno Álvares Pereira, herói de Aljubarrota.
  • O Santuário e Igreja de Santa Maria de África foi construído no século XV. Tem uma imagem da Virgem que foi doada pelo Infante Dom Henrique. Artisticamente não tem grande valor, mas reveste-se de grande importância espiritual porque é a padroeira da cidade.
  • A bandeira e o brasão de Ceuta remetem imediatamente para símbolos da vexilologia e heráldica portuguesas. O desenho da bandeira, gironado de oito peças de negro e prata, exibe a clara ligação à bandeira de Lisboa, cidade de onde proveio a armada que conquistou Ceuta. A ligação a Portugal é ainda mais intensa no brasão. Vejam só as imagens, porque elas falam.
  • Se forem à Estação de São Bento, no Porto, podem ver toda a tomada de Ceuta “aos quadrinhos”, porque está pintada nos seus azulejos. E como estamos a falar da invicta, temos que também explicar o motivo de lhes chamar “tripeiros” aos portuenses. Há várias teorias, mas todas ligadas à tomada de Ceuta.
    • Segundo Germano Silva, carneiros, porcos, bois, muitos bois, foram mortos para serem a provisão de quem partia em barco para a conquista de Ceuta. A carne foi esquartejada, salgada, metida em barricas, ou caixas de madeira, feitas propositadamente para este efeito, e acomodadas nos porões dos barcos. Só as tripas não puderam embarcar, porque corriam o risco de rapidamente apodrecerem.
    • Aos 21 anos, o Infante D. Henrique retorna para o Porto a pedido do seu pai D. João I, a fim de liderar construções para a conquista de Ceuta. Estas construções pediam muito esforço físico para os homens que lá trabalhavam, então foi prometida toda a carne da cidade para eles, o resto de cidadãos comeria apenas as tripas. Nasceram aí as “tripas à moda do porto”?
  • Luís Vaz de Camões, pelo seu talento e cultura, provocou paixões entre damas da Corte, dentre as quais a lnfanta D. Maria, filha de Dom Manuel e irmã de Dom João III, e Dona Catarina de Ataíde. Por este motivo é “desterrado” algum tempo para longe da Corte, até que resolve “exilar-se” em Ceuta (1549), como soldado raso. Sim, Ceuta foi a sua horny jail. Mas a coisa não fica por cá, nesta cidade perde o olho direito, facto que conta nos seus versos e traço físico que o faz único. Tem hoje uma rua dedicada, a “Calle Camoens” (sic). A vida dele dava um filme.
  • Como continuidade do vínculo Ceuta-Portugal, o Auditório da cidade foi obra do arquiteto português Álvaro Siza Vieira

Espero que tenham desfrutado destas curiosidades todas.

Oxalá não existam colónias, nem fronteiras. Quem me dera deixar à minha filha um mundo com mais empatia e justiça social.

Prémios Nobel da Literatura…brasileiros e brasileiras?

Este artigo é uma otimização de recursos. Faz parte de um trabalho académico de uma disciplina que estou a estudar atualmente.

A professora pediu-nos esta semana, a semana do Nobel, que déssemos quatro nomes. Quatro candidatos e candidatas brasileiros a essa honra e explicássemos os nossos motivos.

Antes sequer de começar as pesquisas para iniciar este trabalho, decidi investigar os requisitos para uma pessoa chegar a ser Prémio Nobel de Literatura. Isto era uma questão incontornável.

Depois disto, veio imediatamente uma outra curiosidade, porque é que o Brasil sendo uma potência literária e um país continental nunca ganhou antes um Prémio Nobel. Aí cheguei a este artigo, que apontou várias questões interessantes sobre hábitos de leitura e deu a pista de vários nomes. Mas não quis ficar só na tona. 

Debrucei-me sobre os apontamentos das aulas, os temas abordados. Graças às explicações consegui ter em conta o fator editorial, o contacto com o livro como produto entre o grande público e o volume de traduções feitas para o exterior como índice de consolidação autoral.

Portanto, as palavras chave que utilizei no Google foram estas e com elas obtive estes resultados:

  • autores-brasileiros-mais-vendidos-atuais (que me levou ao artigo 1 da minha webgrafia)
  • livros-brasileiros-mais-lidos (com estas chaves fui ao artigo 2)
  • brasil-literatura-prémio-nobel (com estas cheguei ao 4 e 5)

Após a leitura destes escritos e algumas visitas na wikipédia para ver as biografias e percursos literários de cada autor nomeadamente, reparei em que os resultados apontavam sempre para o mesmo perfil: homem e branco.

Apurei a pesquisa com estas novas palavras:

  • mulheres-escritoras-mais-lidas-brasil (artigos 6 e 7)
  • mulheres-negras-literatura-brasil (artigo 8)

A continuação apresento a minha nómina de autores e autoras:

Lygia Fagundes Telles

O século XXI é a vez das mulheres, os movimentos sociais assim o confirmam. Se só tivesse que dar um nome, não teria dúvida nenhuma, seria este.

A Lygia Fagundes vai em primeira posição nesta nómina porque, do meu ponto de vista, se uma mulher brasileira de 97 anos recebesse um Nobel a imagem do país e das mulheres brasileiras mudaria radicalmente. E seria vantajoso até para para as duas partes, estando o Prémio Nobel tão masculinizado.

Mas vamos à questão literária, que é que interessa. A Lygia Fagundes já foi indicada ao prémio com anterioridade, isso significa que é uma das escritoras atuais mais conceituadas do Brasil. Fora do país também coletou prémios como o Camões e o Jabuti. Falta é concretizar esse Nobel.

É conhecida como a “dama da literatura brasileira”. Explora temas universais que chegam ao grande público,  mas também focou no assunto feminino num tempo em que havia poucas vozes que o fizessem. 

Se seguirmos os critérios da tradução para exterior, tem obras traduzidas para o alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, polaco, sueco ou tcheco. Também conta com obras adaptadas ao cinema.

As Meninas ou Ciranda de pedra são livros que já têm um espaço no imaginário coletivo brasileiro.

Raduan Nassar

É autor de três livros Lavoura Arcaica, Um Copo de Cólera e Menina a Caminho. Do meu ponto de vista, esta nomeação rompe com o esquema do escritor atual. Nos dias de hoje, parece que um escritor tem de ser um indivíduo muito produtivo, que cada ano tem que ter um lançamento para continuar a lubrificar a máquina do sistema literário. A ideia do livro como produto sacrifica muitas vezes a criatividade e a qualidade.

Além do seu compromisso contra a repressão política, foi também merecedor do Prémio Camões em 2016 e finalista do Man Booker Prize. Isto fez com que a sua obra fosse traduzida para inglês e publicada na Penguin.

Chico Buarque

Multifacetado e comprometido com as causas sociais e a cultura, Chico Buarque pode ser um caso análogo ao de Bob Dylan. As letras das canções são também poesia e este prémio pode ser um impulso para toda a gente chegar a perceber isso. Não há demérito nisso.

Recebeu o Prémio Camões no meio de uma enorme polémica no Brasil e essa decisão foi até contestada por Jair Bolsonaro. 

Ele pôs todo o seu talento literário e artístico na luta pela democratização do país. 

Criou na sua obra um “eu lírico feminino”, muito infrequente na altura. 

Budapeste ou Leite Derramado contribuiram para a formação cultural de muitas pessoas do âmbito lusófono. Este prémio pode ajudar a espalhar a obra deste autor e vê-la no seu conjunto, não só na vertente musical.

É uma ativista feminegra, indicada para outro ramo do Nobel, o da Paz, pela Associação 1000 Mulheres para o Prêmio Nobel da Paz. É uma referência contra o racismo e a violência de género. A legitimação de um papel mais representativo para mulher negra na sociedade brasileira é uma constante na sua obra como podemos ver no seu poemário Eu, mulher negra, resisto, que virou quase uma citação.

Alzira Rufino

É ensaista, contista, cronista, romancista e poeta. Foi a primeira escritora negra a ter o seu depoimento registrado pelo Museu de Literatura Mário de Andrade.

Se o Nobel é uma plataforma de visibilidade, a obra de Rufino merece estar naquele patamar para os leitores e leitoras de todo o mundo conhecerem os problemas das mulheres e mais ainda das mulheres racializadas.

Webgrafia que usei, por se quiserem dar uma vista de olhos:

  1. https://www.designdoescritor.com/post/10-autores-nacionais-vivos-que-faturaram-mais-de-1-milh%C3%A3o-de-reais-com-seus-livros
  2. https://blog.saraiva.com.br/mais-lidos-brasil/
  3. https://editoraalbatroz.com.br/escritores-brasileiros-mais-vendidos-no-mundo/
  4. https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,qual-escritor-brasileiro-merecia-um-premio-nobel-de-literatura,70003037925
  5. https://www.publishnews.com.br/materias/2019/08/13/premio-nobel-de-literatura-quando-sera-a-nossa-vez
  6. https://www.mundodek.com/2017/03/20-grandes-escritoras-brasileiras.html
  7. http://saopauloreview.com.br/150-mulheres-que-estao-fazendo-literatura-hoje-no-brasil/
  8. https://mdemulher.abril.com.br/cultura/escritoras-negras-brasileiras-que-voce-vai-adorar-conhecer/

Enfim, o prémio foi dado ontem à Louise Glück, poeta americana.

Será 2021 o ano do Brasil?

Dandara dos Palmares

Hoje é comemorado o Dia da Consciência Negra no Brasil. De facto, este tema foi um dos nossos primeiros post. Nele falamos um bocado da figura do Zumbi dos Palmares, agora até podemos fazer uma ampliação dessas figuras histórias brasileiras. Na luta contra o racismo e a discriminação, falaremos hoje da Dandara dos Palmares.

A Dandara (?-1694) liderou o maior grupo de resistência contra a escravidão no Brasil: o Quilombo dos Palmares. Podem ver mais informações sobre ela nesta ligação.

Viva Dandara!

O que a Galiza deu a Portugal: galegos e galegas na História portuguesa

Frequentemente revisitamos a literatura medieval galego-portuguesa como fonte indiscutível dos vínculos linguísticos e culturais entre a Galiza e Portugal. Há pouco foi editado pela AGAL um documentário, Pacto de Irmãos, que fala sobre a origem da língua escrita e como também a língua conforma uma sociedade.

Os contributos linguísticos são mais do que evidentes no que diz respeito ao título deste artigo, mas…já pensaram noutras áreas culturais? A verdade é que sempre tive muita curiosidade e há tempo que comecei a juntar uma série de nomes que conformam este post. Portanto, proponho-vos uma pequena viagem galega a várias fases da História de Portugal.

Como as explicações vão inseridas em animações, deverão levar na mala um bocado de “paciência digital”. Podem ampliar os diapositivos para uma melhor visualização. E toquem! toquem tudo para verem as informações extras! São viajantes desses com pulseira de pacote turístico completo.

Temos três roteiros diferentes: o dos galegos de gema, o literário e o da cultura popular. O primeiro deles é composto por pessoas nascidas na Galiza, os outros dois são percursos onde falaremos de descendentes de galegos.

OS GALEGOS DE GEMA

Na própria lenda do Galo de Barcelos aparece um galego como protagonista. É pena eu não ter nomes e apelidos, se tivesse, teria mesmo incluído nesta epígrafe, podem crer.

Aqui vou dar três nomes de galegos que marcaram profundamente a memória portuguesa. Com certeza, vocês conhecem.

  1. Inês de Castro. Acho que deve ser o primeiro e único caso de rainha morta-viva. Ela inspirou tanta literatura…

2. O Conde de Andeiro teve uma vida atribulada, cheia de aventuras e conspirações. É uma das figuras mais conhecidas (e odiadas) da história medieval.

A Câmara Municipal da Corunha tem, já agora, a sua vida esculpida nos cadeirais.

3. A nossa terceira paragem no roteiro dos galegos de gema é daquelas que precisam de um balde de pipocas. Diogo Alves é como uma cena de Futurama, uma cabeça metida em formol conservada hoje na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Considerado o primeiro serial killer da história portuguesa, o assassino do Aqueduto das Águas Livres era também galego. No “curiosidades” há um vídeo, um filme de cinema mudo. Tem que se lhe diga.

4. Na história das grandes navegações também estávamos presentes. João da Nova tem uma ilha deserta no Canal de Moçambique que recebe o seu nome. Acredita-se que também tenha “descoberto” o arquipélago de ilhas Agalega, no sudoeste do Oceano Índico.

O ROTEIRO LITERÁRIO

  1. Imaginem que vos digo que a figura totémica da literatura portuguesa tinha família galega. Imaginem! Não imaginem nada: é verdade. Luís Vaz de Camões era familiar de Vasco Pires de Camões, trovador com raízes em Finisterra.

Para aprendermos mais, também vos conto na mesma infografia a origem do ditado popular “vai chatear o Camões”. Conhecem?

2. E se vos dissesse que a segunda figura mais conhecida da literatura portuguesa também tem raízes galegas? Com efeito, Fernando Pessoa também é galego-descendente segundo o livro As raízes de Pessoa na Galiza do professor Carlos Quiroga.

Tanto Pessoa como Camões foram personagens fixos da série O Ministério do Tempo. Eu era fã e não sei o que foi feito dela.

3. Dentro do Orpheu há alguns poetas injustamente “esquecidos”. Um deles é Alfredo Guisado, com família em Mondariz e Ponte Areias. Este escritor é precursor do binormativismo, antes sequer de dizermos nada na AGAL. Uma ponte entre o republicanismo português e o agrarismo galego. Vejam logo.

4. José Rodrigues Miguéis é um escritor português filho de emigrantes galegos. Durante a ditadura exilou-se nos EUA por causa das suas ideias progressistas herdadas do seu pai.

A CULTURA POPULAR

Neste outro roteiro tocamos vários aspetos da cultura: a música, a política e o mundo empresarial.

Já falamos de como muitos galegos emigraram a Lisboa e qual foi o impacto cultural dessa leva. Os primeiros nomes deste roteiro alargam essa homenagem aos muitos empreendedores que modificaram a estrutura e vida social da cidade.

  1. Manuel Garcia Moreira e a Cervejaria da Trindade. Uma das cervejarias mais famosas do circuito lisboeta foi também um projeto galego.

2. Francisco Espinheira e a Ginjinha. Dispensam apresentações. A Ginjinha é o sabor de Lisboa e o Espinheira soube “fermentar” esta ideia.

3. Agapito Serra Fernandes foi um empresário galego do mundo da confeitaria. Ele projetou o Bairro da Estrela d’Ouro como residência para a sua família e empregados. O bairro tinha até um cinema, o primeiro a passar filmes sonoros em Portugal.

4. Ampliamos horizontes e falamos agora de um dos episódios mais famosos da história portuguesa: a Revolução dos Cravos. A Celeste Caeiro, “Celeste dos cravos”, foi a mulher que deu nome a uma revolução. A sua mãe era da Galiza.

5. A Madalena Iglésias fez história no mundo da canção. Não, não é família do Julio Iglesias. Teve uma carreira curta, mas foi a rainha das rádios e tvs portuguesas. Até venceu o festival da canção da RTP.

6. E já no último lugar, alguém que podem acompanhar nas redes sociais: Manuel Durán Clemente, um dos Capitães de Abril. Quando vos disserem que a Galiza só deu ao mundo exemplos de políticos de direita, pensem neste homem.

E cá termina a nossa viagem. Mas sabem que coisa? eu gosto é dos roteiros circulares, são os meus preferidos.

Agora só espero fazer num futuro próximo um artigo intitulado “O que Portugal deu à Galiza”. Conheçamo-nos melhor uns e outros para que assim seja.

Teuto-portugueses e teuto-portuguesas

Sabem que há uma tradição que une este blogue às viagens. Cada vez que viajo faço algum artigo sobre a Lusofonia e o país que visito. Assim dito, parece que tenho muita experiência como viajante. Não, não é que eu tenha visto muito mundo, infelizmente. O tom não quer ser pretensioso. Poucos artigos há desse género no blogue, simplesmente destaco essa tradição criada.

Grande parte do trabalho já está feito desta vez, porque um dia resolvi fazer um texto sobre palavras alemãs no português e nestes dias viajarei à Alemanha (agora é que sim). Não sabia muito bem sobre que falar-vos. Decidi informar sobre teuto-portugueses/as: pessoas portuguesas com ascendência alemã ou pessoas alemãs naturalizadas portuguesas.

Podem então consultar esta infografia e, se sentirem curiosidade por algum dos nomes, é só carregar na fotografia e acedem assim às informações.

Amanhã parto para terras alemãs. Frohe Ostern!

Glossário feminista

É comum no dia 8 de março (e nem só) dedicarmos neste blogue um espaço para a luta feminista.

Noutros anos fizemos uma playlist, jogos com diversas biografias…e desta vez não quisemos deixar passar a oportunidade de partilhar com vocês a explicação de alguns termos muito usados no feminismo. Muitos deles são em inglês e parece que chegaram para ficar.

Para quem gostar de ler, pode ver este glossário da Revista Capitolina. Eu usei também em aulas neste ano porque achei muito didático e correu muito bem.

Quem precisar de conteúdos mais visuais ou dinâmicos pode ver este vídeo e assim também fica a par.

Chegou a hora de verificarem o aprendido. Conseguem? Tenho este Passa a Palavra aqui para vocês. Força!

Lídia Jorge na Galiza

A escritora portuguesa visitará nos dias 21 e 22 a Galiza.

No ano 2015 já a tivemos num encontro fugaz na Cidade da Cultura, mas soube-nos a pouco. Desta vez poderemos tê-la connosco mais tempo, como podem ver no cartaz e o tema é aliciante: “Os caminhos da literatura portuguesa na Galiza”

Para quem estiver um bocado por fora dos assuntos literários, dir-vos-ei que em 2014 foi-lhe atribuído o prémio Luso-Espanhol da Arte e Cultura concedido pelos governos de Espanha e Portugal. Mas comecemos pelo início, que é como as apresentações são começadas: ela nasceu em 1946, no Algarve, em Boliqueime, e viveu os anos mais convulsos da Guerra Colonial na África.

É professora do ensino secundário e publica regularmente artigos na imprensa. Trata-se de um dos vultos da literatura portuguesa e o seu discurso é muito intenso: a mulher e a sua solidão e a releitura da História.

Quanto à receção das suas obras diz a Wikipédia que “é inquestionavelmente uma voz singular e reconhecida no panorama da literatura portuguesa contemporânea. Comprovam-no a receptividade do público e da crítica; as repetidas edições das suas obras; as traduções para outras línguas; as teses e os ensaios académicos que se vão apresentando sobre os seus textos em vários países; os prémios nacionais e internacionais que têm distinguido a sua obra; e ainda os volumes monográficos que se debruçam sobre a sua criação literária”

Esta será uma semana de sorte para quem gostar de literatura.