Dandara dos Palmares

Hoje é comemorado o Dia da Consciência Negra no Brasil. De facto, este tema foi um dos nossos primeiros post. Nele falamos um bocado da figura do Zumbi dos Palmares, agora até podemos fazer uma ampliação dessas figuras histórias brasileiras. Na luta contra o racismo e a discriminação, falaremos hoje da Dandara dos Palmares.

A Dandara (?-1694) liderou o maior grupo de resistência contra a escravidão no Brasil: o Quilombo dos Palmares. Podem ver mais informações sobre ela nesta ligação.

Viva Dandara!

O que a Galiza deu a Portugal: galegos e galegas na História portuguesa

Frequentemente revisitamos a literatura medieval galego-portuguesa como fonte indiscutível dos vínculos linguísticos e culturais entre a Galiza e Portugal. Há pouco foi editado pela AGAL um documentário, Pacto de Irmãos, que fala sobre a origem da língua escrita e como também a língua conforma uma sociedade.

Os contributos linguísticos são mais do que evidentes no que diz respeito ao título deste artigo, mas…já pensaram noutras áreas culturais? A verdade é que sempre tive muita curiosidade e há tempo que comecei a juntar uma série de nomes que conformam este post. Portanto, proponho-vos uma pequena viagem galega a várias fases da História de Portugal.

Como as explicações vão inseridas em animações, deverão levar na mala um bocado de “paciência digital”. Podem ampliar os diapositivos para uma melhor visualização. E toquem! toquem tudo para verem as informações extras! São viajantes desses com pulseira de pacote turístico completo.

Temos três roteiros diferentes: o dos galegos de gema, o literário e o da cultura popular. O primeiro deles é composto por pessoas nascidas na Galiza, os outros dois são percursos onde falaremos de descendentes de galegos.

OS GALEGOS DE GEMA

Na própria lenda do Galo de Barcelos aparece um galego como protagonista. É pena eu não ter nomes e apelidos, se tivesse, teria mesmo incluído nesta epígrafe, podem crer.

Aqui vou dar três nomes de galegos que marcaram profundamente a memória portuguesa. Com certeza, vocês conhecem.

  1. Inês de Castro. Acho que deve ser o primeiro e único caso de rainha morta-viva. Ela inspirou tanta literatura…

2. O Conde de Andeiro teve uma vida atribulada, cheia de aventuras e conspirações. É uma das figuras mais conhecidas (e odiadas) da história medieval.

A Câmara Municipal da Corunha tem, já agora, a sua vida esculpida nos cadeirais.

3. A nossa terceira paragem no roteiro dos galegos de gema é daquelas que precisam de um balde de pipocas. Diogo Alves é como uma cena de Futurama, uma cabeça metida em formol conservada hoje na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Considerado o primeiro serial killer da história portuguesa, o assassino do Aqueduto das Águas Livres era também galego. No “curiosidades” há um vídeo, um filme de cinema mudo. Tem que se lhe diga.

O ROTEIRO LITERÁRIO

  1. Imaginem que vos digo que a figura totémica da literatura portuguesa tinha família galega. Imaginem! Não imaginem nada: é verdade. Luís Vaz de Camões era familiar de Vasco Pires de Camões, trovador com raízes em Finisterra.

Para aprendermos mais, também vos conto na mesma infografia a origem do ditado popular “vai chatear o Camões”. Conhecem?

2. E se vos dissesse que a segunda figura mais conhecida da literatura portuguesa também tem raízes galegas? Com efeito, Fernando Pessoa também é galego-descendente segundo o livro As raízes de Pessoa na Galiza do professor Carlos Quiroga.

Tanto Pessoa como Camões foram personagens fixos da série O Ministério do Tempo. Eu era fã e não sei o que foi feito dela.

3. Dentro do Orpheu há alguns poetas injustamente “esquecidos”. Um deles é Alfredo Guisado, com família em Mondariz e Ponte Areias. Este escritor é precursor do binormativismo, antes sequer de dizermos nada na AGAL. Uma ponte entre o republicanismo português e o agrarismo galego. Vejam logo.

4. José Rodrigues Miguéis é um escritor português filho de emigrantes galegos. Durante a ditadura exilou-se nos EUA por causa das suas ideias progressistas herdadas do seu pai.

A CULTURA POPULAR

Neste outro roteiro tocamos vários aspetos da cultura: a música, a política e o mundo empresarial.

Já falamos de como muitos galegos emigraram a Lisboa e qual foi o impacto cultural dessa leva. Os primeiros nomes deste roteiro alargam essa homenagem aos muitos empreendedores que modificaram a estrutura e vida social da cidade.

  1. Manuel Garcia Moreira e a Cervejaria da Trindade. Uma das cervejarias mais famosas do circuito lisboeta foi também um projeto galego.

2. Francisco Espinheira e a Ginjinha. Dispensam apresentações. A Ginjinha é o sabor de Lisboa e o Espinheira soube “fermentar” esta ideia.

3. Agapito Serra Fernandes foi um empresário galego do mundo da confeitaria. Ele projetou o Bairro da Estrela d’Ouro como residência para a sua família e empregados. O bairro tinha até um cinema, o primeiro a passar filmes sonoros em Portugal.

4. Ampliamos horizontes e falamos agora de um dos episódios mais famosos da história portuguesa: a Revolução dos Cravos. A Celeste Caeiro, “Celeste dos cravos”, foi a mulher que deu nome a uma revolução. A sua mãe era da Galiza.

5. A Madalena Iglésias fez história no mundo da canção. Não, não é família do Julio Iglesias. Teve uma carreira curta, mas foi a rainha das rádios e tvs portuguesas. Até venceu o festival da canção da RTP.

6. E já no último lugar, alguém que podem acompanhar nas redes sociais: Manuel Durán Clemente, um dos Capitães de Abril. Quando vos disserem que a Galiza só deu ao mundo exemplos de políticos de direita, pensem neste homem.

E cá termina a nossa viagem. Mas sabem que coisa? eu gosto é dos roteiros circulares, são os meus preferidos.

Agora só espero fazer num futuro próximo um artigo intitulado “O que Portugal deu à Galiza”. Conheçamo-nos melhor uns e outros para que assim seja.

Teuto-portugueses e teuto-portuguesas

Sabem que há uma tradição que une este blogue às viagens. Cada vez que viajo faço algum artigo sobre a Lusofonia e o país que visito. Assim dito, parece que tenho muita experiência como viajante. Não, não é que eu tenha visto muito mundo, infelizmente. O tom não quer ser pretensioso. Poucos artigos há desse género no blogue, simplesmente destaco essa tradição criada.

Grande parte do trabalho já está feito desta vez, porque um dia resolvi fazer um texto sobre palavras alemãs no português e nestes dias viajarei à Alemanha (agora é que sim). Não sabia muito bem sobre que falar-vos. Decidi informar sobre teuto-portugueses/as: pessoas portuguesas com ascendência alemã ou pessoas alemãs naturalizadas portuguesas.

Podem então consultar esta infografia e, se sentirem curiosidade por algum dos nomes, é só carregar na fotografia e acedem assim às informações.

Amanhã parto para terras alemãs. Frohe Ostern!

Lídia Jorge na Galiza

A escritora portuguesa visitará nos dias 21 e 22 a Galiza.

No ano 2015 já a tivemos num encontro fugaz na Cidade da Cultura, mas soube-nos a pouco. Desta vez poderemos tê-la connosco mais tempo, como podem ver no cartaz e o tema é aliciante: “Os caminhos da literatura portuguesa na Galiza”

Para quem estiver um bocado por fora dos assuntos literários, dir-vos-ei que em 2014 foi-lhe atribuído o prémio Luso-Espanhol da Arte e Cultura concedido pelos governos de Espanha e Portugal. Mas comecemos pelo início, que é como as apresentações são começadas: ela nasceu em 1946, no Algarve, em Boliqueime, e viveu os anos mais convulsos da Guerra Colonial na África.

É professora do ensino secundário e publica regularmente artigos na imprensa. Trata-se de um dos vultos da literatura portuguesa e o seu discurso é muito intenso: a mulher e a sua solidão e a releitura da História.

Quanto à receção das suas obras diz a Wikipédia que “é inquestionavelmente uma voz singular e reconhecida no panorama da literatura portuguesa contemporânea. Comprovam-no a receptividade do público e da crítica; as repetidas edições das suas obras; as traduções para outras línguas; as teses e os ensaios académicos que se vão apresentando sobre os seus textos em vários países; os prémios nacionais e internacionais que têm distinguido a sua obra; e ainda os volumes monográficos que se debruçam sobre a sua criação literária”

Esta será uma semana de sorte para quem gostar de literatura.

Falso amigo: filhós, filhoses

Não sei se repararam, mas culinária e isoglossas por vezes fazem um bom par. Um dos sonhos da minha vida é termos uma história da culinária escrita por profissionais. Sabermos a origem de muitos pratos, porque o que é considerado totémico na nossa cultura se calhar é bem mais recente do que estamos a pensar.

Talvez vos tenha acontecido. Chegam a uma casa portuguesa ou restaurante e alguém oferece filhoses. No vosso imaginário está uma sobremesa de entrudo, redonda e de massa fina…mas a realidade mostra outro produto.

Uma filhó (plural filhós) ou filhós (plural filhoses), é uma especialidade gastronómica portuguesa, muito comum nas regiões do interior e no Seridó por altura do Natal. Filhoses e rabanadas são os produtos estrela na sobremesa da consoada. Realmente, a filhó recebe muitos nomes no país vizinho e há também muitas “modas” para prepará-las. Há quem lhe chame simplesmente “fritos” ou “bolos fritos”.

Coloco os ingredientes que normalmente aparecem, a filhó “padrão”, por assim dizer. Ela costuma ser feita com farinha e ovos, por vezes também com abóbora e raspa de laranja. É frita em azeite, ou outros óleos vegetais. Tem também os seus toppings porque podem ser polvilhadas de canela e açúcar.

Podem ver a receita do Pingo Doce que vos deixo cá ou, se forem mais da geração millennial e precisarem de vídeos podem conferir a Teleculinária.

Existe um outro prato típico do entrudo madeirense que é a malassada. Parece-se com os donuts, as bolas de Berlim ou as “chulas” da minha zona. Era confecionado, igual que as “filhoas” galegas para aproveitar toda a banha que restava antes da Páscoa. A sua história e relação com o Havaí é bem interessante. Não percam.

Origem de termos económicos

Como começaram 2019? tiveram muitas despesas nas festas? É janeiro e este mês sempre custa levar as contas, poupar e estar de bem com a vida.

Ontem comecei um fio no Twitter que me levou a escrever este artigo. A curisidade foi a origem do termo Poupar e foi como as cerejas: nunca podes comer apenas uma. Lá vão algumas etimologias interessantes.

  • Bancarrota

Esta vem do italiano banca rotta, mesa quebrada. Os cambeadores e prestamistas da Florença deviam romper a mesa onde faziam as suas atividades comerciais quando já não eram solventes. Faziam isto para se humilhar. Banca…significava mesa!

  • Banco

Do germânico, bank. Passou ao italiano Banca, que na Idade Média significava “mesa” na zona da Florença, como disse antes.

  • Bolsa

Vem do latim Bursa, e do grego Byrsa. Significava pelelho, couro. Deste substantivo temos o adjetivo Bursátil.

  • Caixa

Do latim Capsa, era o nome dado às caixas cilíndricas onde os cidadãos de Roma guardavam os seus livros. Dessa capsa veio a nossa Caixa em geral, e também a palavra inglesa cash, que agora para os modernos quer dizer “dinheiro”.

  • Calote

É a dívida que se contraiu sem possibilidade ou intenção de pagar. A palavra tem a sua origem no francês culotte e é uma coisa curiosa. Era a peça de dominó que não pôde ser jogada.

  • Cheque

A palavra vem do inglês Check e esta vem do francês Eschec, que significava Xeque, como no xadrez quando o rei é ameaçado. Os primeiros cheques eram utilizados para prevenir as burlas (fraudes). O banco tinha a assinatura do cliente e comparava com muito detalhe, por isso hoje temos também o verbo Checar com o sentido de comparar.

  • Contabilidade

Contabilidade vem do verbo latino Computare, que significava duas coisas: contar (números) e contar (estórias). Portanto, fazer contabilidade pode ser contar a estória da nossa própria empresa em números…

  • Crédito

Vem do latim Credere, crer. Realmente é o seu particípio, Credititus, que significa “coisa confiada. No sentido original, Crédito significava ter confiança, acreditar. No sentido económico também é assim, pois não? a confiança que temos na capacidade de alguém cumprir com uma obrigação económica.

  • Crise

Vem do grego, krysis, que significa “romper, separar, decidir”. Era como o termo usado para Resiliência. Romper uma coisa para restaurá-la e torná-la mais forte. Tinha um significado positivo.

Suponho que o capitalismo usou a palavra crise para indicar falta de dinheiro e repensar soluções. São repensadas realmente? não sei…

  • Despesa

Vem do latim Dispendere, gastar, empregar, pagar. O verbo inglês to spend ou a expressão italiana Fare la spesa têm a mesma origem.

  • Dinheiro

Do latim Denarius, originalmente o nome de uma moeda feita em prata na época clássica (dinar).

  • Economia

Vem do grego Oikos, casa, e Nomos, lei, norma, administração. Isto é: ordem da casa, administração do lar…O termo foi criado já na época clássica e sim, era património de mulheres, que eram as que administravam a casa.

  • Empresa

É o particípio do verbo latino Imprehendere, de In – Prehendere, capturar, levar, agarrar. Dela temos também Empreendedor, Empreendedorismo…

  • Falência

É a situação financeira de uma empresa ou entidade que apresenta um passivo superior a um ativo. Ir à falência é a bancarrota. vem do latim Fallentia, que significa “as coisas que faltam, ou as coisas que enganam”

  • Financeiro

Vem do francês Financer, que significa emendar uma dívida. Financer vem do latim Finis, fim, de pôr fim ao calote.

  • Hipoteca

Vem do grego hypotheke, de Hypo (sob) e theke (caixa, depósito, coleção). No grego clássico também era usado como sinónimo de fundamento ou alicerce e então o significado derivou nisto que conhecemos hoje, como uma ajuda para poder ter uma casa.

  • Juros

Vem do latim Ius, Iuris: direito, justiça, lei. A mesma palavra originou Juiz, Juízo, Júri ou Usura.

Das línguas românicas só o galego-português usa.

O Cristianismo os diabolizou os lucros e cobrança de juros, ao usar o termo como sinónimo da usura, que sempre combateu. Só no séc. XVIII, quando as leis da economia começam a ser estudadas cientificamente, começar a ser utilizado Juro para designar a taxa de remuneração pelo uso do dinheiro, e Usura para o empréstimo de dinheiro a taxas superiores às legais.

  • Moeda

Esta sim é linda, porque é mitológica e eu adoro mitologia. Na época clássica a palavra romana usada para isto era Numus (disto vem Numismática).

A deusa Juno Moneta, Juno “a avisadora”, adivinhou vários perigos por que ia passar a cidade de Roma, era como uma protetora. Por assim dizer, A Fábrica Nacional de Moeda e Timbre da época estava muito perto da colina sagrada de Juno e começaram a fazer moedas no seu honor com a inscrição “ad monetam” e disto derivou o termo.

  • Negócio

No latim havia várias maneiras de negar uma com NON e outra com NE/NEC. Na idiossincrasia romana havia um tempo de Ócio e um tempo de Negócio, isto é Nec-otium, ou seja: Não-ócio. Négocio era o tempo que tinhas com ocupações.

Esta maneira de construir a palavra dá para ver que o principal era o Otium, os tempos livres e o lazer e o subordinado era o Nec-otium. Pensemos nas nossas vidas e no nosso tempo ocupado…

  • Porquinho mealheiro

Acho que toda a gente teve isto em criança. Não vou comentar a origem da palavra “porco”, mas sim a de “mealheiro”. Vem do latim Medalia, que era metade de uma moeda de cobre, coisa de pouco valor.

Qual é o motivo de ser um porco? Podem ver hipóteses neste artigo.

  • Poupar

Vem do latim Palpare, apalpar. Como, para se saber se era possível fazer um gasto, a pessoa avaliava com a mão a sua bolsa de moedas, a palavra acabou gerando “poupar” no sentido de “economizar”.

  • Prestação

É uma quantia paga periodicamente para cumprir um contrato ou extinguir uma dívida. É engraçado porque vem do latim Praestatione, que na altura significava “ação de satisfazer”.

  • Orçamento

Vem do italiano Orza, e do verbo Orzare. É um termo náutico. É cabo ligado à esquerda da vela; do sentido de “dirigir uma embarcação contra o vento” acabou surgindo também o de avaliar as despesas de uma instituição ou obra.

  • Receita

São os rendimentos de uma pessoa, Estado, empresa. Vem também do latim, do verbo Recipere, “receber”. Etimologicamente pode ser entendido como “coisas recebidas”

  • Salário

A origem deste termo é muito conhecida. Vem do latim Salarium, “pagamento, salário, estipêndio”, de sal. Originalmente era uma quantia paga aos soldados para a compra de sal, artigo que era caro na Europa daquela altura.

Convergências 2019

É com incontido orgulho que começo a redigir este post. Há poucos onde eu possa escrever sobre a terra em que nasci, portanto, deixem-me saborear cada palavra.

Não há muitas pessoas que conheçam o facto de que a Rosália tem um poema intitulado “Desde as fartas orelas do Mondego”. Esta composição que tem o Camões como referente foi escrita com ç, nh e lh. Muitas vezes pensamos que culturalmente o nosso mundo não está tão aquém da lusofonia ou que este assunto é historicamente recente na Galiza, mas como podem ver, há provas de que isto não é bem assim.

A minha terriola (Padrão), Santiago de Compostela e Braga convergirão nesta semana num encontro cultural com um vasto programa: exposições, música, cinema, teatro…muitas disciplinas artísticas para um único sentimento de união.

Podem ver o programa nesta imagem.

O plano para quem não quiser deslocar-se muito está nos dias 22, 23 e 24 entre Compostela e Padrão.

No dia 22 temos na Gentalha o concerto de Primo Convexo.

No dia a seguir, no Teatro Principal, haverá um tributo a José Afonso com a Banda Municipal de Compostela.

No dia 24 na Casa da Rosália haverá um concerto em homenagem à poeta homónima com Canto D’Aqui e Iria Estévez.

Quem me dera a mim poder ir a Braga e fazer o programa completo!

Roupa velha

Este não é um artigo sobre modas, não. Vou falar em culinária.

Não sei vocês, mas eu tenho a casa cheia de sobras da consoada. A minha irmã levou uma marmita de comida para a sua casa e eu…ainda tenho reservas lá na cozinha.

Cada povo tinha antigamente muitas receitas para aproveitar a comida. As fajitas no México, os croquetes em Espanha, a empada na Galiza…e hoje queria falar-vos da roupa velha. Esta obra mestra da cozinha é o triunfo da racionalidade e do aproveitamento de recursos. Dantes pouco ou nada ia ao lixo.

Em Cuba e outros países latinoamericanos existe a ropa vieja que é um prato típico com carnes. Na Galiza também temos (ou tínhamos) a roupa velha que aproveita os excessos do lacão ou cozido. Já no norte de Portugal, o prato do mesmo nome tem como ingrediente a matéria prima de tantos pratos portugueses: o bacalhau. Se repararem, a receita do Bacalhau à Brás tem uma filosofia muito parecida, porque era um prato de “cozinha heroica”: a culinária dos pobres que não tinham muitos recursos para comprarem grandes postas de peixe.

A roupa velha portuguesa é um prato típico feito com as sobras do bacalhau da consoada e era uma coisa ligada às famílias mais pobres. Era comido no dia mesmo do Natal. Hoje isto já não é assim e o prato funciona como entrada, antes de comer o prato de carne (peru, cabrito…)

Por acaso, o bacalhau com couve é ainda uma tradição na consoada na minha casa. E nas vossas?

Esta receita do Pingo Doce é facílima e usa os mesmos ingredientes que a minha mãe coloca no bacalhau. Económico e simples. Vejam logo.

Nós em casa regamos com vinagre, temperamos com pimenta e salteamos. Antes de servir adicionamos azeite, azeitonas e salsa picadinha. Está uma delícia e sempre se poupa.

E agora foi que me lembrei também desta canção do Fausto, se acompanharem a letra, podem ver que fala disto mesmo.

Bom apetite!

Votar em

As pessoas galegófonas fomos abençoadas nas últimas semanas. Quem se importar com a língua tem visto como nos últimos anos os apoios institucionais foram dizimados nas escolas e outros organismos. As associações que têm a língua como foco sabem disto. Mas nestes dias houve uma volte-face, pequenos gestos que fizeram a diferença. Sabela, uma cantora galega que está a concorrer no programa espanhol Operación Triunfo, decidiu cantar na sua (nossa) língua. Ela é jovem, mulher, galegófona e sem preconceitos. Digo isto último porque para além de cantar na nossa língua, escolheu interpretar uma canção da banda Marful, escrita com as mesmas grafias que eu estou agora a usar. As suas ações deram visibilidade a uma realidade linguística desconhecida por muitos e muitas e também a um modelo ortográfico muitas vezes colocado em questão.
Através dos programas da tv e das redes sociais pudemos ver as reações de quem a ouvia, pessoas de cá e de lá. Fãs até do Brasil e Portugal. Surgiram montes de dúvidas e debates interessantes. É galego? é português? vejam este vídeo do Eduardo Maragoto.

Se calhar pensam que este não é o espaço para este género de coisas, mas queria aproveitar o post para dar os parabéns à nossa Sabela e também, é claro, falar de questões linguísticas. É por isso que vou destacar algumas construções e léxico:

  • VOTAR: o verbo rege a preposição EM. Portanto, Eu voto na Sabela cada dia através da aplicação.
  • ESCOLHER vs ELEGER: Já tínhamos falado nisto noutro post anterior. É só para vos lembrar que não são sinónimos e que há um contexto de uso para cada um deles.

Como neste ano próximo vamos ter também eleições, vou matar dois coelhos de uma cajadada e adiantar algum vocabulário também sobre isto:

  • assento, cadeira: o quociente eleitoral distribue o número de cadeiras ou assentos que irão ocupar os representates políticos, então, os resultados eleitorais são medidos em votos e cadeiras.
  • autarca: é o ou a presidente de uma câmara municipal.
  • autárquicas: são as eleições ao governo da câmara municipal.
  • boletim de voto ou voto: é o papel que depositamos na urna para votar.
  • urna: vaso ou objeto similar onde se recolhem os votos num ato eleitoral, num sorteio, lotaria, etc. As furnas são umas cavernas ou covas naturais, de facto, há várias praias na Galiza e Portugal assim chamadas. O voto é sério não depositem na areia.
  • recenseamento eleitoral: operação para determinar o número de habitantes de um país, cidade, freguesia…para os cidadãos registados terem direito ao voto.
  • vereador, -a: cada um dos membros eleitos para constituírem a câmara municipal.

Votaram já hoje na Sabela? Eu já fiz. Só sonho com que ela chegue a ser presidente!

Dez canções de Natal que não canta a Mariah Carey

Será que já ouviram neste ano a canção daquela artista dos EUA? então é que é Natal mesmo. 

O Natal é uma das minhas festas prediletas. Há autênticas iguarias, prendas e uma ode ao mau gosto constante sem qualquer tipo de complexo. Tudo é aceite: lantejoulas, cetim, grinaldas ruídas, veludo, muito plástico, coisas doiradas e luzes a piscar. Há uma palavra em alemão para isto: kitsch.

As canções que ambientam não são muito melhores do que o resto dos enfeites. Repetitivas e em falsete, são duas características que unem as canções natalinas, as janeiras e as músicas pop do Natal. Eu penso que Last Christmas pode ser usada para alterar mecanismos do córtex cerebral.

Pensei em fazer uma lista com canções na nossa língua. Tinha alguma coisa em mente, mas quando me estava a documentar, encontrei verdadeiros achados e foi impossível não querer partilhá-los.

Têm cá a minha apresentação, se carregarem nas bolinhas verdes, podem ver os vídeos.

Explico-vos um bocado as escolhas:

Popota em versão Popomodel
  • Luísa Sobral: está três vezes nesta lista porque é, sem dúvida, a dona disto tudo em Portugal (junto com a Áurea, mas esta última canta em inglês e então decidi não incluir). Querido Pai Natal, Canção de Natal Natal mais uma vez. Não é que ela faça discos de Natal tipo Michael Buble ou Luis Miguel, mas a rapariga sempre tem um espaço para este género de músicas. E eu, até gosto. Vejam os clips de vídeo, porque são muito estéticos.
  • Zeca Afonso: estou com dor de cotovelos. Quanto talento. Este homem tinha sensibilidade também para criar uma canção de Natal com toques da cultura popular como as janeiras. Esta faixa devia mesmo estar na seleção.
  • A Popota: no Natal há vários seres inesquecíveis: duendes, Pai Natal, renas…e o Continente tem, atenção, uma hipopótama. A Popota é uma autêntica celebridade do Natal português e cada ano tem um vídeo novo, tem até uma página com jogos, passatempos e conteúdos interativos para os miúdos. Coloquei-vos o clip do ano passado porque ela fez uma cover de uma música do Agir. Na Galiza a única hipopótama que nós temos é a imagem que o nosso espelho nos devolve depois de quase 15 dias de jantaradas continuadas.
  • Rui Veloso: os velhos rockeiros também sabem chegar ao coração das pessoas. A letra desta canção é incrível, penso que faz uma crítica com muito lirismo. O Rui fala do Natal dos mais humildes e há lá vários temas sociais colocados na mesa. Ouçam.
  • Anjos e Susana: a Susana deste vídeo é a mesma Suzy de Eu quero ser tua que representou a Portugal no festival de eurovisão de 2014. Sim, essa. Em 1999 cantava isto canção com os Anjos, uma boy band. Ela era um boneco de neve e tinha a certeza de que ia derreter. Os Anjos e ela juntos é como ver os Back Street e a Britney à portuguesa, era a década de 90 e as influências eram as que eram. Nunca chegaremos a saber porque é que a Suzy, de Figueira da Foz, pronuncia todos os T como Tch. Comentem-me as vossas epifanias.
  • Xuxa: para mim este é um vídeo muito caricata. A Xuxa vestida, enfim, da Xuxa, no meio de um exército de crianças e lá no fundo o Pão de Açúcar.
  • Tema de Natal do Meo: estou a ser mesmo repetitiva porque em 2014 já vos disse que era fã deste vídeo. Prometo que se eu achar algum que supere isto, deixo de pôr. Por enquanto, isto está ainda do topo. Maravilha.
  • Boss Ac: não podia faltar uma faixa de rap e o Boss Ac é o homem. Com Carta ao Pai Natal lança versos tão sublimes como este: 

Se és Pai Natal deves ser pai de alguém
Para mim Natal é a qualquer hora, basta querer
Gosto de dar e não preciso de pretextos para oferecer
E já agora para acabar, sem querer abusar
Dá-nos Paz e Amor e nem é preciso embrulhar

Já agora para acabar, Paz, Amor e Feliz Natal!