Falso amigo: quitar

Espero que este ano académico tenha começado com muita energia para vocês. Com o início das aulas, podem chegar também novas dúvidas.

Algumas vezes queremos traduzir literalmente, não nos lembramos já das coisas aprendidas o ano passado ou não sabemos bem se o verbo em que estamos a pensar vai ter o mesmo significado em português. Vamos aí com um que sei que vai ser muito útil.

Quitar é em português pagar ou satisfazer uma dívida: a empresa quitou-se das suas dívidas.

Se quisermos exprimir em português a ideia de extrair, obter ou mesmo eliminar….podemos usar o verbo Tirar.

  • tirei essas informações da net
  • tira o casaco, que está muito calor

O Festival Atlántica está de volta

Como sabe bem voltar a escrever artigos sobre eventos e termos novidades para anunciar. O Festival Atlántica é desses que já têm um espaço reservado no calendário lusopata. Para quem não souber, este é um evento internacional de narração oral, onde quase sempre alguém lusófono marca presença dentro do programa. Nesta ocasião temos dois narradores, um brasileiro e uma madeirense, esta última muito presente entre as nossas notícias sobre festivais deste género. Lembram-se da Sofia Maul? Se não me enganar esta será a quarta vez que nos visite. Agora, depois da minha experiência na Madeira, tenho ainda mais vontade de a ouvir. Com a Sofia chegam desta vez uns contos de arrepio virados para o público adolescente.

Dedicaremos então um bocado mais de tempo a falar do Thomas Bakk, porque é caloiro neste blogue. O Thomas nasceu no Rio de Janeiro, mas já quase podemos considerá-lo um português de gema, porque mora no país luso desde há mais de 20 anos. É formado em Arte Dramática. Entre os seus talentos está o canto, a interpretação, a poesia e o contar estórias, obviamente. Tem muitas obras publicadas como dramaturgo e até compôs com o artista brasileiro Lenine.

Ele leva estórias a escolas, hospitais, cárceres…e festivais de narração como este, onde poderemos vê-lo interpretar várias personagens em cena, porque é o seu selo interpretativo pessoal, por assim dizer.

Então, como já temos os nossos contadores apresentados, está na hora de falarmos da agenda. Marquem aí porque é uma oportunidade de ouvirem português fora dos ecrãs e isto há tempo que não acontece.

Thomas Bakk: Sexta 2 de julho, 11h30, Parque Eugenio Granell, Santiago de Compostela: contares que não calam, contos de bichos que falam. Público infantil +5 anos

Thomas Bakk com Marcelo Ndong: Sábado 3 de julho, 21h30, Parque de Bonaval, Santiago de Compostela: O que fazem os fang quando contam contos/ Contares doutras terras e mares (espanhol e português) Público adulto.

Sofia Maul: Domingo 4 de julho, 21h30, cemitério de Bonaval, Santiago de Compostela: Contos de arrepio. Público adolescente.

Consultem a página porque para alguns espetáculos é necessária uma reserva.

Oxalá

Antes de ontem algumas das minhas melhores amigas participaram no concurso público para serem professoras de Português no ensino secundário. As vagas são poucas, apenas quatro, mas não me ocorrem pessoas mais preparadas ou que mereçam mais.

Contudo, nisto dos concursos existe uma dose de sorte bastante grande. Passei o dia a colocar Oxalás na minha cabeça, como se fosse eu a concursar. Estou a fazer figas! Mando um grande abraço e muita força para elas!

Afinal o que eu tenho é um desejo de que algo aconteça e interjeição Oxalá é usada para exprimir isto mesmo. Para sabermos a origem desta palavra temos que ir às raízes árabes, à expressão “‘in sha’ Allah“, cujo significado é “se Deus quiser”.

O Oxalá, como é uma interjeição, pode funcionar como uma resposta em si mesma.

-Achas que afinal vamos passar no teste?

Oxalá!!

Quando na nossa língua o Oxalá vai acompanhado de um verbo, este tem que estar conjugado e estar no modo Conjuntivo. Temos assim dois esquemas possíveis: uma hipótese mais provável e outra menos provável.

Vou dar uns exemplos para isto ficar mais claro:

Oxalá a Pabllo Vittar cante “Problema seu” (cá estou a considerar que existem muitas probabilidades de isto se concretizar)

Oxalá a Pabllo Vittar cantasse “Problema seu” (cá estou a pensar que não há muita hipótese)

Não podemos fazer é combinar o Oxalá com Infinitivo: Oxalá ter um carro novo*. Neste caso teríamos que dizer: Oxalá tenha/tivesse um carro novo.

Podemos ver muitas destas construções nesta música dos Madredeus.

Embora a palavra Oxalá seja muito conhecida na lusofonia, no Brasil a forma preferida é Tomara, Tomara que sim ou Tomara que não. E olhem que canção tão icónica temos por cá…

Por vezes, duas palavras com duas origens diferentes acabam por ter afinal o mesmo “aspeto”. Isto acontece com frequência no português, é um fenómeno que se chama Homonimia. Na língua iorubá, o substantivo Orinsalà também derivou em Oxalá. Como sabem, o Brasil é um país com muitas confissões religiosas. Uma das religiões mais conhecidas é o Candomblé, nesta fé o nome de Oxalá é reservado para o orixá (deus, santo) criador da humanidade e do mundo. Este orixá é reverenciado na festa do Bonfim em Salvador da Bahia.

Ceuta

Faz sentido falar de Ceuta num blogue dedicado a assuntos lusófonos? Cabe a mim falar nisto? Embora muitas pessoas não saibam, a história de Ceuta tem vínculos estreitos com a história de Portugal.

Estamos cá para falar do olho de Camões, das tripas, de horny jail e de bandeiras. Viva a vexilologia!

  • Ceuta sempre foi considerado um enclave estratégico, um primeiro passo para as conquistas ultramarinas. A data da tomada de Ceuta durante o reinado de Dom João I (1415) é considerado o espoletar das viagens ultramarinas portuguesas. Dom João I necessitava de uma nova façanha que reforçasse a sua posição internacional e a relação com a Santa Sé. A chegada dos portugueses à atual praia de Santo Amaro inicia um facto: a presença de portugueses em toda a parte do globo. Isto, ora por colonialismo, ora por emigração, é quase um traço da identidade nacional.
  • Esta cidade norte-africana só passou para posse espanhola em 1640, tendo sido administrada por portugueses mesmo durante o domínio filipino. Portugal recuperou a sua independência de Espanha nesse ano, mas a cidade de Ceuta decidiu não reconhecer como rei o português João IV e permanecer sob os domínios de Espanha, o que ficaria oficializado no Tratado de Lisboa assinado por ambos países em 1668. O reino português perdeu assim uma cidade que não lhe tinha oferecido tantos lucros como esperava, já que a sua manutenção gerou elevados custos à coroa lusa.
  • O fito da tomada de Ceuta foi recolhido muitas vezes ao longo da literatura e historiografia portuguesa. Gomes Eanes de Zurara foi o primeiro cronista a relatar este episódio na Crónica de Dom João I, mais conhecida como a Crónica da tomada de Ceuta. Nestas páginas podemos encontrar a participação de uma das figuras mais importantes da independência de Portugal: o Condestável Nuno Álvares Pereira, herói de Aljubarrota.
  • O Santuário e Igreja de Santa Maria de África foi construído no século XV. Tem uma imagem da Virgem que foi doada pelo Infante Dom Henrique. Artisticamente não tem grande valor, mas reveste-se de grande importância espiritual porque é a padroeira da cidade.
  • A bandeira e o brasão de Ceuta remetem imediatamente para símbolos da vexilologia e heráldica portuguesas. O desenho da bandeira, gironado de oito peças de negro e prata, exibe a clara ligação à bandeira de Lisboa, cidade de onde proveio a armada que conquistou Ceuta. A ligação a Portugal é ainda mais intensa no brasão. Vejam só as imagens, porque elas falam.
  • Se forem à Estação de São Bento, no Porto, podem ver toda a tomada de Ceuta “aos quadrinhos”, porque está pintada nos seus azulejos. E como estamos a falar da invicta, temos que também explicar o motivo de lhes chamar “tripeiros” aos portuenses. Há várias teorias, mas todas ligadas à tomada de Ceuta.
    • Segundo Germano Silva, carneiros, porcos, bois, muitos bois, foram mortos para serem a provisão de quem partia em barco para a conquista de Ceuta. A carne foi esquartejada, salgada, metida em barricas, ou caixas de madeira, feitas propositadamente para este efeito, e acomodadas nos porões dos barcos. Só as tripas não puderam embarcar, porque corriam o risco de rapidamente apodrecerem.
    • Aos 21 anos, o Infante D. Henrique retorna para o Porto a pedido do seu pai D. João I, a fim de liderar construções para a conquista de Ceuta. Estas construções pediam muito esforço físico para os homens que lá trabalhavam, então foi prometida toda a carne da cidade para eles, o resto de cidadãos comeria apenas as tripas. Nasceram aí as “tripas à moda do porto”?
  • Luís Vaz de Camões, pelo seu talento e cultura, provocou paixões entre damas da Corte, dentre as quais a lnfanta D. Maria, filha de Dom Manuel e irmã de Dom João III, e Dona Catarina de Ataíde. Por este motivo é “desterrado” algum tempo para longe da Corte, até que resolve “exilar-se” em Ceuta (1549), como soldado raso. Sim, Ceuta foi a sua horny jail. Mas a coisa não fica por cá, nesta cidade perde o olho direito, facto que conta nos seus versos e traço físico que o faz único. Tem hoje uma rua dedicada, a “Calle Camoens” (sic). A vida dele dava um filme.
  • Como continuidade do vínculo Ceuta-Portugal, o Auditório da cidade foi obra do arquiteto português Álvaro Siza Vieira

Espero que tenham desfrutado destas curiosidades todas.

Oxalá não existam colónias, nem fronteiras. Quem me dera deixar à minha filha um mundo com mais empatia e justiça social.

População ou Povoação?

Vamos com algumas dúvidas que vejo quando leio o Twitter. Hoje debrucei-me com esta.

População é a demografia, o número de pessoas que habita um espaço. Há uma série de expressões relacionadas: população ativa, população flutuante, densidade populacional…

O continente mais populoso é o asiático, com 60% da população do planeta.

Podem fazer este quiz do RachaCuca sobre curiosidades da população mundial.

Povoação é sinónimo de lugarejo, um assentamento humano com muito poucas casas. Em Portugal é uma divisão administrativa que se integra na aldeia mais próxima.

Também é o ato de povoar.

Como curiosidade, há uma vila de São Miguel, nos Açores, que se chama Povoação. Se quiserem espreitar, vejam este link

Os meus podcast portugueses favoritos

Ando agora com a cabeça ocupada com muita coisa. Poucas vezes tenho concentração ou tempo para ler, quando vejo séries dou por mim a mexer no telemóvel e quando vejo vídeos de Youtube que duram mais de três minutos reparo em que no minuto dois já estou a ver a secção de comentários com pouca paciência para ver o final.

Há uns dias recebi uma mensagem no meu Twitter. Uma pessoa que conheço pedia para me unir a um projeto de podcast. Abrir aquela mensagem foi como abrir o cofre de um tesouro. Aquilo tudo brilhava com muita força e logo disse sim. Sem ter refletido muito antes, na verdade. Mas é que o projeto é muito empoderante.

Já sabia o que era um podcast. Conhecia o formato, mas nunca tinha reparado nas suas vantagens de edição. E agora que estou por dentro, comecei a acrescentar no meu Spotify mais podcast portugueses. Fiz até uma seleção e quero partilhá-la convosco.

O É preciso ter lata de Mariana Soares Branco é um espaço onde ela fala dos seus interesses, dá as suas opiniões sobre aqueles temas onde precisamos de uma dose de coragem ou…lata, sim. Tem um episódio sobre os idiomas.

O Valium da Sara Vicário é um desabafo. Fala de coisas que a tiram do sério. Coisas irritantes: os vizinhos, os exames, o trânsito…Afinal toda a gente partilha os mesmos desapontamentos.

Assim a nível linguístico, gosto muito porque dá para me manter atualizada da fala mais descontraída e aprendo muitos bordões. Parece que o programa não tem mais continuidade, mas lá estão os episódios.

A mãe é que sabe é um podcast com chefia feminina. Joana Paixão Brás e da Joana Gama falam de muita coisa e, às vezes, de maternidade.

O Maluco Beleza é desses programas veteranos nisto dos podcast. É um projeto do multifacetado Rui Unas que sabe levar o programa sem constrangimentos de tempo. Podem acompanhar isto no Spotify e também no Youtube. Se quiserem estar a par de quem é celebridade e quem não em Portugal este é vosso podcast.

A minha vida dava um filme é uma criação da Joana Miranda que tem conversas sobre cinema, atuação, elites artísticas…

Reconheço que num primeiro momento vim ao programa como uma traça, atraída pelo brilho do seu título e depois fiquei porque aprendo muito mesmo e eu quero deixar de ser burra.

Perguntar não ofende é um programa sobre matéria política criado pelo Daniel Oliveira, portanto, se quiserem ficar por dentro dos equilíbrios de poder este é o vosso podcast. Em cada programa há diferentes pessoas convidadas que achegam pontos de vista bem interessantes

E no último lugar deixo este tesouro da minha amada Marta Bateira aka Beatriz Gosta, #quem vai acredita. Não me ocorre mulher do norte mais genuína do que esta. Rapper, youtuber e futura mamã. Saboreiem bem estes episódios porque o programa acabou, mas fiquem com a dica e…com esse sotaque!

Espero que gostem da seleção e que também me sugiram mais podcast novos!

Cientista ou Científico?

Isto vai ser desses pequenos desvios que um corretor não vai ser capaz de sublinhar em vermelho. Talvez seja muito óbvio e possamos pensar rápido na resposta, mas cá vai ela, pelo sim, pelo não.

Cientista é a pessoa cuja atividade se desenvolve no domínio das ciências. É um substantivo.

Quem são as quatro cientistas portuguesas premiadas e os caminhos inovadores que estão a trilhar?

Deixo-vos cá uma notícia sobre as cientistas portuguesas premiadas. Nem tudo vai ser o Egas Moniz!

Científico/a é um adjetivo: O método científico é um conjunto de etapas ou passos que um cientista segue, numa sequência lógica e organizada, para estudar os fenómenos.

Se pensares, acontece o mesmo com:

Substantivo              Adjetivo

Documentário          Documental

Diplomata                 Diplomático

Feito e Facto

Como este ano decidi “hibernar” nisto de dar aulas, falta-me alguma fonte para fazer artigos. Felizmente, ainda me recordo de dúvidas que os meus alunos e alunas tinham. Outras vezes, as redes sociais também funcionam como inspiração.

Imagem de Os Lusíadas em quadrinhos de Luís de Camões/Fido Nesti

Hoje vi que alguém tinha esta dúvida. Vamos lá com ela.

Feito pode ser várias coisas:

  • é o particípio do verbo Fazer: o meu trabalho já foi feito
  • como substantivo é sinónimo de Façanha: Luís Vaz de Camões cantou nos Lusíadas os grandes feitos dos portugueses no mar.
  • o plural os feitos corresponde com a linguagem jurídica, quer dizer “os processos judiciais, os autos”

Esta palavra aparece em expressões como: meu dito, meu feito, que indicam uma ação feita de maneira imediata, sem intervalo quase entre o que foi acabado de dizer e o que foi feito.

Facto é um substantivo que indica uma coisa realizada. Aparece em muitas expressões fixadas: de facto, ao facto…sempre foste amigo meu, de facto, confio muito na tua palavra.

Mais um ano!

Por estas datas sempre aparecemos para dizer que cá estamos um ano mais. Sei que este 2020 foi e está a ser estranho. Assim é para muitos de nós.

O nosso blogue, que além de dar dicas linguísticas também fornecia informações sobre eventos lusófonos na Galiza, quer mesmo voltar a ter notícias sobre concertos, teatro, festivais, etc. Oxalá!

De qualquer maneira, mesmo escrevendo e publicando a outros ritmos, queremos agradecer todo o vosso apoio.

E, já de passagem, se quiserem recordar algum vocabulário sobre festas de aniversário, podem consultar este link.

Falso amigo: casco

Casco é em português um sinónimo de Carcaça, Casca. Um casco, por exemplo, é uma parte das embarcações sem mastro. O Prestige era um navio monocasco que naufragou nas costas galegas.

Esta palavra também aparece na expressão Cascos de rolha, que usamos informalmente para nomear um lugar muito afastado.

Para indicarmos a parte mais antiga de uma cidade dizemos: a Zona nobre, a Zona antiga, a Zona histórica, a Cidade antiga, etc…

Se quisermos falar do centro administrativo e comercial de uma cidade, usamos a Baixa.

O acessório que nos protege a cabeça quando viajamos de mota chama-se Capacete.