Entre a cruz e a espada

Nestas últimas semanas com o feriado de Todos-os-santos andei a pensar muito nos nomes que lhe damos às coisas e no peso que a religião tem ainda na língua, sobretudo nas expressões. Pensei nisto pelo debate interno que eu própria tenho com as festas: Samhain, Magusto, Halloween, Defuntos…etc. Toda esta nomenclatura para a mesma coisa. Gosto que recuperemos as nossas tradições, mas detesto o nome Samhain. Penso que o termo “Samhain” é usado para evitar outros: Halloween e Defuntos. O primeiro é evitado por ser considerado um termo dos EUA e o segundo por religioso. Entre tanta ultracorreção, poderíamos ter-lhe chamado Magusto a todos estes rituais e pronto.

Existem muitas outras expressões religiosas com as que convivemos a toda hora e nem damos por isso. Algumas podem resultar óbvias demais: a paciência de Jó, a sabedoria Salomónica, o beijo de Judas, o anjo da guarda…Outras que vou referir agora talvez nem tanto:

santinho!: é a expressão que é utilizada em Portugal para benzer um espirro. Esta crença vem da Idade Média, quando se acreditava que quando alguém espirrava, o coração parava, a alma deixava o corpo e poderia ser capturada por algum espírito do mal. Pensei que a expressão “Saúde!”, usada no Brasil, seria mais moderna, mas depois soube que se a pessoa espirrar uma segunda vez, as pessoas dizem: “Deus te ajude”, e se espirrar uma terceira dizem: “Deus, te faça feliz”. É incrível a quantidade de superstições que encontrei ligadas ao espirro…

ser o bode expiatório: significa pagar pela culpa dos outros. Conforme a tradição hebraica da época do Templo de Jerusalém, o bode expiatório era um animal separado do rebanho e deixado só no deserto, depois dos sacerdotes o terem carregado com as maldições que queriam desviar de cima do povo.

cruzes, canhoto!: é uma expressão que significa que alguém está a tentar afugentar espíritos malignos. Ser canhoto ou esquerdino tinha antigamente umas implicações religiosas e sociais muito negativas, de facto, “o canhoto” é uma das alcunhas que recebe popularmente o diabo.

dar pérolas aos porcos: significa oferecer algo de grande valor a alguém incapaz de apreciá-lo. É uma referência bíblica a uma passagem do Evangelho de São Mateus.

olho por olho, dente por dente: é a rigorosa correspondência da pena ao crime feito. Vem da Lei do Talião. Esta lei aparece citada no Êxodo e daí temos o verbo português “retaliar”.

entregar de bandeja: quer dizer entregar alguma coisa sem resistência. Salomé, a neta de Herodes Antipas, conseguiu convencê-lo, quando estava bêbado, a satisfazer-lhe um desejo se dançasse para ele. Ela então pediu-lhe a cabeça de João Batista numa “banlavar-as-maosdeja de prata”.

lavar as mãos: significa ignorar uma responsabilidade ou culpa. Póncio Pilatos, prefeito na província de Judeia na época da pregação de Jesus Cristo, após lavar as próprias mãos, em sinal de renúncia de qualquer responsabilidade, condenou-o a morrer na cruz.

estar entre a cruz e a espada/entre a cruz e a caldeirinha: é estar num dilema. Pelo que pude investigar, remete a algum castigo da Inquisição.

a carne é fraca: é sucumbir facilmente a uma tentação. Foi um aviso de Jesus aos discípulos antes de ele morrer.

quem não está connosco, está contra: tem a ver com alinhar-se num bando ou outro. É uma passagem bíblica do Evangelho de Marcos.

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