Laços de família

Hoje fala para nós, a filóloga Sandra Freire, uma das incorporações mais recentes do Clube de leitura Santengrácia. Ela vai dirigir nestas linhas a nossa leitura de Laços de Família.

O seu texto diz assim:
“Uma reflexão crítica de Laços de família

O livro que tratámos esta sexta-feira no clube de leitura “Santa Engrácia” foi para os assistentes um livro que tem como protagonista a mulher.
A personagem feminina deixa de ser vista, como foi na tradição literária, segundo umas características físicas e morais prototípicas. Na obra de Clarice Lispector trata-se a mulher de forma mais profunda como um ser complexo, com contradições, sentimentos, ações, pensamentos, …
Em geral, em todos os contos podemos assinalar exemplos das ações e pensamentos da protagonista que não se ajustam ao papel dado à mulher. Nestes relatos a personagem tem comportamentos que não obedecem a regras morais tradicionalmente aceitáveis, coloquemos como exemplo dois textos: “Devaneio e embriaguez duma rapariga” ou “Amor”, nestes relatos a mulher realiza factos, deixa de parte as obrigações como esposa e mãe para fazer caso aos seus sentimentos e gostos individuais.
Acedemos portanto à mente da mulher e ao seu quotidiano para fazer-nos ficar com a ideia dos seus problemas e preocupações. Nesse viver das mulheres quotidiano não está fora o homem, de facto o homem e seu papel de indiferença, desprezo ou mesmo violência afetam de forma visível à vida da mulher. São múltiplos os exemplos que mostram como afeta o comportamento dos homens a elas tanto de forma física em “Preciosidade” conta-se um caso de violação, noutros casos de forma mais psicológica, por exemplo em “Mistério de São Cristóvão” quando um mascarado acede ao espaço de uma rapariga e da sua família.
Como conclusão podemos dizer que no livro há uma crítica ao papel dado às mulheres como domésticas encarregadas de limpar e servir em casa, acompanhar ao homem fora, sem momentos de distração. Podemos dar um exemplo em “Laços de família” ele é quem toma as decisões pelos dois, o homem reflexiona no fim do conto que esse sábado iriam ao cinema.
O mundo que é apresentado no livro foge do artifício, quiçá para mostrar de forma natural o dia a dia de uma mulher que ainda hoje em dia, cinquenta anos depois não nos é alheio”.

Estão com vontade de ler o livro? carreguem nesta ligação: ClariceLispector-LaçosdeFamília

Sandra, muito obrigada por nos descobrir tanta coisa boa.

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