Contos da Montanha

Chegam novos tempos para o Lusopatia na etiqueta “livros”. Até que enfim!
Sob esta epígrafe iremos colocando em próximos artigos alguns textos de crítica literária, dicas de leitura..etc.

Temos que agradecer isto tudo a colaboradores e colaboradoras, sem eles e elas seria impossível este novo caminho.
Faz a estreia hoje o professor Antom Labranha, leitor fiel do Clube de Leitura Santengrácia. Esta iniciativa nasceu do convívio de ex-alunos/as de Português da EOI de Compostela, que procuraram alargar seus estudos e continuar a se reunir, pelo menos, uma vez por estação. Bem haja para este projeto!
Vejam lá o que o Antom tem para nos dizer sobre Contos da Montanha, de Miguel Torga:
“Há, de contínuo, uma tensão narrativa arrebatadora que desfecha, conto por conto, numa grande comoção. Com uma prosa intensa, poética e alegórica, através das personagens que constrói, vai descrevendo as paixões humanas mais ancestrais, profundas e instintivas, e por isso mais autênticas e intemporais que são, com certeza, as nossas próprias paixões: o medo de cá e do além-mundo, o refúgio na fé, a resignação, a complacência, a admiração, o amor, os ciúmes, os remorsos, o ódio, a vingança… a vontade de suicídio.
Os contos são, de facto, independentes, mas complementares: no conjunto fazem um mostruário dos modos de vida e das paisagens rústico-geográficas, económicas, culturais… dum passado que podemos pensar longínquo e que, aliás, pode ainda perdurar e acho que perdura, embora seja remanescente desses outros tempos, não assim tão distantes.
Um contributo linguístico notável são os ditados e provérbios que de frequência coloca em dicas ou exclamações das personagens, ou mesmo do narrador -não sei se populares ou de ideia própria do autor-.

  • Em pormenor:

A Maria Lionça
A espera expectante do Pedro pelo pai retornado e a posterior deceção, lembrou-me “O pai do Miguelinho” de Castelao. E a espera pelos correios que nunca chegam, lembrou-me “Mamasunción” de Chano Piñeiro.

O cavaquinho
Acho que não foi assim bem resolvido, pois não percebi qualquer situação no relatório que ligue com a tragédia final, embora a imaginação me faça pensar que a única hipótese para o pai conseguir o cavaquinho fosse o roubo.

O filho
Encontrei conotações ambientalistas: a beleza e a grandeza do simples, do viver em harmonia com a natureza.

Maio moço
Acho que há uma crítica social à coletividade humana geral por não valorizarmos aquilo que não vem precedido de uma posição elevada, de um prestígio, de uma façanha.

  • Em destaque:

Solidão
“Não há falência maior que a de imitar o passado, mesmo que seja o nosso”

O lugar de sacristão
Porque não é assim tão direto como nos outros relatos. O jogo psicológico é mais subtil: uma intuição juvenil premonitória que paira no ar e mesmo o próprio protagonista não acerta a conhecer, o desencontro amoroso que desvenda para ele e para nós leitores o presságio, a mortificação de lhe assistir nos ritos tirados de um outro amor que a ele foi negado, e um final restaurador duma justiça íntima e inconfessável

Muito obrigada e parabéns, Antom!

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